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Archive for March of 2008

Isso é que é presidente!

March 31, 2008
Tem 84% de aprovação popular.
Promove a aceleração do crescimento econômico.
Venceu os incrédulos.
Derrotou o desemprego.
Dominou a inflação.
Enfatiza a distribuição de renda.
É implacável com os adversários.
Nunca antes se viu nada igual neste país.
Colhe os louros do programa econômico de um governo anterior, mas quem se importa com isso? O importante é que o país vai bem.
Saudemos o presidente...

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Sozinho no universo

March 31, 2008
Pequena Nuvem de Magalhães

Então eu estava sozinho no universo. Desde pequeno me interessei por astronomia. Logo descobri que a Terra não passava de um fragmento de rocha em torno do Sol; e que o Sol era apenas uma anã amarela dentro da classificação comparativa com outras estrelas; e que o sistema solar era apenas um ponto perdido num dos braços da galáxia espiral chamada Via Láctea; e que esta era apenas um entre milhões de agrupamentos cósmicos flutuantes na imensidão.
Sim, eu estava sozinho no universo, porque a simples viagem para um desses corpos celestes, mesmo na velocidade da luz, consumiria não só o tempo da minha curtíssima e residual existência como também a vida de todas as gerações de meus descendentes, e da própria Terra. E me pareceu remota, até ridícula, a possibilidade de que houvesse um Criador consciente desse drama cósmico, e ainda mais remota e ridícula a tese de que os habitantes da minúscula Terra tivessem sido feitos à Sua imagem e semelhança, e que pudessem ser objetos da Sua preocupação e do Seu amor.
Inapelavelmente sozinho no universo: porque há um grande silêncio, e uma grande indiferença, na viagem da luz de estrelas que já podem ter morrido. Órion e Ursa Maior; Câncer e Leão; Cassiopéia e Lira – nomes tão bonitos para constelações tão distantes uma das outras, e que jamais poderiam saber que estão unidas e nomeadas pelos minúsculos olhos humanos. Sirius, Antares, Castor, Vega, Alpha Lupi – se um dia tomassem conhecimento de nossa existência, as estrelas nada fariam além de brilhar com um leve toque de sarcasmo.
Betelgeuse riria da poeira semovente que chamamos humanidade. Para essa gigante vermelha, 900 vezes maior que o Sol, ou mesmo para a Nuvem de Magalhães, que o desafortunado navegador observou em sua viagem sem volta, Auschwitz e Gulag, Mao Tse-tung e Stálin, Genghis Khan e Alexandre – todos esses nomes não passam de anedotas perdidas do caos.
Mas um dia (talvez uma noite, não sei), inexplicavelmente, sem o menor motivo racional, tudo isso, toda a vastidão da luz e do tempo, veio a tomar o rumo contrário. Uma Nuvem de Magalhães se desfez dentro da minha pequena alma. Cão Maior não ladrava mais a insignificância do homem. E ontem, mulher, quando você tomou em suas mãos o filhote de cachorro, animalzinho que ainda estava de olhos fechados, aceitei mais uma vez um relance do enigma. Não: não estamos sozinhos no universo.

- Publicado no Jornal de Londrina.

A pena não tem pena

March 27, 2008
A pena: não a que escreve,
não a que quase não pesa
ou que só pesa no peito.
Tampouco a pena de cadeias
ou de pássaros e augúrios.
Não o travesseiro de penas
sopesado no sono profundo
(ou na insônia do apenado).
Nem a pena compaixão,
que é o dó de quem pena
a penitência como um cão.
Não a que vale a pena
se a alma não se apequena,
patética alma penada.

A pena, pena e mais nada,
apenas a pena do tempo,
máxima e capital;
a pena, exceção do tribunal;
a pena daquele que, a duras penas,
se empenha em ser o que pensa:
o réu, só em sua sentença.
Que paz. Que pó. Que pena.

