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Archive for April of 2008

O grande problema da vida

April 30, 2008



O grande problema da vida é que não posso ligar para o meu avô é convidá-lo para tomar uma cerveja. Seo Briguet morreu quando eu tinha 14 anos; nunca tomei uma cerveja com ele – e ele era do ramo.

Da mesma forma, o grande problema da vida é não poder perguntar à Vó Maria alguns detalhes sobre a vida do meu bisavô Antônio. Ele veio de Portugal com a família, foi deixado no Brasil aos 7 anos de idade, aprendeu a ler sozinho, trabalhou na estrada de ferro Noroeste Paulista.

O grande problema da vida é não poder perguntar à Tia Ruth sobre o tempo em que ela falava espanhol com meu avô António. (Esse era espanhol, não sei se vocês repararam no acento.)

É chato, e um grande problema da vida, não poder convidar o Bonfim para jantar e tomar um chope quando vou a São Paulo. Não contar a ele minhas mais recentes piadas.

Parte complicada da existência é não poder voltar nunca a dormir no apartamento do 22o andar no Bixiga, nem saber que fim levaram a Andréia Loira e o Engels (sim, eu já morei com um cara chamado Engels, e ele não era marxista). Em comparação, ter tentado ler aquele livro do Sergio Paulo Rouanet em 1988 (sim, é o Rouanet que criou a Lei Rouanet) é apenas um detalhe insignificante.

Mas considero problemática – bastante problemática – a impossibilidade de marcar um churrasco na república da Rua Humaitá 143 para este final de semana.

Quando o coração faz que vai parar e não pára – da mesma forma que aquele jogador do XV de Piracicaba ou da Inter de Limeira disse certa vez ao explicar um lance: “Fiz que fui e acabei não fondo” –, pois então, quando o coração faz que vai parar e não pára, mesmo que seja um sonho e você acorde depois, um tanto aliviado – isso é um problema, meu amigo. E dos grandes.

Problemão é a saudade que sinto da minha sobrinha Liz, que daqui a 10 dias vai fazer seis meses. Ela nasceu horas depois do meu casamento e é uma das coisas mais bonitas do mundo. Uma japinha!

Incômodo e grande problema da vida é não poder ligar para Janavila agora – não amanhã ou depois, mas agora – e dizer que eu me encontro com ela em meia hora no Madalena. Principalmente porque eu sei que ela às vezes fica triste e sente saudade do Brasil.

O grande problema da vida é o tempo, isso aí que o velho Einstein misturou com o espaço e a velocidade da luz. Eis o nosso problema, verdadeiro problema, incontornável problema. O resto é ninharia.

Das vantagens de estar em minoria

April 30, 2008
Desenterrada, hein?

Há três tipos de enganação: mentiras, malditas mentiras e índices de popularidade.
Até onde me lembro, quase sempre estive em minoria nos últimos 37 anos e 10 meses. Está aí o Lula que não me deixa mentir: batendo 70% de popularidade e com 50,4% dos brasileiros apoiando um terceiro mandato. Logo ele alcança o Médici. (O conselheiro econômico dos dois é o mesmo: Delfim Netto.)
A explicação para os índices de Lula é muito simples: a maioria não é apenas burra; é também conformista, imediatista e sonsa.
Alguém aí comprou comida nas últimas semanas? Depois não adianta reclamar. Nas palavras daquela lambretinha do desenho Carangos & Motocas: “Eu te disse! Eu te disse! Eu te disse!”

PS: Lá em cima, parece que o Obama dançou mesmo. A Hillary vai dar trabalho, mas o véio ganha.

Oração da memória

April 29, 2008


Ó Deus.
O rei pediu sabedoria. Plebeu e tolo, peço apenas memória. Quero lembrar tudo, sem mácula e exceção. Quero lembrar tudo, não importa o escândalo, não importa o assombro. Meu anseio é eliminar até o menor vestígio da amnésia com que nasci.
Talvez a memória completa me conduza à loucura; não importa. Quero as rédeas do tempo, Deus, a fúria caudalosa das imagens. Quero me lembrar do que ilumina, do que soa, do que golpeia, do que exala, do que sabe. Quero me lembrar em todos os sentidos.
E que as letras sejam códigos mnemônicos. E que as falas sejam lembretes. E que os sonhos sejam premonições do que já aconteceu há tanto tempo – tanto tempo que eu nem tinha nascido.
O rei pediu sabedoria. Peço apenas aquilo que esqueci.

A casa de perder tempo

April 25, 2008
Desocupa, mulata, desocupa! Desocupa, tô desocupando!

