Archive for July of 2008
Às vezes morro
July 31, 2008
Às vezes morro. Quase sempre.
Como um cão ou como um porco,
morro às vezes muitas mortes
de que um gato sabe pouco.
Morro de medo, de tédio,
de navalha e de silêncio.
Morro por ato, omissão.
Palavra, morro. Pensamento.
Às vezes morro de dó,
de rir, chorar - de desespero.
Morro tal como morre
um alfinete no palheiro.
Às vezes morro de gula.
Outras, de inanição.
Morro de sede e fome,
- como um porco, como um cão.
Morro da noite pro dia,
morro hora ou outra,
morro de caso pensado,
morro de vento em popa.
Morro com voz de galo,
morro mudo como boi.
Morro só de pensá-lo
- e quem não morre, perdoe.
Como um cão ou como um porco,
morro às vezes muitas mortes
de que um gato sabe pouco.
Morro de medo, de tédio,
de navalha e de silêncio.
Morro por ato, omissão.
Palavra, morro. Pensamento.
Às vezes morro de dó,
de rir, chorar - de desespero.
Morro tal como morre
um alfinete no palheiro.
Às vezes morro de gula.
Outras, de inanição.
Morro de sede e fome,
- como um porco, como um cão.
Morro da noite pro dia,
morro hora ou outra,
morro de caso pensado,
morro de vento em popa.
Morro com voz de galo,
morro mudo como boi.
Morro só de pensá-lo
- e quem não morre, perdoe.
No more tears
July 31, 2008
Acordo no meio da noite e ando como um fantasma pela casa. Vou ao banheiro. No box, um frasco de shampoo Johnson’s – aquele amarelinho, Chega de lágrimas, No more tears. Aos quatro anos de idade, tive com esse produto aquela que foi minha primeira desilusão séria com o capitalismo. No banho, inda moleque, constatei que o Chega da lágrimas não era tão Chega de lágrimas assim.
Vi, logo de cara, que o capitalismo é um sistema de meias-verdades. Burro que sou, levei um quarto de século para descobrir que isso não é ruim – pelo contrário, é a virtude do sistema, a razão de sua permanência e um dos motivos pelos quais ele (o sistema) trouxe tantos benefícios à humanidade (conforme disse o Mencken, dois posts abaixo). O bom do capitalismo é que podemos encará-lo com ceticismo: o sistema não é perfeito e sabe que não é; permite críticas. Não há Parada Gay em Teerã. A bandeira dos EUA pode ser queimada em nome da livre expressão. O Chega de Lágrimas não tão Chega de Lágrimas assim, mas faz chorar menos que um Bozzanão.
Agora, é ingênuo (na melhor das hipóteses) e pernicioso (na pior) achar que a Johnson’s vai vender seu produto com a verdade completa: “Shampoo Johnson’s, Um pouquinho menos de lágrimas que os outros”. Passa amanhã! É a mesma coisa um restaurante dizer: “Venha almoçar aqui! O chef não cuida muito bem das partes pudendas mas é excelente nos temperos”. Não rola.
No capitalismo, pessoas adultas podem escolher entre aquilo que e é e aquilo que não é verdade. Mas como evitar os abusos? Através do império da lei, ou estado de direito, que é profundamente enraizado na ética judaico-cristã. Todo e qualquer direito que as minorias vivem transformando em bandeira política foi, séculos atrás, contemplado pelo judaísmo e o cristianismo. O direito à vida, por exemplo.
A alternativa ideológica ao capitalismo incorpora o que há de pior na economia e na religião. No capitalismo de estado, ou comunismo de mercado, tal como na China contemporânea, prevalece a lei do mais forte, a ausência completa de direitos e uma série de verdades absolutas não arbitradas pelo indivíduo, mas por uma estrutura governamental. É o pior dos mundos.
*****
Mas voltando à vaca fria. Acordo no meio da noite e ando como um fantasma pela casa. Vou à cozinha. Abro a geladeira e tomo a água reservada para mim desde 1987. Tropeço em mobílias desconhecidas, algumas das quais pertenceram ao Anderson Wagner, outras ao Valdir Lauro (ambos meus companheiros de república). Encontro silenciosa gente que ainda não nasceu ou já se foi com um suspiro, não com um estrondo. Às vezes visito antigos endereços, na Rua Cristiano Olsen (Cristiano foi um agrimensor morto pelos caingangues), casas que foram demolidas ou reformadas.
Se ligo a TV ou o rádio, há programas e comerciais extintos, vinhetas do tempo em que Tancredo Neves era vivo. E quem é o prefeito de SP? Jânio Quadros. Primeiro ou segundo mandato; não sei.
É que eu acordo no meio da noite e meu cachorro está latindo lá no fundo do quintal – quando lembro que ele morreu há dez anos. Sempre um par de chinelos que me pertenceram em 1974; não cabem mais em meus pés. E eu deveria estar em casa, brincando, quando Pol Pot iniciou a matança de um milhão de cambojanos. Acordo no meio da noite para fazer estranhas poções, quem sabe venenosas, no meu Grande Laboratório Pequeno Químico. O nome de uma substância: fenolftaleína. Acordo no meio da noite para inspecionar o sono das mulheres que nunca tive ou tive amiúde. Acordo no meio da noite e rezo para que tudo se arrume até o advento da manhã. Cada um de nós tem a sua pequena Parusia – o Fim está próximo porque o Apocalipse é individual, meus caros. Todos temos um drama pessoal com Deus. Acordo no meio da noite, converso em romeno com os mortos. E de repente descubro que sou mais um fantasma – acordado no meio da noite.
*****
Anarquismo. A arte de achar que João Gordo seria um bom primeiro-ministro.
Terezinha?! Uh-uh
July 27, 2008Parece que certas figuras não vão morrer nunca. Mas morrem. Nos últimos dias, dois ícones supostamente imorredouros vestiram os respectivos pijamas de madeira: uma personalidade indiano-londrinense, Eduardo Judas Barros, e a nacional Dercy Gonçalves (para quem a música “As véia”, clássico do Bar Brasil, parece ter sido composta).
Quando eu era moleque, achava que o Chacrinha não iria morrer nunca. Mas morreu – e já faz 20 anos. Silvio Santos, para mim, é o mesmo há três décadas, desde que ele apresentava seu programa na Globo (isso mesmo; pouca gente lembra).
Passando os olhos pelos vídeos de SS no Youtube, constatamos que não é bem assim, uh-uh-ah-ai; as costeletas do patrão (como dizia Elke Maravilha, outra imortal) desapareceram. Se houver algum paralelo entre Silvio e Sansão, o fato é preocupante.
Oscar Niemeyer segue sendo o stalinista mais idoso da face da Terra (há outros bem mais jovens – e numerosos).
Cid Moreira segue fazendo locução no Fantástico. Há mais de dez anos ninguém vê a cara dele.
Ivo Pitanguy continua operando? Não sei. Mas ouvi dizer que ele é boa-praça, ótimo papo.
Jamelão se empirulitou. E o Didi Mocó – já bateu os 80? O Lula também pertence à galeria. Vaso ruim não quebra.
Quanto ao Pelé, fico imaginando a comoção do país no dia em que o negão pendurar as chuteiras de vez.
Não sabemos, não sabemos. A única conclusão, como diria o Álvaro de Campos, é morrer. Mesmo se se for imortal.
Mencken e o capitalismo
July 26, 2008
No site Ordem Livre, uma nota biográfica do incomparável H. L Mencken (1880-1956).
Aqui vai um aperitivo, da lavra de Mencken:
“Nós devemos ao capitalismo quase todas as coisas que possuímos sob o nome de civilização atualmente. O progresso extraordinário do mundo desde a Idade Média não foi causado pelo mero gasto de energia humana, nem mesmo pelos vôos de nossa imaginação, já que os homens trabalharam desde os tempos mais remotos e alguns deles tinham um intelecto inigualável. Não, esse progresso foi causado pela acumulação de capital. Essa acumulação permitiu que o trabalho fosse organizado economicamente e em grande escala – aumentando, assim, enormemente a sua produtividade. Ela forneceu a maquinaria que diminuiu gradualmente a labuta humana e que libertou o espírito do trabalhador, que anteriormente era indistinguível de uma mula. E, principalmente, possibilitou uma preparação mais longa e melhor para o trabalho. Assim, toda arte e artesanato expandiram o seu escopo e alcance, e artes novas e altamente complexas apareceram”.