Café da manhã

March 26, 2008


A verdadeira identidade não está no RG, na certidão de nascimento ou no título de eleitor. Também não se revela na senha do banco, no endereço eletrônico ou no diploma universitário. DNA e impressão digital podem servir como provas policiais ou jurídicas. Mas só alguns detalhes – mínimos, talvez até ridículos – provam a você que você é você mesmo.
Acabo de descobrir mais um desses detalhes. É o barulhinho da cafeteira de manhã.
Durante muitos anos, morei sozinho e tomei café instantâneo. Acordava, esquentava a água no microondas; assim que o bichinho metálico apitava, eu retirava a caneca de água quente e, puf, despejava um punhado de café instantâneo. Aí estava minha refeição matinal (quando havia). Eu era a comprovação cabal da antiga tese feminina: homem solteiro não se cuida.
Minhas companhias, durante os longos anos de solteirice, eram os animais da fauna doméstica: o rádio-relógio que me acordava; o microondas que esquentava a água do café; a geladeira em que eu guardava o pote de açúcar a salvo das formigas; o portão do prédio com alarme pró-corno (aquele que apita quando o marido está chegando).
Agora, tudo mudou. Quero dizer, quase tudo. É certo que ainda tenho rádio-relógio (ele nos acorda com as notícias do dia); a geladeira tem alarme para evitar congelamento das cervejas (mas eu já não tenho tantas cervejas para congelar); o microondas continua apitando. Mas há uma diferença: agora existe a cafeteira.
E, quando ouço o barulhinho da cafeteira, aquele borbulhar avisando que o café está sendo feito, logo seguido pelo perfume do Edifício América, sinto que isso faz parte de mim; que eu estou profundamente envolvido em alguma coisa, e essa coisa é a vida.
O barulhinho da cafeteira me avisa que o dia está começando, que há uma série de coisas por fazer, mesmo que seja de modo imperfeito, como, por sinal, quase tudo é. Mas, embora imperfeitos, os afazeres do dia merecem toda atenção e carinho – porque o amor, este inexplicável desespero transformado em espera, habita cada molécula do dia.
E mesmo que a cafeteira me faça lembrar daquele aliado do Sarney, o senador Epitácio Cafeteira, não é da hiperinflação de 1989 nem do discurso do Sarney na ONU que eu me lembro. Não importa que o Sarney tenha dito “Sank you” em vez de “Thank you”, como observou Paulo Francis, acrescentando que “Sank you” quer dizer “Afundei ocêis”. Não é de nada disso que eu lembro. Nem do Nedson, nem do Requião, nem do Lula. A cafeteira me faz lembrar daquilo que eu sou – e da melhor parte de mim, bem ao meu lado.

- Publicado no Jornal de Londrina.

O mercado e os indivíduos

March 25, 2008
Ludwig von Mises (1881-1973)

No site Ordem Livre, destaque para um texto do genial Ludwig von Mises:

“Costuma-se falar, num sentido metafórico, das forças automáticas e anônimas que influenciam o ‘mecanismo’ do mercado. Ao empregar tais metáforas, as pessoas estão propensas a desconsiderar o fato de que os únicos fatores que dirigem o mercado e influenciam a formação de preços são as ações intencionais dos homens. Não há nenhum automatismo; existem apenas homens conscientes e que, deliberadamente, visam a atingir os objetivos que escolheram. Não existem misteriosas forças mecânicas; existe apenas a vontade humana de diminuir o desconforto. Não existe anonimato; existe eu e você e Paulo e Ana e todos os outros. E cada um de nós é tanto produtor como consumidor.”

Leia o texto completo aqui.

¡Compañeros!

March 25, 2008
Toca pra Miami.

Esta é especial para os blogueiros defensores de Cuba.
Conheçam aqui mais uma realização do regime fidelista.
¡Viva La Revolución!

Cajuína cristalina em Térésina

March 24, 2008
E a mulé (da esquerda) ainda não lava o cabelo.

