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Archive for February of 2008

He andado muchos caminos

February 29, 2008

Do poeta espanhol Antonio Machado (1875-1939):

He andado muchos caminos
he abierto muchas veredas;
he navegado en cien mares
y atracado en cien riberas.

En todas partes he visto
caravanas de tristeza,
soberbios y melancólicos
borrachos de sombra negra.

Y pedantones al paño
que miran, callan y piensan
que saben, porque no beben
el vino de las tabernas.

Mala gente que camina
y va apestando la tierra...

Y en todas partes he visto
gentes que danzan o juegan,
cuando pueden, y laboran
sus cuatro palmos de tierra.

Nunca, si llegan a un sitio
preguntan a donde llegan.
Cuando caminan, cabalgan
a lomos de mula vieja.

Y no conocen la prisa
ni aún en los días de fiesta.
Donde hay vino, beben vino,
donde no hay vino, agua fresca.

Son buenas gentes que viven,
laboran, pasan y sueñan,
y un día como tantos,
descansan bajo la tierra.


*****

(Com isso, eu convido a todos para uma cerveja no Magdalena, logo mais à noite. E mais não digo porque não sei.)

Deus

February 29, 2008

Ele está aqui. Mas estará no AQUI? Não sei, vou procurar. Dizem que foi visto, de velho, na Vila Nova. Alguns juram – por Ele – que andou pela Vila Casoni; outros garantem que foi na Vila Gasoni. Até agora os dois grupos não chegaram a um acordo.
Busco o Jardim Ideal. Por vias tortas – como a torre do Jardim Piza – quero descobri-Lo no Residencial das Américas. Ele estaria lá, de pé como um ovo de Cristóvão Colombo, à sombra dos Coqueiros. Afinal, se todos os caminhos levam à Rua Roma, também conduzirão ao Paraíso. Maravilha!
Mas é uma difícil tarefa. Para chegar até quem procuro, devo subir a Serra da Esperança, tomar a Arthur Thomas e cruzar a Tiradentes (para isso precisarei enforcar o serviço).
Nestes tempos de Copa, é bem possível que tenha passado pela Rua do Futebol (afinal, Ele não é brasileiro?). Procurei por lá, mas fiquei na Saudade. Pombas!
Talvez, se eu pular a Avenida do Salto Triplo, consiga encontrar a Avenida da Amizade, aquela que começa na Rua da Sorte e termina na Irmandade. Teria Ele passado por lá? Vou ver se está na esquina.
Perseverança. Eu trocaria um cheque no Jardim dos Bancários; desceria a Pernambuco até virar Zerão; caminharia na Humaitá até que ela Faria Lima; na João Cândido, ficaria de alma lavada. E nada.
O Amor Perfeito busquei – e encontrei – na avenida que não parece avenida, a Rio de Janeiro. Ali me tornei Amado Noivo. Mas, na hora de pedir a mão da moça, fiquei tão nervoso que acabei dando uma de Gago Coutinho. Se achei o Amor Perfeito e fiquei em Paz, tenho Fé: vou encontrá-Lo, nem que seja preciso dar nó em Pingo D’Água. Por favor, Álvaro Ferreira, me dê uma Luz! Caso contrário, vou quebrar tudo e mudar para a Rua Astorga. Quero Justiça, Felicidade! Mas não passo de um Amador Bueno.
Imagine, John Lennon! Caramba, Cacilda Becker! Quero ficar Cara-Cara com o Espírito Santo! É preciso ser um Albert Einstein para achar esse distrito – ou melhor, esse distinto. Pedi o telefone dEle a Alexander Graham Bell, mas nem tudo são Flores. Solicitei ajuda ao meu amigo Alessandro, mas, à primeira dificuldade, o Alessandro Volta. Nem o Pescador Pedro me auxiliou: negou três vezes que O conhecesse. Mentiroso.
Procurei tanta gente. Fui às ruas dos Sapateiros, dos Datilógrafos, dos Construtores, dos Jornalistas, dos Engenheiros, dos Taxistas, dos Encanadores, dos Confeiteiros, dos Mensageiros, dos Almoxarifes, dos Fotógrafos, dos Assistentes Sociais... e nada. Dizem que Ele foi visto na Rua dos Cronistas – mas essa rua ainda não existe. Continuo procurando. O tempo passa na Avenida Universo...

Açougueiro Tião

February 28, 2008
Johann Sebastian e Tião

Taí o rosto de João Sebastião, o Bach, em duas versões. A primeira é a que a gente conhece, de peruquinha e tudo. A segunda foi feita por especialistas que reconstituíram a cara do cara (hã, hã?). Mais detalhes aqui.
Na verdade, o rosto do Bach não inflói nem contribói. Ele não era alguém que dependesse da beleza – como dependem Madonna, Gisele Bündchen et caterva. Se precisava de alguma coisa bonita, ele fazia.
Fazia música – e filhos. Teve vinte (vinte!). Alguns seguiriam a carreira musical – Carl Philip Emmanuel foi um grande compositor. Mas imagino que os pimpolhos não ficassem assim muito contentes quando alguém chegava e dizia: “É a cara do pai!”.
Porque esse João Sebastião reconstituído tem a mó cara de açougueiro. “Ô, Tião, me vê meio quilo de bisteca! E pode enrolá nessa partitura de Brandenburgo aê!”

- Por Briguet, feião assumido.

ENTÃO...

February 27, 2008
Los Hermanos em Cuba. Cadê o Raúl?

Existem muitas palavrinhas perigosas. MAS não é a única. Ontem o taxista Marcos me faz lembrar de outra: ENTÃO... (Assim mesmo, em letra maiúscula, seguida por reticências.)
Quando você faz uma pergunta a alguém e ele começa a responder com um ENTÃO... – pode se cuidar porque lá vem bomba!
Alguns exemplos:
– Fez aquilo que eu pedi?
– ENTÃO...
– Quando é que você vai pagar o que me deve?
– ENTÃO...
– Algum problema lá em casa?
– ENTÃO...
– O que é que a polícia tá fazendo aqui?
– ENTÃO...
– Passou no vestibular?
– ENTÃO...
– Tudo certo com meus exames, doutor?
– ENTÃO...
O cara costuma usar ENTÃO... quando é portador de más notícias e respostas desagradáveis. ENTÃO... é uma forma de enrolar o outro. ENTÃO... é o tempinho que alguém precisa para inventar uma desculpa.
Os políticos, em geral, adotam uma outra forma verbal nesses casos. Enroladores profissionais não dizem ENTÃO... Preferem VEJA BEM...

- Leia a versão completa da crônica no Jornal de Londrina.

Escândalo!

February 25, 2008

Depois diz que é liberal.

MAS (que nada)

February 25, 2008
Na contramão, balseros brasileiros tentam fugir PARA Cuba. É que lá tem salud y educación!

MAS é uma palavrinha perigosa. Apenas três letras; infinitos estragos. Meu pai contou-me a história de uma amizade de 30 anos que terminou por causa de um MAS.
Alguns exemplos do que essa conjunção demoníaca pode fazer:

- Hitler foi o responsável pelo Holocausto, MAS...
- O comunismo causou 100 milhões de mortes, MAS...
- El Coma Andante censurou, prendeu, torturou e fuzilou, MAS...
- Quase 80 mil pessoas morreram afogadas tentando fugir de Cuba, MAS...
- O atentado contra as Torres Gêmeas foi uma carnificina, MAS...
- O terrorismo é condenável, MAS...
- O mensalão foi um crime, MAS...
- O nome dele estava na lista do Carlos Júnior, MAS...
- A farra dos cartões corporativos é inaceitável, MAS...
- Os vereadores corruptos devem ser punidos, MAS...
- O marqueteiro confessou receber dinheiro de paraísos fiscais, MAS...
- A morte de Celso Daniel tem uma série de sombras, MAS...


