
Autor paranaense Miguel Sanches Neto lança “A primeira mulher”. Na obra, ele combina passagens poéticas e tramas do gênero policial
A prosa de Miguel Sanches Neto é como um balcão de bar bem lustrado: a caneca de chope desliza suavemente pela superfície, sem sobressaltos. Combinar fluência e precisão é uma tarefa para escritores profissionais – e Miguel é definitivamente é do ramo. Prolífico, o autor residente em Ponta Grossa acaba de lançar o romance “A primeira mulher” (Record, 336 páginas, R$ 36). Pode não ser a sua melhor obra até hoje – considerando que ele já publicou “Chove sobre minha infância” (memórias) e “Venho de um país obscuro” (poemas) – mas tem qualidades importantes, inclusive a melhor delas: não deixar o leitor adormecer sobre as páginas. “A primeira mulher” é leitura saborosa como um chope bem tirado no final de tarde.
No ano passado, estive na Choperia do Tito, em Ponta Grossa, e esvaziei algumas tulipas na companhia do escritor. Conversamos sobre Alexei Bueno, Ivan Junqueira e Wilson Martins – autores que Miguel conhece pessoalmente, e eu só dos livros. Pois qual não foi minha surpresa ao ver a choperia servindo como cenário para algumas cenas em “A primeira mulher”...
O livro já foi definido pelo autor como um “quase policial”. Um professor universitário, Carlos Eduardo, é procurado por uma ex-amante, Solange, que se tornou deputada e está recebendo ameaças. É o ponto de partida para que o protagonista, na curva perigosa dos 40 anos, repense – e até refaça – a sua vida amorosa, familiar e intelectual.
Em certo trecho do livro, Carlos Eduardo diz ser o “filho de uma biblioteca”. Miguel confirma essa identidade genética com o personagem: “Meu DNA literário só pode ser entendido por meio dos livros que li”.
******
Entrevista com o escritor Miguel Sanches Neto:
“Gosto de escrever livros em que a linguagem seja um assoalho liso”
Paulo Briguet: “A primeira mulher” não é um romance policial puro. Acho que você já o definiu em entrevista como “quase policial”. Você é leitor do gênero? De alguma forma a chamada literatura policial influenciou na criação do romance?
Miguel Sanches Neto: Não sou um grande leitor do gênero policial, mas me interesso por ele enquanto possibilidade de construir enredos precisos. Há uma grande variedade de possíveis na literatura de entretenimento, e acho que a literatura dita séria deve aproveitar todo este material. Confesso, no entanto, que o policial só me interessa neste nível mais literário, e não sou um seguidor do gênero.
Como você situa “A primeira mulher” na sua obra ficcional, poética e ensaística?
Sanches Neto: É um romance que funciona como súmula. Eu coloquei neste livro elementos do ensaio, tanto que um crítico já o chamou de romance filosófico. Carlos Eduardo dá opiniões sobre literatura, magistério, política, culinária etc. Por outro lado, há também o poema que aparece incrustado na narrativa, e que foi escrito e pensado como uma peça independente. Algumas das histórias podem funcionar como contos. De tal forma, que este é um livro que, mesmo sendo diferente dos demais que escrevi, retoma várias questões que foram tratadas antes. O tema central continua sendo a idéia de retorno, a trajetória do filho pródigo, que já apareceu em outros livros meus.
Flaubert às vezes passava vários dias “empacado” na escolha de uma única palavra. Seu livro parece ter sido escrito de outra maneira, “ao correr da pena”. É isso mesmo? Como e quando a obra foi escrita?
