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Descobri que estava perto dos 40

Descobri que estava perto dos 40 quando senti irritação nos olhos com a fumaça de um bar. Quando passei a não odiar completamente meus inimigos. Quando achei desnecessário, e até mesmo pior, responder à idiotice e à estupidez. E hoje em dia, se faço isso, por descuido ou impulso, ralho comigo mesmo: “Ei, rapaz, você já tem quase 40 anos!”

Percebi a passagem do tempo quando descobri que poderia mudar de opinião sem grandes escândalos. Foi só um passo para descobrir que a ideologia não era a coisa mais importante do mundo – e até mesmo uma das mais desimportantes. Qualquer sonata de João Sebastião é mais importante que as obras completas de Lênin.

Descobri que o tempo tinha passado quando minha prima caçula já era casada e mãe. Quando notei que alguns colegas de trabalho têm idade para ser meus filhos. Quando comprei o Estadão de domingo e percebi que isso havia se tornado um hábito. Quando li o editorial da página 3 e concordei plenamente. Quando admiti que Che Guevara foi um assassino. (Antes eu sabia disso, mas não tinha coragem de usar a palavra.)

Descobri que estava perto dos 40 quando concluí que não é da benevolência do dono do restaurante que depende o nosso almoço. Quer dizer: não existe almoço de graça. Quando torci para um candidato de direita vencer as eleições, e fiquei sinceramente triste porque isso não aconteceu.

Quando pensei até em votar no Barbosa, com quem eu havia polemizado ferozmente um dia, notei que estava perto dos 40. Quem sabe o Hauly...

Quando a placa de Feliz Natal de um ano começou a servir para o outro ano, eu descobri que estava perto dos 40.

Quando vi que o Nazareno estava certo, vi que estava quase com 40.

Quando descobri o prazer de lavar louça e fazer café, os 40 anos estavam batendo à porta.

Descobri que estava perto dos 40 quando não tive pique para beber em jornada dupla (à tarde e à noite). Fui para casa dormir...

Quando comecei a não gostar tanto assim de Álvaro de Campos e a adorar cada vez mais os “Quatro quartetos”, é que os 40 já se aproximavam. Quando passei a entender e aceitar algumas opiniões conservadoras do Eliot – que antes eu julgava absurdas –, já era praticamente um quarentão em espírito.

Quando passei a fazer compras no sábado à tarde – e sem reclamar – os 40 anos eram uma questão de (pouquíssimo) tempo.

Quando não me espanto nem fico revoltado se políticos mentem – afinal, eles são políticos, estão lá para isso mesmo... – eis os 40. (Desde que não matem, roubem e me encham o saco, já me dou por satisfeito.)

Descobri que o tempo tinha passado – e como foi bom. Não sou mais um adolescente, nem um tipinho engajado, nem um dono da verdade. Estou sozinho com minha mulher, meus amigos e minhas piadas. Ainda faltam dois anos para eu completar 40 – será que eu chego lá? Talvez sim. Seja o que Deus quiser.

Comments

15 comments

margo unchanning [desloguilson] wrote:

Briguet, espero que antes de você completar 40, você responda à minha pergunta sobre a espinha dorsal das Farc, tá? Ah, e não deixe de escrever sobre homofobia, de preferência em uma de suas colunas no JL...
Monday 07 July 16:50

Marcelo Rocha [desloguilson] wrote:

Briguet,
Você vai passar dos 40. E os políticos vão seguir mentindo e enchendo o (nosso) saco...a bebedeira vai diminuir ainda mais, acho. A ressaca, essa vai piorar.
Você vai passar dos 40. E continuará escrevendo crônicas. Elas serão cada dia mais liberais (e onde está o problema?).
Vai passar dos 40 e as provocações vão continuar. Sorte que você sempre terá gás pra responder a todas elas.
E, refém da última provocação, Margo vai permanecer curioso sobre espinhas dorsais, colunas vertebrais e invertebrados do atacado e do varejo. É que ele e o Marcião também pretendem passar dos 40. E vão passar.
Tá tudo bem, oras!
Monday 07 July 17:58

groucho, tou vazando [desloguilson] wrote:

nunca entendi esse mito de incediário aos 18, bombeiro aos 40.

eu tenho uma concepção bem diferente de envelhecer e ela não envolve guinar à direita. e tenho uns tantos amigos que também pensam assim.
mas esse devem ser uns anacrônicos que se recusam a aceitar a velhice não é mesmo.
sinceramente, tou de saco cheio desse papo, mesmo porque pra mim uma obra de ray bradbury sempre foi mais importante que friedman ou marcuse
Monday 07 July 18:20

margo unchanning [desloguilson] wrote:

Marcelo, eu não tô de provocação. Essa pergunta veio antes da discussão com o Marcião e ainda está sem resposta. Eu não ofendi ninguém, não xinguei ninguém e estou bem por fora desses assuntos que não me dizem respeito. Mas continuo curiosa sobre a espinha dorsal das Farc. Quero ver se o Briguet tem mesmo frieza para debater qualquer coisa. Porque ele sempre reclama que ninguém debate nada com ele, que apenas o ofendemos e xingamos e blá-blá-blá, mas na hora do debate mesmo, ele tira o corpo fora, pra parecer bonzinho e alheio a discussões. Veja bem: ele mesmo disse que minhas últimas respostas foram cordiais e até comoventes... Ou seja, estou sendo fina... Ah! Vi você na Globo News dia desses fazendo matéria de um acidente dem Campina Grande do Sul, se não me engano...
Monday 07 July 19:06

margo totalmente contra as Farc [desloguilson] wrote:

