Amo os livros em geral – e os meus livros em particular. Aprendi isso em casa. Quando nasci, minha família morava num pequeno apartamento da Alameda Barão de Limeira, em São Paulo. Apenas um quarto – e muitos livros. Uma das minhas lembranças mais remotas é a de observar, do berço, aquela fileira de objetos retangulares perfilados na prateleira. Eu vivia entre os livros bem antes de aprender a ler; mesmo antes de saber o que era um livro.
Cedo aprendi que os livros tinham alguma serventia, já que meu pai costumava diariamente retirar um daqueles volumes da prateleira, abrindo-o (sim, os livros podiam ser abertos) e olhando fixamente para suas páginas durante horas seguidas. Alguma coisa boa deveria haver ali.
Quando me mudei para Londrina, há quase 20 anos, trouxe comigo o amor pelos livros. De início, minha biblioteca pessoal era modestíssima: apenas alguns volumes arrancados da biblioteca de meu pai. Mas, com o tempo e as livrarias, a coleção foi crescendo.
Lembro-me de um dia em que um dos moradores da república se mudou, levando consigo a prateleira em que eu guardava os livros. Não tive dúvidas: peguei um velho edredom, que até aquele instante servia para me cobrir, e coloquei os livros sobre ele, alinhando-os cuidadosamente. Eu preferia passar um pouco de frio a colocar meus livros diretamente no chão. O inverno não foi rigoroso; e logo arranjei nova (nem tão nova...) prateleira.
O dia da dor
Por tudo isso, foi extremamente doloroso o que aconteceu comigo há alguns dias. Por motivos de força maior, precisei me desfazer da metade dos meus livros. A divisão salomônica de minha biblioteca, eu a tive que fazer há alguns meses, quando me casei e mudei de apartamento. Deixei metade dos livros na minha antiga casa. Mas pelo menos eles estavam lá; eu podia visitá-los e consultá-los quando quisesse.
No entanto, semana passada, vendi a velha casa. E tive que me livrar definitivamente daquela metade da biblioteca. Não poderia deixá-los ali (o comprador da casa não é um bibliófilo); não havia espaço no novo apartamento. Tampouco os jogaria no lixo – nunca! A solução foi chamar alguém cujo amor pelos livros é quase tão grande quanto o meu – e vender a metade da biblioteca para ele. Com dor no coração.
É claro que a outra metade de minha biblioteca está aqui comigo, sã e salva, no escritório de minha nova casa, onde escrevo esta crônica. Aqui, bem pertinho, estão os meus livros e autores de eleição, aqueles por quem tenho um amor quase incondicional.
A outra metade dos livros, a metade que vendi, tem outra natureza. São amores passados, livros que um dia eu amei e tive na cabeceira, mas hoje estão definitivamente superados para mim. Quer dizer: definitivamente, não. Um amor de verdade nunca acaba por completo. É por isso que eu fiquei triste.
Fora da casinha
Essa metade da biblioteca contém obras menos amadas: romances menores de bons autores; romances médios de autores ruins; contos ruins de bons romancistas; poemas ruins de bons prosadores; ensaios medianos de bons ficcionistas; leituras de comunicação e sindicalismo; além de inúmeros livros políticos, de epígonos do meu comunismo passado, tais como Noam Chomsky, Ernest Mandel, Eric Hobsbawn, Perry Anderson, Florestan Fernandes, Alex Callinicos. Mas trouxe comigo, para a nova casa, com a “metade mais amada”, os velhos Leon Trotsky e Isaac Deustcher. Não acredito mais no que falam, mas reconheço que escrevem bem. Só que até hoje não sei como li – e anotei obsessivamente, a lápis – “A vingança da história”, do grego Callinicos, um trotskista absolutamente fora da casinha. (Deve ser porque eu também era...)
Quando José Paulo Paes teve uma perna esquerda amputada, escreveu um belo poema para o membro que se foi. Quem perde um braço ou perna continua, para sempre, sentindo o membro arrancado. Eu continuarei sentindo – e ocasionalmente lendo, em sonhos – os livros que já não são meus. Espero que esses pedaços de mim estejam em boas mãos. Adeus!
- Crônica publicada na revista do Shopping Catuaí.
de resto, até o velho buarque de holanda, o pai do chico é claro, teve que se desfazer várias vezes de parte da biblioteca (parece que mais de um terço das biblioteca ele foi passando adiante).
melhor mesmo entregar pra alguém que também os consuma.
e eu sou pior porque, além de livros, junto revistas em quadrinhsom, o que deixa tudo muito mais difícil de ser armazenado.
por isso emsmo que vou me desfazeer de boa parte deles. e se juntar com outra pessoa não só é um ótimo pretexto, é um ganho. tu gfanha alguém pra partilhar os livros que te restam e, no meu caso, alguém para me mostrar novas leituras.
saudações verborrágicas