Leia o perfil completo aqui.
PS: O dono deste blog é liberal e católico. Mencken era ferozmente anti-religioso e preferia Beethoven a Bach. Sei que isso vai provocar nós em certas cabeças, mas, como diria meu amigo Alex, é a viiiiida.
Néxi séintido, purtanto...
July 25, 2008
- Minha prova naum é fáxil, naum. Minha prova é analije, disjcuta, élabore!
- Exta UEL naum paxa da uma fabriqueta da diplomax!
- Na Índia, comémux com as maunxxx.
- Xi o xeu cheque veio voltado, como vou pagar palextra da Arnaldo Jabór?!
Hoje, mais de uma pessoa me ligou como se houvesse morrido um parente meu. Até um repórter de rádio queria uma declaração. Polidamente, recusei. Nunca fui amigo ou admirador ou parente de Eduardo Judas Barros, autor das frases acima.
Eu era apenas, e mui modestamente, imitador de Eduardo Judas Barros. Algumas pessoas que nunca o tinham visto, mas conheciam minha imitação (e a de Marcelo Rocha, melhor ainda), chegaram a reconhecê-lo pela voz quando o encontraram. De certa maneira, eu e Marcelo éramos mais Eduardo que o próprio Eduardo.
Que descanse em paz. Todos merecemos.
Adeus, velhos livros
July 24, 2008Amo os livros em geral – e os meus livros em particular. Aprendi isso em casa. Quando nasci, minha família morava num pequeno apartamento da Alameda Barão de Limeira, em São Paulo. Apenas um quarto – e muitos livros. Uma das minhas lembranças mais remotas é a de observar, do berço, aquela fileira de objetos retangulares perfilados na prateleira. Eu vivia entre os livros bem antes de aprender a ler; mesmo antes de saber o que era um livro.
Cedo aprendi que os livros tinham alguma serventia, já que meu pai costumava diariamente retirar um daqueles volumes da prateleira, abrindo-o (sim, os livros podiam ser abertos) e olhando fixamente para suas páginas durante horas seguidas. Alguma coisa boa deveria haver ali.
Quando me mudei para Londrina, há quase 20 anos, trouxe comigo o amor pelos livros. De início, minha biblioteca pessoal era modestíssima: apenas alguns volumes arrancados da biblioteca de meu pai. Mas, com o tempo e as livrarias, a coleção foi crescendo.
Lembro-me de um dia em que um dos moradores da república se mudou, levando consigo a prateleira em que eu guardava os livros. Não tive dúvidas: peguei um velho edredom, que até aquele instante servia para me cobrir, e coloquei os livros sobre ele, alinhando-os cuidadosamente. Eu preferia passar um pouco de frio a colocar meus livros diretamente no chão. O inverno não foi rigoroso; e logo arranjei nova (nem tão nova...) prateleira.
O dia da dor
Por tudo isso, foi extremamente doloroso o que aconteceu comigo há alguns dias. Por motivos de força maior, precisei me desfazer da metade dos meus livros. A divisão salomônica de minha biblioteca, eu a tive que fazer há alguns meses, quando me casei e mudei de apartamento. Deixei metade dos livros na minha antiga casa. Mas pelo menos eles estavam lá; eu podia visitá-los e consultá-los quando quisesse.
No entanto, semana passada, vendi a velha casa. E tive que me livrar definitivamente daquela metade da biblioteca. Não poderia deixá-los ali (o comprador da casa não é um bibliófilo); não havia espaço no novo apartamento. Tampouco os jogaria no lixo – nunca! A solução foi chamar alguém cujo amor pelos livros é quase tão grande quanto o meu – e vender a metade da biblioteca para ele. Com dor no coração.
É claro que a outra metade de minha biblioteca está aqui comigo, sã e salva, no escritório de minha nova casa, onde escrevo esta crônica. Aqui, bem pertinho, estão os meus livros e autores de eleição, aqueles por quem tenho um amor quase incondicional.
A outra metade dos livros, a metade que vendi, tem outra natureza. São amores passados, livros que um dia eu amei e tive na cabeceira, mas hoje estão definitivamente superados para mim. Quer dizer: definitivamente, não. Um amor de verdade nunca acaba por completo. É por isso que eu fiquei triste.
Fora da casinha
Essa metade da biblioteca contém obras menos amadas: romances menores de bons autores; romances médios de autores ruins; contos ruins de bons romancistas; poemas ruins de bons prosadores; ensaios medianos de bons ficcionistas; leituras de comunicação e sindicalismo; além de inúmeros livros políticos, de epígonos do meu comunismo passado, tais como Noam Chomsky, Ernest Mandel, Eric Hobsbawn, Perry Anderson, Florestan Fernandes, Alex Callinicos. Mas trouxe comigo, para a nova casa, com a “metade mais amada”, os velhos Leon Trotsky e Isaac Deustcher. Não acredito mais no que falam, mas reconheço que escrevem bem. Só que até hoje não sei como li – e anotei obsessivamente, a lápis – “A vingança da história”, do grego Callinicos, um trotskista absolutamente fora da casinha. (Deve ser porque eu também era...)
Quando José Paulo Paes teve uma perna esquerda amputada, escreveu um belo poema para o membro que se foi. Quem perde um braço ou perna continua, para sempre, sentindo o membro arrancado. Eu continuarei sentindo – e ocasionalmente lendo, em sonhos – os livros que já não são meus. Espero que esses pedaços de mim estejam em boas mãos. Adeus!
- Crônica publicada na revista do Shopping Catuaí.
Adeus, Cacilda
July 22, 2008Já morei em nove casas. Alameda Barão de Limeira, São Paulo; Rua Victorino Carmillo, São Paulo; Rua Francisco Aguiar Ribeiro, Araçatuba; Rua Cristiano Olsen, Araçatuba; Rua Bernardino de Campos, Araçatuba; Rua dos Franceses, São Paulo; Rua Humaitá, Londrina; Rua Cacilda Becker, Londrina – apartamentos 42 (por dois anos) e 21 (por 12 anos e meio) .
*****
Ontem me despedi do apartamento 21 da Cacilda. Pela primeira vez, vendi um imóvel e assinei uma escritura. Como já disse aqui, sou um liberal apenas teórico; não tenho a mínima capacidade de lidar com dinheiro. Anarquistas (soi disant) são melhores empresários do que este leitor de Milton Friedman. Tal incompatibilidade com negócios – resquício, talvez, da minha juvenília trotskista – se comprovou ontem, na hora de contar dinheiro. O cara que comprou o apartamento pagou parte do imóvel em arame, baba, bufunfa, troco, numerário. Tive que contar a grana. Fiquei tão sem jeito que pedi ajuda à minha mulher (coisa que faço freqüentemente – quede mim sem ela?). Acho que tenho alergia a dinheiro. Mas adoro. Um diabético que aprecia doces.
*****
Uma certa tristeza ao ver os cômodos vazios. As casas em que moramos passam por uma severa transformação na memória, ficam pequenas ou grandes conforme a intensidade das lembranças; com o apartamento da Cacilda Becker não será diferente. Da área de serviço, eu tinha uma determinada vista parcial da cidade, um certo recorte de prédios que nunca ninguém poderá ter igual. Costumava ir para lá quando precisava tomar decisões, pensar em coisas graves ou formular besteiras. Lá também eu soía conversar com meu pai quando ele me visitava; os temas eram política ou futebol ou literatura, geralmente com uma latinha de cerveja na mão. Ali eu contei ao velho que não me considerava mais de esquerda; ali lamentamos que o Philip Roth ainda não tenha recebido o Nobel. Essas memórias não têm preço estipulável em bufunfa. São valores que não entram no PIB, como dizia o keynesiano John Kenneth Galbraith, melhor escritor que economista.