Um juiz determinou reintegração de posse da velha casa do DCE, vizinha do Bar Brasil. É manchete do Jornal de Londrina hoje.
Já fui segundo-secretário do DCE. Não existe cargo mais humilhante no mundo (talvez, conselheiro de ética do PT; ou assessor da dona Dilma; ou porta-voz do PSTU; ou redator de cartilha política – opa, isso aí eu também fiz!).
É claro que isso aconteceu no período paleolítico, lá por 1990-91. A URSS ia mal das pernas, mas ainda existia. Logo iria pro ralo, graças ao Trio Parada Dura (muito odiado por alguns blogs vizinhos). Eu nem liguei pro fim da URSS; era trotskista, achava que aquilo não era comigo. Depois veio a idade da razão.
Bom, mas voltemos ao DCE. (Quero dizer, simbolicamente.) O fato é que uzómi podem chegar a qualquer momento para devolver a casa do DCE à universidade ou, mais especificamente, ao Colégio de Aplicação, que reivindicou o espaço. (“Reivindicar o espaço” é ótemo; também vou reivindicar o meu numa praia de nudismo em Búzios.)
Passei hoje lá na frente do DCE, só para matar a saudade. Os caras do DCE, meia dúzia de quatro ou nove, estão sentados lá na frente da casa, com uns cartazes tipo “Não abriremos mão deste espaço histórico”. É triste; melancólico. Dezoito (dezoito!) anos atrás, eu estaria sentado naquela calçada. Uma completa maioridade me separa de tamanho vexame. Simbólico!
É chato, mas não consigo derramar uma lágrima pela perda do “espaço histórico”. E olha que eu tenho história ali, hein.
Até pouco tempo atrás, tinha por hábito dormir em lugares estranhos: em pé; agachado à Jeca Tatu; no balcão do Bar Brasil; em festas de casamento; no banheiro do Country Club; numa banheira vazia; no chuveiro; na área de serviço. Hoje parei.
Mas dormi também na velha casa do DCE. Paleolítico, é claro. Aconteceu depois de uma reunião ou festa, sei lá. Fiquei com preguiça de voltar para a república e dormi no chão frio da sala. Eu deveria estar mesmo cansado, porque o taco era de madeira. Solidária, a moça A. me fez companhia. Dormimos como irmãozinhos. Mesmo que eu quisesse, a quantidade de cerveja ingerida não me permitiria maiores iniciativas. (Pronto, lembrei: era festa, embora a algumas reuniões eu também comparecesse já meio chamando Jesus de Genésio.)
Acho que em nenhum outro lugar eu perdi tanto tempo nesta vida. (Não naquela noite; afinal, dormir, e dormir cansado, não é perda de tempo.) Naquela casa velha e caindo aos pedaços participei de ridículas e intermináveis reuniões políticas de esquerda, que jamais conduziram a absolutamente nenhum lugar. E as festas ali realizadas tampouco eram produtivas; as festas boas eram na minha república.
Agora, vem cá. Impossível ser mais burro do que esse reitor que mandou reocupar a casa do DCE. Ele acaba de dar a maior “bandeira” pros estudantes hippie-guevaristas que eles poderiam pedir a Deus. Ou a Marx. Ou a Gramsci. Ou a Fidel. Ah, esse não morreu ainda.
Só fico com pena do tio pipoqueiro, que já não vai mais poder estacionar o seu carrinho ali. Afinal, é o único ser produtivo que passou por aquelas bandas nos últimos 20 anos.

*****

“Uma vez segundo secretário,
segundo secretário até morrer!”

(Trecho do Hino do ME)

A Terra se move

April 23, 2008
Terremoto de Lisboa

Igual a todo mundo (eu iria escrever: como todo mundo, mas ficaria chato, sabe?), já passei por alguns terremotos. Dei nomes a eles: Luciana, Agnes, Raquel, Sara. Quem de nós não encarou uma tempestade de peito aberto? Sol de rachar coquinho é foda; terremoto de rachar prédio velho é pior. Hã, hã? Hein, hein?

Os estragos da chuva compensam? Isso não é pergunta que se faça. Pancadas de granizo podem assustar mais que os próprios furacões. Uma tsunami (ou um tsunami - o sexo da tsunami é mais indefinível que o dos anjos e papagaios), explicou um amigo já meio alto, pode ser mais alta que aquele prédio ao lado do Bar Brasil.

Tufões, tornados eternos, se transformam em garoas. Dizem que uma chuva ácida cai sem parar sobre a superfície de um planeta, não me lembro qual. Ou será que o planeta foi rebaixado a anão? Terá a chuva secado com os ventos solares?

Agora, os terremotos. Que não sejam o de Lisboa. Era o que não me faltava.

Saudade

April 22, 2008
Se me perguntam para que nasci, respondo: Nasci para ter saudade. Talvez seja meu único e discutível talento, o de sentir a falta de quase tudo. Não é uma saudade apenas do passado, a mais comum. Sinto uma indescritível saudade das coisas que ainda não aconteceram, mas também uma absurda saudade do momento presente, este que não existe – existia.
Saudade da Liz, que nasceu há apenas cinco meses, mas mora a terríveis 300 quilômetros de distância. Sentia saudade de Liz bem antes de ela nascer; para ser franco, acho que eu mesmo nasci com saudade.
Saudosismo é bobagem. Saudade é tudo que há. Apenas um outro nome para as coisas, todas elas: visíveis e invisíveis. Saudade é um codinome para aquilo que nos prende ao mundo: amor, trabalho.
Ando rezando um pouco. É a saudade que me leva a rezar. Se me perguntam por que eu não sou mais ateu, respondo: Passei a acreditar em Deus quando descobri que tinha saudade dEle. Deus criou o homem porque sentiu saudade de alguém que ainda não existia. Só por isso eu deveria rezar todas as noites – pelos amigos e inimigos, conhecidos e desconhecidos, próximos e distantes. Mas rezo bem menos do que deveria; saudades do tempo em que rezava mais.
Saudade não é bem uma dor, nem bem uma angústia, nem bem uma exaltação, nem bem uma esperança. É tudo isso ao mesmo tempo, um verdadeiro milagre da simultaneidade. Só uma inteligência superior, acima das coisas visíveis e invisíveis, pode ter inventado a saudade. A saudade é uma das faces do Verbo. Quando Jesus estava no Getsêmani, sentiu saudade do Pai. A palavra não está no Evangelho, mas eu sei que era saudade. Se me perguntam por que eu tenho uma tal certeza, respondo: Porque a saudade é um sotaque de Deus. Houve os atos dos apóstolos. Saudade é um ato de Deus, estranho a mim, mais íntimo que eu mesmo. "Ó Deus, fazei que eu me conheça tanto quanto me conheces." Foi assim que Agostinho disse?
Já me peguei pensando na língua que Deus vai falar durante o Julgamento Final. Hebraico? Latim? Aramaico? Esperanto? Inglês? Mandarim? Árabe? Antes eu achava que Ele falaria a cada um numa língua; seria um sistema de juízo em múltiplos canais de tradução simultânea. Hoje eu acho que Ele não vai usar nenhuma língua específica. Vai se expressar apenas num sotaque – e o sotaque será o idioma que todos sabíamos mas esquecemos ao nascer. Tenho uma grande saudade da língua que falava antes de nascer, a língua do Céu. Tenho saudade de Deus, e Deus, de algum modo, é a própria saudade que mora em meu minúsculo coração.
E quando Deus me chamar de volta, sentirei saudade de você. Porque ela – a saudade – e você são os elos da corrente que me prende ao mundo. Saudade: hoje, sempre; aqui, em outro lugar.

