página inicial do tipos

Receba por e-mail os posts de Repórter das Coisas: RSS - Assine os feeds deste blog

Archive for June of 2008

Santos

June 29, 2008
São Longuinho (Longino, Longinus)

“Para aquele que tem fé, nenhum argumento é necessário. Para aquele que não tem fé, nenhum argumento é possível.”
(Tomás de Aquino, santo da Igreja)

“Ter fé é acreditar naquilo que você não vê; a recompensa por essa fé é ver aquilo em que você acredita.”
(Agostinho de Hipona, santo da Igreja)


Quando a gente perdia algum objeto, Maria rezava para São Longuinho. Em poucos minutos, a coisa – chave, carteira, relógio, anel, dinheiro – era encontrada. Maria dava três pulos e três gritos: “Obrigado, São Longuinho! Obrigado, São Longuinho! Obrigado, São Longuinho!”
Resolvi pesquisar sobre São Longuinho. Segundo as mais remotas fontes cristãs, era um militar romano que teria presenciado a crucificação. Com sua lança, ele feriu Jesus embaixo do peito. Do ferimento, saíram água e sangue. Os líquidos espirraram nos olhos do agressor, que se curou de uma grave enfermidade ocular e ali mesmo, aos pés da cruz, testemunhou a divindade de Cristo. Ou seja, Longuinho (ou Longino, cujo nome em grego significa “a lança”) seria o primeiro a ver o que os outros ainda não vêem – daí a sua capacidade de encontrar as coisas perdidas.
Quando alguém se engasgava, Maria batia nas costas da pessoa e invocava: “São Brás!” A tradição diz que São Brás, ao ser levado para o martírio, encontrou na beira da estrada um menino com uma espinha de peixe na garganta. Ele colocou as mãos na garganta do menino e o salvou.
Médico e bispo da igreja, perseguido pelos romanos, Brás certa vez refugiou-se numa caverna, onde os animais selvagens não o atacavam.
Por falar em animais, quando algum cachorro bravo chegava perto e a gente ficava com medo, Maria dizia: “Ai, meu São Roque”. Padroeiro dos inválidos e dos cirurgiões, Roque destacou-se ao tratar doentes da peste negra (por volta do ano de 1348). Quando contraiu a doença, refugiou-se nas montanhas para não contaminar ninguém. Só não morreu de fome porque um cão selvagem o alimentou. Roque se dava bem com animais: daí a invocação de Maria nos momentos de cachorro bravo.
E se as causas eram urgentes ou mesmo impossíveis, Maria chamava Santo Expedito. Esse era um militar corajoso, chefe da 12a Legião Romana, conhecida como A Fulminante. Seu ardor e generosidade eram capazes de resolver os problemas mais difíceis. Quando Expedito iria se batizar, o demônio apareceu na forma de um corvo e gritou: “Crás!” (em latim, “Amanhã!”). Expedito o afastou respondendo: “Hodie!” (“Hoje!”)
Tomás, filho do meu querido amigo Ranulfo Pedreiro, nasceu no domingo, dia 22 de junho – Dia de São Tomás More. O nome foi escolhido por um feliz acaso. Outro santo xará, Tomás de Aquino, era filho de Landulfo. Conta-se que Tomás de Aquino tinha cinco anos de idade quando viu um grupo de monges rezando. Perguntou a eles: “Quem é Deus?”
Tomás passou a vida inteira respondendo a essa questão. E o assunto não terminou até hoje.
Amanhã? Não: Hoje!

Eu, hein!

June 28, 2008

Olhos, não penseis mais.
Do velho Homero
tereis a paz.

Mãos, baixai a guarda.
A noite some:
é madrugada.

Pés, parai agora.
Já chega o tempo
de ir embora.

Voz, não faleis nada.
A melhor frase
se diz calada.

Poema do óbvio

June 27, 2008

Se ousei romper o silêncio,
há um motivo.
Se me levanto no meio da noite,
há um motivo.
Se bebo a água e olho a estrela,
há um motivo
quase imperceptível.

Se um cavalo enlouquece,
há uma causa.
Se uma pedra cai no mar,
há uma causa.
Se um árvore seca e morre,
há uma causa
imperceptível, quase.

Se escrevo este poema,
a causa, o motivo
será dizer
o imperceptível.

Duas palavras

June 27, 2008

Trabalhei por alguns anos com Rogério Fischer na Folha de Londrina. Há jornalistas competentes; há jornalistas trabalhadores; há jornalistas íntegros. É difícil, quase impossível encontrar, no mesmo profissional, os ápices de talento, dedicação e integridade. É o caso de Fischer, colega e mestre.