*****
Só dois cômodos restam das casas em que moramos: a linguagem e a memória. Posso me lembrar de algumas frases pronunciadas, por mim ou por meus pais, em 1974, no apartamento de um quarto na Barão de Limeira (eu dormia num bicama, na sala; minha irmã ainda não havia nascido; hoje ela é mãe da Liz).
*****
Eu poderia escrever um livro sobre o que aconteceu – ou eu imaginei que poderia acontecer – no apartamento da Cacilda Becker. Um dia, vou escrevê-lo. Se eu fosse o novo proprietário, mandaria dar uma benzida no imóvel para espantar as urucas, mas deixaria por lá os bons fluidos de amor, amizade e paz que ainda vagam pelos cômodos.
*****
Daquele apartamento, entrei moleque e saí quase com 40 anos; entrei solteiro convicto e saí casado; entrei esquerdista e saí liberal conservador. Mas algumas coisas continuam. Bach, é claro. E permaneço tolo, pacífico. Arrependo-me profundamente das ocasiões em que defendi a violência por razões ideológicas (ou melhor, fanatismo). Lembro-me particularmente de uma vez em que, bêbado, diante de um jovem Paulinho Galvez estupefato, disse que os artífices do Plano Collor deveriam ser todos fuzilados. Inclusive o coitado do Kandir, que depois faria a excelente Lei de Responsabilidade Fiscal (todos os petistas votaram contra). Imagine, gastar bala com a tonta da Zélia Cardoso de Mello! Deixasse a mulher casar com o Chico Anísio.
E quando escrevi um longo artigo sobre o romance “À mão esquerda”, de Fausto Wolff? No texto, eu elogiava o caráter e a iniciativa do protagonista, que assassinava figuras da política nacional à escolha do autor. Ninguém de esquerda, é claro.
Mas essas explosões de violência verbal não eram autênticas. Eram tentativas desesperadas de ver alguma coerência no marxismo. Delas, restam-me apenas a memória, a linguagem e um terceiro cômodo: a vergonha.
*****
A memória, a linguagem e a vergonha. Nada sem essas três coisas. Não importa o endereço.
Bom-dia, silêncio
July 20, 2008Sagrado silêncio, senhor da noite,
sem hora, sem raio, sem medo,
cuja voz se ouve à noite,
antítese do contratempo
– peço graças.
Sereno silêncio, pai da manhã,
irmão da palavra primeira,
que desde a primeira manhã
carregas a Terra inteira
– peço graças.
Santo silêncio, germe da fé,
escuta a primeira sentença
daquele que apenas é
o ato de toda potência.
Ouve, silêncio, este domingo
que nasce quase sem voz
e diz que ele é bem-vindo
para ti, pra todos nós.
De graça.
Pequena antologia pessoal - parte 2
July 16, 2008
Herberto Helder (1930-)
NÃO SEI COMO DIZER-TE
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.
*****
Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Rosa, pura contradição
Volúpia de ser o sono de ninguém
Sob tantas pálpebras
*****
José Paulo Paes (1926-1998)
À MINHA PERNA ESQUERDA (última parte)
Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.
Não há
pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.
Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.
Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.
Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas do mundo.
Mas não te preocupes
que no instante final
estaremos juntos
prontos para a sentença
seja ela qual for
contra nós
lavrada:
as perplexidades
de ainda outro Lugar
ou a inconcebível
paz
do Nada.
NÃO SEI COMO DIZER-TE
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.
*****
Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Rosa, pura contradição
Volúpia de ser o sono de ninguém
Sob tantas pálpebras
*****
José Paulo Paes (1926-1998)
À MINHA PERNA ESQUERDA (última parte)
Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.
Não há
pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.
Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.
Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.
Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas do mundo.
Mas não te preocupes
que no instante final
estaremos juntos
prontos para a sentença
seja ela qual for
contra nós
lavrada:
as perplexidades
de ainda outro Lugar
ou a inconcebível
paz
do Nada.
Pequena antologia pessoal - parte 1
July 16, 2008
Alexei Bueno (1963-)
TRANSMUTAÇÃO
Nascemos carne. E a cada dia
Nos vamos transformando em sonho.
Há sempre um patamar tristonho
Na escada em que antes não havia.
Há sempre um quarto em que vivemos
E nunca vimos. Sempre há um morto
Que bate à porta. Há sempre um porto
Que jamais houve e de onde viemos.
Há uma manhã cinza na feira
Que não se acaba há muitos anos.
Há uma mulher, nua entre panos,
Que não é nossa a vida inteira.
O tempo espera, inalterado
Como um licor, que nós subamos
Por ele abaixo, nós que vamos
Descendo-o acima em passo ousado.
Atrás há a aurora. À frente o nada.
No meio a confusão das luas.
Ah! quem voltasse às mesmas ruas
Em senso inverso, até a entrada.
Quem desse as costas à saída
Certa e voraz, e, dessa sorte,
Fosse afastando-se da morte
Até a primeira hora da vida
E seu mistério, e se encarnasse
Nos seus eus idos, e fugisse
Por si acima, até que ouvisse
O choro antigo, e ainda o passasse.
Nascemos carne, e ao sonho vamos.
Somos o fio que desfaz
Toda a tapeçaria, mas
Quem é que o puxa, nem sonhamos.
Vamos fazendo-nos de ar
De crianças rijas que já fomos,
Vamos como explodindo em gomos
De ser, um fruto a se espalhar.
Nossos amigos são de vento
Cada vez mais. As nossas casas
Grãos que o sol doura. Soam asas
No nosso cofre mais sedento.
Para isso apenas nos gerastes,
Para ser sonho, mães de sonho.
Há sempre um pássaro medonho
Nos nomeando entre umas hastes.
Há sempre um baile de sumidos
Na íntima praça inexistente.
Há um branco sol sempre presente
Na noite em que vamos perdidos.
Há um rosto cruel que nos exorta.
E escadas. E a manhã na feira
Que vai durando a vida inteira.
Há o patamar. E um beijo. E a porta.
*****
Mário Faustino (1930-1962)
Inferno, eterno inverno, quero dar
Teu nome à dor sem nome deste dia
Sem sol, céu sem furor, praia sem mar,
Escuma de alma à beira da agonia.
Inferno, eterno inverno, quero olhar
De frente a gorja em fogo da elegia,
Outono e purgatório, clima e lar
De silente quimera, quieta e fria.
Inverno, teu inferno a mim não traz
Mais do que a dura imagem do juízo
Final com que me aturde essa falaz
Beleza de teus verbos de granizo:
Carátula celeste, onde o fugaz
Estio de teu riso — paraíso?
*****
Alberto da Costa e Silva (1931-)
AO LADO DE VERA (1)
Usa o meu coração, se o teu já tens gasto,
feito a pedra de mó que a faca alisa, cava
e parece estender como massa de trigo
sobre a mesa molhada. Usa o meu coração
como o trapo que limpa a sujeira das tábuas
e enegrece de pó, e se pui, e se esgarça,
se com ele se invertem este dia adverso
e esta noite perversa. Usa o meu coração
para nos esconder, como aos olhos as pálpebras,
do cansaço do tempo, do bolor nos retratos,
e jogar para os céus, ao abrir das janelas,
qual um sonho ou um parto, os pardais e os canários.
*****
Paulo Mendes Campos (1922-1991)
FOLCLORE DE DEUS
Para Deus, tudo dos homens é o mesmo folclore: o cego Deraldo e Goethe, o inventor da roda e Einstein, Vitalino, de Caruaru, e Rodin, a Saudade de Ouro Preto e a Heróica; Lampião e Napoleão são rimas aos ouvidos de Deus.
O sabugo de milho vira foguete nas mãos do menino, mas o foguete vira sabugo nas mãos transespaciais de Deus.
Para Deus, tudo dos homens é a mesma simplicidade:
Paulo corre atrás da bola; Eva Curie viu a ave; vovô Freud viu o ovo.
Deus acha graça em todos os elementos.