A turma tão falando aê que essa moça Gyselle, figurinha sem a mínima graça, principalmente quando ao lado da so delicious Natália – miss gaúcha que bebe todas e gosta de heterodoxias na hora do vamo vê –, só conseguiu ficar no Big Brocha até o fim por causa da votação do Nordeste. (A tal Gyselle é piauiense.)
Votar em alguém – seja em Big Brocha, presidente ou síndico – por regionalismo é uma prova de severo retardamento mental. Assim como é atestado de debilóide votar em alguém por ser viado, negro, baixinho, bem-dotado, maringaense, fanho, torneiro mecânico ou língua-presa. Provas que o povo bananístico não se cansa de oferecer (vide o “Viva Lula! Viva Lula! Viva Lula!").
Sem embargo (e não estou falando de Cuba), nós todos sabemos que o Piauí é o estado mais perfeito e pujante da nação; tanto é que tem até arrivista de circulação nacional.
Falar a verdade: votar em Big Brocha, e ainda pagar por isso, já é uma prova de retardamento mental mais do que suficiente.

Crônica das palavras erradas

March 24, 2008

O professor Tanga nos lançou a charada na última quinta-feira: “A linguagem ordena as coisas ou as coisas ordenam a linguagem?”.
Tenho comigo que as palavras precedem até mesmo a existência das coisas. “No princípio era o Verbo.” Esse apego extremado – excessivo, até – ao universo da linguagem determinou todas as escolhas importantes em minha vida.
Às vezes, quando pronuncio uma palavra esquecida há muitos anos, percebo que ela traz consigo uma coorte de fantasmas.
Eu deveria ter 3 ou 4 anos; minha irmã ainda não era nascida. Morávamos em São Paulo. Meu pai dizia quando entrávamos no elevador: “Cuidado com o DEGRAU”.
Para mim, DEGRAU era uma pessoa; um homem bravo e agressivo, com cara de poucos amigos. Da mesma forma, se eu estava brincando lá fora e começava a anoitecer, Vó Maria alertava: “Filho, vem pra dentro; olha o SERENO!”. Este era um personagem noturno, com fama de perigoso, mas no fundo boa gente. Algo me dizia que o SERENO era tão injustiçado quanto o Zorro ou o Homem-Aranha.
Acho que já falei aqui sobre um de meus atores preferidos: GRANDE ELENCO. Juntamente com Grande Otelo e Wilson Grey, GRANDE ELENCO participava de quase todos os filmes. E o seu nome sempre vinha por último nos créditos. Coitado do GRANDE ELENCO!
Sempre achei que VÓRTICE fosse um elemento de arquitetura. A gente abre um livro antigo, daqueles que exalam um forte e delicioso cheiro de passado, e lê ao acaso: “Os macedônios ficaram famosos por construir prédios públicos com imensos VÓRTICES na fachada”.
DEMIURGO é um professor aposentado muito triste, um ancião melancólico e alquebrado, corcunda e asmático. Passou por traumas de infância. A vida lhe é penosa.
IMPEACHMENT é uma qualidade tipicamente britânica, primor de esnobismo. Parece que vamos ler em algum romance vitoriano: “Ao sr. Adams falta o IMPEACHMENT necessário para freqüentar os salões com desenvoltura”.
COSMONAUTA é uma profissão extinta, uma espécie de chapeleiro ou bijuzeiro da exploração espacial. Desconfio que o COSMONAUTA veste ESCAFANDRO em vez de pijama. E é careca.
Para fechar esta crônica de palavras malucas, invoco uma personagem citada nos meios jurídicos: DATA VÊNIA. Trata-se de uma senhora que não envelhece, quase uma Christiane Torloni dos equívocos. Outro dia, passeava eu pelo Calçadão, errando entre um buraco e outro, quando pensei ter visto a DATA VÊNIA pertinho do Coreto. Mas tudo era ilusão.

- Publicado no Jornal de Londrina.

Esperando o psiu

March 19, 2008
Tio Hopper.