*****

O prefeito de Londrina, Nedson Micheleti (PT), recebeu ontem o título de “Prefeito Amigo da Criança”, em Brasília. Enquanto isso, observa meu amigo José Antonio Pedriali em seu blog, os conselheiros tutelares da cidade estão a pé por falta de gasolina.

*****

Homofobia... homofobia... Depois a gente fala no assunto, OK?

O macaco tá certo

June 26, 2008


Simony vem a Londrina neste final de semana. Kid Vinil também vem. Simony me faz lembrar o Fofão. Fofão me faz lembrar que ele, o Patropi (de “A Praça é Nossa”) e o Macaco Sócrates (de “O Planeta dos Homens”) eram a mesma pessoa. Orival Pessini, o nome da fera.

*****

Sou contra declarar o MST ilegal, caro Groucho.
Não, não tive uma recaída esquerdista.
Ilegalidade jurídica é o que os “sem”-terra mais querem para justificar suas ações criminosas.
Invasões, destruição de lavouras, vandalismo em institutos de pesquisa, quebra-quebras... tudo isso vai se multiplicar. Embora o pior seja educar a criançada no culto a Che Guevara e Mao Tsé-tung.
A verdadeira – e eficaz – punição contra a máfia maoísta seria cortar o dinheiro da Viúva.
Sem o “dinheiro amigo” do governo, o MST vira fumaça em questão de meses.
Mas isso também não vai acontecer. Então, cana neles! (Não no sentido lulístico.)

O filho pródigo da literatura

June 26, 2008
(Versão integral de matéria e entrevista publicadas no Jornal de Londrina)



Autor paranaense Miguel Sanches Neto lança “A primeira mulher”. Na obra, ele combina passagens poéticas e tramas do gênero policial

A prosa de Miguel Sanches Neto é como um balcão de bar bem lustrado: a caneca de chope desliza suavemente pela superfície, sem sobressaltos. Combinar fluência e precisão é uma tarefa para escritores profissionais – e Miguel é definitivamente é do ramo. Prolífico, o autor residente em Ponta Grossa acaba de lançar o romance “A primeira mulher” (Record, 336 páginas, R$ 36). Pode não ser a sua melhor obra até hoje – considerando que ele já publicou “Chove sobre minha infância” (memórias) e “Venho de um país obscuro” (poemas) – mas tem qualidades importantes, inclusive a melhor delas: não deixar o leitor adormecer sobre as páginas. “A primeira mulher” é leitura saborosa como um chope bem tirado no final de tarde.
No ano passado, estive na Choperia do Tito, em Ponta Grossa, e esvaziei algumas tulipas na companhia do escritor. Conversamos sobre Alexei Bueno, Ivan Junqueira e Wilson Martins – autores que Miguel conhece pessoalmente, e eu só dos livros. Pois qual não foi minha surpresa ao ver a choperia servindo como cenário para algumas cenas em “A primeira mulher”...
O livro já foi definido pelo autor como um “quase policial”. Um professor universitário, Carlos Eduardo, é procurado por uma ex-amante, Solange, que se tornou deputada e está recebendo ameaças. É o ponto de partida para que o protagonista, na curva perigosa dos 40 anos, repense – e até refaça – a sua vida amorosa, familiar e intelectual.
Em certo trecho do livro, Carlos Eduardo diz ser o “filho de uma biblioteca”. Miguel confirma essa identidade genética com o personagem: “Meu DNA literário só pode ser entendido por meio dos livros que li”.
******

Entrevista com o escritor Miguel Sanches Neto:

“Gosto de escrever livros em que a linguagem seja um assoalho liso”

Paulo Briguet: “A primeira mulher” não é um romance policial puro. Acho que você já o definiu em entrevista como “quase policial”. Você é leitor do gênero? De alguma forma a chamada literatura policial influenciou na criação do romance?

Miguel Sanches Neto:
Não sou um grande leitor do gênero policial, mas me interesso por ele enquanto possibilidade de construir enredos precisos. Há uma grande variedade de possíveis na literatura de entretenimento, e acho que a literatura dita séria deve aproveitar todo este material. Confesso, no entanto, que o policial só me interessa neste nível mais literário, e não sou um seguidor do gênero.

Como você situa “A primeira mulher” na sua obra ficcional, poética e ensaística?

Sanches Neto:
É um romance que funciona como súmula. Eu coloquei neste livro elementos do ensaio, tanto que um crítico já o chamou de romance filosófico. Carlos Eduardo dá opiniões sobre literatura, magistério, política, culinária etc. Por outro lado, há também o poema que aparece incrustado na narrativa, e que foi escrito e pensado como uma peça independente. Algumas das histórias podem funcionar como contos. De tal forma, que este é um livro que, mesmo sendo diferente dos demais que escrevi, retoma várias questões que foram tratadas antes. O tema central continua sendo a idéia de retorno, a trajetória do filho pródigo, que já apareceu em outros livros meus.