*****

É muito simples: MAS, em muitos casos, pode ser uma conjunção do MAL. A diferença é apenas uma letra. Antes de usar MAS, é preciso verificar se não estamos caindo no relativismo moral, essa praga que perdoa todos os crimes. Definitivamente, meus amigos, para certas coisas não tem MAS!

*****

Táxi, cerveja e livros. Se eu tivesse guardado metade do dinheiro que já gastei com essas três coisas, hoje estaria rico. Quem eu seria? Sem táxi, teria demorado muito para chegar aos lugares; poderia estar morto por insolação (nas caminhadas diurnas) ou assalto (nas caminhadas noturnas). Também teria deixado de fazer excelentes amizades com os taxistas. Muitas histórias que publico nesta coluna nasceram em conversas de táxi. Sem cerveja, bem... A verdade é que estou diminuindo a cerveja, por ordens da chefia. Skol, só no final de semana – e, mesmo assim, olha lá. Quando aos livros, o que eu seria sem eles? Poderia estar rico, mas teria vivido muito menos. MAS – no bom sentido.

*****

Talvez eu estivesse com sono e tenha escutado mal. Liguei o rádio, numa dessas manhãs, e o locutor falava sobre a poluição na China. O nome do ministro chinês responsável pelo meio ambiente é SHU-JEI-JÁ (ou foi assim que me pareceu). SHU-JEI-JÁ! Com esse nome, não há camada de ozônio que agüente.

*****

Vocês lembram que o Silvio Santos sempre perguntava aos convidados se eles estavam contentes com os serviços do hotel HIIIILTÃOMMMM? Lembram que, se o calouro era paulista, ele cantava a música Ê-Ê-Ê-Ê SÃO PAULO? Lembram que à noite, na Globo, passava a CORUJA COLORIDA?
Cada coisa que eu lembro!

- Publicado no Jornal de Londrina.

Desculpe o mau jeito

February 22, 2008
Ao telefone, o amigo e professor Léo Pires Ferreira, especialista em Monteiro Lobato. Com toda lhaneza, dr. Léo diz que há um erro em minha última crônica. Escrevi “mal” jeito – em vez de mau jeito, como seria correto. Obrigado pelo aviso, professor!
É. Não tem jeito. A gente sempre erra. Confesso já ter sido admirador de Che Guevara, aquele maníaco homicida, mas de um erro não posso ser acusado: jamais escrevi uma linha a favor de Fidel Castro. El Coma Andante sempre me pareceu um típico ditador latino-americano: cruel, mentiroso, corrupto e personalista.
Nunca me convenceu essa lorota de que é lícito aceitar uma ditadura – que censura, prende, tortura e mata – em troca de “saúde e educação”. Vamos supor que o mito da saúde e educação cubanas fosse verdadeiro; ainda assim, valeria a terrível definição dos cubanos feita pelo escritor exilado José Latour: “Saudáveis e educados, sim, mas escravos”.
Mas falemos de outros erros. Apareceram dois imensos buracos no Zerão. Atração da cidade, o Zerão foi construído onde antes era um imenso buraco. Talvez a prefeitura queira recuperar o formato original da área, da mesma forma que pretende fazer com o prédio da Secretaria de Cultura.
E não é que segunda-feira eu vi o secretário de Obras caminhando à beira do Igapó 2? Claro que ele também tem esse direito – mas observo que o secretário prefere o lago ao Zerão esburacado. O homem não é bobo. Gosta de errar – no sentido de caminhar – longe de buracos. (Mas isso não poderá ser mais feito quando a cidade se tornar, ela própria, um imenso buraco.)
Erros, erros. O maior número deles está ligado ao uso das palavras. O vereador Bonilha, ao defender-se na tribuna da Câmara, usou várias vezes a palavra “release” (resumo de notícias para a imprensa) no feminino. Foi um tal de “a release” pra lá, “a release” pra cá... Pois é. O release deve ter passado por uma operação de mudança de sexo.
Isso me lembra um certo vereador, irmão de um certo prefeito, de uma certa cidade, que ficou furioso quando um colega se referiu ao poderoso mano como “alcaide”. “Meu irmão não é alcaide coisa nenhuma! Alcaide é vossa excelência!”
E há o erro que gera pizza. Ou melhor: o erro do qual se aproveitam os interessados em pizza. Proteger empresários que foram achacados por políticos é uma atitude plausível – principalmente, se a colaboração das vítimas puder levar à punição dos culpados. Achacadores não são – e nunca serão – moralmente iguais a achacados. Ignorar essa premissa é um erro fatal.
Por fim, já que estamos falando de erros, uma reparação. Na última crônica, esqueci de fazer rima com o nome do candidato petista. Então, lá vai: Aqui em Londrina, as coisas estão amargas. Pra mim, pra você, pro André Vargas.

- Publicado no Jornal de Londrina.


*****

A crítica à ditadura cubana passa por duas fases. Trótski chamaria isso de “dialética”; na verdade, é apenas o método racional. O materialismo dialético não possui embasamento moral, daí ter sido, e continuar sendo, a filosofia dos massacres (100 milhões, em estimativas conservadoras); o método racional pode combinar-se perfeitamente com os princípios judaico-cristãos.

*****

As duas fases são as seguintes. Primeira: a crítica à ditadura em si. Em Cuba, há censura, tortura, presos políticos, fuzilamentos. (Não vou nem falar da miséria, que é das mais degradantes, porque física e moral.)
A maioria da população cubana quer fugir do país. Não acredito que alguém, em sã consciência, ou usando da mínima honestidade intelectual, negue a existência da tirania castrista.
Vamos supor que a educação e a saúde de Cuba fossem, realmente, exemplares. De primeiro mundo. Isso justificaria, ou amenizaria, os crimes da ditadura? Hitler recuperou a economia alemã; Stálin ajudou os aliados a ganharem a Segunda Guerra. Devem ser perdoados por isso? Para ficar num exemplo latino-americano: Pinochet recuperou a economia chilena. Hoje, o Chile é a economia mais saudável do Cone Sul. No entanto, os méritos operacionais não justificam os crimes da ditadura Pinochet.
Nos anos 1970, Milton Friedman, com o habitual brilhantismo, ajudou o Chile a se recuperar economicamente. Considero que assessorar Pinochet foi um grande erro de Friedman. Não há conquistas sociais e econômicas que justifiquem a ditadura. E ponto. (Sinto desapontar os que acreditam na minha idolatria por Friedman ou qualquer outro liberal...)

*****

A segunda fase da crítica à ditadura cubana é mais delicada. Trata-se de demolir o mito de que a saúde e a educação cubanas são exemplares. Para tanto, eu os convido a ler esta reportagem de Lourival Sant’Anna, repórter do Estadão enviado a Cuba em 2003. Para quem não se lembra, Lourival foi o primeiro a publicar, em 1999, uma extensa reportagem sobre o escândalo Belinati (na época, os meios de comunicação da cidade estavam censurados). Lembro-me de sair da formatura do Lílson - quando tive a honra de ser nome de turma pela segunda vez - e ter corrido à banca para comprar o Estadão. Corria o boato de que os belinatistas comprariam todos os exemplares do jornal distribuídos em Londrina naquele dia.
Mas leiam a reportagem (que é parte de uma série). E ponham a mão na consciência – os que ainda admiram “o mito Fidel”.
A reportagem do link é sobre a saúde cubana. No mesmo site, há links interessantíssimos sobre economia, embargo, censura, educação e outros assuntos da Ilha de Fidel.

*****

Não adianta nada ser liberal apenas do ponto de vista econômico; o verdadeiro liberalismo atinge camadas muito mais profundas do pensamento. Um Lourival Sant’Anna – desconheço as suas idéias políticas – vale por mil Mirians Leitões.

*****

Aqui, mais um link interessante. Trechos do livro Antes que anoiteça, de Reinaldo Arenas, poeta perseguido, preso e torturado em Cuba – pelo fato de ser homossexual.