Estava eu hoje na esquina esperando o psiu, quando pensei: “Carai. Eu aqui nesta esquina, e ainda por cima esperando psiu, tô mais é parecendo uma putinha, ou melhor, como querem os politicamente corretos, uma profissional do sexo”.
Foi esse o pensamento que eu tive, por um mísero instante. Mas, como sabemos, o mísero instante sempre é seguido por outro mísero instante, e neste mísero instante, homônimo, porém diferente, até porque era um instante um instante mais velho, pensei que há vários anos conheço a árvore da esquina das ruas Pernambuco e Pio XII, onde costumo parar, igualzinho a uma reles meretriz (usemos um termo mais clássico), para esperar o psiu. Reparei que a árvore cresceu bastante nesses anos, o que a tornou mais útil, pois árvores maiores dão mais sombra, e é precisamente a sombra que eu procuro na esquina da Pernambuco com a Pio XII. Reparei também que a árvore estava florida, e que a pastelaria ali em frente estava cheia de gente (desculpe a rima), e olha que eram dez da manhã. Pensei, por outro fugaz e efêmero (desculpe a redundância) momento (sim, agora eu vou chamar instante de momento), que há anos eu paro debaixo daquela árvore em frente à pastelaria e jamais comi um só pastel feito ali. Pensei também que se a Janaína Ávila estivesse ali, ao meu lado (se ela estivesse ela não pareceria o que eu deveras pareço, pois é uma senhora de respeito e responsa), chamá-la-ia (Dilson e Tanga, eu adoro usar mesóclise de vez em quando, mesmo que errado, mas esta não foi errada) para comer um pastel ali mesmo, dane-se a dieta, depois eu dou mais uma volta no lago.
E pensei também que aquela árvore florida, em frente à pastelaria, era quase minha por usucapião, e que meus divertidos detratores vão afirmar, com ódio e/ou desprezo: “O Briguet privatizou a árvore” ou “Olha aí o Briguet, vive falando mal do Estado [eles escrevem estado com maiúscula], mas na hora que precisa fica na sombra estatal”.
Minutos antes, estivera eu na biblioteca municipal (olha aí, meu amigo Marcião, que absurdo, um liberal usuário da biblioteca PÚBLICA!), e a bibliotecária me disse que a crônica A privatização da privada (ou melhor, uma versão bem mais leve publicada no Jornal de Londrina, com o título O chamado da natureza), causou muitas chacotas. Eu comentei, com um sorriso pra fora: “Chacotas dirigidas a mim, é claro”. Ela respondeu, com um sorriso pra dentro: “Não. Chacotas dirigidas a nós, funcionários da biblioteca”.
Engraçado. Se alguém tivesse que ser alvo de chacota naquela crônica, esse alguém seria eu: afinal, a dor de barriga e a cagada foram minhas! Mas a bibliotecária e os funcionários da biblioteca acho que não gostaram, não. Engraçado mesmo. Ano passado, escrevi uma crônica propondo a venda da Prefeitura de Londrina – e nenhum funcionário reclamou. Agora, falei só de um barro, e lá vem reclamação. Privatização pode. Merda não pode. Guardai-vos de qualquer menção ao fato de que o ser humano caga.
Por falar em biblioteca, já li “Ao Deus desconhecido”, do Steinbeck, e gostei (uma hora eu conto) e peguei o “Triste fim de Policarpo Quaresma”, uma imperdoável lacuna. Depois comento. O que o Major Quaresma diria de tudo isso?
Por fim, pensei que devo um esclarecimento aos leitores que não moram na minha cidade. Psiu, embora seja um nome estranho, parece até vocabulário de puta, é apenas um sistema de ônibus com ar condicionado e que pára em qualquer lugar (daí o nome: “Psiu! Pare por favor!”). A passagem custa só 50 centavos a mais.
Depois eu fiquei com vontade de ligar para a minha mulher e liguei. E o psiu chegou. Maldito liberal usando o sistema de transporte público!

*****
Post-scriptum:
Pouco antes dos eventos (?) acima narrados, encontrei Silvio Grimaldo na Av. Rio de Janeiro. O garoto (sim, porque me pareceu jovem de tudo) está bombando nos cursos do Espaço Humanitas. Saudações e parabéns.

Amigo é coisa pra se guardar

March 17, 2008
Madonna em ação: a Preta Gil também é uma GRRRACIIIINHA.

