Agora os velhos ferros
jazem ao ar livre.
Um dia foram zero,
bem antes do declive.
Já foram carros novos
com cheiro agradável
e banco reclinável
(bem antes da desova,
bem antes do descarte,
bem antes do desastre,
oh pobres automóveis).
Mas o que foram antes
esses velhos volantes?
Por onde trafegaram,
que leis então burlaram,
os antigos andantes?
Se antes foram luxo
e símbolos de status,
agora, no refluxo,
habitam com os ratos.
Se antes foram ágeis,
bacanas e bonitos,
hoje são lamentáveis
viveiros de mosquitos.
Objetos de desejo
e alvos de inveja,
agora, ao que vejo,
são autos de comédia.
Oh estes velhos ferros
hoje tão carcomidos.
Num tempo que morreu,
de heróis e de bandidos,
o tolo homem médio
a eles recorreu
para vencer o tédio.
Mas foram esquecidos.
Olhai o que restou
do imenso Dodge Dart.
Tudo nele se parte.
O acelerador parou.
O motor, esse, fundiu.
A um milhão chegou,
hoje não vale mil.
Puminhas, Mavericks,
Passats e Opalas
um dia foram chiques,
modernos, descolados.
Gordinis, Monzas, Kombis,
Polaras, Gols, Brasílias.
Por que essas coisas todas,
tão ricas e tão raras,
ficaram maltrapilhas?
Olhai lírios do campo,
carros em movimento.
Sabei: depois, se tanto,
vão só jazer ao vento.
O vosso espelho
é um eterno
sinal vermelho.