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E o PT comemora o fato de que o país tem grana para pagar a dívida externa. Tem mais é que comemorar mesmo. A política monetária e cambial – mantida pelo Banco Central – vem do único setor em que o governo petista copiou minuciosamente o governo FHC. Isso é o que eu chamo de herança bendita! Se fosse para seguir o programa do PT, estaríamos gritando até hoje Fora FMI!
E pensar que os stalin-debilóides da UNE têm como “bandeira” derrubar a política do Banco Central...

*****

E mais não digo porque ficarei umas duas semanas sem falar de política. A não ser que...
Mas vou. Prometi para a chefia.

O mal de Fidel

February 21, 2008
Pombinhas cagando no Coma Andante.

Escrevi: “Todo pescoço tem mal jeito”. O certo, claro, é “mau jeito”. Peço desculpas aos leitores pelo mau e o “mal” jeito.
Não tem jeito. A gente sempre erra. Fiz e disse muita bobagem nesta vida. Mas de um erro ninguém pode me acusar: nunca escrevi uma linha a favor de Fidel Castro.
Já idolatrei Ernesto Che Guevara, aquele bandido assassino – versão supostamente mais idealista e menos burocrática de Fidel. El Coma Andante, no entanto, nunca me enganou. Em geral, Fidel sempre me pareceu a imagem mesma do ditador latino-americano: cruel, corrupto e personalista.
Não acredito em governo que não faz eleições livres; não respeita liberdade de imprensa; prende por crimes de opinião; espiona a população inteira; tortura; fuzila; e se beneficia da miséria. Não acredito num governo que transformou o próprio território nacional numa grande ilha carcerária (tirante José Dirceu e Maradona, ninguém foge “para” Cuba, mas “de” Cuba).
Minha crítica a Fidel começou dentro dos parâmetros do próprio comunismo; mas toda crítica do socialismo real, quando feita com sinceridade, acaba se transformando, cedo ou tarde, em anticomunismo.
Vítimas de auto-engano, amigos ainda preservam um certo fascínio por Fidel, por sua imagem de revolucionário, “libertador”, inimigo dos Estados Unidos. Mas o único lugar em que Cuba deu certo foi a Flórida. Os dois milhões de exilados produzem mais e melhor riqueza que a ilha carcerária. O fato de Lula desqualificá-los como “a turma de Miami” me enche de vergonha e repugnância.
A maioria justifica a falta de liberdade e produtividade em Cuba com o argumento das “conquistas” em saúde e educação. Dois milhões de exilados, 17 mil execuções, quase 80 mil balseros mortos no mar, sem contar os presos políticos, seriam, segundo esse raciocínio, justificáveis.
Mas a saúde e a educação cubanas não passam de um mito. E atentemos para a origem da palavra: “mito” quer dizer mentira. A saúde pública em Cuba só é boa para quem tem dólares (turistas ou membros da elite governante). Nos hospitais da elite, os cubanos não podem entrar; e vice-versa. O que dizer de uma população “instruída” em que um médico tem um salário de 24 dólares?!
Desde a renúncia de Fidel Castro, li e – principalmente – reli muita coisa sobre Cuba. Poderia encher esta crônica de estimativas e números, mas nada melhor que a literatura para mostrar em que se transformou Cuba sob Fidel: basta ler qualquer livro do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez. Depois a gente conversa.

Canção de todo mundo

February 20, 2008
Todo mundo nasceu de mulher, teve febre de quarenta, berrou por leite e morreu de medo do escuro. Todo mundo sujou fraldas, chorou cólicas e ficou banguela. Todo mundo teve dor de dente. Eu, você, o presidente.
Todo mundo brincou de esconde-esconde, riu de besteira e teve dor de barriga. Todo mundo gritou mãe!, brigou de soco, entrou em fila e perdeu guarda-chuva. Todo mundo disse bom-dia, disse obrigado, disse por favor, disse até logo. Quase todo mundo disse adeus. Os meus, os nossos, os teus.
Todo mundo sentiu o gosto da própria boca; sonhou com os mortos; saiu na chuva; andou de quatro. Todo mundo ouviu o galo; pensou na vida; mentiu pra se livrar de um chato. Todo mundo teve ganho, perda, empate. Eu, você, o Belinati.
Todo mundo escreveu um poema, plantou bananeira, pôs o dedo no nariz. Todo mundo engasgou com água, piscou de sono e dormiu de sapato. Todo mundo foi careca, peixe, célula, átomo. Todo pescoço já teve mau jeito*. O meu, o teu, o do prefeito.
Todo mundo teve sede, fome, vergonha, medo, raiva e frio na barriga. Todo mundo já acordou com um braço dormindo. Todo mundo já foi ao banheiro e descobriu que não tinha mais papel. Todo mundo já achou que era sábado quando ainda era sexta. Todo mundo pensou por que nasceu aqui e não, sei lá, em Ulan Bator. Eu, você, o governador.
Todo mundo já quis mandar alguém calar a boca. Todo mundo já quis mandar alguém ir lá na esquina. Todo mundo já quis voltar no tempo. Todo mundo já pensou numa ótima resposta – pena que tarde demais. Todo mundo já ficou todo prosa. Eu, você, o Barbosa.
Todo mundo já pensou em ser famoso, em ser rico, em ser poderoso. No caso de ser poderoso, em ser mais poderoso. No caso de ser rico, em ser mais rico. No caso de ser famoso, em ser mais famoso. Se famoso, mais rico. Se rico, mais poderoso. Se poderoso, mais famoso. Todo mundo há de ter pensado. Eu, o Paulo B., o Paulo Bernardo.
Todo mundo já acordou gripado, já varou a noite, já dançou colado. Todo mundo viu o sol nascer, a quaresmeira florir, a Liz sorrir. E se não viu deveria ver! Todo mundo deveria ver a roseira, da flor ao espinho ao caule. Eu, você, o Hauly.
Todo mundo já sentiu na própria pele; já viu com os estes olhos; já ouviu pra não ser surdo; já pensou duas vezes; já contou até dez; já dormiu no ponto; já morreu de rir; já caiu do cavalo; já pisou na bola; já pirou na transa; já entrou na onda; já marcou bobeira; já acordou com a macaca; já entregou os pontos; já pediu pra sair. Aí está o Fidel – que não me deixa mentir.

- Publicado no Jornal de Londrina. Não, este ainda não é o meu texto sobre Cuba e Fidel Castro. Estou lendo (e principalmente relendo) algumas coisas.


PS: Na primeira versão, analfabeto, escrevi "mal jeito". Foi distração, mas sacumé. Um cara que já foi trotskista não escapa de erros menores. Obrigado ao dr. Leo Pires Ferreira (especialista em Monteiro Lobato) pela correção telefônica.

