“Tu és isto.” Otto Maria Carpeaux citou a frase da sabedoria védica num ensaio sobre
Vidas secas. Nos famélicos descritos por Graciliano Ramos, o crítico Carpeaux viu uma assombrosa identidade com o leitor do romance.
“Tu és isto.” Na peça
O natimorto, o personagem principal repete a frase. Leitor e intérprete de maços de cigarro como cartas de tarô, o Agente considera que o grande inimigo é o mundo.
O personagem – interpretado por Nilton Bicudo – simboliza o medo e o desamparo que, de vez em quando, se apossam de todos nós. “Tu és isto.”
A grande qualidade da peça
O natimorto, sem dúvida, é o texto de Lourenço Mutarelli. Na adaptação para o teatro, Mário Bortolotto respeitou a força do texto e a maestria dos diálogos.
– Por que você riu?
– Não foi nada.
– Nada não é engraçado.
Pelas absurdas conversas entre o Agente e sua musa – uma cantora cuja voz ninguém ouve –, descobrimos algumas coisas que, de tão óbvias, não havíamos percebido. “A vida é uma doença fatal e sexualmente transmissível.” “Aquele bigodão do Nietzsche na verdade é um tapa-banguela.” “Como é que uma pessoa pode levar TOMATES para o teatro?”
Bicudo está bem no papel do Agente. Maria Manuella, uma bela atriz, com uma voz grave e marcante, esbarra em cacoetes. (Aquela sobrancelha levantada seria dispensável.) E a última cena, que se manteria facilmente pelo ótimo texto, virou uma lamentável sessão de gritos. Mas as falhas não escondem a verdade fundamental: “Tu és isto”.