"Ué, Briguet, você veio ver uma peça do Brecht?"
(De um amigo, ontem à noite, na porta do Ouro Verde)
Brecht é foda. No mau sentido.
Várias coisas me irritam nas peças e poemas dele: o didatismo, a contaminação ideológica e o cinismo de fundo materialista. Na maioria das vezes, ele enxerga o homem como um animal desprovido de qualquer moralidade não “dialética”. É curioso como alguns tiranos comunistas da vida real – Lavrenti Beria, Madame Mao, Pol Pot – parecem ter saído de uma peça de Brecht. E digo isso sem entrar na questão do caráter do autor, um sujeito extremamente cioso de sua publicidade pessoal e nem um pouco constrangido ao afanar idéias e obras alheias. Com a abertura dos arquivos comunistas, após a queda do Muro de Berlim, fatos reveladores vieram à tona. Más línguas foram confirmadas por boas biografias. (Ver, por exemplo, o devastador perfil de Brecht em “Os intelectuais”, de Paul Johnson.)
“Mãe Coragem e seus filhos” é a exceção da regra. Eis, de longe, a melhor peça de Brecht – embora Margareth Steffin, sua amante na época, também seja considerada autora do drama.
A montagem da Cia. Armazém, apresentada no Filo, teve o grande mérito de ressaltar as virtudes do texto – notadamente a concisão das cenas e a empatia das personagens femininas – e ao mesmo tempo livrá-lo do ranço ideológico.
A força desta “Mãe Coragem” deriva do absoluto profissionalismo do Armazém. A iluminação e o cenário, mais uma vez, são impressionantes. Mas o coração do espetáculo está no elenco – com destaque para as atrizes londrinenses Simone Mazzer e Patrícia Selonk.
É certo que Simone ainda precisa se acostumar ao papel da protagonista – no Filo, viveu o papel de Mãe Coragem pela primeira vez –, mas a expressividade e a voz da atriz-cantora são nada menos do que fascinantes. E a Kattrin de Patrícia Selonk é simplesmente um espetáculo à parte. Sem uma palavra, ela diz mais em duas horas de peça do que tantas atrizes desmioladas (convertidas em porta-vozes políticos) disseram nas últimas duas décadas.
Afirmo, sem muitas chances de errar, que Patrícia Selonk é a melhor atriz em atividade no Brasil.