Há doenças dispendiosas que se tratam anos a fio em hospitais suntuosos; há homens fortes que (só) carregam nos estádios o secreto câncer de viver; mas para Deus todas as doenças são dores de cabeça.
Para Deus, todos os homens são pobres: mendigos das esquinas de Wall Street, indigentes dos cartéis de aço, flagelados dos subterrâneos petrolíferos; mas Deus prefere os pobres sinceros, e os faz invisíveis.
Deus é o único hipnotizador: crescei e multiplicai-vos.
E os homens inventam passagens sobre e sob o rio, semânticas, paixões assassinas; de mãos cruzadas o olhos estarrecidos, a gente acorda.
Deus é a moeda clandestina em um país estrangeiro: pobres de nós se confundimos a sua efígie de ouro de lei com o perfil niquelado de César.
Para Deus, todos nós somos loucos metidos em camisas de onze varas: sobre os ombros do paciente ele corteja os graus da certeza neurótica do analista.
O que seguras em tua mão é aquilo que te prende; o que possuis é aquilo que te priva; mas Deus diz: bebe a água sem bebê-la; anda por toda a parte sem ir a parte alguma.
Na semente, Deus é a árvore; na árvore, Deus é a semente.
Onde a palavra começa, a palavra acaba, e aí está Deus.
Para Deus, todos os homens levam nos bolsos objetos escondidos: selos antigos, uma esfera de aço, um anzol enferrujado, um canivete sem folha; por isso é preciso, de pena de nós mesmos, fazer força para não chorar.
Pois todo menino enterra seu tesouro.
Deus é a luz, e assim a energia é a matéria multiplicada pelo quadrado da velocidade de Deus.
Deus dá nozes a quem tem dentes: ao funâmbulo estende as cordas; o sofrimento, Deus dá a quem tem alma; a alegria, essa Deus a reservou a quem não tem nada.
Deus é o grande madrugador: ele estava de pé entre folhagens portentosas na aurora do mundo; e ele andava em ti enquanto dormias.
Mas Deus é também o grande boêmio: ele passou por tua noite quando bebias teu penúltimo copo de vinho; talvez não o viste, mas todos os teus sentidos se alertaram, e bebeste um gole inquieto e enxugaste o teus lábios com o dorso da mão e sentiste saudade de tua casa.
Deus é a chave de ouro do poema; mas as outras 13 chaves pendem de teu chaveiro; e os metais de tuas chaves abrem aposentos de frustração, onde não te encontras.
Deus é o guardião, a zaga, o meio apoiador, o ponta-de-lança e o entendimento misterioso entre as linhas; o ferrolho não prevalecerá contra ele; por isso as multidões vibram com seu virtuosismo.
Para ele, o homem primitivo será o último homem, e o primeiro homem foi o único sábio.
Sendo o centro do círculo, todos os pontos que formam o tempo são eqüidistantes de Deus.
TRANSMUTAÇÃO
Nascemos carne. E a cada dia
Nos vamos transformando em sonho.
Há sempre um patamar tristonho
Na escada em que antes não havia.
Há sempre um quarto em que vivemos
E nunca vimos. Sempre há um morto
Que bate à porta. Há sempre um porto
Que jamais houve e de onde viemos.
Há uma manhã cinza na feira
Que não se acaba há muitos anos.
Há uma mulher, nua entre panos,
Que não é nossa a vida inteira.
O tempo espera, inalterado
Como um licor, que nós subamos
Por ele abaixo, nós que vamos
Descendo-o acima em passo ousado.
Atrás há a aurora. À frente o nada.
No meio a confusão das luas.
Ah! quem voltasse às mesmas ruas
Em senso inverso, até a entrada.
Quem desse as costas à saída
Certa e voraz, e, dessa sorte,
Fosse afastando-se da morte
Até a primeira hora da vida
E seu mistério, e se encarnasse
Nos seus eus idos, e fugisse
Por si acima, até que ouvisse
O choro antigo, e ainda o passasse.
Nascemos carne, e ao sonho vamos.
Somos o fio que desfaz
Toda a tapeçaria, mas
Quem é que o puxa, nem sonhamos.
Vamos fazendo-nos de ar
De crianças rijas que já fomos,
Vamos como explodindo em gomos
De ser, um fruto a se espalhar.
Nossos amigos são de vento
Cada vez mais. As nossas casas
Grãos que o sol doura. Soam asas
No nosso cofre mais sedento.
Para isso apenas nos gerastes,
Para ser sonho, mães de sonho.
Há sempre um pássaro medonho
Nos nomeando entre umas hastes.
Há sempre um baile de sumidos
Na íntima praça inexistente.
Há um branco sol sempre presente
Na noite em que vamos perdidos.
Há um rosto cruel que nos exorta.
E escadas. E a manhã na feira
Que vai durando a vida inteira.
Há o patamar. E um beijo. E a porta.
*****
Mário Faustino (1930-1962)
Inferno, eterno inverno, quero dar
Teu nome à dor sem nome deste dia
Sem sol, céu sem furor, praia sem mar,
Escuma de alma à beira da agonia.
Inferno, eterno inverno, quero olhar
De frente a gorja em fogo da elegia,
Outono e purgatório, clima e lar
De silente quimera, quieta e fria.
Inverno, teu inferno a mim não traz
Mais do que a dura imagem do juízo
Final com que me aturde essa falaz
Beleza de teus verbos de granizo:
Carátula celeste, onde o fugaz
Estio de teu riso — paraíso?
*****
Alberto da Costa e Silva (1931-)
AO LADO DE VERA (1)
Usa o meu coração, se o teu já tens gasto,
feito a pedra de mó que a faca alisa, cava
e parece estender como massa de trigo
sobre a mesa molhada. Usa o meu coração
como o trapo que limpa a sujeira das tábuas
e enegrece de pó, e se pui, e se esgarça,
se com ele se invertem este dia adverso
e esta noite perversa. Usa o meu coração
para nos esconder, como aos olhos as pálpebras,
do cansaço do tempo, do bolor nos retratos,
e jogar para os céus, ao abrir das janelas,
qual um sonho ou um parto, os pardais e os canários.
*****
Paulo Mendes Campos (1922-1991)
FOLCLORE DE DEUS
Para Deus, tudo dos homens é o mesmo folclore: o cego Deraldo e Goethe, o inventor da roda e Einstein, Vitalino, de Caruaru, e Rodin, a Saudade de Ouro Preto e a Heróica; Lampião e Napoleão são rimas aos ouvidos de Deus.
O sabugo de milho vira foguete nas mãos do menino, mas o foguete vira sabugo nas mãos transespaciais de Deus.
Para Deus, tudo dos homens é a mesma simplicidade:
Paulo corre atrás da bola; Eva Curie viu a ave; vovô Freud viu o ovo.
Deus acha graça em todos os elementos.
Há doenças dispendiosas que se tratam anos a fio em hospitais suntuosos; há homens fortes que (só) carregam nos estádios o secreto câncer de viver; mas para Deus todas as doenças são dores de cabeça.
Para Deus, todos os homens são pobres: mendigos das esquinas de Wall Street, indigentes dos cartéis de aço, flagelados dos subterrâneos petrolíferos; mas Deus prefere os pobres sinceros, e os faz invisíveis.
Deus é o único hipnotizador: crescei e multiplicai-vos.
E os homens inventam passagens sobre e sob o rio, semânticas, paixões assassinas; de mãos cruzadas o olhos estarrecidos, a gente acorda.
Deus é a moeda clandestina em um país estrangeiro: pobres de nós se confundimos a sua efígie de ouro de lei com o perfil niquelado de César.
Para Deus, todos nós somos loucos metidos em camisas de onze varas: sobre os ombros do paciente ele corteja os graus da certeza neurótica do analista.
O que seguras em tua mão é aquilo que te prende; o que possuis é aquilo que te priva; mas Deus diz: bebe a água sem bebê-la; anda por toda a parte sem ir a parte alguma.
Na semente, Deus é a árvore; na árvore, Deus é a semente.
Onde a palavra começa, a palavra acaba, e aí está Deus.