Só vermelho sem preconceito

April 17, 2008
No Rio, Sérgio Mallandro, aos 51 anos, vai ser candidato a vereador.
Grande nome. Só fico imaginando a campanha. Glu-glu! Voxê já beijou sua mamãe hoje? Voxê tá trixte? Não fique trixte! Rá! Pegadinha do Mallandro!

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Em São Paulo, o campeão de celebridades é o PCdoB. Netinho de Paula (pagodeiro que bateu na mulher e esmurrou o Vesgo do Pânico, não sei em que ordem); Vladimir (ex-lateral do Corinthians); Ana Paula (a bandeirinha que posou na Playboy; pelo jeito, escolheu a bandeira vermelha, hã-hã, hein-hein?). Mas nada pode ser mais vergonhoso do que um partido, em pleno século XXI, reverenciar Stálin e Mao Tse-Tung.

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Muita gente bate no peito e se gaba da própria independência política; há quem viva se orgulhando por ser revolucionário.
Pela segunda vez, com um simples gesto, você, uma “alienada” segundo a classificação idiota e hegemônica da esquerda, demonstra que honradez e caráter são valores muito distantes das assembléias e dos manuais de socialismo para iniciantes.
Duas simples atitudes políticas de coragem. E valem mais do que 99% das obras completas dos esquerdistas que conheço (por ler ou aturar).
Por tudo isso e muito mais, eu te amo.

As bolsas ou a vida

April 16, 2008

O que era chamado de mensalão, na verdade, era o bolsa-deputado.
O que é chamado de bolsa-família, na verdade, é o bolsa-esmola.
O que é chamado de bolsa-adolescente, na verdade, é o bolsa-punheteiro (punheteiro eleitor, é claro).
O que é chamado de indenização e anistia, na verdade, é o bolsa-ditadura.
A bolsa menos infame ainda é a de valores. Mas aquele comuna que está na ANP – meu Deus, há um maoísta na Agência Nacional de petróleo! – se encarregou de cuidar da bolsa de valores também.
E agora, com vocês... o bolsa-inflação!

Paulo Francis - Retrato em Carne Viva

April 14, 2008
Paulo Francis e Sonia Nolasco

Ao morrer, em 5 de fevereiro de 1997, Paulo Francis era o mais influente jornalista brasileiro. Estava no auge de uma carreira iniciada nos anos 50, como crítico de teatro do Diário Carioca. É impossível falar da imprensa brasileira na segunda metade do século XX sem mencionar, com destaque, a contribuição desse carioca de óculos com óculos fundo de garrafa, dono de verve e cultura invejáveis, cujo nome de batismo era Franz Paulo Trannin da Matta Heilborn.

Francis foi, acima de tudo, um renovador da linguagem; durante toda a vida, passou por guinadas ideológicas – do trotskismo da juventude ao liberalismo dos últimos anos –, mas nunca deixou de ser um inimigo da linguagem empolada, acadêmica e rançosa. Seu maior talento era dizer as coisas ao ponto, sem rodeios – a exemplo de seus modelos de estilo, George Bernard Shaw e Leon Trotsky. E fez isso até o fim. Praticamente morreu na mesa de trabalho.

Mas o talento de Francis não deixou apenas frutos no jornalismo. Seu campo, na verdade, era a literatura. Da mesma forma que é impossível pensar nos artigos de Francis sem as múltiplas referências literárias, não se pode avaliar sua obra de ficção sem levar em conta a história contemporânea e os acontecimentos jornalísticos que o autor vivenciou. Em vida, Francis publicou três livros de ficção: “Cabeça de papel” (1977) e “Cabeça de negro” (1979) e “Filhas do segundo sexo” (1982). São obras fundamentais para a compreensão do Brasil pós-1964 – relidas hoje, revelam um impressionante caráter profético.

