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Adeus, Cacilda


Já morei em nove casas. Alameda Barão de Limeira, São Paulo; Rua Victorino Carmillo, São Paulo; Rua Francisco Aguiar Ribeiro, Araçatuba; Rua Cristiano Olsen, Araçatuba; Rua Bernardino de Campos, Araçatuba; Rua dos Franceses, São Paulo; Rua Humaitá, Londrina; Rua Cacilda Becker, Londrina – apartamentos 42 (por dois anos) e 21 (por 12 anos e meio) .

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Ontem me despedi do apartamento 21 da Cacilda. Pela primeira vez, vendi um imóvel e assinei uma escritura. Como já disse aqui, sou um liberal apenas teórico; não tenho a mínima capacidade de lidar com dinheiro. Anarquistas (soi disant) são melhores empresários do que este leitor de Milton Friedman. Tal incompatibilidade com negócios – resquício, talvez, da minha juvenília trotskista – se comprovou ontem, na hora de contar dinheiro. O cara que comprou o apartamento pagou parte do imóvel em arame, baba, bufunfa, troco, numerário. Tive que contar a grana. Fiquei tão sem jeito que pedi ajuda à minha mulher (coisa que faço freqüentemente – quede mim sem ela?). Acho que tenho alergia a dinheiro. Mas adoro. Um diabético que aprecia doces.

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Uma certa tristeza ao ver os cômodos vazios. As casas em que moramos passam por uma severa transformação na memória, ficam pequenas ou grandes conforme a intensidade das lembranças; com o apartamento da Cacilda Becker não será diferente. Da área de serviço, eu tinha uma determinada vista parcial da cidade, um certo recorte de prédios que nunca ninguém poderá ter igual. Costumava ir para lá quando precisava tomar decisões, pensar em coisas graves ou formular besteiras. Lá também eu soía conversar com meu pai quando ele me visitava; os temas eram política ou futebol ou literatura, geralmente com uma latinha de cerveja na mão. Ali eu contei ao velho que não me considerava mais de esquerda; ali lamentamos que o Philip Roth ainda não tenha recebido o Nobel. Essas memórias não têm preço estipulável em bufunfa. São valores que não entram no PIB, como dizia o keynesiano John Kenneth Galbraith, melhor escritor que economista.

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Só dois cômodos restam das casas em que moramos: a linguagem e a memória. Posso me lembrar de algumas frases pronunciadas, por mim ou por meus pais, em 1974, no apartamento de um quarto na Barão de Limeira (eu dormia num bicama, na sala; minha irmã ainda não havia nascido; hoje ela é mãe da Liz).

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Eu poderia escrever um livro sobre o que aconteceu – ou eu imaginei que poderia acontecer – no apartamento da Cacilda Becker. Um dia, vou escrevê-lo. Se eu fosse o novo proprietário, mandaria dar uma benzida no imóvel para espantar as urucas, mas deixaria por lá os bons fluidos de amor, amizade e paz que ainda vagam pelos cômodos.

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Daquele apartamento, entrei moleque e saí quase com 40 anos; entrei solteiro convicto e saí casado; entrei esquerdista e saí liberal conservador. Mas algumas coisas continuam. Bach, é claro. E permaneço tolo, pacífico. Arrependo-me profundamente das ocasiões em que defendi a violência por razões ideológicas (ou melhor, fanatismo). Lembro-me particularmente de uma vez em que, bêbado, diante de um jovem Paulinho Galvez estupefato, disse que os artífices do Plano Collor deveriam ser todos fuzilados. Inclusive o coitado do Kandir, que depois faria a excelente Lei de Responsabilidade Fiscal (todos os petistas votaram contra). Imagine, gastar bala com a tonta da Zélia Cardoso de Mello! Deixasse a mulher casar com o Chico Anísio.
E quando escrevi um longo artigo sobre o romance “À mão esquerda”, de Fausto Wolff? No texto, eu elogiava o caráter e a iniciativa do protagonista, que assassinava figuras da política nacional à escolha do autor. Ninguém de esquerda, é claro.
Mas essas explosões de violência verbal não eram autênticas. Eram tentativas desesperadas de ver alguma coerência no marxismo. Delas, restam-me apenas a memória, a linguagem e um terceiro cômodo: a vergonha.

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A memória, a linguagem e a vergonha. Nada sem essas três coisas. Não importa o endereço.

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