Repórter das Coisas

Não votem em mim

Bill Clinton e George McGovern, 1972

Ontem tive um pesadelo. Sonhei que era candidato a vereador. Poderia sonhar que era imperador romano; jogador de basquete nos Estados Unidos; ator de Hollywood; fotógrafo da Victoria’s Secret; Dorival Caimmy aos 40 anos; produtor de vinho na Califórnia; salva-vidas na Riviera francesa; restaurador de obras no Louvre... Mas não: fui sonhar que era candidato a vereador em Londrina!
No sonho, abri o jornal e meu nome estava lá, na lista de candidatos. Nome, número e legenda. Não havia como esconder o fato. Lembro-me da última cena do sonho: eu pegava um táxi rumo ao Fórum, na tentativa de impugnar minha própria candidatura. Acordei antes da impugnação.
Meu partido não era nada recomendável. Candidato, eu teria algumas dezenas de votos de amigos e parentes – poucos para me eleger, mas suficientes para ajudar a eleger algum vigarista do partido.
Seria o fundo do poço.
Imagine ter que pedir votos! Não poder falar exatamente aquilo que penso! Dar tapinhas nas costas! Agüentar a chatice de reuniões e sessões! Fazer parte de comissão disto e daquilo! Suportar a companhia de vocês-podem-imaginar-quem! Ser apontado na rua: “Olha lá, aquele é vereador! Sabe do último escândalo?”
Nunca. Nunquinha. Nem louco. Nem morto.
Ontem estive observando a propaganda eleitoral dos vereadores. Há os que se identificam pelo local de trabalho: Zezinho do Poço Artesiano, Claudião da Funilaria, Roberto do Açougue, Fernandinho da Corretora de Seguros, Cidinha da Farmácia. Uma segunda categoria prefere mencionar o bairro de origem: João do Virmond, Estelinha da Vila Santa Teresinha, Onofre do Maria Cecília, Sinval do Franciscato. Outros se apresentam por uma parte do corpo: Perna, Barriga, Cabeça, Bochecha, Careca, Orelha. Um quarto grupo nos brinda com apelidos: Zoiudo, Tá-Certo, Bisnaga, Xaropão, Xonado, Meio-Quilo, Vassourinha, Frango Frito, Salsicha. (Todos esses nomes são inventados, mas guardam incrível semelhança com os verdadeiros.)
E há os que aproveitam o curto tempo de propaganda – não mais que alguns segundos – para fazer rima. É um tal de rimar ato com 444, ação com renovação, certo com Gilberto...
Ninguém rima gel com bordel. Por falar nisso, acho que minha candidatura, no pesadelo, tinha slogan: “Paulo Briguet, esse briga por você!” Que vergonha.
Mas não tem jeito: vamos ter que escolher alguém entre os atuais candidatos. Quem acha que todos são ruins vai ter que agüentar os piores ainda.
Termino esta crônica pedindo aos meus sete leitores (e não eleitores): se um dia, daqui a muitos anos, eu estiver gagá a ponto de ser candidato a vereador, mostrem-me o xerox desta página e, por piedade, NÃO VOTEM EM MIM!

- Publicado no Jornal de Londrina.

Publicado em 20 de agosto de 2008 às 20:54 por briguet

Comentários

    • Em outras épocas eu até desligava a tv, assistia uma velha fita em VHS no video cassete e recentemente até mesmo procurava opções no sistema satélite ou cabo, mas com a falta de bons programas humoristicos na tv, o horário eleitoral gratuíto para candidatos a vereador, tornou-se obrigação.Tem pipoca, refrigerante e briga para quem consegue sentar-se mais a frente do monitor. Verdadeira reprise dos trapalhões, Chico City, Planeta dos Macacos. Alias, muitos deles até se parecem com seriados japoneses feitos sem muitos recursos, tipo: Spectroman e Ultraman.
      Que diga nosso Dr. Tanga...Vamos acabar com o mundo Dr. Gory!!!
    • por mantovani
    • 20.Ago.2008 às 21:11 - Permalink - Reportar
    mantovani
    • Mantovani tem razão, a arte não faria melhor que a realidade.
    • por Grimaldo
    • 21.Ago.2008 às 00:23 - Permalink - Reportar
    Grimaldo
  1. sarap
    • OK, não votarei.
      Meu voto vai pro Sérginho do Posto, aquele que vai derrubar tuuuudo os imposto.
    • por maven
    • 21.Ago.2008 às 08:51 - Permalink - Reportar
    maven
    • Pra não ter que votar, vou fugir do país.
    • por Zaratustra
    • 22.Ago.2008 às 18:06 - Permalink - Reportar
    Zaratustra
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(Milton Friedman with lasers)

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