Não menos brilhante e perturbador é “Carne viva”, romance inédito que Francis completou pouco antes de morrer, há 11 anos. O livro conta a história de Francisco Guerra, um banqueiro que presencia os acontecimentos de maio de 1968, na França, e assiste, nos anos 90, ao espetáculo degradante de um país que poderia ter sido e que não foi. “Carne viva” é um espelho politicamente incorreto e literariamente incômodo de um país chamado Brasil – síntese das obsessões, dos amores e da eterna angústia de um cidadão chamado Paulo Francis.

Para falar sobre o lançamento de “Carne viva”, a reportagem entrou em contato com a viúva do escritor, Sonia Nolasco, que vive em Nova York e foi responsável pela edição do romance. A seguir, os principais trechos da entrevista, feita por e-mail.

Serviço – “Carne viva”, romance de Paulo Francis. Editora Francis/Landscape. R$ 38, 264 páginas.


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“Francis não imaginaria Brasil atual nem em pesadelos!”
(Sônia Nolasco)


Qual a importância de “Carne viva” na obra literária de Paulo Francis?

Sonia Nolasco:
Seria ideal se um critico literário do calibre de Wilson Martins ou José Onofre analisasse a importância de “Carne Viva” na obra literária do Francis. Para mim, leitora, "Carne Viva" é importante por ser o romance mais popular que o Francis escreveu. É o começo da carreira de um intelectual de elite que decidiu ser ficcionista best-seller, alcançar o maior número de leitores, mas sem abrir mão de suas idéias e ideais. “Carne Viva” e' o Francis humanizado, tentando uma linguagem popular, personagens mais palpáveis, terra-a-terra; homens que se apaixonam e se derretem, mulheres que sofrem por amor, diálogos românticos. Entretanto, apesar de certas partes do enredo imitarem a novela das 8, o estilo é impecável, Machado de Assis em seus maiores momentos. Há diálogos políticos profundos, pois o Francis não saberia escrever um romance que não fosse também político. Mas tudo na dose certa. Tudo realidade. Veja, por exemplo, o caso recente de Eliot Spitzer, poderoso governador do estado de Nova York. Um homem privilegiado, de familia milionaria e ilustre, com futuro garantido, e perde absolutamente tudo em grande parte por seu envolvimento com uma prostituta! Por que homens poderosos, casados com mulheres bonitas e inteligentes, buscam prostitutas da ralé? Não é um tema novo. Por que Chico Guerra, com tanto dinheiro e poder, e uma bela mulher de família tradicional, prefere amantes ocasionais? Essa parte do romance é tao fascinante e real quanto o relacionamento de Guerra com um jovem guerrilheiro do grupo Baader Meinhof.

Isaac Deutscher, sempre citado por PF, chamava Trotsky de "profeta". A sra. acredita que os romances e artigos de Francis anteciparam, de certo modo, o Brasil atual?

Sonia Nolasco:
Artigos antigos do Francis já antecipavam, até certo ponto, o Brasil atual. Seus romances “Cabeca de Papel” (1977) e “Cabeca de Negro” (1979) são tão atuais que podem ser lidos hoje, olhando em volta e constatando que previram o que aconteceria no mundo. “Cabeça de Negro”
mostra, desde sua abertura, que o terrorismo será a solução drástica dos guerrilheiros urbanos. Industriais e banqueiros inescrupulosos substituem os humanistas e os intelectuais como elite desse nada admirável mundo novo. Computadores fazem transações de dinheiro internacionais de lucros imediatos. A vida se desumaniza. Quanto ao Brasil, as raízes do que é o país hoje estão bem definidas em “Cabeça de Papel”. Mas profetizar que o país teria presidente analfabeto que levaria ao poder toda essa canalha, incluindo o ladrão que fugiu para o aeroporto carregando nosso dinheiro nas calcinhas, ah, esse horror o Francis nunca imaginou, nem em pesadelos!

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Mãe e filho

April 14, 2008
Segunda-feira chuvosa. Dia de comprar vale-transporte. Entrei na agência, não sem antes passar pelo detector de metais, que suspeitou do meu guarda-chuva. Mostrei o guarda-chuva ao guarda; entrei na agência; imprimi uma senha; fiquei esperando minha vez. Foi quando chegaram mãe e filho.

A mãe era uma velhinha. Bem mais baixa que o filho. Este devia ter mais de 40 anos, mas era um menino. Encantou-se com umas horríveis flores de plástico que enfeitavam o ambiente. Pegou umas revistas velhas que estavam sobre uma pequena mesa e – riu. Riu daquele jeito que riem os homens que nunca vão crescer. E voltou para o lado da mãe.

Enquanto mais uma senha era anunciada, a velhinha tirou da bolsa um pente flamengo e arrumou a franja do filho.

Minha senha foi anunciada. Era o número 74 – talvez a idade da mãe.

Peguei o meu vale-transporte. Mas aqueles dois movimentos da mulher – tirar o pente da bolsa, arrumar a franja do filho – já valeram o meu dia.

O anjo dos detalhes

April 11, 2008
Dinheiro na mão é vendaval...