Flaubert às vezes passava vários dias “empacado” na escolha de uma única palavra. Seu livro parece ter sido escrito de outra maneira, “ao correr da pena”. É isso mesmo? Como e quando a obra foi escrita?

Sanches Neto:
Não tenho crises de criação diante da tela em branco do computador, porque só escrevo quando sei para onde a história vai, e escrevo com a linguagem que possuo, então nada me falta quando me decido por produzir algo. Escrevo numa compulsão erótica, o que não me deixar esfriar nunca diante de algo que estou tentando entender pela ficção. Se esfrio, não sei retomar. Escrever é como estar apaixonado, um permanente queimar. Depois da escrita, esta inundação criativa, eu tenho que trabalhar com o material cheio de imperfeições. É aí que aparecem as dificuldades. Limpar o pântano do texto. É um trabalho lento, minucioso, e infinito. Leio dezenas de vezes o livro neste período, algumas delas em voz alta, para mim mesmo, dramatizando a história, tal como fazia o próprio Flaubert, um método que aprendi com o Luiz Vilela. Gosto de escrever livros em que a linguagem seja um assoalho liso, sem o menor obstáculo para o leitor. Tenho um trabalho imenso para que a linguagem não sobressaia no livro, pois ela é só meio, o que me interessa é despertar a emotividade do leitor.

É possível estabelecer algum tipo de relação entre a poesia e a prosa sem que se perca o melhor dos dois gêneros?

Sanches Neto:
Gêneros híbridos são maiores do que os gêneros puros. Mas cada um dos gêneros, ao se somar ao outro, sempre perde parte de sua força. Não dá para ser diferente. E nem faz sentido ser. Um exemplo, trabalho agora num livro de poemas declaradamente prosaicos, e é visível que estes poemas perderam algo de sua poesia, mas ganharam muito de narração, o que atende ao meu desejo de fazer uma poesia mais próxima da sensibilidade do leitor comum. Agora, não acho que se perde o melhor, perde-se o mais visível, os traços mais salientes, mas isso nem sempre é o melhor.

O Cântico dos Cânticos, um dos mais bonitos e misteriosos livros da Bíblia, ganha no livro versão profana Jardim em Chamas. Esses diálogos poéticos são anteriores ao livro ou foram escritos especialmente para ele?

Sanches Neto:
São anteriores. Estão dentro deste meu projeto poético de escrever uma poesia próxima da prosa, que possa se comunicar com o leitor, que não seja vista como uma barreira. Claro, é uma versão avessa ao velho lirismo, que tenta traduzir para uma linguagem mais contemporânea toda a riqueza do poema. Mas ele não tem uma presença gratuita dentro do romance, antes funciona como uma metáfora da busca amorosa do narrador, que nunca encontra a amada, embora esteja ao lado dela, e de outras. E também tem uma função dentro do enredo policial.

A relação de Carlos Eduardo com Ilda lembra muito a de Mersault com a mãe, em “O Estrangeiro”, de Camus? Essa similaridade é consciente?

Sanches Neto:
Não é consciente, mas este livro me marcou muito e somos sempre frutos de nossas leituras. Há apenas uma mudança no final, pois a relação mãe e filho sofre uma positivação que no livro do Camus é impossível. O que eu quis fazer no romance é mostrar como nos afastamos dos conceitos de família e, ao mesmo tempo, como vivemos saudosos dele.

A certa altura, Carlos Eduardo diz que é “filho de uma biblioteca”. Não seria uma boa definição para escritor?

Sanches Neto:
Sim, é a minha própria definição, pois sou filho de uma biblioteca. O meu DNA literário só pode ser entendido por meio dos livros que li, por isso todos os livros lidos na minha biblioteca trazem a data da leitura e o local em que foram lidos. Um dia, quem sabe, algum pesquisador curioso, sem nada mais interessante para fazer, vai poder rastrear minhas leituras, propondo teorias de influência para determinar meus antepassados literários.

A bela cena da casa abandonada, quando Carlos encontra Pedro, me lembrou passagens de Norman Mailer (“Homem que é homem não dança”) e Philip Roth (“O teatro de Sabbath”). Você admite essas influências colaterais ou elas são apenas especulações do leitor?