Para Deus, todos os homens levam nos bolsos objetos escondidos: selos antigos, uma esfera de aço, um anzol enferrujado, um canivete sem folha; por isso é preciso, de pena de nós mesmos, fazer força para não chorar.
Pois todo menino enterra seu tesouro.
Deus é a luz, e assim a energia é a matéria multiplicada pelo quadrado da velocidade de Deus.
Deus dá nozes a quem tem dentes: ao funâmbulo estende as cordas; o sofrimento, Deus dá a quem tem alma; a alegria, essa Deus a reservou a quem não tem nada.
Deus é o grande madrugador: ele estava de pé entre folhagens portentosas na aurora do mundo; e ele andava em ti enquanto dormias.
Mas Deus é também o grande boêmio: ele passou por tua noite quando bebias teu penúltimo copo de vinho; talvez não o viste, mas todos os teus sentidos se alertaram, e bebeste um gole inquieto e enxugaste o teus lábios com o dorso da mão e sentiste saudade de tua casa.
Deus é a chave de ouro do poema; mas as outras 13 chaves pendem de teu chaveiro; e os metais de tuas chaves abrem aposentos de frustração, onde não te encontras.
Deus é o guardião, a zaga, o meio apoiador, o ponta-de-lança e o entendimento misterioso entre as linhas; o ferrolho não prevalecerá contra ele; por isso as multidões vibram com seu virtuosismo.
Para ele, o homem primitivo será o último homem, e o primeiro homem foi o único sábio.
Sendo o centro do círculo, todos os pontos que formam o tempo são eqüidistantes de Deus.
Canção do sangue
July 11, 2008O sangue é minha sorte,
é sangue que não tem fim.
O sangue é feito de morte,
o sangue é feito de mim.
O sangue é feito de água,
de água, sangue e dor.
Tem alegria e mágoa;
tem cheiro, gosto e cor.
O sangue é feito de estrela:
de estrela, urina e fezes.
E à vida, pode lê-la
em antíteses e teses.
Sangue alfa e ômega,
sangue Sirius e Vega.
O sangue veio de Andrômeda,
veio do lume e da treva.
Sangue do sangue quente
das cordilheiras de Togo.
Sangue da sarça ardente,
sangue da Terra do Fogo.
Sangue que chove e neva
na Tailândia, em Roma.
Afluente do Rio Neva
dentro do Amazonas.
Você que me lê agora,
com sangue dentro da veia:
é no sangue que se mora,
não no país ou aldeia.
O sangue veio da Terra,
o sangue veio de Vênus.
Com o sangue não se erra,
nem por mais e nem por menos.
Há um sangue interessante
que põe tudo a perder:
é o sangue coagulante
de quem está no poder.
Sangue, puro momento,
sangue dos fariseus.
Vem da fornalha do vento,
do coração de Deus.
O sangue é uma passagem
de tempo, volta e ida.
O sangue é minha mensagem
no computador da vida.
O meu sangue é meu Pai,
meu Irmão e meu Espírito.
Pela veia cava sai,
pelo sono volta, onírico.
O sangue é feito de tempo
disfarçado de escarlate.
Ele é tudo que invento
por um coração que bate.
O sangue é feito de sangue,
de vinagre, sal e mel.
Está forte, está exangue,
na igreja ou no bordel.
O sangue é minha sina,
meu caminho e verdade.
É um verso, é uma rima,
independe da vontade.
O meu sangue é um galo,
canta sempre no peito.
É inútil segurá-lo:
este sangue não tem jeito.
O sangue pra sempre passa,
o sangue é sempre assim.
O sangue pulsa de graça,
o sangue nunca tem fim.
Justiça de Mato Grosso
July 10, 2008
Estou com um três-oitão apontado na cabeça.
É bom acordar e ter 38 anos. Na verdade, só os completarei às sete e meia da noite, que foi quando nasci, no Hospital São Camilo, em São Paulo, mas já me sinto como se tivesse a nova idade. O tempo não trouxe sabedoria. Para muitos, tolo; para poucos, canalha; para alguns, amigo.
Um pouco de matemática, que não é o meu forte (nada é o meu forte; talvez o trocadilho): 38 mais 38 dá 76. Seria muito otimista dizer que estou na meia-idade; chegar aos 76 é tarefa hercúlea. Em bingos, 22 são dois patinhos na lagoa; 24 é ele (atualmente em desuso por causa de homofobia), 38 é justiça de Mato Grosso. Só não precisa usar minha idade contra mim mesmo. Gastar bala à toa...
Descobri que estava perto dos 40
July 07, 2008
Descobri que estava perto dos 40 quando senti irritação nos olhos com a fumaça de um bar. Quando passei a não odiar completamente meus inimigos. Quando achei desnecessário, e até mesmo pior, responder à idiotice e à estupidez. E hoje em dia, se faço isso, por descuido ou impulso, ralho comigo mesmo: “Ei, rapaz, você já tem quase 40 anos!”
Percebi a passagem do tempo quando descobri que poderia mudar de opinião sem grandes escândalos. Foi só um passo para descobrir que a ideologia não era a coisa mais importante do mundo – e até mesmo uma das mais desimportantes. Qualquer sonata de João Sebastião é mais importante que as obras completas de Lênin.
Descobri que o tempo tinha passado quando minha prima caçula já era casada e mãe. Quando notei que alguns colegas de trabalho têm idade para ser meus filhos. Quando comprei o Estadão de domingo e percebi que isso havia se tornado um hábito. Quando li o editorial da página 3 e concordei plenamente. Quando admiti que Che Guevara foi um assassino. (Antes eu sabia disso, mas não tinha coragem de usar a palavra.)
Descobri que estava perto dos 40 quando concluí que não é da benevolência do dono do restaurante que depende o nosso almoço. Quer dizer: não existe almoço de graça. Quando torci para um candidato de direita vencer as eleições, e fiquei sinceramente triste porque isso não aconteceu.
Quando pensei até em votar no Barbosa, com quem eu havia polemizado ferozmente um dia, notei que estava perto dos 40. Quem sabe o Hauly...
Quando a placa de Feliz Natal de um ano começou a servir para o outro ano, eu descobri que estava perto dos 40.
Quando vi que o Nazareno estava certo, vi que estava quase com 40.
Quando descobri o prazer de lavar louça e fazer café, os 40 anos estavam batendo à porta.
Descobri que estava perto dos 40 quando não tive pique para beber em jornada dupla (à tarde e à noite). Fui para casa dormir...
Quando comecei a não gostar tanto assim de Álvaro de Campos e a adorar cada vez mais os “Quatro quartetos”, é que os 40 já se aproximavam. Quando passei a entender e aceitar algumas opiniões conservadoras do Eliot – que antes eu julgava absurdas –, já era praticamente um quarentão em espírito.
Quando passei a fazer compras no sábado à tarde – e sem reclamar – os 40 anos eram uma questão de (pouquíssimo) tempo.
Quando não me espanto nem fico revoltado se políticos mentem – afinal, eles são políticos, estão lá para isso mesmo... – eis os 40. (Desde que não matem, roubem e me encham o saco, já me dou por satisfeito.)
Descobri que o tempo tinha passado – e como foi bom. Não sou mais um adolescente, nem um tipinho engajado, nem um dono da verdade. Estou sozinho com minha mulher, meus amigos e minhas piadas. Ainda faltam dois anos para eu completar 40 – será que eu chego lá? Talvez sim. Seja o que Deus quiser.
Percebi a passagem do tempo quando descobri que poderia mudar de opinião sem grandes escândalos. Foi só um passo para descobrir que a ideologia não era a coisa mais importante do mundo – e até mesmo uma das mais desimportantes. Qualquer sonata de João Sebastião é mais importante que as obras completas de Lênin.
Descobri que o tempo tinha passado quando minha prima caçula já era casada e mãe. Quando notei que alguns colegas de trabalho têm idade para ser meus filhos. Quando comprei o Estadão de domingo e percebi que isso havia se tornado um hábito. Quando li o editorial da página 3 e concordei plenamente. Quando admiti que Che Guevara foi um assassino. (Antes eu sabia disso, mas não tinha coragem de usar a palavra.)