Todo detalhe é pequeno. Mas às vezes um detalhe salva a nossa vida. O leitor A. me liga para dizer que foi salvo pelo jogo Banco Imobiliário, que citei na última crônica.
No dia 11 de setembro de 1967, a casa de A. foi atingida por um avião monomotor. O avião caiu na sala de estar, destruindo-a (e não destruindo A.).
Se A. não tivesse ido com a mãe a uma loja para comprar o Banco Imobiliário, muito provavelmente estaria naquela sala. “O Banco Imobiliário me salvou”, diz A. E ele aproveita para corrigir um erro. O jogo não era uma invenção dos anos 70 – já existia na década anterior. A. é a prova. Viva.
A leitora I. escreve para dizer que riu muito com a crônica (agradeço; e aguardo minha vaga entre os redatores de Zorra Total). I. também aproveita para informar que o Banco Imobiliário não é um jogo do passado. Existe até hoje. E as notinhas de dinheiro falso são bem “reais”. (Hã? Hã? Hein? Hein? Entendeu o trocadilho?)
Sabe aquelas histórias do sujeito que levou um tiro que só não atingiu o coração por causa da medalhinha de São Jorge? Pois elas reforçam a minha crença nos detalhes salvadores. Em todas as notícias de acidentes aéreos, há o caso do passageiro que perdeu o avião por causa de um detalhe – um relógio atrasado, um motorista sem-noção, um pneu furado, uma soneca a mais, uma dor de cabeça. Abençoados sejam os detalhes que nos salvam a vida.
Todo detalhe é pequeno. Todo talismã, idem. Meu pai sempre discordou daquela música: “Meu pequeno talismã”. É um título redundante, pô! Já o Roberto Carlos está certo: “Detalhes tão pequenos de nós dois/ São coisas muito grandes pra esquecer”. Quer dizer: todos os detalhes são pequenos, mas alguns podem ser menores que os outros. Ou maiores. Depende.
Maçã-do-amor é um detalhe maior ou menor? Pois a leitora K. foi salva por uma dessas guloseimas. K. voltava para casa, de automóvel. Quando parou no semáforo, um cara deu voz de assalto. Nervosa, K. entregou ao ladrão a maçã-do-amor que havia comprado no parque. Ele ficou confuso com a maçã nas mãos – e acabou desistindo do assalto.
Deve existir um anjo que tem por função cuidar só dos detalhes. E o nome dele é anjo da guarda.

- Publicado no Jornal de Londrina.

Briguet, o Pentelho

April 09, 2008
É outra história. Mas quase a mesma.

Alguns leitores reclamam quando aqui são publicadas notas e comentários desfavoráveis a este blogueiro que é vosso criado. De diferentes modos, alguns mais sutis, outros mais agressivos, outros ainda francamente estúpidos, dizem que ao fazer isso eu quero é confete. Argumento curioso, esse. Se eu publico as referidas notas, é porque estou pedindo confete. Se não as publico, é porque não aceito críticas. Cara, eu perco. Coroa, eles ganham.
Desconhecem, os meus críticos, um dos preceitos mais básicos do cristianismo: oferecer a outra face. Ao contrário do que imaginam, oferecer a outra face não é uma adesão ao masoquismo avant la lettre. Trata-se de expor a natureza absurda e ridícula da maldade humana. É a pior ofensa a um crítico, se a crítica for desleal. Sobre o assunto, há textos muito elucidativos de Jack Miles e Joseph Brodsky.
Mas não me limito a publicar críticas desleais e anônimas. Quando as pessoas assinam embaixo e assumem o que escrevem, menos pior. Há alguns dias, o ex-secretário Bernardo Pellegrini criticou minha afirmação de que a cultura em Londrina foi estatizada. Ver o meu texto aqui; e a reação dele, aqui.
Mas, como nem só de críticos vive este blog, reproduzo abaixo a carta enviada ao Jornal de Londrina pelo leitor Roberto Galatasay. Ei-la:

CULTURA ESTATIZADA

“Concordo com o ex-secretário da Cultura Bernardo Pellegrini ao afirmar que o jornalismo é pentelho (Jornal de Londrina, 04 de abril). Todavia, haverei sempre de afirmar que o jornalismo deve ser pentelho, chato, cricri, apolítico, verdadeiro e nunca vendido ou mentiroso. Pense bem, se não existissem os pentelhos para atazanar suas vidas, que monótono seria os dias de ex-prefeitos, ex- vereadores eex-secretários e imagine só o tamanho da moleza que seria a vida do combatente prefeito e de seus empolgados secretários e também as vidas dos nossos benfazejos vereadores. Tratando-se da Secretaria da Cultura, não daria mesmo para agradar todos, sendo que os altruístas, não se submeteram à regra imposta; outros não quiseram beber do cálice oferecido; uma boa turma ficou de fora porque não eram companheiros. Entretanto, aqueles que ouviram as palavras “dai e recebereis”, e mansamente abdicaram de seus íntimos valores se submetendo as regras, estes foram acolhidos no bojo da reciprocidade.
Paulo Briguet, o Pentelho, podia ter usado outra palavra em vez de cultura estatizada. Exemplo: cultura subordinada ou corporativa, ou ainda, estrategicamente, cultura “companheirista”.

– Roberto Galatasay

A tosquice

April 09, 2008
Apesar do nome, podem chamar de George Bush.