Sanches Neto:
Não li nenhum destes dois livros, e a cena me veio de um episódio autobiográfico e de uma notícia de jornal. Numa matéria qualquer, vi a foto de uma casa habitada por uma senhora que juntava todo tipo de lixo e não descartava nada. Era uma versão do inferno moderno. Depois, fui visitar a casa da Cecília Meireles no Rio de Janeiro, uma casa que tinha ficado abandonada por anos, e que ainda guardava os móveis e os livros da poeta no meio do lixo acumulado. Foi um choque esta visita, e a casa de Pedro, em boa medida, é uma versão da casa da Cecília.


Ruth Vilaça Correia Leite Cardoso (1930-2008)

June 25, 2008
RIP

Lamento.

Privatizar já!

June 24, 2008
Um dia eles vão me entender...

Mais um excelente artigo no site Ordem Livre.
Desta vez, o professor Alexandre Barros faz uma lúcida avaliação sobre a economia brasileira.
A seguir, dois trechos, só para degustação:

Bem-vindos ao Brasil novo, em que o pobres ficaram ricos e o governo não aprendeu que tudo o que deu certo foi resultado do capitalismo. Mas, ainda assim, não acredita no que vê a ainda acha que o estatismo vai dar certo.

(...)

Os setores que menos nós tiveram foram os privatizados mais cedo: telefonia, mineração, indústria aeronáutica, indústria automobilística e rodovias (só as privatizadas). Os nós foram maiores e mais embaraçados nos setores em que o Estado não só permaneceu, como pouco ou nada fez: saúde, educação pública, transportes urbanos, rodovias não-privatizadas, transporte aéreo e infra-estrutura.


(...)

Leia o texto completo aqui.

Quem?

June 23, 2008
Catedral de Rouen, série de Claude Monet

(Para Tomás, filho do meu amigo)

Quem acendeu o Sol?
Quem esculpiu a Lua?
Quem assoprou o vento
que bate frio na rua?

Quem é que salgou o mar?
Quem agendou as marés,
que ora nos deixam secos
e ora nos molham os pés?

Quem amassou a montanha?
Quem é que tingiu a amora?
Quem construiu o dia
com um punhado de horas?

Quem escreveu o verbo,
o nome e a preposição?
Quem ficou em silêncio
contemplando a criação?

Quem não fecha os olhos
mesmo por um segundo
– cujo trabalho pesado
é carregar o mundo?

Quem é que molhou a chuva?
Quem contou os teus cabelos?
Quem adoçou a uva?
Quem escutou teus apelos?
Quem rimou estes versos
antes mesmo de lê-los?

Da Terra, quem fez o norte?
Da guerra, quem fez a paz?
Quem fez morrer a morte?
Quem fez nascer o Tomás?

*****

Acorda aquele que ama. E com ele acorda o mundo. Menos um silêncio na manhã: aquele que ama acordou. É dia.
Acorda aquele que ama. E com ele acordam as memórias temíveis, o refluxo dos pensamentos, os pedaços de sonho, as primeiras horas do tempo.
Aquele que ama já estava acordado. Ele é uma vigília constante. Deita-se, mas não dorme nunca. Finge. Ou melhor: silencia. Durante a madrugada, vigiou nosso sono.
Todos acordam quando aquele que ama já acordou. Eis o milagre da manhã. O Sol é uma fornalha atômica. Aquele que ama é tão maior do que o Sol.

Canção do coração

June 21, 2008

Toda minha vida
trabalhei a esmo,
como um farol
noite inteira aceso
sem achar resgate
no cais do relento.

Nas horas de calma,
nas de desespero,
fui a tua alma
e o teu corpo inteiro.
A cada segundo
eu batia à porta,
conduzindo o mundo
pela tua aorta.
(Assim fiz o fundo
de tua vida torta.)

Se amor e trabalho
fazem tua essência,
fui o teu milagre,
fui tua ciência.
Amei, trabalhei,
como a pedra cala,
como o homem pensa.
Só trabalha e ama
quem dentro da carne
bate e não reclama,
pura conseqüência.

Para tua lavra
Deus por sorte fez-me
- e, se fui escravo,
fora de mim mesmo.

Até o último minuto

June 20, 2008
Ráááááááá!

