Repórter das Coisas

Cidade dos mortos

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Agora os velhos ferros
jazem ao ar livre.
Um dia foram zero,
bem antes do declive.

Já foram carros novos
com cheiro agradável
e banco reclinável
(bem antes da desova,
bem antes do descarte,
bem antes do desastre,
oh pobres automóveis).

Mas o que foram antes
esses velhos volantes?
Por onde trafegaram,
que leis então burlaram,
os antigos andantes?

Se antes foram luxo
e símbolos de status,
agora, no refluxo,
habitam com os ratos.

Se antes foram ágeis,
bacanas e bonitos,
hoje são lamentáveis
viveiros de mosquitos.
Objetos de desejo
e alvos de inveja,
agora, ao que vejo,
são autos de comédia.

Oh estes velhos ferros
hoje tão carcomidos.
Num tempo que morreu,
de heróis e de bandidos,
o tolo homem médio
a eles recorreu
para vencer o tédio.
Mas foram esquecidos.

Olhai o que restou
do imenso Dodge Dart.
Tudo nele se parte.
O acelerador parou.
O motor, esse, fundiu.
A um milhão chegou,
hoje não vale mil.

Puminhas, Mavericks,
Passats e Opalas
um dia foram chiques,
modernos, descolados.
Gordinis, Monzas, Kombis,
Polaras, Gols, Brasílias.
Por que essas coisas todas,
tão ricas e tão raras,
ficaram maltrapilhas?

Olhai lírios do campo,
carros em movimento.
Sabei: depois, se tanto,
vão só jazer ao vento.

O vosso espelho
é um eterno
sinal vermelho.

Publicado em 26 de maio de 2008 às 11:08 por briguet

Comentários

    • Você se esqueceu do Niva. Tsc, tsc, tsc...
    • por Jipeiro do leste
    • 26.Mai.2008 às 12:26 - Permalink - Reportar
    Jipeiro do leste
    • Muito bom cara! Parabéns pela poesia! Ficou bem bacana!
      E obrigado pelas informações dadas por e-mail.
      Curto seu trabalho!
      Abraço!
    • por Wilame Prado
    • 26.Mai.2008 às 14:55 - Permalink - Reportar
    Wilame Prado
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"Não contavam com minha astúúúcia!"
(Milton Friedman with lasers)

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