O ratinho Cérebro queria dominar o mundo. Mas quem está dominando o mundo é a tosquice. Coitado do Cérebro.
Existem raros focos de resistência à hegemonia da tosquice. Um deles está nos livros – ou melhor, em alguns poucos livros. Ontem, minha amiga Leide, da livraria, ligou avisando que o livro de Paulo Francis havia chegado.
Corri para a livraria e comprei “Carne viva”, romance póstumo de Francis. Então me lembrei da mensagem enviada ontem mesmo por outro amigo, o Mário Sérgio Fragoso. Ele diz que estou querendo imitar o PF. Respondi que, para chegar a um 1% de PF, preciso de muito arroz e feijão. (Hã-hã? Hein-hein? Entendeu?)
Abri o livro de Francis e comecei a lê-lo na esquina da Pernambuco com a Pio XII, onde habitualmente espero o ônibus psiu. Como o psiu demora um pouco para chegar, sempre há tempo para ler alguma coisa, à sombra da árvore ali existente (e da qual acompanhei o crescimento e florescimento nos últimos anos; espero que a Moto-Sema não a corte).
Antes do psiu, quem apareceu foi uma carroça. Eis que o cavalo resolveu atender ao chamado da natureza ali mesmo, na esquina da Pernambuco com a Pio XII. Despejou vários quilos de bosta.
Ler Paulo Francis de pé na esquina e sentindo cheiro de estrume não está entre as experiências intelectuais mais agradáveis. Mas, como diz a lei do sr. Murphy, tudo que está ruim pode piorar. Há sempre degraus a descer, completam minhas amigas Janaínas (Ávila e Garcia). Poucos segundos depois que o cavalo deixou sobre o asfalto o resultado de seus movimentos peristálticos, uma turma de estudantes saía de um colégio próximo. Um deles houve por bem chutar um pouco do conteúdo fecal ali espalhado, dizendo jocosamente a um colega: “Aí, Zé, chutei você!”
O amigo Mário Sérgio gosta mais das minhas crônicas quando elas falam de lavar louças, fazer café ou outras atividades domésticas. Não as aprecia quando falo em estatização da cultura ou da pobreza; quando critico a bolsa-esmola; ou quando elogio a privatização da telefonia e da Vale do Rio Doce. Mas Mário Sérgio é um cavalheiro, um homem civilizado; jamais chegaria a extremos. Alguns chegam, e é triste. Houve quem, certa vez, tenha desejado o meu desemprego. Assim, eu me humilharia a pedir bolsa-esmola para o governo. Que vingança seria, não? Mesmo assim, rezo por ele.
Para não desagradar o Mário Sérgio, voltarei a falar em assuntos triviais sempre que puder. Mas nem sempre. Não terei outra opção quando o governo – municipal, estadual, federal – fizer aquilo que o cavalo fez na esquina. E, convenhamos, isso não é raro, é diário.
Tolerância zero para a tosquice. Ou seremos dominados, Cérebro.

A árvore das rolhas

April 08, 2008
Sobreiro

Às vezes me pergunto: O que é que estou fazendo aqui? Questão fundamental da vida: saber por que cargas d’água as circunstâncias, a despeito de minhas escolhas e decisões pessoais, me conduziram ao presente momento. Afinal, por que diabos estou aqui, meu Deus? Por que cheguei até este ponto de ônibus, onde escrevo em pé estas notas num caderninho pautado, as quais, quando chegar em casa, vou passá-las ao computador e reproduzi-las no meu blog? Por que me envolvo em discussões vazias e idiotas, que não importam a mínima, e só fazem perder tempo, a mim e aos meus contendores? Por que estou aqui, esperando o ônibus para casa, ônibus que não parece nunca chegar, diante de uma casa de madeira pintada de azul e branco, construída nos anos 60 ou 70 e que, portanto, tem grandes chances de ser mais velha do que eu? Como acreditar que cheguei aqui, vizinho temporário destas árvores que fazem sombra de dia e à noite anoitecem? Como acreditar, sem pasmar, que o avô do cachorro que acabou de latir para um automóvel latia da mesma maneira em 1989, ano em que cheguei a Londrina e o Muro de Berlim caiu, sendo que os dois acontecimentos, um banal e o outro histórico, não se relacionam a não ser em meu vulgar poço da memória?
Mas foi precisamente tudo isso que aconteceu. Eis os fatos. É sempre esse maldito realismo que chega às raias da alucinação. Estou doente da minha própria respiração, ator e vítima de uma obscura felicidade – palavra que eu jamais pronunciaria quando aqui cheguei, em março de 1989, por considerá-la piegas e mistificadora.
Agora já escrevo (não escrevo: escrevia; agora apenas reproduzo) no sacolejar do ônibus, aquele que finalmente chegou, e me lembro da moça que no sábado falou das rolhas. É enóloga, a moça. Do Rio Grande. Simpática. (Nada entendo de vinhos. Se coloco meu nariz na taça, para sentir o aroma da bebida, enquanto uns dizem “Cacau”, “Frutas vermelhas”, “Baunilha”, “Páprica”, “Avelã”, “Tabaco”, “Ervas finas” e “Sovaco da Sebastiana”, eu digo simplesmente “Vinho”.)
Perdoem a divagação. Voltemos à moça, a enóloga. Ela falou algo interessante sobre as rolhas. Disse que a cortiça para fabricação das rolhas é obtida de uma única árvore, o sobreiro. E que as florestas de sobreiro estão em Portugal, tornando a terrinha responsável por 80% da produção de rolhas no universo.
Mas a enóloga citou ainda um dado surpreendente acerca do sobreiro. A árvore só começa a produzir cortiça quando está com 35 anos. Até essa idade, o sobreiro não produz uma única e mísera rolha.
E então eu pensei, com uma taça de vinho na mão (com bouquet de “Vinho”), que eu era igualzinho a essa árvore. Talvez um pouco pior. Até os 35 anos, não produzi uma única rolha decente. Nem para Sangue de Boi (Sangue de Boi tem rolha?). E mesmo agora, três anos depois da idade-limite, não consigo responder, enquanto espero o ônibus, à velha pergunta de sempre. O que é que estou fazendo aqui?

