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Até o último minuto

Ráááááááá!

Você não precisa ter medo. Estarei ao seu lado até o último minuto da minha vida. Não sei quando esse minuto acontecerá; pode ser daqui a uma hora, pode ser daqui a 50 anos. Não sei o tempo, só sei o lugar: ao seu lado.
E não farei isso só porque prometi ao padre; não farei nisso porque é meu dever, ainda que ele exista; não farei isso por amor, ainda que ele seja incomensurável; farei isso porque não existe outro caminho. Partir longe de você está fora de questão.
Desculpe, mas agora terei que usar o bordão de Sérgio Mallandro: “Você tá triste? Não fique triste!” Não acho muita graça no Mallandro, mas admiro essa conexão imediata, quase xamânica, entre a melancolia e a felicidade. Você tá triste? Não fique triste!
E se digo com todas as palavras – até o último minuto da minha vida – é porque certamente você vai viver algum tempo depois de mim. Fique sossegada; estou bem; nunca me senti tão bem. Respiro, como, bebo, durmo, trabalho. Só precisaria caminhar mais um pouco.
Não fique triste quando eu partir. No dia em que isso acontecer, basta me procurar nos esconderijos da natureza, nos quintais abandonados, nas churrasqueiras, nas casas do outro lado da rua, no mínimo arbusto, no cachorro sem-noção. Você então lembrará que nasci pouco depois do ocaso, e nessa hora eu sentia uma combinação de desespero e tranqüilidade, de distância e presença, de pensamento e intuição. Você lembrará que, no final de uma tarde, eu pensei que todas as coisas visíveis e invisíveis, absolutamente todas, sem tirar nenhuma, estavam presentes no minuto da Criação. Aquela árvore é filha da primeira árvore. Aquela pedra é filha da primeira pedra. Aquela nuvem é filha da primeira nuvem. A sua sombra é filha da primeira sombra. O coração do homem desconhecido que cruzou a rua é filho do primeiro coração. E você é filha da primeira mulher e do primeiro homem, assim como estas palavras são filhas da primeira Palavra.
E se caminho na rua, e se dou uma cochilada no ônibus, e se leio um poema do Bruno Tolentino, e deito a seu lado e durmo, vejo as repúblicas que freqüentei; escuto as músicas dentro da noite; sento-me à beira de um riacho; piso a areia alva e quente de uma praia; desapareço no escuro de uma festa; converso com meu avô; tomo cerveja com meu pai; perco-me nos corredores de uma biblioteca interminável; procuro um livro no sebo; olho para um ipê que nunca mais floriu; ouço os latidos do meu cachorro que morreu há 12 anos e os galos das mais remotas manhãs.
Ouça bem. Estamos presentes, agora, no minuto da Criação. Você tá triste? Não fique triste!

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