Acordo no meio da noite e ando como um fantasma pela casa. Vou ao banheiro. No box, um frasco de shampoo Johnson’s – aquele amarelinho, Chega de lágrimas, No more tears. Aos quatro anos de idade, tive com esse produto aquela que foi minha primeira desilusão séria com o capitalismo. No banho, inda moleque, constatei que o Chega da lágrimas não era tão Chega de lágrimas assim.
Vi, logo de cara, que o capitalismo é um sistema de meias-verdades. Burro que sou, levei um quarto de século para descobrir que isso não é ruim – pelo contrário, é a virtude do sistema, a razão de sua permanência e um dos motivos pelos quais ele (o sistema) trouxe tantos benefícios à humanidade (conforme disse o Mencken, dois posts abaixo). O bom do capitalismo é que podemos encará-lo com ceticismo: o sistema não é perfeito e sabe que não é; permite críticas. Não há Parada Gay em Teerã. A bandeira dos EUA pode ser queimada em nome da livre expressão. O Chega de Lágrimas não tão Chega de Lágrimas assim, mas faz chorar menos que um Bozzanão.
Agora, é ingênuo (na melhor das hipóteses) e pernicioso (na pior) achar que a Johnson’s vai vender seu produto com a verdade completa: “Shampoo Johnson’s, Um pouquinho menos de lágrimas que os outros”. Passa amanhã! É a mesma coisa um restaurante dizer: “Venha almoçar aqui! O chef não cuida muito bem das partes pudendas mas é excelente nos temperos”. Não rola.
No capitalismo, pessoas adultas podem escolher entre aquilo que e é e aquilo que não é verdade. Mas como evitar os abusos? Através do império da lei, ou estado de direito, que é profundamente enraizado na ética judaico-cristã. Todo e qualquer direito que as minorias vivem transformando em bandeira política foi, séculos atrás, contemplado pelo judaísmo e o cristianismo. O direito à vida, por exemplo.
A alternativa ideológica ao capitalismo incorpora o que há de pior na economia e na religião. No capitalismo de estado, ou comunismo de mercado, tal como na China contemporânea, prevalece a lei do mais forte, a ausência completa de direitos e uma série de verdades absolutas não arbitradas pelo indivíduo, mas por uma estrutura governamental. É o pior dos mundos.
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Mas voltando à vaca fria. Acordo no meio da noite e ando como um fantasma pela casa. Vou à cozinha. Abro a geladeira e tomo a água reservada para mim desde 1987. Tropeço em mobílias desconhecidas, algumas das quais pertenceram ao Anderson Wagner, outras ao Valdir Lauro (ambos meus companheiros de república). Encontro silenciosa gente que ainda não nasceu ou já se foi com um suspiro, não com um estrondo. Às vezes visito antigos endereços, na Rua Cristiano Olsen (Cristiano foi um agrimensor morto pelos caingangues), casas que foram demolidas ou reformadas.
Se ligo a TV ou o rádio, há programas e comerciais extintos, vinhetas do tempo em que Tancredo Neves era vivo. E quem é o prefeito de SP? Jânio Quadros. Primeiro ou segundo mandato; não sei.
É que eu acordo no meio da noite e meu cachorro está latindo lá no fundo do quintal – quando lembro que ele morreu há dez anos. Sempre um par de chinelos que me pertenceram em 1974; não cabem mais em meus pés. E eu deveria estar em casa, brincando, quando Pol Pot iniciou a matança de um milhão de cambojanos. Acordo no meio da noite para fazer estranhas poções, quem sabe venenosas, no meu Grande Laboratório Pequeno Químico. O nome de uma substância: fenolftaleína. Acordo no meio da noite para inspecionar o sono das mulheres que nunca tive ou tive amiúde. Acordo no meio da noite e rezo para que tudo se arrume até o advento da manhã. Cada um de nós tem a sua pequena Parusia – o Fim está próximo porque o Apocalipse é individual, meus caros. Todos temos um drama pessoal com Deus. Acordo no meio da noite, converso em romeno com os mortos. E de repente descubro que sou mais um fantasma – acordado no meio da noite.
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Anarquismo. A arte de achar que João Gordo seria um bom primeiro-ministro.
Na verdade, nem queria que existisse primeiro ministro.
A monarquia viria bem à calhar com o Brasil...