O escritor Cristovão Tezza ganhou o Prêmio Jabuti 2008 na categoria romance. Reproduzo aqui uma resenha sobre o livro e uma entrevista com o autor, publicadas há um ano no Jornal de Londrina.
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“O filho eterno”, de Cristovão Tezza, é um daqueles raros livros que podemos chamar de fundamentais. No sentido mais preciso do termo: é uma obra que desvenda os fundamentos, os alicerces de uma vida. De duas vidas, no caso: o pai e o filho. Duas vidas imersas no tempo, e com visões descontínuas do passado, presente e futuro.
O elemento autobiográfico está presente, de uma forma ou outra, na vida de todo escritor. Em “O filho eterno”, o caráter confessional é absoluto. Tezza fala sobre o filho Felipe, nascido há 26 anos, portador da síndrome de Down.
Catarinense radicado em Curitiba, Cristovão Tezza já havia revelado a segurança e a técnica de um bom contador de histórias em livros como “Trapo”, “Aventuras provisórias”, “O fotógrafo” e “Breve espaço entre cor e sombra”. No novo livro, ele usa toda a experiência de ficcionista para retratar uma situação real, sem qualquer vestígio de idealismo.
Tezza consegue contar uma história de amor sem necessidade de pronunciar a palavra. Um autor menos hábil, diante do mesmo tema, descambaria para o sentimentalismo ou o proselitismo politicamente correto. Para felicidade dos leitores, “O filho eterno” jamais se permite ser piegas ou retórico. O que torna a emoção provocada pela história ainda mais profunda e – insisto na palavra – fundamental.
O pai de Felipe é um anti-herói que descobre a si mesmo na tentativa de responder aos enigmas do destino. “Parece que o pai havia entrado em um outro limbo do tempo, em que o tempo, passando, está sempre no mesmo lugar”, diz o narrador, pouco antes de observar que o filho vive todas as manhãs o sonho do eterno retorno.
Ao seguir o conselho do oráculo de Delfos – “Conhece-te a ti mesmo” –, o pai de Felipe encontra o que há de mais eterno: o amor.
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Jornal de Londrina: Quais as diferenças entre o narrador de “O filho eterno” e Cristovão Tezza?
Cristovão Tezza: O narrador é sempre uma "persona", uma olhar destacado do evento vivo, real, cotidiano das pessoas; é alguém que escolhe o que vê, recorta e interpreta. É, também, alguém que sabe mais do que os seus personagens - o seu olhar já tem o começo, o meio e o fim. Já Cristovão Tezza é um objeto de narração; sobre o seu passado, não há mais nada a fazer - está pronto.
Quando o sr. se sentiu pronto para escrever essa obra libertadora?
Tezza: Não sei se é "libertadora". A palavra talvez seja muito forte, e aprendi a desconfiar das palavras retumbantes ou altissonantes demais. Mas talvez a intenção tenha sido essa mesma, me livrar de um fantasma, da idéia de que havia um ponto cego na minha vida sobre o qual eu não poderia escrever. Pois bem, escrevi. O tema começou a amadurecer na minha cabeça nos últimos cinco anos. Nos últimos dois, finalmente o livro tomou forma.
A história da literatura registra vários casos de escritores confessionais: Santo Agostinho e Rousseau a Henry Miller, Pedro Nava e Kenzaburo Oe. Em que medida o sr. se inspirou nessa tradição?
Tezza: Gosto muito de literatura confessional, porque ela promove essa fusão de gêneros, o biográfico, o reflexivo e o ficcional, o ficcional não como a "fantasia", mas como a relativização do olhar. Ficcionalizar é, de certa forma, compreender, porque vemos de fora todas as variáveis que estão em jogo nos gestos humanos. Outros livros meus têm essa estrutura confessional, como Juliano Pavollini ou Uma noite em Curitiba. Em O filho eterno coloquei o dado biográfico no centro do texto. Dos autores que você citou, gosto de todos. Nunca pensei numa influência direta, mas certamente são textos que me marcaram.
“Nada do que não foi poderia ter sido.” Essa frase contém uma verdade?
Tezza: Certamente não - não vivemos às cegas; fazemos escolhas o tempo todo e respondemos por elas. Olhando para trás, entretanto, às vezes temos a sensação de que nada podia ser diferente, o que é um belo consolo. Mas, como diz o verso de T. S. Eliot, "o gênero humano não suporta tanta realidade". Daí talvez porque a idéia de "destino" seja tão atraente para nós.
O tempo é um personagem de “O filho eterno”?
Tezza: Não pensei nisso objetivamente, mas acho que sim. A idéia de tempo, quando desprovida de "finalidade" - isto é, na vida da cultura humana nada se dirige necessariamente a lugar nenhum - tem um toque absurdo, uma imensa solidão; é um tema maravilhoso para a literatura. E, claro, o tempo é a percepção do tempo e tudo que vem junto com ele.
Qual a relação entre os livros relançados simultaneamente pela Record – “O fantasma da infância”, “Aventuras provisórias”, “Trapo” – e “O filho eterno”?
Tezza: Do ponto de vista prático, são todos livros que estavam já fora de mercado, com direitos de edição livres. E, tematicamente, de certa forma encerram quatro momentos marcantes da minha produção literária, desde "Trapo", que me lançou nacionalmente, em 1988, passando pelas transformações de "Aventuras Provisórias" e "O fantasma da infância", até este "O filho eterno", que está tendo essa repercussão surpreendente. Enfim, representam minha vida literária nos últimos 20 anos.
há uns 4 anos li "trapo", e cada vez mais tenho curiosidade em ler os seus livros recentes - há algo sobre um fotógrafo, não?
abs,