Você não precisa ter medo. Estarei ao seu lado até o último minuto da minha vida. Não sei quando esse minuto acontecerá; pode ser daqui a uma hora, pode ser daqui a 50 anos. Não sei o tempo, só sei o lugar: ao seu lado.
E não farei isso só porque prometi ao padre; não farei nisso porque é meu dever, ainda que ele exista; não farei isso por amor, ainda que ele seja incomensurável; farei isso porque não existe outro caminho. Partir longe de você está fora de questão.
Desculpe, mas agora terei que usar o bordão de Sérgio Mallandro: “Você tá triste? Não fique triste!” Não acho muita graça no Mallandro, mas admiro essa conexão imediata, quase xamânica, entre a melancolia e a felicidade. Você tá triste? Não fique triste!
E se digo com todas as palavras – até o último minuto da minha vida – é porque certamente você vai viver algum tempo depois de mim. Fique sossegada; estou bem; nunca me senti tão bem. Respiro, como, bebo, durmo, trabalho. Só precisaria caminhar mais um pouco.
Não fique triste quando eu partir. No dia em que isso acontecer, basta me procurar nos esconderijos da natureza, nos quintais abandonados, nas churrasqueiras, nas casas do outro lado da rua, no mínimo arbusto, no cachorro sem-noção. Você então lembrará que nasci pouco depois do ocaso, e nessa hora eu sentia uma combinação de desespero e tranqüilidade, de distância e presença, de pensamento e intuição. Você lembrará que, no final de uma tarde, eu pensei que todas as coisas visíveis e invisíveis, absolutamente todas, sem tirar nenhuma, estavam presentes no minuto da Criação. Aquela árvore é filha da primeira árvore. Aquela pedra é filha da primeira pedra. Aquela nuvem é filha da primeira nuvem. A sua sombra é filha da primeira sombra. O coração do homem desconhecido que cruzou a rua é filho do primeiro coração. E você é filha da primeira mulher e do primeiro homem, assim como estas palavras são filhas da primeira Palavra.
E se caminho na rua, e se dou uma cochilada no ônibus, e se leio um poema do Bruno Tolentino, e deito a seu lado e durmo, vejo as repúblicas que freqüentei; escuto as músicas dentro da noite; sento-me à beira de um riacho; piso a areia alva e quente de uma praia; desapareço no escuro de uma festa; converso com meu avô; tomo cerveja com meu pai; perco-me nos corredores de uma biblioteca interminável; procuro um livro no sebo; olho para um ipê que nunca mais floriu; ouço os latidos do meu cachorro que morreu há 12 anos e os galos das mais remotas manhãs.
Ouça bem. Estamos presentes, agora, no minuto da Criação. Você tá triste? Não fique triste!

Kataí tu kitukitakô no chão!

June 19, 2008
null

A melhor frase do Imin-100 (de um comunicador local):

"Levamos um século para chegar ao centenário da imigração".

Pensando bem, até que ficou bonito, não acham?

Terzina solitária

June 18, 2008

Todos dizem tudo bem.
Se soubessem o que dizem,
não diriam a ninguém.

Sonho e pesadelo

June 17, 2008
Francisco de Goya - "O sono da razão produz monstros"

Um dos meus defeitos é a memória. Digo defeito porque acabo me lembrando de algumas coisas que não deveria. Por exemplo, eu lembro perfeitamente que, há dez anos, A. e A. foram aliados.
A. apoiou A., que ajudou A. (Ajudou também P., que hoje ocupa posições mais altas. Todas as letras estão no caderninho.)
Hoje A. e A. são adversários. Inimigos. Brigam pelo comando da vila.
Curioso. A. é o adversário dos sonhos de A.; e A. é o adversário dos sonhos de A. Embora A. e A. estejam em lados opostos, A. sonha com A., e A. sonha com A. Nosso pesadelo é ter escolher entre A. e A.
Mas eu já me decidi. Se as únicas opções restantes forem o A. e o A., eu escolho Ninguém. Ninguém é uma alternativa bem melhor que os dois ex-aliados e atuais inimigos. Em alguns casos – e aprendi isso da pior forma – não há menos pior. Não me permitirei escolher entre duas letras do mesmo saco.
A. já mostrou do que é capaz por três vezes. Só mesmo o masoquismo ou a burrice ou a amnésia podem justificar a escolha de alguém que já teve a chance – não uma, mas duas – de melhorar e só piorou. Se você quiser ser burro ou masoquista, fique à vontade. Mas, amnésico, você não vai ser. Estou aqui para lembrar – talvez seja a minha única serventia.
Também estou aqui para lembrar que a turma do A. comanda não apenas a vila, mas a corte. E Deus sabe o que a corte e a vila têm sofrido nos últimos tempos.
Jacó teve que trabalhar por 14 anos para se casar com Raquel. Os habitantes da vila já ultrapassaram a abnegação e o amor de Jacó: há 20 anos, oscilam entre os camaradas de A. e os companheiros de A. Pobres moradores da vila! Saltam do fogo para a frigideira, da frigideira para o fogo. Vão repetir o processo?
Longos 20 anos. Isso é maior que uma pena de prisão por homicídio qualificado. Chega! Basta! Não mais!
Mas eu sei que A. e A. não vão desistir. Podem cair tempestades, escândalos e canivetes abertos. Eles vão persistir até o fim, contando com a nossa condescendência ou amnésia. Sonham com a mesma coisa todos os dias e todas as noites.
A. e A. não desistem de seus sonhos. Estão mais ativos do que nunca. Para evitar o pesadelo, é preciso que a vila desista deles. Porque não há mais parecido com A. do que A.
Ah!