No Brasil, há sempre um amigo – ou amigo do amigo – para confirmar as teses mais estapafúrdias, as histórias mais inverossímeis, as versões sem pé nem cabeça. Quando alguém diz, numa roda de conversa, “tem um amigo meu que...”, já fico de pé atrás. Lá vem besteira.
Todo mundo tem sempre um amigo que presenciou acontecimentos impossíveis, com dois olhos que a terra há de comer; e o cara ainda por cima jura de pés juntos. O testemunho pessoal é a prostituta das provas, dizem os advogados. Mas, hoje em dia, quando até o governador de Nova York é derrubado por uma profissional do ramo, o testemunho de “um amigo meu” virou dogma, verdade incontestável, prova jurídica, científica e teológica. A turma confunde a prostituta das provas com as provas da prostituta.
Há sempre um amigo que viu uma sereia no Rio Amazonas; e a amiga que foi assediada pelo boto cor-de-rosa em pessoa. A Loira do Banheiro, com algodão nas duas fossas nasais, já foi vista em incontáveis banheiros escolares. No boteco, certa vez, um capiau garantiu ter visto – e fotografado – o chupa-cabra. Infelizmente, a foto não apareceu até hoje para que possa ser periciada. Tripulantes de discos voadores vivem abduzindo amigos dos amigos. (Uma pergunta: por que sempre DISCOS voadores? Não poderiam ser xícaras, estrelas, cones, canetas, cafeteiras, garrafas, bolas de bocha, patinetes, skates, cavaquinhos voadores?)
Existe sempre um amigo que garante: foram os próprios americanos que derrubaram as Torres Gêmeas. E Pelé não fez mil gols coisa nenhuma; no máximo, 300. É por isso que Maradona é o maior jogador de todos os tempos. (Esta última tese geralmente é de um amigo e também hermano.)
Homem na Lua? Conversa! Foi tudo filmado nos estúdios Walt Disney. Tancredo não morreu, Elvis não morreu, Jim Morrison não morreu, Madonna não morreu. Epa! Esta última não morreu mesmo – dizem até que gravou um disco. Mas não é a verdadeira Madonna, garante um amigo. A Madonna ali, no duro, mudou-se para o Brasil e virou a Hebe Camargo. Já notaram um leve sotaque quando a Hebe diz que alguém é uma GRRRRACIIIIINHA?
Há sempre um brasileiro dizendo que o socialismo deu certo em algum lugar (na Albânia, por exemplo); e que Cuba é a pátria da liberdade. Outro cidadão garante que Lula realmente não sabia de nada, e que o mensalão nunca existiu – foi tudo invenção da “mídia golpista”.
Milton Nascimento diz que amigo é coisa pra se guardar. Mas o duro é a gente se guardar de certos amigos.

- Publicado no Jornal de Londrina.

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As Olimpíadas de Pequim serão, para o governo comunista da China, o mesmo que as Olimpíadas de Berlim foram para Hitler. E sem um Jesse Owens.

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UPDATE:


Infelizmente, sou um pré-histórico leitor de jornais de papel. Por isso, não tenho o link para o artigo de Nelson Ascher publicado hoje na Folha de S. Paulo. Só digo uma coisa: não percam. Corram até a banca mais próxima e comprem o jornal. Ou encontrem o link, sei lá.
Ascher, com o brilhantismo costumeiro, demole a tese brazuco-esquerdofrênica de que a renúncia do governador Eliot Spitzer teria sido causada pelo "puritanismo americano". (Puritanismo americano, como já se disse aqui neste blog populá, é meu pinto de óculos.) De brinde, o poeta e ensaísta nos dá um exemplo de como os escândalos (sexuais, políticos e policiais) são tratados numa democracia e numa ditadura.

Canção do cabeça de vento

March 15, 2008
O ar é de graça. Nada tem a graça do ar.
Pago pela água; pago pela luz. Não há conta de ar; é que o ar não tem conta.
O ar vem do ar. O ar vem do coração do mundo. O ar vem da fornalha do céu. O ar vem do bosque e da boca do inimigo. O ar vem da boca de Deus. Por isso eu rezo – para Deus e pelo inimigo. O ar é redundância do ar.
O ar é meu único rumo, meu único mapa. Minha única chance de sobrevivência. É meu zero, meu alfa, meu sol. O ar é meu dinheiro e aguardente. Minha mulher, minha cocaína.
Não sei dançar, mas danço no ar.
Não sei cantar, mas canto no ar.
Não sei matar, mas vivo e morro no ar.
Sou ar. Raciocino ar. Sofro ar. Estou na primeira conjugação.
A dor é só outro nome do ar. A voz é nada mais que ar. Bach é puro ar. E o resto é silenciar.