Ah! E antes que isso pareça mais que cordialidade, devo dizer uma coisa: acho que o Marcião pegou pesado com o Briguet no post sobre o curíntia, mas não tenho pena. O Briguet vive provocando as pessoas mesmo, primeiro foi comigo, sobre o assunto homofobia, e todo mundo me chamou de destemperada. Agora a máscara parece estar caindo. E eu não vou pôr mais lenha na fogueira, mas continuo querendo saber: de que adianta "quebrar a espinha dorsal das Farc" dando-lhes US$ 20 milhões? É uma pergunta simples e muito fácil de ser respondida por alguém tão entendido do assunto quanto o Briguet...
Monday 07 July 19:13

briguet wrote:

Margo, como eu gosto de você e sou seu amigo (lembre-se da cerveja), vou citar uma opinião insuspeita: a de Jorge Castañeda, ex-chanceler do México, intelectual de esquerda e biógrafo de Che Guevara. "Dinheiro, recompensa, traições internas, tudo pode ter ocorrido. Mas, se ocorreu, é porque as Farc estão enfraquecidas. Já existe um clima de derrota resultante dos golpes recebidos nos últimos meses. De qualquer modo, o sucesso tem a ver com o avanço do Exército. Não devemos negar-lhe esse mérito".

Castañeda, quem diria, tirou as bocas da minha palavra. E assim você fica respondida, OK?

Não vou fazer aquela clássica e manjada provocação do "entendeu ou quer que eu desenhe", porque você é inteligente, talvez mais inteligente do que eu (o que não é mérito algum).

Homofobia... Homofobia... Confesso que o assunto não me anima. Vamos esperar algum fato determinado.

Um abraço. E continue sendo contra as Farc. Há quem não seja. O governo brasileiro, por exemplo.
Monday 07 July 19:30

briguet wrote:

Marcelo Rocha:
Muita saudade de você, rapaz. Na macheza, é claro. Um abraço.
Monday 07 July 19:36

margo feliz com a resposta [desloguilson] wrote:

Boa Briguet! Finalmente você respondeu alguma coisa, e sem disparar nenhum tiro. Isso é que é estratégia militar...
Monday 07 July 19:39

Leijoto [desloguilson] wrote:

É que ele está chegando perto dos 40, tá virando bombeiro.
Tuesday 08 July 07:57

Marcelo Rocha [desloguilson] wrote:

Viu sim, Margo.
Uma pauleira desgraçada. Naquele sábado eu comecei ás 7 da manhã com acidente de ônibus na 116. Parei as 23h50, quando a bandidagem se acalmou.
Tuesday 08 July 07:57

anonimo [desloguilson] wrote:

Briguet, um sábio quando chega perto dos quarenta, não tem vergonha de mudar de opinião ou desprezar velhas ideologias e adotar outras, que, entretanto, não deixam de ser ideológicas. Passam com o tempo a sentir a 'insustentável leveza do ser'. Mas, Briguet isso não ocorre com todos! Muitos chegam aos quarenta e ainda se comportam com a impetuosidade adolescente aflorada. É dessa impetuosidade que surgem os questionamentos mais imbecis a soluções que precisam ser práticas no mundo das coisas e não ideológicas. Mas, questiono a essas pessoas que te perscrutam com certas posições “esquerdofrênicas” (Apud. Briguet): vocês realmente conhecem o significado e anacronismo? Conhecem a história e as conseqüências em locais onde a ideologia esquerdofrênica governaram? Acho que acreditam que a história do pensamento cessou em Marx. Sendo assim, situar-se à esquerda ou à direita é não situar-se, é colocar-se num não-lugar, sobretudo para o pensador que pretende elaborar um pensamento crítico.
Tuesday 08 July 11:43

Freud paraguayo [desloguilson] wrote:

O problema é chegar aos 40 e precisar de explicações para se consolar. O Briguet não suporta a idéia de chegar aos 40, então estabelece compensações como as descritas no post. O Briguet, na verdade, ainda deseja ser o pé-sujo revolucionário bebedor de cerveja, amiguinho das menininhas e ídolo da estudantaiada. Só que não consegue mais. Então, vira-se com metafísica.
Wednesday 09 July 11:43

tesco [desloguilson] wrote:

Que bom amadurecer, né? Mas amadurecer não é necessariamente trocar de ideologia. Eu, por exemplo, já passei muito dos quarenta, nunca fui comunista e não sou chegado à ideoologia neo-liberal. Bobbio morreu esquerdista e Marx, provavelmente, morreu marxista.
Abraço.
Wednesday 09 July 13:52

Pauno Francis, o 1º parágrafo eu li [desloguilson] wrote:

Tão velho e tão chato
Wednesday 09 July 15:36

Ciro Gomes, ex-esquerda e brocha aos 40 [desloguilson] wrote:

Li seu texto e me comovi. Conhece o viagra? É bom pra essa idade.
Friday 11 July 19:03

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