Dos benefícios de ler Milton Friedman

April 08, 2008
Tem gente que prefere o Gay.

Já que estamos em temporada de citações de autores dos EUA (aquela “merda de país”, segundo alguns esquerdofrênicos mais esperneantes), reproduzo abaixo alguns trechos do artigo do escritor e cineasta americano David Mamet, publicado pela Folha de S. Paulo no último domingo. No texto, Mamet explica por que não é mais esquerdista (“liberal”, palavra que nos Estados Unidos tem sentido oposto ao que adquire no Brasil). Mas o Mamet não sabe de nada, quem sabe são as vaquinhas de presépio.

“Constatei não apenas que não confio no governo atual (isso não foi surpresa para mim) mas que uma revisão imparcial revelava que as falhas deste presidente – a quem eu, bom esquerdista, via como monstro – diferiam em pouco daquelas de um presidente a quem eu reverenciava.”

“Bush nos mergulhou no Iraque; JFK, no Vietnã. Bush divulgou a identidade de uma agente da CIA; Kennedy deixou centenas deles morrerem na praia da Baía dos Porcos; Bush mentiu sobre seu serviço militar; Kennedy aceitou um Prêmio Pulitzer por um livro escrito por Ted Sorensen. Bush dividiu uma cama com os sauditas; Kennedy, com a máfia. Oh!”

“E comecei a questionar o ódio que eu nutria pelas “grandes corporações” – ódio esse que, descobri, não passava de um revés da fome que eu sentia pelos bens e serviços que elas fornecem e sem os quais não conseguimos viver.
E comecei a questionar a desconfiança que eu nutria pelos “militares malignos” de minha juventude que, percebi, estava no passado, sendo que as Forças Armadas hoje são compostas por homens e mulheres que arriscam suas vidas para proteger o resto de nós de um mundo muito hostil.”

“Comecei a ler não apenas os tratados econômicos de Thomas Sowell (nosso maior filósofo contemporâneo), mas também Milton Friedman, Paul Johnson e Shelby Steele, além de uma gama de escritores conservadores, e descobri que eu concordava com eles: uma visão de mundo pautada pelo livre mercado condiz mais perfeitamente com minha experiência do que a visão idealista à qual chamo de visão esquerdista.”

Com a licença do Mestre Tanga

April 04, 2008

No post sobre os donos de assunto (ver abaixo), usei de propósito a palavra homossexualismo. Tinha absoluta certeza de que a orwelliana patrulha da linguagem iria cair matando sobre o termo. O correto, dizem, é homossexualidade. Alegam que o sufixo “-ismo” faz lembrar doença.
Se isso é verdade, meus amigos, estou doente bagarai há 37 anos e uns quebrados – sofro de heterossexualismo persistente. Por um longo inverno ideológico, padeci de trotskismo. Depois, veio a idade da razão; curei-me do mal esquerdofrênico, mas contraí a doença benigna do liberalismo.
Aos domingos, e todas as noites, tenho ataques de catolicismo: chego a rezar por meus inimigos! Eles não são verdadeiros inimigos, mas eu rezo assim mesmo. Há os que me acusam de esnobismo, narcisismo e egocentrismo, mas felizmente ninguém dirá que sofro de petismo.
Os iluminados patrulheiros poderiam fazer uma devassa. Sugiro banir dos bancos escolares toda e qualquer referência ao classicismo, romantismo e modernismo.
Concluída a reforma da linguagem, ficarei sem emprego. Não haverá mais jornalismo. Exceto o chapa-branca: jornalidade...

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Como sabem, este é um blog liberal, que mata a cobra e mostra o pau. Para confirmar esse espírito democrático, segue abaixo a carta do sr. Bernardo Pellegrini (não confundir com o escritor Domingos Pellegrini, que é primo dele), publicada hoje no Jornal de Londrina:


JORNALISMO PENTELHO

Não sabe do que está falando o jornalista Paulo Briguet quando escreve que a cultura em Londrina foi “estatizada” (JL 2/04, pág. 19). Goste ou não goste da Administração, Briguet deveria admitir que o investimento público em cultura é uma aspiração de décadas, equacionada só agora, nos dois governos do Nedson. Londrina pulsa cultura e nosso modelo de gestão é inovador: quem financia é o contribuinte, quem realiza são os artistas, quem ganha é a cidade. O que há de estatizante nisso?
A cultura em Londrina pode avançar muito mais e nos impõem reflexões de verdade – e um debate sério não tem nada a ver com esse jornalismo-pentelho que se esconde nas notícias do dia a dia para fazer editorial e formar opinião. Investimento do governo em cultura não é problema – é solução.