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E não vamos esquecer o link para o escândalo no Conselho Nacional de Assistência Social. A novidade é que Silvio Iung, presidente do CNAS e um dos "atores essenciais dos programas assistenciais", segundo o ministro Patrus Kalinin Ananias, pediu afastamento do cargo. E o resto é silêncio.

Diferenças

March 14, 2008

Antes eu ia dormir de madrugada, com muita pinga na cabeça.
Agora, acordo de madrugada para ir à missa das cinco. Quer saber? É melhor. Mas isso não impede aquela cervejinha logo mais à noite. Todos – todos – estão convidados.

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Sobre o recente caso do CNAS (Conselho Nacional de Assistência Social), uma frase de Roberto Campos vem a calhar:

“Um Estado grande leva invariavelmente aos assistentes passarem melhor do que os assistidos.”


Blog popular é fogo!

March 13, 2008
Nicole Bahls, direto da Terra Vermelha, ex-aluna do meu amigo Fábio Silveira

A pedidos (de amigos!, republico aqui o link para as fotos de Nicole Bahls, moça da terra que saiu no Terra. (Sim, estava dando problemas. Comentários desairosos à moça serão apagados.)

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E o governador de Nova York, hein? Esta foi a ruína do cara.

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Enquanto esses links garantem o divertimento da garotada e o habitual ibope do Repórter das Coisas, um assunto bem mais sério permanece em sepulcral silêncio. Falo da picaretagem no Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS). É o que eu chamaria de um silêncio prenhe de sentido.

Ananias, anão político

March 13, 2008
E não é que o Patrus é parecido com o véio Kalinin?

Estimulado por Lula, esse ridículo Patrus Ananias - o Kalinin do bolsa-esmola, até ontem assessorado fielmente por Márcia Lopes - resolveu agora bancar o candidato à Presidência. Uma das muitas cretinices que externou ontem em Brasília foi atacar a privatização da Vale. Qualquer esboço de capitalismo, no Brasil, é visto como crime. Hoje o PT defende a reestatização da Vale. Amanhã, a vítima poderá ser o restaurante da esquina.

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UPDATE!

Um escândalo na área de Assistência Social. Confira aqui no blog de José Pedriali.

Renúncia coletiva

March 12, 2008
Um velho amigo tinha um gato chamado Delphos. De vez em quando, o amigo aparecia todo arranhado.
Eu perguntava:
– O que foi isso, rapaz?
– Briguei com o Delphos.
Logo o amigo aprendeu, na pele, que brigar com gato não era boa idéia.
Um dia, o amigo chegou outra vez todo arranhado.
– Que foi? Brigou com o Delphos de novo?
– Não. Caí de bicicleta.
– E as brigas com o Delphos?
– Parei.

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Essa fábula real ensina alguma coisa. Chega um dia em que a gente resolve não brigar mais com gato. Se houver arranhões, o motivo será outro.

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Sonho com o dia em que eu não precise mais brigar com políticos – algo que venho fazendo, à direita e à esquerda, nos últimos 20 anos. Dia em que o estado for apenas um incômodo suportável – e mínimo. E se alguém, nesse dia, me perguntar por que eu não brigo mais com políticos, a resposta será breve:
– Parei.

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Mas eu não paro. Eles não deixam. Quatro vereadores foram afastados da Câmara, acusados de corrupção. Um vereador renunciou após ser flagrado pelo Ministério Público. Dois deles estiveram presos. Outros figuram numa tétrica lista de valores, semelhante aos canhotos de apostas do jogo do bicho. Como faltam pouco mais de seis meses para a eleição, faço uma proposta à Câmara: RENÚNCIA COLETIVA.

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Ué, o Tubarão não foi desclassificado no Campeonato Paranaense? Estamos em março, e o time ficou sem agenda para 2008. Se a cidade pode ficar sem o time, pode muito bem ficar sem a Câmara. Vamos usar as acomodações da Câmara e do Estádio do Café para finalidades mais produtivas: shows, palestras, leilões beneficentes.