Sanches Neto: Não tenho crises de criação diante da tela em branco do computador, porque só escrevo quando sei para onde a história vai, e escrevo com a linguagem que possuo, então nada me falta quando me decido por produzir algo. Escrevo numa compulsão erótica, o que não me deixar esfriar nunca diante de algo que estou tentando entender pela ficção. Se esfrio, não sei retomar. Escrever é como estar apaixonado, um permanente queimar. Depois da escrita, esta inundação criativa, eu tenho que trabalhar com o material cheio de imperfeições. É aí que aparecem as dificuldades. Limpar o pântano do texto. É um trabalho lento, minucioso, e infinito. Leio dezenas de vezes o livro neste período, algumas delas em voz alta, para mim mesmo, dramatizando a história, tal como fazia o próprio Flaubert, um método que aprendi com o Luiz Vilela. Gosto de escrever livros em que a linguagem seja um assoalho liso, sem o menor obstáculo para o leitor. Tenho um trabalho imenso para que a linguagem não sobressaia no livro, pois ela é só meio, o que me interessa é despertar a emotividade do leitor.
É possível estabelecer algum tipo de relação entre a poesia e a prosa sem que se perca o melhor dos dois gêneros?
Sanches Neto: Gêneros híbridos são maiores do que os gêneros puros. Mas cada um dos gêneros, ao se somar ao outro, sempre perde parte de sua força. Não dá para ser diferente. E nem faz sentido ser. Um exemplo, trabalho agora num livro de poemas declaradamente prosaicos, e é visível que estes poemas perderam algo de sua poesia, mas ganharam muito de narração, o que atende ao meu desejo de fazer uma poesia mais próxima da sensibilidade do leitor comum. Agora, não acho que se perde o melhor, perde-se o mais visível, os traços mais salientes, mas isso nem sempre é o melhor.
O Cântico dos Cânticos, um dos mais bonitos e misteriosos livros da Bíblia, ganha no livro versão profana Jardim em Chamas. Esses diálogos poéticos são anteriores ao livro ou foram escritos especialmente para ele?
Sanches Neto: São anteriores. Estão dentro deste meu projeto poético de escrever uma poesia próxima da prosa, que possa se comunicar com o leitor, que não seja vista como uma barreira. Claro, é uma versão avessa ao velho lirismo, que tenta traduzir para uma linguagem mais contemporânea toda a riqueza do poema. Mas ele não tem uma presença gratuita dentro do romance, antes funciona como uma metáfora da busca amorosa do narrador, que nunca encontra a amada, embora esteja ao lado dela, e de outras. E também tem uma função dentro do enredo policial.
A relação de Carlos Eduardo com Ilda lembra muito a de Mersault com a mãe, em “O Estrangeiro”, de Camus? Essa similaridade é consciente?
Sanches Neto: Não é consciente, mas este livro me marcou muito e somos sempre frutos de nossas leituras. Há apenas uma mudança no final, pois a relação mãe e filho sofre uma positivação que no livro do Camus é impossível. O que eu quis fazer no romance é mostrar como nos afastamos dos conceitos de família e, ao mesmo tempo, como vivemos saudosos dele.
A certa altura, Carlos Eduardo diz que é “filho de uma biblioteca”. Não seria uma boa definição para escritor?
Sanches Neto: Sim, é a minha própria definição, pois sou filho de uma biblioteca. O meu DNA literário só pode ser entendido por meio dos livros que li, por isso todos os livros lidos na minha biblioteca trazem a data da leitura e o local em que foram lidos. Um dia, quem sabe, algum pesquisador curioso, sem nada mais interessante para fazer, vai poder rastrear minhas leituras, propondo teorias de influência para determinar meus antepassados literários.
A bela cena da casa abandonada, quando Carlos encontra Pedro, me lembrou passagens de Norman Mailer (“Homem que é homem não dança”) e Philip Roth (“O teatro de Sabbath”). Você admite essas influências colaterais ou elas são apenas especulações do leitor?
Sanches Neto: Não li nenhum destes dois livros, e a cena me veio de um episódio autobiográfico e de uma notícia de jornal. Numa matéria qualquer, vi a foto de uma casa habitada por uma senhora que juntava todo tipo de lixo e não descartava nada. Era uma versão do inferno moderno. Depois, fui visitar a casa da Cecília Meireles no Rio de Janeiro, uma casa que tinha ficado abandonada por anos, e que ainda guardava os móveis e os livros da poeta no meio do lixo acumulado. Foi um choque esta visita, e a casa de Pedro, em boa medida, é uma versão da casa da Cecília.