Ô coisinha tão bonitinha do pai

February 18, 2008
A culpa é dos jornalistas. Ou melhor, de uma certa espécie de jornalistas que acham fundamental ouvir a opinião política de atores, sambistas, roqueiros, celebridades e quetais.
Beth Carvalho é uma sambista. Tem seu público. Não me incluo nele: o estilo de música que ela faz não me agrada em absoluto. Mas reconheço que um jornal, ou agência de notícias, tenha motivos para ouvi-la. Se essa senhora viesse a Londrina, eu faria uma entrevista com ela. Dever de repórter.
Mas por favor: perguntar a ela sobre a situação política do Brasil é uma palhaçada. Uma palhaçada tão grande quanto dar ouvidos a Letícia Sabatella e Osmar Prado no caso da transposição do São Francisco. Não estou discutindo se Sabatella tem razão ou não – com Geddel Vieira e Ciro Gomes do outro lado, é bem provável que tenha –, mas a moça não tem conhecimento técnico ou intelectual para discutir o assunto no Senado. Os microfones estão voltados à atriz só porque se trata de uma celebridade. Semana passada, abri um site de notícias e li: “Ciro Gomes e Sabatella batem boca no Senado”. Aonde chegamos! É mais ou menos como chamar o Didi Mocó para discutir a segurança nacional. E olha que eu já ouvi jornalista dizendo que Letícia Sabatella é um “exemplo de coragem”. Ah, passa amanhã. Exemplo de coragem é meu pinto de óculos. Letícia Sabatella é, no máximo, um exemplo de beleza física. Principalmente diante de Geddel Vieira.
Mas voltemos a Beth Carvalho. Ela é sambista. É da Mangueira. É da “cumunidade”. Deu uma entrevista para a Agência Estado, publicada neste domingo.
Ouvir o que Beth tem a dizer sobre o carnaval do Rio é compreensível. Ainda que ela se derrame em elogios a “Leonel de Moura Brizola”, como ela gosta de dizer, o assunto está dentro do seu universo.
É claro que Beth diz bobagem. (Eu gosto de dizer o nome “Beth” com pronúncia inglesa.) Diz, por exemplo, que as escolas de samba deveriam ser “instituições culturais” e não “empresas”. É o velho preconceito brasileiro contra o lucro. Capitalismo, no Brasil, é equivalente a crime. Eficiência é “papo de neoliberal”.
Por “instituições culturais”, logicamente, Beth quer dizer “instituições com financiamento do governo”. O nosso dinheiro, caro leitor. A cantora elogia o governo Lula e o ministro Gil, que deram dinheiro para as escolas. FHC, segundo ela, não dava nada, porque “só queria saber de Sorbonne”.
Não ocorreu, ao repórter que fez a entrevista, pelo menos na versão que eu li, fazer a perguntinha básica sobre o envolvimento das escolas de samba com o narcotráfico. Perguntinha tanto mais importante quando se sabe que um diretor da Mangueira e o mestre de bateria (sim, o mestre de bateria!) estão presos por tráfico de cocaína. É lícito, é moral, é justificável dar dinheiro público para empresas, instituições, escolas ou qualquer outra associação humana envolvida com o tráfico?
A partir daí, a entrevista vira um show de horrores e piadas involuntárias (as duas coisas normalmente vêm juntas). A maestrina Beth elogia Hugo Agogô Chávez, o ditador da Venezuela, e diz que Requião, o lambe-botas de Chávez, seria “interessante” como presidente do Brasil.
A mulher afirma ainda, com todas as letras, que o próprio governo dos Estados Unidos derrubou as Torres Gêmeas; e que Cuba só é aquela merda por culpa dos americanos.
Diante disso, sou obrigado a apelar ao meu detestável judaico-cristianismo: Deus me livre!
Na Folha de S. Paulo, a situação não é melhor. Arnaldo Antunes (sim, o parceiro de Carlinhos Brown e Marisa Monte), escreve um artigo contra Nelson Ascher. O texto é uma overdose de clichês politicamente corretos. O maior crime de Ascher, na opinião do ex-titã, é ser defensor de George W. Bush.
Antunes e Ascher são poetas. Mas eu não trocaria as obras completas do ex-titã por um único poema de Ascher. Esse tipo de reação histérica, esse ódio intenso aos EUA, esses fanaquitos ideológicos já estavam previstos num poeminha de Ascher (quatro versos que valem por quarenta CDs de Antunes):

Se o remédio da Aids for descoberto
nos Estados Unidos, decerto
muita gente, em mais um de seus giros,
vai tomar o partido do vírus.


Ascher é um poeta 200 milhões de vezes melhor do que Antunes. E um ensaísta que honra o espaço em que escreve. Arnaldo, volte para Carlinhos Brown e Marisa Monte. E pode levar a Beth Carvalho junto. Vocês se merecem – e se equivalem.

Wilson Moreira

February 17, 2008
O último sábado teve 25 horas. Uma hora a mais, marcando o fim do horário de verão. Não acredito em acasos e coincidências; por isso, sei que houve um motivo para Wilson Moreira morrer no dia de 25 horas. Aos 84 anos, o ex-prefeito estava esperando um dia tão grande quanto ele.
Escrevo na manhã de domingo. O corpo de Wilson Moreira vai ser enterrado dentro de algumas horas. Certas manhãs de domingo são mais silenciosas que outras; é o caso desta.
Natural que as pessoas queiram aproveitar o novo horário. É mais cedo do que parece. Nem todos os relógios foram reajustados. Podemos dormir uma hora a mais. Mas eu acordei cedo para escrever estas palavras. Porque Wilson Moreira morreu.
Tinha idade para ser meu avô. Era um senhor de aparência frágil. Às vezes o via, de longe, na rua ou em alguma cobertura jornalística. Nunca o entrevistei. Dizem que ele não gostava de jornalistas. Não sei se é verdade.
Só sei que a imagem dos carneiros ficou na minha mente. Eles, os carneiros, estão lá, na biografia de Wilson, escrita por meu amigo José Antonio Pedriali: certa manhã, o gramado do Centro Cívico amanheceu repleto de carneiros. Aparavam a grama sem barulho e sem despesas. Anos depois, na gestão de um adversário de Wilson, um grande escândalo começaria no setor de capina e roçagem. Ironias da história.
E por falar em história, hoje eu penso na história que poderia ter sido e que não foi. Em 1992, estudante trotskista, votei no adversário de Wilson Moreira para a Prefeitura. Se Wilson tivesse vencido aquela eleição, a história da cidade poderia ter sido muito diferente.
A morte de Wilson Moreira acontece no momento em que o país discute a farra dos cartões corporativos. Mais uma ironia do tempo. Wilson era o oposto disso tudo. Era um extraterrestre no país de Lula, Lulinha e cia. Tanto que seus adversários sempre quiseram pregar nele a pecha de “mesquinho”. E se diziam, por contraste, generosos. Maldita e demoníaca generosidade com o dinheiro alheio! Diante dessa generosidade das trevas, eu escolho um milhão de vezes a abençoada mesquinhez do velho homem.
Agora, é certo, vão surgir muitos “herdeiros” de Wilson. Mas um político desse porte não se cria por osmose ou brotação. É preciso tempo, persistência, coragem para vencer mentiras sorridentes. Há 20 anos, Londrina é governada, ou desgovernada, pelo PT ou Belinati. Nas últimas eleições, o próprio Wilson se viu obrigado a escolher um deles. PT e Belinati são faces do mesmo engodo; são os antípodas de tudo aquilo em que o velhinho acreditava. Um milhão de vezes, eu prefiro os carneiros.
Os sinos tocam. Wilson Moreira será enterrado em uma hora. Uma hora a mais para pensarmos em nossos erros.

Cordial polêmica entre amigos (um corintiano socialista e um palmeirense liberal)

February 14, 2008
Mario Sergio Fragoso é um grande cara. Entre outras coisas, foi meu predecessor em dois empregos sindicais (época do meu trotskismo nervoso). Segue-se nossa troca de e-mais, ocorrida ontem:

De: Mario Sergio Fragoso
Para: Paulo Briguet


A memória não é a mesma de tempos atrás – muito álcool, tabaco, noites mal dormidas y otras cositas mas. Porém, diria Plínio Marcos, sempre há um porém, certas coisas a gente não esquece. Colam-se aos neurônios sobreviventes e ficam latejando a nos lembrar de coisas, fatos e situações incômodas.
Como naquele dia, diante de um Morumbi com “gente pendurada no lustre”, em que o endiabrado Edílson fez embaixadinhas em pleno derby paulistano e foi, selvagemente, agredido pelos palmeirenses. O amigo e cronista, então na FL, omitiu sua condição de alviverde e condenou, feito zeus, a arte do então alvinegro.
Embora não compactue com o Aurélio Albano, segundo o qual o Paulo Briguet não deveria escrever sobre futebol “já que brincava com bonecas na infância”, achei imperdoável o fato de o torcedor ter-se apropriado do espaço do cronista e não ter avisado os leitores da usurpação.
Só que isso não tem importância alguma. Os protagonistas de tal episódio, salvo um ou outro candidato a Romário – aquele que almeja a eternidade física –, foram devolvidos à insignificância que o mundo da bola, temporariamente, os havia retirado. O que importa é a crônica de hoje – 13 de fevereiro de 2008.
Alguém já decretou que o diabo reside no detalhe. E o detalhe que chama atenção em “A elefantíase” é a decretação de merecimento de aplauso a FHC pelo avanço nas privatizações. Caro Briguet bom e apaixonado marido, lavador de pratos e conservador assumido, achei muito estranha essa loa temporã.
Se bem me lembro, você fazia parte do Sindicato dos Jornalistas – acho que naquele tempo ainda não tinha se percebido conservador – quando o saudoso Aloísio Biondi veio ao Norte do Paraná lançar o livro “Brasil privatizado”. Duvido que você não tenha lido. Por isso, não aceito a torcida pró-FHC.
Pior, creio, nem é torcer por esse ou aquele político, esteja ele no poder ou na geladeira. Grave, para mim, o que, frise-se, não altera em nada o ritmo das marés nem o aquecimento global, é um jornalista ético (seria um pleonasmo?) distorcer fatos com o objetivo de defender um ponto de vista.

Abraço,

Mario Fragoso

PS – vez por outra me arvoro no direito de encher-lhe o saco através do endereço eletrônico da Coluna porque você, na condição de traidor da causa etílica, não comparece mais à ágora moderna – o bar – para batermos boca sobre esse e outros assuntos.



De: Paulo Briguet
Para: Mario Sergio Fragoso


Caro Fragoso:
Li o Biondi, e gostei na época; mas li outras coisas (Hayek, Mises, Friedman, Schumpeter, Roberto Campos) e mudei de idéia, após um longo e doloroso aprendizado. Hoje defendo o estado mínimo, as privatizações, o foco na liberdade individual em oposição às histerias coletivas. Curioso é que minha mudança se deu justamente porque eu queria ler os críticos do socialismo, para responder melhor a eles. Acabaram me convencendo. E que Deus (com maiúscula) tenha o Biondi, um sujeito decente, mas equivocado.
Quanto à questiúncula do Edílson, também mudei de idéia. Acho que fazer balãozinho é normal. Faz parte da beleza do jogo. Talvez seja efeito do meu atual liberalismo aplicado ao futebol. Como dizem meus críticos – e nisso têm toda razão – eu já era liberal mesmo quando trotskista.
Mas não me lembro de ter feito uma condenação veemente e judaico-cristã do rapaz. Lembro-me de ter escrito uma crônica "surrealista" (eta palavrinha!), em que apareciam, fantasmagóricos, craques de diferentes gerações.
Quanto à calúnia de eu ter brincado de bonecas na infância, isso se prende mais à dificuldade que o Aurélio tem para distinguir entre os dois sexos. Era Falcon.
Um abraço, Marião – continue lendo e comentando sempre.
Paulo Briguet.

PS:
Por falar nisso, Mario, posso publicar a sua carta - e a minha resposta - no meu blog? Tem uns comentaristas que são da fuzarca. Você vai gostar. Vai ser divertido.
Ah, só mais um adendo: já na Copa América de 99, quando eu comecei a escrever sobre futebol, revelei aos leitores meu coração palmeirense. E sempre fiz questão de deixar minha preferência clubística bem clara. Jamais acreditei nos idiotas da objetividade.
(Se você não quiser que eu publique no blog, tudo certo.)



De: Mario Sergio Fragoso
Para: Paulo Briguet


Briguet, já que não nos é dado elucubrar à luz de velas - olhaí a redundância, no mínimo - e rodeados por garrafas antes cheias de espírito do vinho e de belas cortesãs, façamos isso virtualmente.
O pouco que escrevo e envio, seja para quem for, é de domínio público. Menos, é claro, as cartas de amor. Estas, como todo mundo sabe, são ridículas. Portanto, só publicáveis após a morte do autor.
Ah, tem uma coisa de alvinegro segunda divisão maloqueiro e sofredor graças a deus que não posso deixar de retrucar: quando disse que o torcedor se apossou do espaço do cronista, referi-me àquela crônica especificamente.
É como as provocações que faço com o Fischer, o Rogério Carlos, até hoje e por todo o sempre, quando o encontro. "Porco, aquele título 'O que que há Leo?'- nunca lembro literalmente -, ficou meio fresco, digamos assim."
Abraços.


De: Paulo Briguet
Para: Mario Sergio Fragoso


Marião, o título em questão era "Por que, Léo?", com um close nos olhos do rapaz. A página até que ficou boa, mas o título, reconheço, foi deveras viadístico. Rogê Ferreira Fischer fez a boiolagem sem notá-la. Eu também não percebi, na hora.
Te vejo no blog; devo publicar amanhã (briguet.tipos.com.br)
Nos vemos na Internet, que amanhã eu tenho missa às 5 da matina.
Ab.
PB

Notas para minha amiga Janavila

February 13, 2008
(Escritas com a pena da saudade, neste dia em que morreu Henri Salvador.)

Querida Tia Jana:

Sabe o restaurante da Japa? Pois é: reformaram. Botaram até ar condicionaidis. Mas a comida continua a mesma (boa salada, fritura em excesso). E a moça segue gritando: “QUEM PEDIU SUCO DE LARAAANJA?”

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As duas velhinhas sociáveis continuam indo à Japa. Ouvia a conversa de uma delas outro dia: “Eu não me casei muito nova, não, fia. Já tinha 23 anos!”

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Eu escrevo escrevo escrevo sobre política, e gostaria de não escrever mais. É chato. Mas acontece que o PT não deixa. Esse governo apronta uma a cada dia, e eu não consigo ficar quieto.

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Outro dia botei um maluco para correr da redação. Hoje foi a vez do Preto sair com um cara chatow (cara chatoooowww). Sei que dasveiz também sou chato, mas há pessoas com doutorado em ser insuportáveis. Que remédio? Botar pra correr. (Você sabe que não combina comigo, mas é a vida. É a viiiiiiiida, como diria o amigo Alex – primo do Rocha, você conheceu?).

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Às vezes eu gostaria de acordar em Gressoney. Pela companhia, pela paisagem, pelo simples fato de não estar no Brasil. Esse país é muito melancólico.

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Agora eu tenho que pegar o 213 quando vou pra casa. É um péssimo ônibus; talvez a pior linha de todo sistema viário. Por isso, espero o 209, que é mais demorado, mas vazio. Às vezes o 209 dá uma volta imensa pelo jardins Bela Suíça e Cláudia, mas compensa. Dá idéia de crônica.

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Acho que eu não vou mais ser mendigo, não. Essa vida de casado tá boa.

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E você?

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O Torrada’s é um bom bar. E fica perto de casa.

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Já viu Juno? É bom, é bom. A garota parece saída de uma Terça Tilt.

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Quinta sem-lei já era. Só de vez em quando. Durante a Quaresma, vai ser impossível. Toda sexta tem missa às cinco e meia da manhã, pertinho de casa. Quem vai à missa de ressaca não precisa ir para o Inferno; já está nele.

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E mais não digo porque Gressoney. (Hã, hã? Hein, hein?)

A elefantíase

February 13, 2008
O estado brasileiro.