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E não venham dizer que há vereadores inocentes e honestos na Câmara. Eu sei disso. Não compartilho da tese de que “todos são iguais”. Mas o fato é que a Câmara – ESTA Câmara – fracassou como instituição. Já não tem o menor vestígio de credibilidade.

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Nedson defendeu a renúncia de Bonilha para ele “não perder os direitos políticos”. Minha intenção, ao propor a renúncia coletiva, é exatamente oposta. Que os vereadores voltem para suas casas e seus empregos “civis” e nunca mais passem pela calçada da Avenida Duque de Caxias. (Mesmo assim, a nova Câmara – a ser eleita em outubro – me enche de medo. Poderá ser ainda pior.)

****

E já que falei no Nedson e na Duque de Caxias, sugiro que o prefeito, todos os secretários e todos os comissionados da Prefeitura façam o mesmo: RENUNCIEM. Aproveitem que Gerson O Lenhador foi detido no jogo do Tubarão e PEÇAM PRA SAIR. Assim, a cidade ficará sem Executivo, sem Legislativo e sem Tubarão até o final do ano. Aposto que vai ser melhor. E o último a sair que apague a luz.


– Publicado no Jornal de Londrina.


Comentário de um leitor do JL (sem correções):

"Sugiro tambem que os jornalistas chinfrins, como, vc, renunciem tbm.... Assim ficaremos sem imprensa desqualificada e babaca que nos temos que aguentar. Vc eh um frustrado... talvez nao teve nenhum projto caça niquel aprovado pelo promic........ especialista em falar mal da nossa cidade, por favor, suma........."


É mais um que vai para a orelha do meu livro.

Senso crítico

March 11, 2008

Trecho de uma carta recebida pelo Jornal de Londrina:

“Ser elogiado por Paulo Briguet constitui vergonha para qualquer escritor sério, mas como não existem mais escritores sérios (principalmente em Londrina, onde nem sequer existem escritores), isso pode passar despercebido”.


Já está selecionado para a orelha do meu livro.

Ao vereador, as batatas

March 06, 2008
O vereador Orlando Bonilha (PR) acaba de ser preso, depois de uma entrevista coletiva na Câmara de Londrina.
Na última sexta-feira, Bonilha havia dito que não era "a única batata pobre" do Legislativo. Morreu pela boca.
É o segundo vereador londrinense preso nos últimos dois meses. No dia 10 de janeiro, Henrique Barros foi detido em flagrante com R$ 9,9 mil. Dinheiro de suborno.

*****

Horas antes da prisão, o prefeito de Londrina, Nedson Micheleti (PT), de quem Bonilha é um fiel escudeiro e aliado, havia aconselhado o vereador a renunciar ao cargo. "Assim, ele preservará seus direitos políticos", declarou Nedson.

