
Marcelo nunca estava em casa ao meio-dia. Mas, naquela sexta-feira, pouco antes de tomar um avião para Curitiba, resolveu dar um pulo no apartamento para pegar uma camisa azul. Abriu a porta e, para sua grande surpresa, viu o eletricista sentado no sofá da sala, com uma latinha de cerveja e um guardanapo na mão; ao lado do eletricista, uma jovem mulher, também segurando uma latinha de cerveja.
Pego em flagrante, o eletricista procurou se explicar: “Sabe como é, seo Marcelo, eu fiz uma cópia da chave do apartamento para trocar o fusível, e estava precisando conversar aqui num particular com a minha sobrinha. Desculpa aí.”
Marcelo interrompeu o eletricista com um gesto. Foi até o quarto, abriu o armário, pegou a camisa azul, colocou-a na mochila e pegou um táxi para o aeroporto. O eletricista e a moça já haviam saído. Deixaram as latinhas.
No domingo, por volta das seis da tarde, Marcelo voltou de Curitiba cansado. Tudo que queria era assistir ao Fantástico, tomar um banho e dormir. Mas havia uma reunião do DCE na sala do apartamento. Um dos estudantes, japonês de óculos, disse: “Companheiro Marcelo, você estudou gratuitamente em universidade pública e, portanto, tem uma dívida com o povo. Requisitamos esse espaço para discutir estratégias de ação contra a ação autoritária da reitoria e a privatização do ensino superior.” Marcelo deu de ombros. Tomou um banho e dormiu. Não pôde ver o Fantástico.
Na segunda-feira, Marcelo acordou cedo e foi trabalhar. À tarde, quando chegou em casa, o prefeito dava as boas-vindas para o diretor de um supermercado. O aperto de mão entre os dois homens era fotografado e filmado por uma equipe de assessores. Um deputado aparecia como papagaio de pirata. Antes que Marcelo pudesse fugir para o quarto, um assessor do prefeito cobrou-lhe uma fatura de IPTU atrasado. Marcelo pagou com cheque.
A cerimônia com o prefeito virou festa e avançou pela madrugada, com muita bebida e mulheres. Marcelo dormiu mal; trabalhou o dia seguinte como um autômato. À noite, quando voltou para casa, um homem de boné vermelho o barrou na porta. “Esse apartamento não lhe pertence mais. É improdutivo e neoliberal. Além disso, achamos produtos transgênicos na geladeira. Fora, inimigo do povo!”
Marcelo deu meia-volta e chamou o elevador. A porta automática se abriu; dentro do elevador estava o japonês do DCE. Marcelo deu meia-volta outra vez. Caminhou até a entrada do apartamento. Lembrou-se que ainda tinha a chave. Abriu a porta e viu o eletricista sentado no sofá da sala, com uma latinha de cerveja e um guardanapo na mão; ao lado do eletricista, uma jovem mulher, também segurando uma latinha de cerveja.