Descobri que estava perto dos 40 quando concluí que não é da benevolência do dono do restaurante que depende o nosso almoço. Quer dizer: não existe almoço de graça. Quando torci para um candidato de direita vencer as eleições, e fiquei sinceramente triste porque isso não aconteceu.
Quando pensei até em votar no Barbosa, com quem eu havia polemizado ferozmente um dia, notei que estava perto dos 40. Quem sabe o Hauly...
Quando a placa de Feliz Natal de um ano começou a servir para o outro ano, eu descobri que estava perto dos 40.
Quando vi que o Nazareno estava certo, vi que estava quase com 40.
Quando descobri o prazer de lavar louça e fazer café, os 40 anos estavam batendo à porta.
Descobri que estava perto dos 40 quando não tive pique para beber em jornada dupla (à tarde e à noite). Fui para casa dormir...
Quando comecei a não gostar tanto assim de Álvaro de Campos e a adorar cada vez mais os “Quatro quartetos”, é que os 40 já se aproximavam. Quando passei a entender e aceitar algumas opiniões conservadoras do Eliot – que antes eu julgava absurdas –, já era praticamente um quarentão em espírito.
Quando passei a fazer compras no sábado à tarde – e sem reclamar – os 40 anos eram uma questão de (pouquíssimo) tempo.
Quando não me espanto nem fico revoltado se políticos mentem – afinal, eles são políticos, estão lá para isso mesmo... – eis os 40. (Desde que não matem, roubem e me encham o saco, já me dou por satisfeito.)
Descobri que o tempo tinha passado – e como foi bom. Não sou mais um adolescente, nem um tipinho engajado, nem um dono da verdade. Estou sozinho com minha mulher, meus amigos e minhas piadas. Ainda faltam dois anos para eu completar 40 – será que eu chego lá? Talvez sim. Seja o que Deus quiser.
Ingrid, a vilã
July 04, 2008
Deixe-me ver se entendi.
A candidata presidencial colombiana Ingrid Betancourt é seqüestrada por narcoguerrilheiros de esquerda.
Passa seis anos na selva colombiana, longe dos filhos e da mãe. Por três anos, permanece acorrentada.
Um dia, Ingrid é libertada, após uma complexa operação de resgate, minuciosamente preparada pelo governo colombiano, com suporte dos EUA.
Na primeira declaração pública após o resgate, a ex-senadora agradece "a Deus e ao governo da Colômbia".
O presidente colombiano, Álvaro Uribe, é odiado pela esquerda mundial. Por quatro razões básicas: 1) diminuiu o poder do narcotráfico e o número de homicídios no país; 2) quebrou a espinha dorsal das Farc, eliminando o secretariado da organização terrorista; 3) tem 91% de popularidade entre a população do país; 4) aceita ajuda americana no combate à criminalidade.
Imediatamente após ser libertada, Ingrid Betancourt começa a ser alvo da ira e dos faniquitos da turba esquerdofrênica.
Uma obscura rádio estatal suíça, sem se dar ao trabalho de exibir provas, divulga a versão de que a liberdade de Ingrid e de outros 13 reféns teria sido comprada com o pagamento de um resgate de US$ 20 milhões.
Acompanhe-me, leitor. Por um momento, um breve momento, imagine que a versão da radiobrás suíça seja verdadeira.
Em que isso diminuiria a importância de que Ingrid Betancourt e 13 reféns foram libertados? Em que isso reduziria os méritos do governo Uribe, que liquidou a cúpula das Farc impiedosamente?
Qual seria a proposta de nossos bravos esquerdofrênicos? Que os narcoguerrilheiros gentilmente devolvam a (suposta, e nunca provada) grana? Que, em contrapartida, Sarkozy e Uribe devolvam Ingrid (e, quem sabe, a Carla Bruni de troco) aos facínoras da selva?
O que está acontecendo agora, em menor escala, porém não menos preocupante, é a inversão de valores que se registrou logo depois dos atentados de 11 de setembro: a vítima é transformada em vilã.
O crime de Ingrid Betancourt foi ter agradecido a quem a libertou; foi ter reduzido Hugo Chávez e Rafael Correa (para não falar em nosso molusco presidencial) ao papel de coadjuvantes editáveis; foi enfrentar a arrogância e a prepotência dos salvadores do mundo esquerdofrênicos.
O crime de Ingrid Betancourt foi o de não desenvolver a síndrome de Estocolmo.
A dor de cotovelo da esquerda em relação a Álvaro Uribe é um caso para uma tese de doutorado em psicanálise.
Imaginem se o seqüestrado fosse, sei lá, o bravo Luiz Mott. Estaria alguém babando moralidade para condenar um suposto (e não comprovado) pagamento de resgate? Ora, passem amanhã, seus babacas.
E Deus, o silencioso YHWH, ainda leva bordoada de nossos empresários anarquistas!
A estupidez humana não tem limites. Só é ultrapassada pelos erros gramaticais.
(Ah, e chamem o Gilberto Carvalho. Só ele para administrar mais essa crise cotovelística de nossos esquerdóides.)
A candidata presidencial colombiana Ingrid Betancourt é seqüestrada por narcoguerrilheiros de esquerda.
Passa seis anos na selva colombiana, longe dos filhos e da mãe. Por três anos, permanece acorrentada.
Um dia, Ingrid é libertada, após uma complexa operação de resgate, minuciosamente preparada pelo governo colombiano, com suporte dos EUA.
Na primeira declaração pública após o resgate, a ex-senadora agradece "a Deus e ao governo da Colômbia".
O presidente colombiano, Álvaro Uribe, é odiado pela esquerda mundial. Por quatro razões básicas: 1) diminuiu o poder do narcotráfico e o número de homicídios no país; 2) quebrou a espinha dorsal das Farc, eliminando o secretariado da organização terrorista; 3) tem 91% de popularidade entre a população do país; 4) aceita ajuda americana no combate à criminalidade.
Imediatamente após ser libertada, Ingrid Betancourt começa a ser alvo da ira e dos faniquitos da turba esquerdofrênica.
Uma obscura rádio estatal suíça, sem se dar ao trabalho de exibir provas, divulga a versão de que a liberdade de Ingrid e de outros 13 reféns teria sido comprada com o pagamento de um resgate de US$ 20 milhões.
Acompanhe-me, leitor. Por um momento, um breve momento, imagine que a versão da radiobrás suíça seja verdadeira.
Em que isso diminuiria a importância de que Ingrid Betancourt e 13 reféns foram libertados? Em que isso reduziria os méritos do governo Uribe, que liquidou a cúpula das Farc impiedosamente?
Qual seria a proposta de nossos bravos esquerdofrênicos? Que os narcoguerrilheiros gentilmente devolvam a (suposta, e nunca provada) grana? Que, em contrapartida, Sarkozy e Uribe devolvam Ingrid (e, quem sabe, a Carla Bruni de troco) aos facínoras da selva?
O que está acontecendo agora, em menor escala, porém não menos preocupante, é a inversão de valores que se registrou logo depois dos atentados de 11 de setembro: a vítima é transformada em vilã.
O crime de Ingrid Betancourt foi ter agradecido a quem a libertou; foi ter reduzido Hugo Chávez e Rafael Correa (para não falar em nosso molusco presidencial) ao papel de coadjuvantes editáveis; foi enfrentar a arrogância e a prepotência dos salvadores do mundo esquerdofrênicos.
O crime de Ingrid Betancourt foi o de não desenvolver a síndrome de Estocolmo.
A dor de cotovelo da esquerda em relação a Álvaro Uribe é um caso para uma tese de doutorado em psicanálise.
Imaginem se o seqüestrado fosse, sei lá, o bravo Luiz Mott. Estaria alguém babando moralidade para condenar um suposto (e não comprovado) pagamento de resgate? Ora, passem amanhã, seus babacas.
E Deus, o silencioso YHWH, ainda leva bordoada de nossos empresários anarquistas!
A estupidez humana não tem limites. Só é ultrapassada pelos erros gramaticais.
