Repórter das Coisas

Formigas mortas

Estranhamente parecida com uma antiga torneira.

Eu posso mudar de nome.
Eu posso deixar a cidade.
Eu posso largar o emprego
e me refugiar no quarto escuro
de um país desconhecido
(onde não falam a língua
que eu também esqueci).
Estarei sendo visto
pelo Olho que tudo vê.

Cada parte de Deus é Deus.
O Olho tudo sabe, desde o início.
Sabe quantas vezes respirei hoje
e quantas vou respirar
até o dia da minha morte.
Ele sabe a hora, sabe a data,
sabe o preciso minuto e segundo
em que meu coração vai parar.
Ele sabe o rumo das formigas
em todas as paredes do mundo.

Se tudo vê, tudo viu.
Também lê pensamentos,
conhece cada erro
de concordância e sintaxe
do meu espírito mais oculto.

Todas as coisas e palavras
de somenos importância
o Olho que tudo vê
apreende, guarda e cataloga
para uso no Final Juízo.

As voltas que meu fígado,
Fernão de Magalhães,
dá em torno de si mesmo
a Ele voltam.

Quanto a mim, só a cegueira.
Sigo sendo o marinheiro morto
De uma nau deserta
que sou eu mesmo.
(E sempre tenho pena
das formigas que morrem
quando vou escovar os dentes.)

Publicado em 15 de maio de 2007 às 13:32 por briguet

Comentários

    • concordo quanto a nossa cegueira
      mas não coaduno com a idéia de um ente que tudo vê e tudo sabe.

      sei lá, pra mim deus improvisou e a gente apareceu. agora ele se diverte com isso, hehe
    • por groucho
    • 15.Mai.2007 às 13:53 - Permalink - Reportar
    groucho
    • Então deus é um puta jazzista... só queria saber em qual jam session eu nasci.
    • por unsleeper
    • 15.Mai.2007 às 14:02 - Permalink - Reportar
    unsleeper
    • unsleeper
      tu deve ter nascido durante a execução de um swing hehehhe
    • por groucho
    • 15.Mai.2007 às 14:09 - Permalink - Reportar
    groucho
    • Concordo com muitas das idéias do Briguet com relação a religião. Mas não gostei deste post... Acho que Deus tem mais o que fazer do que ficar contando nossa respiração (tá, entendi que foi figurado, mas não concordo mesmo em senso figurado).
    • por mazimendes
    • 15.Mai.2007 às 14:16 - Permalink - Reportar
    mazimendes
    • Tá, e vc deve ter saído da onde? De um dueto entre a Sheryl Crow e o quadradinho de papel higiênico dela?
    • por unsleeper
    • 15.Mai.2007 às 14:17 - Permalink - Reportar
    unsleeper
    • fala sério unsleeper, tu só ficou nervoso porque não conseguiu pensar num trocadilho melhor que o meu.

      vai pensando até inventar um decente.
    • por groucho
    • 15.Mai.2007 às 14:20 - Permalink - Reportar
    groucho
  1. unsleeper
  2. ben grimm
    • Deixa só O Olho de Sauron, que tudo vê e tudo sabe, ler este post...
    • por Frodo
    • 15.Mai.2007 às 14:53 - Permalink - Reportar
    Frodo
    • “... me refugiar no quarto escuro
      de um país desconhecido
      (onde não falam a língua
      que eu também esqueci).”
      O poeta em conflito com ele mesmo (Guerra e Paz), propõe a si próprio viver num mundo que existe no interior de suas reflexões, semelhante a personagem de Guimarães Rosa que se trancou num quarto escuro a procura de gatos pretos.
      Quanto a mim, só a cegueira.
      Sigo sendo o marinheiro morto
      De uma nau deserta
      que sou eu mesmo.
    • por Macunaíma.
    • 16.Mai.2007 às 09:20 - Permalink - Reportar
    Macunaíma.
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PAULO BRIGUET, SEU CRIADO

Aqui está morto um homem
que perdeu tempo, amou mulheres,
bebeu cerveja e fez uns versos.

Aqui está morto um homem
tão imperfeito
que o lado esquerdo e o direito
lhe pareciam
contra-sensos.

Aqui está morto um homem
que ouvia Bach
como a mãe ouve o riso do filho,
como o cachorro ouve o mínimo silvo.

Aqui está morto um homem
que teve excessos
e viu uns filmes, leu uns livros.
Sua derrota, seu sucesso.

Aqui está morto um homem
sem elegância nem bom senso.
Na mão direita, levava um copo.
No bolso esquerdo, trazia um lenço.

Aqui está morto um homem:
morreu de amor e de egoísmo.
Mais de soberba que alcoolismo.
A sua casa
era também abismo.

E tinha tanto medo, o homem,
que ocorreu algo incrível:
depois de morto,
estava vivo.

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