É, meu amigo, a vida deveria ser mais simples.
Vou dar um exemplo. Quando faltasse grana, alguém pararia a gente na rua:
– Tá precisando de dinheiro?
– Tô.
– Quer ser “praca”?
– Ganha mais que garçom?
– Ganha.
– Então eu topo.
– Vem comigo. O emprego é teu.
Depois de um diálogo tão simples, a falta de dinheiro estaria resolvida. Você ganharia uma boa bolada só de carregar uma “praca” publicitária.
Mas isso só acontece em Londres. Aqui em Londrina, só param a gente na rua por outro motivo.
– Tá precisando de dinheiro?
– Tô.
– Então vem fazer um empréstimo aqui na financeira.
O mundo é complicado. Principalmente se você mora em Londrina, não em Londres.
Hoje é um dia triste para você, meu amigo. A aliança não está mais na sua mão esquerda. Se você pôs a aliança ali – e eu sei bem disso – é porque pretendia ficar com ela a vida inteira. Não é por acaso que o coração fica do mesmo lado. Já passamos da idade de brincar com essas coisas.
Não deu certo. Fazer o quê? Talvez os budistas tenham razão: o segredo da felicidade é a eliminação de todos os desejos.
E o mais chato dessa história de separar devem ser os pequenos problemas. Contas conjuntas, financiamentos, contratos, aluguéis... Os móveis que vão, os móveis que ficam. O disco do Pixinguinha, o livro do Neruda.
E os amigos? E os parentes? E aquele pentelho que insiste em dizer: “Vocês ainda vão voltar, eu tenho certeza!”
Dói? Dói. Faz tempo que eu não sinto isso, e pretendo nunca mais sentir (meu casório vai muito bem, obrigado, tirei a sorte grande), mas é uma dor lascada e parece que não acaba. Comparável, só a dor de dente. Dor de separação é como se alma tivesse cárie.
A boa notícia é que passa, meu amigo. Desculpe o gilberto-gilismo, mas terei de falar: a dor passa, “ou não”.
A dor passa na gente da mesma forma que a gente passa numa rua. Esta nunca mais será igual. Mas, na memória, é a mesma rua para sempre. A aliança que você não usa mais continuará existindo mesmo depois que o sol apagar a marca no dedo. Estará ali e será a mesma; não adianta. Meu pai serviu exército em 1960 – e até hoje sonha que está no quartel. Aliança, rua, quartel – isso tudo é você. Às vezes você vai encontrar quem já foi embora há muito, muito tempo.
Cada vez mais tenho certeza de que amigo serve para isso que acabei de fazer: dizer o óbvio mais óbvio em momentos de crise. Verdade seja dita: o verdadeiro amigo é o rei dos truísmos. Ou não!
Muita paz, irmão.
Eu sei que vai...
Obrigado pelo óbvio. Obrigado por tudo o que você me diz, sempre...
O meu primeiro novo sorriso será entre amigos.