(Ah, e chamem o Gilberto Carvalho. Só ele para administrar mais essa crise cotovelística de nossos esquerdóides.)
Afoguei minha culpa
July 04, 2008
Afoguei minha culpa
no álcool, nas moças, nas noites,
afoguei minha culpa nos açoites
que preocupam o escravo e o ateu.
Afoguei minha culpa, apenas eu,
nos infernos interditos,
no eros e nos ares,
afoguei minha culpa em bares
que nem sequer devem ser ditos.
Afoguei minha culpa nas leituras
de Marx, Lênin, Bakunin.
Afoguei minha culpa nas alturas
da baixeza toda que há em mim.
Afoguei minha culpa
por matar e matar-me
aos poucos, não com a corda
ou um tiro na cuca:
afoguei minha culpa na horda,
na merda proletária e estulta.
Afoguei minha culpa, meus pecados,
no pesadelo da semana,
nos ofendidos e humilhados
e por fim, oh Bukharin,
afoguei minha culpa em Deus,
e quase nada restou a mim:
todos os fardos meus
se afogaram na cuba
da misericórdia
– e voltaram à vida,
livres dos medos ateus.
Viva o socialismo!
July 03, 2008
Ingrid Betancourt, ao ser libertada, agradeceu “a Deus e aos soldados da Colômbia”. Questionada sobre o papel de Hugo Chávez e Rafael Correa na negociação com os narcoterroristas, a senadora franco-colombiana disse que eles até podem ser aliados na luta pela libertação de reféns, desde que se submetam às diretrizes do governo da Colômbia (grifos meus). “Álvaro Uribe foi eleito pelo povo da Colômbia; as Farc, não.” Frase lapidar.
“Agradeço a Deus e aos soldados da Colômbia.” Para certo tipo de esquerdofrênico (faz tempo que não uso essa palavra tão cara), Ingrid não disse nada com nada. Afinal, Deus não existe; e soldados da Colômbia, como obedecem a um governo de direita e pró-americano, só podem fazer o mal, né mesmo?
O papel de Uribe na libertação de Ingrid foi heróico, para dizer o mínimo. Conseguiram libertar a refém mais importante das Farc (ainda há 700) sem disparar um único tiro. É isso que se chama inteligência militar, expressão que alguns néscios, por absoluto desconhecimento histórico, acreditam ser uma contradição em termos.
*****
O sociólogo Cezar Bueno, com quem tenho relações cordiais, aceitou ser vice de André Vargas, candidato do PT à Prefeitura de Londrina. Só o fato de pertencer ao PCdoB, um partido que reverencia Mao Tse-tung e Stálin, já seria o bastante para não esperar grande coisa do rapaz. Mas confesso que essa história de ser vice de André Vargas (atualmente em evidência pela acusação de ter usado vigias da UEM como laranjas) ultrapassou as minhas piores expectativas. Lembro-me até hoje de uma formatura da UEL, em que estive presente, quando Cezar foi o juramentista. Ao final do juramento, com todos os universitários de mão direita erguida, ele quebrou o protocolo e gritou: “Viva o socialismo!” Eu ainda era trotskista na época, mas confesso que a impertinência do rapaz me causou grande vergonha alheia. Só não foi pior do que se vice de André Vargas.
*****
Eu e o amigo Tanga resolvemos promover hoje, no Madalena, o I EMISS (Encontro de Maus Imitadores de Silvio Santos). Isso é que dá férias. Cabeça vazia, principalmente quando de grandes proporções como a nossa, é a oficina do que-diga.
*****
Confesso que torci ontem para o Fluminense. É um time simpático – algo assim como um contrário do Corinthians que não é o Palmeiras. Mas a derrota do tricolor carioca serviu para algo útil: calou a boca do Renato Gaúcho. Eu diria que Renato Gaúcho é um verdadeiro teste para o cristianismo de qualquer um. Quem bota fé no Nazareno tem que encontrar qualidades em tipos como Gaúcho, Belinati, Janene e Ideli Salvatti (este último nome deve ser pronunciado com sotaque de CPI).
*****
E a Estrela acaba de lançar uma série de bonequinhos temáticos. Eis alguns:
BONEQUINHO ANTI-HOMOFÓBICO – Taca processo se você mencionar a palavra “viadagem”. Faz paradinha gay e dá faniquito.
BONEQUINHO GILBERTO CARVALHO – Chefia gabinetezinhos e administra escandalozinhos.
BONEQUINHO ANTICRISTÃO – Você aperta a barriguinha e ele diz: INQUISIÇÃO! CAMISINHA! GALILEU GALILEI! RATZINGER NAZISTA!
BONEQUINHO ELEITORZINHO ENRUSTIDO DO LULA – Diz que é independente, faz críticas perfunctórias ao governo, mas se enche todo quando acha um motivo para elogiar o prefidente ou criticar FHC (esse bonequinho vem com obsessão; qual seja, a de sentar o porrete no FHC, não importa o motivo).
BONEQUINHO SILVIO SANTOS – Você aperta a barriguinha, ele fala OHE, pergunta se você está hospedado no HILTAUMMM, reprisa Pantanal e é processado pela Globo!
BONEQUINHO VEREADOR – Já vem com propininha.
BONEQUINHO TJ – Libera vereadorzinho!
BONEQUINHO BAKUNINZINHO – Ideal se você defende uma educação ateistinha e anarquistinha.
BONEQUINHO ANDRÉ VARGUINHAS – Vai perder a eleição, mas mesmo assim conseguirá fazer uma campanha milionária! Vem acompanhado de segurancinhas da UEM.
BONEQUINHOS BBB – A versão feminina tira a roupinha na Playboyzinha e só tem duração de seis meses. A versão masculina costuma ser presa, depois de algum tempo, por briga em boate.
BONEQUINHA DILMA – Fabrica lindos dossiezinhos fajutos!
BONEQUINHO SEM-TERRINHA – Invade prediozinhos públicos, destrói lavourinhas de pesquisa, suga verbinhas do governinho e, nas escolinhas, substitui a crença em Papai Noel por odes a Mao Tse-tunguinho e Che Guevarinha.
BONEQUINHA INGRID BETANCOURT – Aventura! Já vem seqüestrada. É libertada pelo BONEQUINHO URIBE e seus soldadinhos.
BONEQUINHO LULA – Surfa na boa fase do capitalismo e depois, quando a coisa aperta, põe a culpa no mesmíssinho capitalismo! Você aperta a barriguinha e ele diz NUNCA ANTEF NEFE PAIF.
É isso aí. Agora, vamos ao IMESS. E viva o socialismo!
UPDATE:
BONECO SIQUEIRINHA - Domingo, às 9 e meia da manhã, na Tarobá! Com patrocínio SERCOMTELLLLLLLL.
BONEQUINHA LETÍCIA SABATELLA - Ecologista e militante em tamanho e forma naturais. E tem uma vantagem sobre a original: É MUDA! Apesar disso, briga com o Ciro Gominhos. Se falhar, é "só batê-la" na parede, que ela volta a funcionar ("só batê-la", Sabatella: entendeu, entendeu? Hein, hein?)
“Agradeço a Deus e aos soldados da Colômbia.” Para certo tipo de esquerdofrênico (faz tempo que não uso essa palavra tão cara), Ingrid não disse nada com nada. Afinal, Deus não existe; e soldados da Colômbia, como obedecem a um governo de direita e pró-americano, só podem fazer o mal, né mesmo?
O papel de Uribe na libertação de Ingrid foi heróico, para dizer o mínimo. Conseguiram libertar a refém mais importante das Farc (ainda há 700) sem disparar um único tiro. É isso que se chama inteligência militar, expressão que alguns néscios, por absoluto desconhecimento histórico, acreditam ser uma contradição em termos.