À espera de YHWH

June 16, 2008
null

O que estou fazendo? Nada.
Espero a hora de encontrar YHWH.
Todos os passos, minha caminhada
rumam ao espaço de encontrar YHWH.

Os planetas, os mortos amigos,
os desconhecidos,
as rimas, os rumos, os ritos
aguardam tempo de encontrar YHWH.

Ninguém jamais viu YHWH.
Nem mesmo o nome foi pronunciado.
YWH, no tédio, na angústia do Getsêmani
deu ordem à luz – e tudo foi criado.

Mais velho que Lear,
mais cego que Édipo,
mais surdo que Ludwig,
mais louco que Nero
– eu sigo. Sigo para YHWH.

O que estou fazendo? Vivo.
Com esperança, amor e fé,
cantarei contra o oblívio,
anseio a hora de entender YHWH.

Modesta proposta

June 13, 2008

O Ministério Público de Londrina acaba de pedir o afastamento de quatro vereadores: Sidney de Souza (PTB), Gláudio de Lima (PT), Luiz Carlos Tamarozzi (PTB) e Jamil Janene (PMDB).
Eles são acusados de receber propina para votação de um projeto.
Sidney de Souza é presidente da Câmara de Londrina.
Gláudio de Lima é líder do prefeito Nedson Micheleti (PT).
Luiz Carlos Tamarozzi é corregedor da Casa.
Jamil Janene é peixe pequeno.
Minha modesta proposta é a seguinte: fechar a Câmara e a Prefeitura. Até ano que vem.

Imperdível

June 13, 2008
Magistral o resumo do caso Varig feito pela jornalista Janaína Leite em seu blog. Leiam aqui. Maurício Teixeira, Celso Daniel, Nenê Constantino, Gilberto Carvalho e, claro, Lula estão entre os personagens.

O que é mais assombroso: não se trata de uma obra de ficção.

Sin City dos pobres (e Chico César detonou o Curintia)

June 12, 2008
Agora eu vou tocar um frevo!

Agora eu entendi por que a peça Chapa Quente não foi incluída, a princípio, no Filo 2008. O diretor Mário Bortolotto estaria muito bem representado com O Natimorto, apesar das falhas da montagem. Chapa Quente, apresentada na noite de terça-feira, é de uma tosquice quase inacreditável – um espetáculo que nada acrescenta ao currículo de Bortolotto, a não ser um grande equívoco.
O maior problema na mistura de linguagens é acabar não falando nada com nada. Foi justamente o que aconteceu em Chapa Quente, com a tentativa de levar ao palco as histórias em quadrinhos de André Kitagawa.
Solidão, morte, violência, marginalidade, desespero, sordidez – sabemos que esses temas sempre estiveram nas peças de Bortolotto. Muitas vezes dá certo, principalmente quando o dramaturgo acerta a mão nos diálogos bem-humorados, na agilidade das cenas e numa quase indisfarçável revolta moral (quase; pois ocultar a moralidade faz parte do estilo – e do figurino – de Bortolotto).
Foi um samba do crioulo doido no palco do Ouro Verde. Enquanto desenhos de Kitagawa eram projetados numa tela, um elenco brancaleônico despejava falas, e às vezes outros resíduos, por todos os lados. Não faltaram a maconha, os palavrões e os revólveres. Nenhum problema em incluir esses elementos – mas e a história? O gato comeu.
Virou Sin City dos pobres. Tarantino de quinta. E há poucas coisas piores do que um sub-Tarantino.
O triste é que eu fui ao Ouro Verde com boas expectativas. Desde 1986, quando vi pela primeira vez um espetáculo de Mário Bortolotto, tive ótimas surpresas. Como esquecer Nossa vida não vale um Chevrolet? Como negar a força de A frente fria que a chuva traz? Como ignorar Homens, santos e desertores? São grandes momentos. Esperávamos mais um. Não deu. Que pena.
Isso nos leva a uma questão importante. Afinal, quem é Bortolotto? Como defini-lo? É um ator, um diretor, um dramaturgo, um poeta, um cantor? Penso que, antes de tudo, o seu talento está no texto. O homem é escritor; um bom escritor de textos para teatro. Quando ele não escreve, ou apenas adapta o trabalho de terceiros, pode virar Chapa quente. E aí é fria.
Apesar de tudo, dei muita risada. Um dos atores é sósia perfeito do chef Taíco, aqui de Londrina. E a cena da personagem Josefa, com direito a lesco-lesco no chão, me fez lembrar aqueles shows de talentos de final de ano.
Que o Cemitério de Automóveis volte sempre. Mas, no próximo Filo, esperamos um Mário Bortolotto de melhor safra.