A privatização da privada

March 05, 2008

Estava eu hoje na biblioteca municipal, à procura daquele livro do John Steinbeck com um belo título: Ao Deus desconhecido. (Steinbeck é bamba nos títulos: A leste do Éden; O inverno da nossa desesperança; Ratos e homens).
Já me aproximava da prateleira de literatura norte-americana (maldita seja ela, compañeros!) quando senti o chamado inconfundível da natureza. Movimentos peristálticos, daqueles que retornam de dez em dez segundos, sempre com força redobrada; nem mesmo o Buda em pessoa poderia controlar. Alas!
Caminhei – com muito cuidado, pois qualquer movimento brusco pode ser fatal – ao Wanderley Cardoso da biblioteca. Lugar nada aprazível, diga-se. Já me preparava moralmente para a mais nefasta posição banheirística – quando o capiau tem de agachar no vazio, sem tocar as bordas da privada infecta. Uma vez pratiquei essa triste modalidade de barrôncio no Bar Brasil (no tempo em que o Bar Brasil tinha privada).
Mas – felizmente ou infelizmente – os três vasos do W.C. público se encontravam ocupados. (A água de Londrina deve estar com bichinho.)
Pânico. Nesse momento eu pagaria até dé real por uma retrete civilizada. (Aliás, a retrete é um dos mais confiáveis parâmetros da civilização.)
Dificultoso instante! Iluminado pelo Anjo, lembrei que havia um banheiro no andar de cima da biblioteca, reservado aos funcionários.
Subi a escada com indescritível cuidado, já suando, e supliquei à primeira funcionária que vi: “Moça, eu tô com dor de barriga. Posso usar o banheiro dos funcionários?”
A moça compreendeu o drama. Acho que minha expressão facial estava bastante persuasiva.
“Tudo bem, mas eu só tenho a chave do banheiro feminino. Vou lá embaixo pegar a do masculino.”
Durantes três minutos-horas de suplício, aguardei a redentora chavinha.
Eis que veio, pelas mãos de um guardinha terceirizado e desconfiado:
“Mas você não foi lá no outro banheiro?”
Eu:
“Fui, moço, mas tava ocupado.” (A frase oculta era: “Me dá logo essa chave, que eu tô quase cagando nas calças, cara!”)
Ele fez uma careta, mas disse:
“Tó.”
Peguei a chave, entrei no banheiro e tirei a calça com a rapidez de uma mudança de opinião do Barack Obama.
Pus-me a atender, com intensidade e sofreguidão, ao chamado da natureza. Durante dez minutos, fiz no vaso aquilo que Fidel Castro fez em Cuba por 49 anos e uns quebrados.
Na falta de leitura, observei – não sem uma ponta de desolação – o aviso na parede: “ECONOMIZE PAPEL HIGIÊNICO. ESTAMOS EM FALTA”. Ao encerrar meu trabalho, procurei seguir a advertência do cartaz, conciliando, na medida do possível, os requisitos da limpeza individual e os ditames da economia pública.
Ao sair do banheiro, agradeci ao guardinha, devolvi-lhe a chave e fiquei pensando em algum tipo de reparação pelo uso do banheiro funcional. Da mesma forma que fiz aquela bosta de curso de jornalismo – e, dessa forma, tenho uma dívida com a sociedade –, senti-me obrigado a doar alguns rolos de PH à gloriosa biblioteca. Farei isso quando terminar de ler Ao Deus desconhecido.
E que Deus não me permita jamais fechar a porta ao irmão que só precisa dar uma cagada.

A pequena alma de Tainá

March 04, 2008
Ela era assim.

Quando Tainá era filhote, colocava-se um relógio sob a almofada em que ela dormia. O tique-taque substituía o coração da mãe. Assim a cachorrinha foi se acostumando aos poucos com o novo lar.
Formato Cofap, Tainá teve um começo de vida dificultoso. Foi comprada como macho. O primeiro dono queria um cachorro para apelidá-lo de Cão Coragem (aquele do desenho animado). Quando descobriu que Coragem não tinha os documentos necessários para a legitimação da masculinidade, o dono rejeitou-o. Ou melhor, rejeitou-a. Tainá – ainda sem esse nome – teve que ser doada a uma segunda família. Que veio a ser sua família até hoje – seis anos depois.
Agora Tainá está doente. Do fígado. Percebi isso na última vez em que a encontrei. Não quis brincar; nem ligou para minhas provocações (“Eu vou pegar sua ração!”); mostrou-se apática e macambúzia; faz xixi em qualquer lugar (não fazia antes). Não tinha aquela eletricidade dos cães de sua raça, sabujos criados para farejar tocas de animais silvestres (daí o formato salsicha).
Tainá vai passar por um tratamento. O “tio” (como chamamos o veterinário) disse que ela tem chances de recuperação, mas há os efeitos colaterais do remédio.
Posso garantir que Tainá não tem culpa nenhuma por sua moléstia; jamais tomou cachaça.
O fígado é um órgão importantíssimo – não é à toa que os antigos viam nele a origem da melancolia. Ao contrário do coração, não há como usar um relógio para reproduzi-lo. Fígado não bate. Não bate, nem dói.
E é por isso que hoje eu rezei por Tainá – por sua pequena alma, por seu pequeno coração. Resolvi nada falar sobre esse louco do Hugo Chávez. Ousei pedir pela pequena, embora gordinha, Tainá – e ouso pedir que vocês façam o mesmo.