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O sociólogo Cezar Bueno, com quem tenho relações cordiais, aceitou ser vice de André Vargas, candidato do PT à Prefeitura de Londrina. Só o fato de pertencer ao PCdoB, um partido que reverencia Mao Tse-tung e Stálin, já seria o bastante para não esperar grande coisa do rapaz. Mas confesso que essa história de ser vice de André Vargas (atualmente em evidência pela acusação de ter usado vigias da UEM como laranjas) ultrapassou as minhas piores expectativas. Lembro-me até hoje de uma formatura da UEL, em que estive presente, quando Cezar foi o juramentista. Ao final do juramento, com todos os universitários de mão direita erguida, ele quebrou o protocolo e gritou: “Viva o socialismo!” Eu ainda era trotskista na época, mas confesso que a impertinência do rapaz me causou grande vergonha alheia. Só não foi pior do que se vice de André Vargas.
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Eu e o amigo Tanga resolvemos promover hoje, no Madalena, o I EMISS (Encontro de Maus Imitadores de Silvio Santos). Isso é que dá férias. Cabeça vazia, principalmente quando de grandes proporções como a nossa, é a oficina do que-diga.
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Confesso que torci ontem para o Fluminense. É um time simpático – algo assim como um contrário do Corinthians que não é o Palmeiras. Mas a derrota do tricolor carioca serviu para algo útil: calou a boca do Renato Gaúcho. Eu diria que Renato Gaúcho é um verdadeiro teste para o cristianismo de qualquer um. Quem bota fé no Nazareno tem que encontrar qualidades em tipos como Gaúcho, Belinati, Janene e Ideli Salvatti (este último nome deve ser pronunciado com sotaque de CPI).
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E a Estrela acaba de lançar uma série de bonequinhos temáticos. Eis alguns:
BONEQUINHO ANTI-HOMOFÓBICO – Taca processo se você mencionar a palavra “viadagem”. Faz paradinha gay e dá faniquito.
BONEQUINHO GILBERTO CARVALHO – Chefia gabinetezinhos e administra escandalozinhos.
BONEQUINHO ANTICRISTÃO – Você aperta a barriguinha e ele diz: INQUISIÇÃO! CAMISINHA! GALILEU GALILEI! RATZINGER NAZISTA!
BONEQUINHO ELEITORZINHO ENRUSTIDO DO LULA – Diz que é independente, faz críticas perfunctórias ao governo, mas se enche todo quando acha um motivo para elogiar o prefidente ou criticar FHC (esse bonequinho vem com obsessão; qual seja, a de sentar o porrete no FHC, não importa o motivo).
BONEQUINHO SILVIO SANTOS – Você aperta a barriguinha, ele fala OHE, pergunta se você está hospedado no HILTAUMMM, reprisa Pantanal e é processado pela Globo!
BONEQUINHO VEREADOR – Já vem com propininha.
BONEQUINHO TJ – Libera vereadorzinho!
BONEQUINHO BAKUNINZINHO – Ideal se você defende uma educação ateistinha e anarquistinha.
BONEQUINHO ANDRÉ VARGUINHAS – Vai perder a eleição, mas mesmo assim conseguirá fazer uma campanha milionária! Vem acompanhado de segurancinhas da UEM.
BONEQUINHOS BBB – A versão feminina tira a roupinha na Playboyzinha e só tem duração de seis meses. A versão masculina costuma ser presa, depois de algum tempo, por briga em boate.
BONEQUINHA DILMA – Fabrica lindos dossiezinhos fajutos!
BONEQUINHO SEM-TERRINHA – Invade prediozinhos públicos, destrói lavourinhas de pesquisa, suga verbinhas do governinho e, nas escolinhas, substitui a crença em Papai Noel por odes a Mao Tse-tunguinho e Che Guevarinha.
BONEQUINHA INGRID BETANCOURT – Aventura! Já vem seqüestrada. É libertada pelo BONEQUINHO URIBE e seus soldadinhos.
BONEQUINHO LULA – Surfa na boa fase do capitalismo e depois, quando a coisa aperta, põe a culpa no mesmíssinho capitalismo! Você aperta a barriguinha e ele diz NUNCA ANTEF NEFE PAIF.
É isso aí. Agora, vamos ao IMESS. E viva o socialismo!
UPDATE:
BONECO SIQUEIRINHA - Domingo, às 9 e meia da manhã, na Tarobá! Com patrocínio SERCOMTELLLLLLLL.
BONEQUINHA LETÍCIA SABATELLA - Ecologista e militante em tamanho e forma naturais. E tem uma vantagem sobre a original: É MUDA! Apesar disso, briga com o Ciro Gominhos. Se falhar, é "só batê-la" na parede, que ela volta a funcionar ("só batê-la", Sabatella: entendeu, entendeu? Hein, hein?)
Ser cristão, ser liberal, ser livre
July 02, 2008
Meu pai, o homem que eu mais respeito neste mundo, é agnóstico. E um esquerdista da velha guarda. Não se deixou levar pela conversa de Lula e Gilberto Carvalho, mas continuou na esquerda. Anulou o voto na última eleição presidencial (no primeiro turno, votou em Cristovam Buarque, se não me engano). Mas nunca aceitou o liberalismo; tem uma ojeriza (plenamente justificável) dos que na teoria defendiam o liberalismo econômico, mas na prática apoiavam a ditadura e viviam dos favores estatais. Maluf, entre eles. Com toda razão. Maluf é odioso. Não por acaso, tornou-se aliado de Lula.
Curioso é que o velho, meu pai, tem bastante admiração intelectual por Milton Friedman. Dia desses vou presenteá-lo com algum livro de Ludwig von Mises.
Tenho, é claro, muitos amigos ateus e agnósticos. Talvez sejam maioria. Alguns, inteligentíssimos, muito mais do que eu (não é difícil). Minha irmã é budista; pertence, pois, a uma religião sem Deus. Foi ela que me presenteou com o livro “Jesus de Nazaré”, escrito pelo cardeal Joseph Ratzinger quando ainda não era o papa Bento XVI.
Conciliar liberalismo e cristianismo não é fácil. Primeiro, por um motivo simples: não é fácil ser liberal nem cristão. No Brasil, esse país de cultura estatizada e mentalidade estatizante, o governo está em toda parte. Um liberal autêntico, como Joaquim Nabuco, hora ou outra tem que prestar serviços ao Leviatã estatal. Trabalhamos cinco meses para o governo; só depois começamos a ganhar o nosso suado dinheirinho. E a compensação por tudo isso é ler manchetes sobre a nova escalada inflacionária. (Lula conseguiu. Lula finalmente conseguiu!)
Ser cristão é simples e, ao mesmo tempo, quase impossível. A lei da Nova Aliança é de simples entendimento (“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”) mas tremendamente difícil de seguir na vida diária. Implica o seguinte: imitar o próprio Criador, o próprio YHWH.
Ser cristão e liberal ao mesmo tempo é uma tarefa que provavelmente vai consumir o tempo restante da minha vida. Mas a tensão entre poder temporal e poder religioso é um dos fardos humanos. É uma das razões da nossa existência após a Queda. O que me conforta, mas não acomoda, é identificar raízes comuns entre os preceitos liberais e a doutrina judaico-cristã. Max Weber falou bastante sobre isso. Seria interessantíssimo presenciar uma hipotética conversa de Adam Smith e Tomás de Aquino no Céu. Conversariam sobre um tema que os apaixonava a ambos: o livre-arbítrio.
Quanto ao ateísmo, falo com absoluta tranqüilidade. Fui ateu durante mais ou menos 15 anos. Depois, tornei-me uma espécie de agnóstico. Ao fim, com suavidade e sem grandes abalos, passei a acreditar em YHWH. Hoje a fé me parece tão natural quanto respirar. Ironicamente, acho que desenvolvi a fé no longo período de ateísmo. Porque, afinal de contas, o ateísmo é uma religião. É estar convicto de que Deus não existe numa relação de amor com o homem. Quando terminar de ler “Jesus de Nazaré”, quero ler a primeira encíclica de Bento XVI (dono de uma inteligência e uma erudição invejáveis, e alvo da inveja dos ressentidos esquerdistas da Escatologia da Libertação). O nome da encíclica é uma das afirmações mais impactantes da Bíblia: “Deus caritas est” (Deus é amor). Voltaremos ao assunto. Até porque não existe outro assunto.