(Publicado no Jornal de Londrina)

*****

Apesar do chororô, o Corinthians perdeu porque jogou como time pequeno. E convenhamos: corintiano reclamar de arbitragem é a mesma coisa que marxista-leninista apontar as falhas da democracia americana.

*****

De qualquer forma, o buzinaço e os rojões de ontem à noite provam que a maior torcida do Brasil continua sendo a anticorintiana. A humilhação maior foi perder o título para o Chico César.

*****

Sex and the city, o filme, é tão divertido quanto o seriado. Charlotte quer dizer uma frase bem maldosa ao Mr. Big, que abandonou Carrie no altar. Pensa na seguinte: "Amaldiçoado seja o dia em que você nasceu".
O zaroio Camões já havia pensado nisso meio milênio atrás - mas o destinatário não era Mr. Big, era ele próprio:

O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.

A luz lhe falte, O Sol se escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!


*****

Corintianos mais exaltados podem se identificar...


null



O urubu tá com raiva do boi

June 11, 2008
Vô batê pa tu batê pa tua patota!

Há quem me chame de urubu (por conta de minhas previsões meio pessimistas). Mas vejam isto:

Inflação em maio é maior desde 1996.

Faz lembrar a seguinte canção de Baiano e os Novos Caetanos:

Urubu tá com raiva do boi,
E eu já sei que ele tem razão
É que o urubu tá querendo comer
Mais o boi não quer morrer
Não tem alimentação

O mosquito é engolido pelo sapo,
O sapo a cobra lhe devora.

Mas o urubu não pode devorar o boi:
Todo dia chora, todo dia chora.

Tu és isto

June 10, 2008
Nilton Bicudo e Maria Manuella


“Tu és isto.” Otto Maria Carpeaux citou a frase da sabedoria védica num ensaio sobre Vidas secas. Nos famélicos descritos por Graciliano Ramos, o crítico Carpeaux viu uma assombrosa identidade com o leitor do romance.
“Tu és isto.” Na peça O natimorto, o personagem principal repete a frase. Leitor e intérprete de maços de cigarro como cartas de tarô, o Agente considera que o grande inimigo é o mundo.
O personagem – interpretado por Nilton Bicudo – simboliza o medo e o desamparo que, de vez em quando, se apossam de todos nós. “Tu és isto.”
A grande qualidade da peça O natimorto, sem dúvida, é o texto de Lourenço Mutarelli. Na adaptação para o teatro, Mário Bortolotto respeitou a força do texto e a maestria dos diálogos.
– Por que você riu?
– Não foi nada.
– Nada não é engraçado.

Pelas absurdas conversas entre o Agente e sua musa – uma cantora cuja voz ninguém ouve –, descobrimos algumas coisas que, de tão óbvias, não havíamos percebido. “A vida é uma doença fatal e sexualmente transmissível.” “Aquele bigodão do Nietzsche na verdade é um tapa-banguela.” “Como é que uma pessoa pode levar TOMATES para o teatro?”
Bicudo está bem no papel do Agente. Maria Manuella, uma bela atriz, com uma voz grave e marcante, esbarra em cacoetes. (Aquela sobrancelha levantada seria dispensável.) E a última cena, que se manteria facilmente pelo ótimo texto, virou uma lamentável sessão de gritos. Mas as falhas não escondem a verdade fundamental: “Tu és isto”.

Sem palavras

June 09, 2008
Não contavam com minha astúcia!

"Ué, Briguet, você veio ver uma peça do Brecht?"
(De um amigo, ontem à noite, na porta do Ouro Verde)