Bernardo Pellegrini
Ex-secretário municipal de Cultura
Ex-diretor de marketing da Sercomtel (companhia telefônica local)

A difícil arte de fazer educação e cultura sem dinheiro público

April 02, 2008
De uns tempos para cá, a cultura foi estatizada em Londrina. Tornou-se raro encontrar alguma produção que não seja seguida pelos nomes Promic, Rouanet ou Petrobrás. Diante disso, é louvável, e até mesmo heróica, a iniciativa de alguns que decidiram fazer cultura sem dinheiro público. É o caso do Espaço Humanitas, recém-criado pelos educadores Silvio Grimaldo e Tiago Ponti. Trata-se de um centro de educação que utiliza a arte e a alta cultura para o aprimoramento intelectual dos indivíduos. Se você está mais interessado em diplomas, certificados, canudos, títulos ou licenças profissionais, esqueça o Espaço Humanitas. Ali, o aprendizado é um finalidade em si mesmo.
O Espaço Humanitas inicia a sua programação com a realização dos seguintes cursos: “Educação pela leitura dos clássicos”, com Silvio Grimaldo; “Lógica e raciocínio matemático”, com Tiago Ponti e Abílio Bedin; “História do cinema”, com Rodrigo Poreli Bueno; “Para escutar os clássicos”, com Robison Poreli Bueno; e “Uma história do rock’n roll”, com Nilson Fakir. Os cursos têm duração média de dois meses e são pagos. (Não tem dinheiro público na história...)
“Nossa idéia foi criar uma escola independente, onde o aluno faz o curso porque é amador – no sentido de amar a arte e a cultura”, explica Silvio Grimaldo, que é formado em Sociologia pela USP e foi aluno do filósofo Olavo de Carvalho. A seguir, leia os principais trechos da entrevista com Grimaldo e Nilson Fakir.

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“Educação virou simulacro e doutrinação ideológica”


O Espaço Humanitas se inspira em algum modelo clássico ou moderno de academia?

Silvio Grimaldo:
A idéia que nos inspira é a da educação liberal. Vem das artes liberais da Idade Média, em oposição às artes servis. As artes servis eram atividades profissionalizantes. Era o ensino dos ofícios – ferreiro, sapateiro, carpinteiro. As artes liberais basicamente eram as artes da linguagem, voltadas para os homens livres. Eram artes contemplativas, que tinham um fim em si mesmas. Você não era educado para produzir alguma coisa palpável, um objeto. Você estudava porque aquilo era um bem. E o único bem a que essas artes visavam era o indivíduo.

E é difícil encontrar esse tipo de educação atualmente?

Silvio Grimaldo:
Hoje, na maioria dos casos, a educação tem dois objetivos que nada têm a ver com a idéia original do aprendizado. Há o objetivo utilitário, com a proliferação das faculdades particulares: o cara vai lá estudar para ter uma profissão. Até aí nada de errado. O sujeito precisa ter uma profissão. O problema é que a educação profissionalizante degringolou tanto que virou um simulacro. A escola virou uma espécie de chantagem, uma reserva de mercado: se você não vier aqui, não vai ter emprego. A outra tendência, que se verifica nas universidades públicas, é a doutrinação ideológica. O indivíduo vira uma peça na engrenagem para servir ao grupo que está no poder. Durante a ditadura, havia a educação moral e cívica. Hoje você tem educação para a cidadania do PT. E assim vai.

De que forma vocês fazem a análise das obras clássicas?

Silvio Grimaldo:
O curso não é exatamente de literatura, nem de filosofia. A idéia é pegar as obras e fazer um contraste dos símbolos que são retratados nas obras com a experiência pessoal do leitor. É um método que Platão chama de anamnese, baseado em recordações. As grandes obras que vamos estudar – Apologia de Sócrates, Hamlet, Édipo, Crime e castigo, O Estrangeiro, O Alienista – falam de experiências universais.

Como será o curso de História do Rock?


Nilson Fakir: Hoje em dia as pessoas não tem referência sobre rock. Qualquer coisa é rock. Recentemente, Estive num colégio da cidade onversei a garotada. Eles ouvem hip hop e dizem que é rock. Qualquer coisa é rock. Os caras não sabem de onde vem aquilo. Atitude, para muita gente, é franja e cinto de tachinha. Isso é idiota. Na verdade, o rock é a forma de música mais sofrida do século 20, foi o catalisador das grandes mudanças comportamentais. E é assim que a gente vai estudar o assunto.

Serviço – Espaço Humanitas – Rua Paes Leme, 795, sala 4 - Londrina. Fone: (43)3322-6698. Mais informações aqui.

- Matéria publicada no Jornal de Londrina.

Viva Niva! Viva Niva! Viva Niva!

April 01, 2008

Vocês já notaram que alguns assuntos têm dono?
Homossexualismo, por exemplo. Basta a mera citação a palavra gay para que algumas libélulas virtuais apareçam, invocando Madonna (a cantora, a cantora) e exigindo direitos de propriedade sobre o tema.
O mesmo fenômeno ocorre com socialismo. Não importa quanto você estudou o assunto; se não tiver uma opinião favorável sobre Lênin ou Che Guevara, uma coorte de esquerdistas vai querer infernizar a sua vida.
Outro dia, um assunto desse tipo foi jocosamente abordado neste blog: o jipe Niva Lada. E não é que surgiu uma horda de chiliquentos em defesa da lata velha? Só faltou alguém gritar: “Viva Niva! Viva Niva! Viva Niva!” É um bom slogan; até rima. Faria boa figura ao lado dos xingamentos destinados a este blogueiro.
Mas não foi para falar de Niva que eu vim aqui. Foi para indicar o artigo Ensaio sobre a cegueira, do escritor português João Pereira Coutinho, publicado hoje na Folha de S. Paulo. O assunto é a repressão aos homossexuais no Irã. Atentai, patrulheiros! Ao que parece, Coutinho não é gay, nem esquerdista, nem dono de carro soviético. Não que isso importe.