A esquerda brasileira, no poder, tem uma grande dificuldade em aceitar a figura do ex-presidente. Ex-presidente é esse velhinho chato que ninguém sabe onde botar – e ainda por cima tem opinião. Em Cuba, não há esse problema: o presidente é o mesmo há tanto tempo que ninguém sabe mais o que é um ex. Hugo Chávez pretende fazer o mesmo com a Venezuela.
Mas, no mundo civilizado, ex-presidentes existem. E recebem uma ajuda de custo do estado que um dia comandaram. Ninguém se escandaliza com isso. Tampouco o atual governante fica batendo boca e se comparando a toda hora com o antecessor. “Nunca-antes-neste-paif” é coisa de republiqueta.
Viram o caso do Zapatero? Ao ouvir as acusações de Chávez contra Aznar, Zapatero saiu em defesa do antecessor e adversário político. Teria Lula a mesma atitude nobre, se o alvo dos ataques fosse FHC?
Fruto dessa malandragem comparativa, prepara-se em Brasília uma grande farsa na CPI dos cartões corporativos. PSDB e PT concordaram em não investigar os gastos pessoais da Presidência nos governos Lula e Fernando Henrique.
Ora, por mim, todos os ex-presidentes poderiam ser investigados: FHC, Itamar, Sarney, Collor e até o ectoplasma de João Figueiredo. O que não se pode é deixar de investigar – com prioridade, ou seja, ANTES DE QUALQUER COISA – os atuais gastos da Presidência da República.
Só no ano passado, os gastos da Presidência da República com cartões corporativos chegaram a R$ 5,2 milhões, dos quais 10% foram saques em dinheiro (na boca do caixa).
Uma CPI só dá resultados quando tem um foco definido e liberdade de investigação. A “blindagem” de Lula e FHC é o que eu chamaria de pizza pré-pronta (dessas que a gente compra no supermercado). “Eu não investigo os teus, você não investiga os meus.” O que só reforça a idéia – falsa – de que todos os políticos são iguais. Foi essa idéia que salvou Lula no episódio do mensalão.
Agora, “denunciam” FHC por gastar R$ 44 mil com a gasolina dos seus carros. Por aí se vê a qualidade das comparações que serão feitas na CPI.
Enquanto isso, nem de longe se tratará da questão mais grave, que origina todas as outras: a elefantíase do estado brasileiro. A farra dos cartões corporativos é um sintoma da absoluta falta de controle sobre uma máquina governamental cada vez maior e mais voraz. Embora tenha avançado nas privatizações – pelo que merece ser aplaudido –, FHC não conseguiu acabar com a elefantíase estatal, e ela voltou com toda força no governo Lula. O tamanho do estado: aí está o elo perdido da gastança. Uma gastança que eu e você pagamos, caro leitor.

Os heróis de Paul Johnson

February 12, 2008
“João Paulo II trabalhou, governou, leu e, acima de tudo, rezou até o fim.”

O historiador inglês Paul Johnson era considerado “de esquerda” até 1977. Naquele ano, rompeu definitivamente com as antigas idéias do socialismo fabiano, ao publicar o artigo “Adeus ao Partido Trabalhista”, apontando a intolerância dos esquerdistas contra os direitos do indivíduo.
Nas três décadas que se seguiram à “apostasia” de Johnson, ele se tornou amigo e conselheiro de Margaret Thatcher e Ronald Reagan; participou ativamente da revolução liberal nos anos 1980. Escreveu livros importantes para qualquer pessoa interessada em temas históricos, entre eles “Os intelectuais”, “Os criadores”, “História dos judeus”, “História do cristianismo” e “Os heróis” – recentemente lançado no Brasil pela Editora Campus/Elsevier.
Johnson sempre insistiu que o relativismo moral é uma das doenças do nosso tempo – tendo sido a justificativa para os genocídios comunista e nazista do século 20. Não é por acaso que o autor elegeu um valor absoluto – a coragem – para definir o heroísmo através dos tempos. Que outra noção poderia unir personagens tão díspares quanto Davi, Joana D’Arc, César, Emily Dickinson, Lincoln, Wittgenstein, Churchill, Marilyn Monroe e João Paulo II?
Numa de suas habituais – e espirituosas – enumerações, Johnson diz ainda que o herói tem quatro características essenciais: 1) independência mental; 2) capacidade de agir com decisão e coerência; 3) capacidade de ignorar as opiniões correntes; 4) ação corajosa em qualquer circunstância.
O herói – principalmente aquele que não dispõe da moral judaico-cristã – freqüentemente pode ser cruel. É o caso de Alexandre e César, simultaneamente heróis e assassinos. Mas não deixaram que a face sangrenta se mostrasse superior às realizações efetivas. Certamente, por isso, Mao Tsé-Tung, Stálin, Hitler e mesmo Napoleão não poderiam jamais ser considerados heróis. Ao diabo com o relativismo.
Em “Os heróis”, Johnson realiza uma infalível combinação entre estilo primoroso, pesquisa confiável, franqueza atordoante e – graças a Deus – absoluta incorreção política. Não é autor de simular neutralidade ou esconder as próprias opiniões. Para esse polemista incorrigível, Churchill e De Gaulle são igualmente heróis – mas não são, nem de longe, heróis iguais. Churchill é um gênio literário, um bebedor de conhaque e uísque em quantidades industriais, um amante da democracia, um autor de frases memoráveis, o comandante-em-chefe da vitória sobre o nazismo. De Gaulle é um egoísta sem coração, um monstro vaidoso e, o que pior, dono de um insuportável mau hálito. Se Johnson nem sempre acerta em suas escolhas – chega a ver heroísmo em Pinochet, embora não se estenda sobre o assunto –, ele nunca deixa de nos dar o prazer de conhecê-las. Uma leitura fundamental. E sem relativismos.

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No capítulo dedicado a Abraham Lincoln e Robert E. Lee (inimigos na Guerra Civil Americana), Paul Johnson transcreve uma breve correspondência de Lincoln a um cliente de seu escritório de advocacia:

“Caro senhor George P. Floyd,
Acabo de receber sua carta do dia 16, com cheque do Flags e Savage no valor de vinte e cinco dólares. O senhor deve pensar que sou um homem de alto preço. É muito liberal com o seu dinheiro. Quinze dólares bastam pelo serviço. Envio-lhe um recibo de quinze dólares e devolvo-lhe uma nota de dez.
Sinceramente,
A. Lincoln.”


No Brasil dos cartões corporativos, ler uma carta dessas chega a doer na alma. Paul Johnson é especialista em citar pormenores para descrever o heroísmo de seus personagens históricos. A essência de Lincoln está nessa cartinha tanto quanto estava no discurso de Gettysburg.
O mais interessante capítulo é dedicado a Ronald Reagan, Margaret Thatcher e João Paulo II – os três estadistas que venceram a Guerra Fria e derrubaram a União Soviética. Johnson conheceu pessoalmente os três. Foi conselheiro de Thatcher e amigo de Reagan. No caso da primeira-ministra britânica, desfaz o clichê de “Dama de Ferro”, descrevendo-a como “uma das mulheres mais femininas que já conheci”. Reagan é caracterizado como um homem simples, inteligente e intuitivo, com um incrível poder de contar a piada certa na hora certa. João Paulo II é rapidamente descrito em tom de reverência: Johnson o considera como um personagem que mistura as qualidades de herói e santo. Alguém que soube viver e morrer – e das duas coisas fez uma lição inestimável para a humanidade.
– Publicado no Jornal de Londrina.

A ditadura dos "ofendidos"

February 11, 2008
“O totalitarismo de esquerda criou o totalitarismo de direita; o comunismo e o fascismo eram o martelo e a bigorna pelos quais o liberalismo foi despedaçado.”

(Paul Johnson, historiador inglês)


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Seguem trechos do artigo “Perguntar não ofende”, de Nelson Ascher, publicado hoje na Folha de S. Paulo. Imperdível. Pena que não tenho link.

“Ofensa pessoal é a expressão-chave. Há temas em vias de se converterem em tabu, temas intocáveis, porque, quando entram em pauta, qualquer dúvida ou opinião discordante são entendidas como ataque às convicções sérias e puras dos demais.”

“Fazer ressalvas ao partido que está no poder, por exemplo, equivale a agredir fisicamente seus adeptos ou, no mínimo, a colocar sob suspeita sua razão individual de ser.”

