O epitáfio da escritora Dorothy Parker diz: “Excuse my dust”. Em português, ficaria: “Desculpe o pó”. O romance mais famoso de John Fante é “Pergunte ao pó”, cujo título original em inglês fica mais bonito: “Ask the dust”.
Perdoem-me os leitores politizados, mas ultimamente um dos meus principais temas de reflexão tem sido o pó. Não estou falando de cocaína, heroína e outras substâncias, pelas quais não tenho o mínimo interesse ou simpatia, mas do pó no sentido mais amplo do termo.
O pó me diz mais que a queda das bolsas e a propalada crise do capitalismo. Para desgosto dos revolucionários de todos os matizes, o capitalismo sempre dá um jeito de sair ganhando no fim. Sabem o desenho do Pica-Pau? O capitalismo é o Pica-Pau – sobrevive a tudo. Aí está o segredo do sistema – que não é segredo algum. O capitalismo trouxe inúmeros e inauditos benefícios para a humanidade; e os maiores críticos do sistema estão entre os que não largam esses benefícios de jeito nenhum.
A bolsa caiu? No meu caso, penso logo na bolsa em que levo a marmita diária. Minha marmita é preparada com muito amor e carinho – e por isso traz o mais raro dos cardápios. Eis a minha bolsa de valores. O resto – bem pouquinho – guardo na caderneta de poupança. (Se o banco não quebrar, muito obrigado.)
O pó, de certa forma, somos nós. Todo paraíso adâmico, a começar por Adão, nasceu do pó molhado. E o que é a Terra senão um amontoado de poeira vagando no espaço?
“Somos todos filhos do mesmo pote de estrelas”, dizia São Francisco de Assis. E ele estava certo, como veio a comprovar a ciência, séculos depois. O Sol, estrela mais próxima de nós, é uma anã amarela na escala astronômica. Produz apenas hidrogênio e um pouco de hélio. Todos os outros elementos que nos constituem vieram das estrelas noturnas. Somos pó de estrelas. A Via Láctea deu nossa primeira amamentação.
No Sabá, há uma antiga tradição judaica de não acender a luz de casa antes que apareçam três estrelas – acabei de ler isso num conto de Isaac Bashevis Singer. Talvez seja bom que façamos isso todas as noites, não para economizar eletricidade, mas para pensar um pouco no pó que nos recobre, nos envolve, nos cerca e nos define.
Jorge Luis Borges acreditava que o nome Adão significa “terra vermelha”. Quando penso no pó, evoco os antigos – em especial as donas de casa – que sofreram os rigores da poeira e do barro. Poeira e barro: irmãos gêmeos a recobrir a pele dos antepassados, hoje eles também transformados em pó e memória.
E o que são estas letras que você lê, senão uma forma específica de pó e memória? Pergunte ao pó. E desculpe qualquer coisa.
- Publicado no Jornal de Londrina.