Brecht é foda. No mau sentido.
Várias coisas me irritam nas peças e poemas dele: o didatismo, a contaminação ideológica e o cinismo de fundo materialista. Na maioria das vezes, ele enxerga o homem como um animal desprovido de qualquer moralidade não “dialética”. É curioso como alguns tiranos comunistas da vida real – Lavrenti Beria, Madame Mao, Pol Pot – parecem ter saído de uma peça de Brecht. E digo isso sem entrar na questão do caráter do autor, um sujeito extremamente cioso de sua publicidade pessoal e nem um pouco constrangido ao afanar idéias e obras alheias. Com a abertura dos arquivos comunistas, após a queda do Muro de Berlim, fatos reveladores vieram à tona. Más línguas foram confirmadas por boas biografias. (Ver, por exemplo, o devastador perfil de Brecht em “Os intelectuais”, de Paul Johnson.)
“Mãe Coragem e seus filhos” é a exceção da regra. Eis, de longe, a melhor peça de Brecht – embora Margareth Steffin, sua amante na época, também seja considerada autora do drama.
A montagem da Cia. Armazém, apresentada no Filo, teve o grande mérito de ressaltar as virtudes do texto – notadamente a concisão das cenas e a empatia das personagens femininas – e ao mesmo tempo livrá-lo do ranço ideológico.
A força desta “Mãe Coragem” deriva do absoluto profissionalismo do Armazém. A iluminação e o cenário, mais uma vez, são impressionantes. Mas o coração do espetáculo está no elenco – com destaque para as atrizes londrinenses Simone Mazzer e Patrícia Selonk.
É certo que Simone ainda precisa se acostumar ao papel da protagonista – no Filo, viveu o papel de Mãe Coragem pela primeira vez –, mas a expressividade e a voz da atriz-cantora são nada menos do que fascinantes. E a Kattrin de Patrícia Selonk é simplesmente um espetáculo à parte. Sem uma palavra, ela diz mais em duas horas de peça do que tantas atrizes desmioladas (convertidas em porta-vozes políticos) disseram nas últimas duas décadas.
Afirmo, sem muitas chances de errar, que Patrícia Selonk é a melhor atriz em atividade no Brasil.

Verdade seja dita

June 05, 2008
null

É, meu amigo, a vida deveria ser mais simples.
Vou dar um exemplo. Quando faltasse grana, alguém pararia a gente na rua:
– Tá precisando de dinheiro?
– Tô.
– Quer ser “praca”?
– Ganha mais que garçom?
– Ganha.
– Então eu topo.
– Vem comigo. O emprego é teu.
Depois de um diálogo tão simples, a falta de dinheiro estaria resolvida. Você ganharia uma boa bolada só de carregar uma “praca” publicitária.
Mas isso só acontece em Londres. Aqui em Londrina, só param a gente na rua por outro motivo.
– Tá precisando de dinheiro?
– Tô.
– Então vem fazer um empréstimo aqui na financeira.
O mundo é complicado. Principalmente se você mora em Londrina, não em Londres.
Hoje é um dia triste para você, meu amigo. A aliança não está mais na sua mão esquerda. Se você pôs a aliança ali – e eu sei bem disso – é porque pretendia ficar com ela a vida inteira. Não é por acaso que o coração fica do mesmo lado. Já passamos da idade de brincar com essas coisas.
Não deu certo. Fazer o quê? Talvez os budistas tenham razão: o segredo da felicidade é a eliminação de todos os desejos.
E o mais chato dessa história de separar devem ser os pequenos problemas. Contas conjuntas, financiamentos, contratos, aluguéis... Os móveis que vão, os móveis que ficam. O disco do Pixinguinha, o livro do Neruda.
E os amigos? E os parentes? E aquele pentelho que insiste em dizer: “Vocês ainda vão voltar, eu tenho certeza!”
Dói? Dói. Faz tempo que eu não sinto isso, e pretendo nunca mais sentir (meu casório vai muito bem, obrigado, tirei a sorte grande), mas é uma dor lascada e parece que não acaba. Comparável, só a dor de dente. Dor de separação é como se alma tivesse cárie.
A boa notícia é que passa, meu amigo. Desculpe o gilberto-gilismo, mas terei de falar: a dor passa, “ou não”.
A dor passa na gente da mesma forma que a gente passa numa rua. Esta nunca mais será igual. Mas, na memória, é a mesma rua para sempre. A aliança que você não usa mais continuará existindo mesmo depois que o sol apagar a marca no dedo. Estará ali e será a mesma; não adianta. Meu pai serviu exército em 1960 – e até hoje sonha que está no quartel. Aliança, rua, quartel – isso tudo é você. Às vezes você vai encontrar quem já foi embora há muito, muito tempo.
Cada vez mais tenho certeza de que amigo serve para isso que acabei de fazer: dizer o óbvio mais óbvio em momentos de crise. Verdade seja dita: o verdadeiro amigo é o rei dos truísmos. Ou não!
Muita paz, irmão.

Rua sem saída

June 05, 2008

Quem diz
que a rua acaba
não sabe:
a rua não tem fim.

Quem diz
que rua é essa
esquece:
a rua vem assim
de longe, do espaço,
e passa,
rapace como um rio.

Quem teme
a vereda
tem medo
da rua principal.

Quem sobe
a avenida
da vida
escolhe bem ou mal.

Às vezes
me esqueço
do começo
deste frio.

É um frio
que vem de longe,
de onde
a vida começou.

É um frio
enregelante
diante
da rua que eu sou.