“Quando se trata de abordar determinados tópicos, há duas e apenas duas espécies de opinião: as corretas e as emitidas por malfeitores.”


(Nelson Ascher, poeta e jornalista brasileiro)

A volta do Monocelho

February 11, 2008
O Inferno, o Inferno, o Inferno.

Vocês já notaram que o Skank regravou “Beleza pura”, do Caetano Veloso? E que a versão original já era tosca, para dizer o mínimo? E que a regravação do Skank será tema da próxima novela da Globo? E que isso significa Samuel Rosa martelando em nossos ouvidos por seis meses?

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O papo de "Vamo endoidar?" rolou no BBB, graças à presença daquela gaúcha doidona. Mas eu já conhecia a expressão por outras fontes. Perigoso, perigoso.

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Juno. Vi e gostei. Sei que ninguém perguntou. E é por isso que mais não digo: porque não sei.

Da arte de lavar a louça

February 11, 2008
Até que esse Briguet não tá escrevendo tão mal.

Agatha Christie gostava de pensar nos enredos de seus livros enquanto lavava a louça. Não sou Agatha Christie, nunca pensei em escrever um romance policial, mas devo confessar que imaginei esta crônica lavando pratos.
Charles Bukowski simpatizava com pessoas que deixavam os pratos sujos. Segundo ele, o sujeito que não se preocupa com a louça tende a ser “um pensador”.
Discordo completamente de Bukowski. Aliás, considero lavar louças uma atitude quase filosófica, propícia à meditação.
Antigamente, na época da república da Rua Humaitá, nós deixávamos as louças sujas durante o final de semana. Na segunda-feira, a empregada tinha que se virar com aquela montanha de pratos, copos e talheres. Certa manhã me levantei – a porta do meu quarto, maravilhas da engenharia tosca, dava para a cozinha – e vi um camundongo farejando uma pilha de pratos. O ratinho parecia dizer as palavras do poeta Rilke: “Força é mudares de vida”. E posso garantir que não era o Ratatouille.
Não sei cozinhar; então, lavo a louça. Devo confessar que tenho algum prazer estético ao ver um prato branquinho ou um talher reluzente. Não é o mesmo prazer de um chef de cozinha diante de sua criação, mas o mundo não é feito apenas de chefs. Os caras que lavam a louça do Gordon Ramsay ou do Ronald Marczak também têm o direito de ser felizes, não?
Se um dia me faltar dinheiro para pagar a conta no restaurante, já tenho a solução. Vou para a cozinha e pago a conta em serviço. Talvez até me contratem; mas espero não precisar disso. E há um detalhe: o restaurante não poderia ser grego.
Woody Allen tem uma boa piada sobre sua passagem pelo exército. Ele pertencia à corporação R. “Quer dizer: em caso de guerra, eu sou refém.” Em caso de guerra, acho que eu não seria um bom refém. Ronco demais. Melhor me botarem para lavar pratos – igualzinho àquele cabo do “Tropa de Elite”.
Há várias coisas que não sei fazer na vida: assobiar; dirigir automóvel; descascar laranja; costurar; cozinhar; passar roupa; preparar caipirinha; jogar baralho; mergulhar na piscina sem dar barrigada; falar inglês; bater escanteio; ouvir Skank sem reclamar. Mas agora tenho um orgulho: lavo louças. E bem. Fiz disso uma espécie de arte. Tanto é que costumo ensaboar os pratos ouvindo Haydn e enxaguá-los ouvindo Bach. Às vezes, canto. Com a voz do Siqueira Martins, mas canto. Bukowski estava errado: lavo louça – e sou quase um filósofo.
Agora, se me dão licença, vou secar os pratos.

– Publicado no Jornal de Londrina.

Ministério de notáveis

February 08, 2008

A cantora Leci Brandão (que ficou famosa por mandar abraços “à comunidade”) está sendo cotada para a Secretaria de Igualdade Racial, em substituição a Matilde “cartão corporativo” Ribeiro. Levando-se em conta que Gilberto Gil é ministro desde o primeiro mandato de Lula, o governo pensa agora em trocar os atuais ministros por nomes do mundo dos espetáculos. A seguir, algumas sugestões:
SAÚDE – Adriana Bombom. Por motivos óbvios.
COMBATE À FOME – Qualquer modelo da São Paulo Fashion Week.
MEIO AMBIENTE – Vanessa da Matta. O nome já diz tudo.
JUSTIÇA – Kátia. Afinal, a Justiça tem que ser cega.
EDUCAÇÃO – Nesta pasta, infelizmente, não vamos indicar nomes da MPB. Há muito tempo, Roberto Requião se mostra o ocupante ideal para o cargo. Educação é com ele mesmo.
DEFESA – Samuel Rosa, do Skank. Nossas fronteiras estão garantidas. Se ele começar a cantar, ninguém terá coragem de invadir o Brasil.
PREVIDÊNCIA SOCIAL – Dercy Gonçalves. Uma antiga usuária do sistema.
TRABALHO – Dorival Caimmy. Em 200 anos de vida, ele fez 90 músicas. Ou foi contrário?
COMUNICAÇÕES – Marília Gabriela. Ela é jornalista, atriz, cantora e, sendo quem é, convenceu o Giannecchini a casar com ela. Digamos que ela se comunica muito bem.
RELAÇÕES INSTITUCIONAIS – Alexandre Frota. Desde que começou a fazer filmes pornôs, entende muito de relações.
RELAÇÕES EXTERIORES – Rita Cadillac. Pelos mesmos motivos.
TURISMO – Toni Garrido. Sabe como é, ministro do Turismo viaja muito. Na primeira viagem, é só deixar o rapaz por lá.¬
PLANEJAMENTO – Maria Rita. Tudo que ela faz na carreira é meticulosamente planejado. Se dá certo, é outra história. Mas que é planejado, é.
ESPORTE – Se vivo fosse, alguns gostariam de ver Tim Maia no cargo. Afinal, era praticante de triatlon. Mas indico Rui Chapéu, pela relevância que a sinuca tem neste governo.
SEGURANÇA INSTITUCIONAL – Mano Brown. Não tem outro nome. Vai encarar, playboy?
INDÚSTRIA E COMÉRCIO – Qualquer camelô de Londrina poderia ocupar o cargo.
AGRICULTURA – Qualquer um, menos o Djavan. “O meu jardim da vida / Ressecou, morreu / No pé que brotou Maria / Nem margarida nasceu”.
INTEGRAÇÃO NACIONAL – Aproveitando a transposição do Rio São Francisco, Sá e Guarabyra poderiam dividir a pasta: “O sertão vai virar mar / Dá no coração / O medo que algum dia / O mar também vire sertão”.
MINAS E ENERGIA – Ivete Sangalo. Afinal, a moça tem gás. Não parou de cantar e pular nos quatro dias de carnaval. Também é um possível nome para a Saúde.
FAZENDA – Juliana Paes. Só ela acalma os mercados – e as oficinas, os açougues, os bares, as farmácias, as feiras, os restaurantes, os quartéis... Enfim, ela acalma a comunidade inteira!

Falou pouco, mas falou bonito

February 07, 2008

O site Ordem Livre está cada vez melhor. Para quem não entendeu (ou fingiu não entender) o que é o liberalismo, uma definição didática e muito competente está aqui. Não deixem de ler, meninos e meninas.

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Paul Johnson disse a Margaret Thatcher que o estado deveria ter três funções básicas: defesa externa, ordem interna e moeda honesta. A mulher aprendeu direitinho. É uma das heroínas do século XX.

