Repórter das Coisas

Canção monetária

Achei a moeda na rua
e ela disse-me assim:

“Não penses que eu sou tua,
ô cronista chinfrim!
Ouve antes minha história
do começo até o fim.

Nasci no Banco Central,
depois fui de mão em mão.
E o que recebi em troco?
Nem um mísero tostão.

Dizem que sou duas caras,
me acusam de todo mal.
Até ganhei o apelido
(injusto) de vil metal.

Mas, cara, só tenho uma
– e nunca foi feita de pau.
Minha coroa é de lata,
mas meu nome é real.

Alguns dizem que estou
no mais fundo do poço:
mas bem que eles gostariam
de me acumular no bolso.

Sem amigos, sem parentes,
sem salário, sem nada:
desde criança fui órfã
e desde sempre, cunhada.

Na vida, muitas tristezas,
desilusões, dós e dores:
passei até por desvios
na Câmara de Vereadores.

Já fui antes reluzente;
obscura, fui depois
(quando contabilizada
na farra do caixa 2).

Já freqüentei gabinetes,
bordéis, boates, esquinas:
sei todo zoneamento
das polpudas propinas.

Já fui de pobres e ricos,
já disputei eleição.
Acabei lá no Gaeco,
como parte de extorsão.

Ah, se eu pudesse gritar
tudo aquilo que lembro:
haveria só escândalo
de janeiro a dezembro.

Mas é com a alma lavada
que hoje em dia eu digo:
estive bem mais segura
nas mãos sujas do mendigo.

Agora, não me carregues:
meu valor ficou datado.
Até me trocam por bala
no caixa do supermercado.

De todas essas agruras,
a pior é a inflação.
Por ela em breve estarei
bem fora de circulação.

Aqui nesta pobre calçada
tive a penúltima queda.
A última, volta ao lar,
é na Casa de Moeda”.

Publicado em 29 de agosto de 2008 às 16:53 por briguet

Comentários

    • Até moeda sabe quão chinfrim é o Briguê como cronista.

      E alguém me resuma a história da moeda, já que o poema eu não li.
    • por Pauno Francis
    • 29.Ago.2008 às 17:51 - Permalink - Reportar
    Pauno Francis
    • Pauninho Francis, continue assim, sempre fiel. A seleção de suas frases para a orelha do meu próximo livro vai muito bem.
    • por briguet
    • 29.Ago.2008 às 18:02 - Permalink - Reportar
    briguet
  1. tanga
    • Claro que vou continuar fiel, Briguinho. Tenha a certeza de que, sempre que eu não tiver nada para fazer, virei aqui para não lê-lo.
    • por Pauno Francis, seu não-leitor contumaz
    • 29.Ago.2008 às 20:22 - Permalink - Reportar
    Pauno Francis, seu não-leitor contumaz
    • ei, briguet, viu isto? http://g1.globo.com/Noticia...
    • por zero
    • 01.Set.2008 às 17:07 - Permalink - Reportar
    zero
    • Se arrumar algumas palavras, e fizer um bom refrão, dá um samba legal, estilo Zeca Pagodinho.
    • por Matusalém, só não chame de poesia
    • 01.Set.2008 às 17:34 - Permalink - Reportar
    Matusalém, só não chame de poesia
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