Comunidade é a mãe

February 07, 2008
O que diabos quer dizer comunidade? Ouço a alegria de uma foliã da Beija-Flor: “Esta é a vitória da cumunidade”. Que mané comunidade, fia? Que queres de mim, mulher?
Comunidade é mais uma daquelas palavras estúpidas: cidadania, vontade política, justiça social, responsabilidade social, republicanismo. Não querem dizer nada e, exatamente por isso, dizem tudo. Ou melhor: encobrem tudo.
Bicheiros, traficantes e bandidos em geral se escondem sob a capa da “cumunidade”. Ah, taca a Lecy Brandão pra ver se quica!
Comunidade justifica e perdoa tudo. Se a comunidade quer, a lei que se dane. Se a comunidade defende, é inatacável. Se a comunidade exige, dinheiro público nela. Se alguém estranhar, não tem problema. É como diria o ongueiro do Tropa da Elite: “A turma aqui tem consciência social”. O mesmo ongueiro acabaria fritado no microondas.
Sempre que ouço a palavra comunidade, abro meu Novo Testamento (ele já não fica na estante; migrou para o criado-mudo). Comunidade é como aqueles demônios que se apossaram de um pobre mortal. “Meu nome é comunidade. Somos muitos”.
Ah, passa amanhã. E vê se não traz o bicheiro.

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No distrito rural de Paiquerê, realiza-se a partir de amanhã a 13a Festa do Milho. Se você for, vai ganharrrr... UM MILHÃO! (Esta última frase é para ser lida com a voz do Silvio Santos; até posso ouvir as gargalhadas da multidão de leitores deste blog).

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Não usarei mais a palavra ecochato. Todo mundo sabe que chato é uma espécie de reino animal. Ecochato, portanto, é politicamente incorreto. Apesar de inseto, o chato merece respeito.
Só vou usar, a partir de hoje, a palavra ecomala. E me apresso em dizer que a mala não é de couro animal. E mais não digo porque não sei.

Dente por dente

February 06, 2008
Oh pedaço de mim...

Há dias que são preto na folhinha. A quarta-feira de cinzas não é preto, nem vermelho. Um comentarista de futebol dirá que é um dia rubro-negro.
Não me lembro de haver no calendário outro feriado pela metade; um feriado que prevê a ressaca. A quarta-feira de cinzas é a ressaca institucional.
Pois eu nem de ressaca estou. Pelo menos, não ressaca de bebida. Na terça-feira gorda – ontem – fiquei com uma dor de dente daquelas. Não há pensamentos para mais nada quando você está com dor de dente. É uma dor absolutamente exclusivista. Pensando bem, foi a minha "superterça".
Dizem que os dentistas são odiados por todo mundo. Mas posso garantir que, na hora da dor de dente, a simples voz da sua dentista no outro lado da linha já é um alívio sem preço. Melhor que Spidufen.
Dra. Sueli – uma santa mulher – queria me atender ontem mesmo. “Dor não tem feriado”, disse. Mas deixei o atendimento para a quarta-feira de cinzas. A moça tem uma filha de 2 anos, eu não faria a maldade de separá-las numa terça de carnaval só por causa da minha dorzinha. (Nessas horas a gente entende por que o Tiradentes era tão popular em Minas.)
Eliot tem o seu poema “Ash Wednesday”, de 1930. Na tradução de Ivan Junqueira (um bom poeta) fica assim:

Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Alegro-me de serem as coisas como são


Bonito, não? Eliot sabia o que estava fazendo. E acho que não precisou de uma dor de dente para refletir sobre o caráter precário e circunscrito das coisas.
A quarta-feira de cinzas é o começo da quaresma. O Filho – esse não pode ser chamado de fi – passou 40 dias no deserto, em jejum, resistindo às tentações. É interessante como esses dramas se repetem todos os anos. O Natal, o Ano Novo, o carnaval, a quarta de cinzas, a Quaresma, a Páscoa. E nós aqui, com a nossa pequenez e nossos mínimos problemas, incapazes de fugir ao “esvaído poder do reino trivial” (Eliot, mais uma vez).
A quarta-feira de cinzas começa apenas ao meio-dia. É um dia pela metade. Nem festa, nem trabalho. Nem carnaval, nem Quaresma. Nem trevas, nem luz. Apenas um dia meia-boca. Eis o escrevi ontem, quando estava com dor e febre: “Tudo – quero dizer: a soma completa dos fatos reais e imaginários – é uma variação em torno de nascimento e morte”.
Meia-boca? Talvez. Mas definitivamente meia-boca estou eu, com metade do rosto anestesiado. Para que a anestesia fizesse efeito, tive que tomar quatro injeções de um anestésico que a dra. Sueli diz ser “pra cavalo”. Inútil negar que sou cabeçudo; mas imagine quantas doses teria que tomar esse planeta em forma de gente chamado dr. Júlio César Tanga?
Agora estou aqui, de molho, em casa, batucando letrinhas no computador da Rosângela (que, naturalmente, está trabalhando). Tenho um dente a menos e uma história a mais para contar. Dra. Sueli diz não utilizar o boticão; prefere extrair dentes com espátula. Segundo ela, o problema com o dente não foi um descuido higiênico da minha parte (até porque sou meio obsessivo com limpeza, sobretudo limpeza bucal). Ocorre que há alguns anos, sei lá quando, um dentista barbeirou ao fazer um canal e deu espaço para que ali se formasse um abscesso. Sim, era um abscesso: está explicada minha febre.
Extrair um dente, mesmo no século 21, e mesmo com a competência da dra. Sueli, não é uma tarefa muito agradável. A prateleira do consultório ficou parecendo um cenário de “O albergue”.
O filósofo Mário Ferreira dos Santos diz em “O homem perante o infinito”: “Sobrenatural não é o que é contra ou fica além da natureza, mas apenas o que ultrapassa a natureza de uma coisa. Um homem falar é normal; uma pedra fazê-lo seria sobrenatural”.
Meu dente doente – ora extraído – gritava ontem de forma sobrenatural. Queria se transformar em objeto inanimado. Agora ele – ou o que restou dele, depois dos golpes de espátula – jaz na lixeira do consultório odontológico. Ele não sou mais eu; ele não é mais eu; ele é um outro. Mais um desses pedaços que escapam de nós enquanto nos vamos transformando em cinzas.
Amanhã acho que consigo ir trabalhar. Por enquanto, parece que tomei uma surra (ou assim imagino, pois nunca tomei uma surra, e talvez daí derivem todos os meus problemas...).

E mais não digo porque não sei

February 04, 2008
Os grandes teóricos do capitalismo não são os grandes capitalistas. É chato dizer algo tão evidente, mas os brasileiros sofrem de uma curiosa resistência ao óbvio. Exigir que George Soros tenha a mesma coerência de Milton Friedman é como esperar que Pelé escreva tão bem quanto Nelson Rodrigues.

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Soninha vai ser candidata a prefeita em São Paulo. É mais ou menos como se a Björk tentasse ser primeira-ministra da Islândia. Gente chata é igual no mundo inteiro. (Notem que hoje estou propenso a comparações.)

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A solução para os males do capitalismo – disse e repito – é mais capitalismo.

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CPI do cartão corporativo já! Lembrem-se: Al Capone foi preso como sonegador de impostos.

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O ódio ao capitalismo é um fenômeno curioso. No Brasil, até empresários sofrem desse mal. No fundo, é um ódio à felicidade e ao bem-estar. Assim, os ricos, e principalmente os coitados da classe média, são desqualificados como parasitas, aproveitadores, inimigos. Um indivíduo feliz é considerado farsante. “O Brasil não perdoa o sucesso”, dizia Tom Jobim. Preciso.

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Também sou contra a censura ao carro alegórico da Viradouro. Mas, mesmo sem o tal carro, ô showzinho de mau gosto, fi! Carnaval e parada gay duelam para ver quem é mais cafona. (E nada mais cafona que usar a palavra cafona.)

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Ronald Reagan, Margaret Thatcher, João Paulo II: três heróis do século XX, na visão do historiador Paul Johnson. Não deixem de ler Os heróis, meninos. E mais não digo porque não sei.