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Archive for January of 2008

Uma piadinha de Ronald Reagan

January 31, 2008
Um dia o Marcião vai nos entender, Santidade.

– Sabe quantos mortos estão sepultados naquele cemitério?
– Não, senhor presidente.
– Todos.

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Quero meu CC!

January 31, 2008
Toma, fi.

Lula é mesmo um gênio. Poucos notaram, mas o prefidente lançou uma idéia que vai acabar com todos os problemas do Brasil. (Os que ainda existem, é claro.) É um novo - e revolucionário - uso do cartão corporativo.
Não sei por que tanta gritaria em torno do CC. Nesse pedacinho de plástico está a solução para os nossos males.
Genial como sempre, Lula resolveu testar a eficácia do cartão corporativo com a sua equipe de governo. E viu que dá certo!
A ministra Matilde Ribeiro – aquela que aceita racismo de negro contra branco, mas não vice-versa – foi uma das principais usuárias do cartão federal. Testou a eficácia do milagroso objeto em hotéis, bares, restaurantes, locadoras de automóveis e até lojas de produtos importados em aeroportos. Gastou, no ano passado, R$ 171 mil com o cartãozinho mágico. Desse total, devolveu R$ 461 que gastou (vupt!) “por engano” em um duty free. Diz que o restante foi em nome da causa, ou seja, a trabalho. Então, tá.
O Ministério do Turismo, capitaneado pela ministra Marta “relaxa e goza” Suplicy Favre, gastou em 2007 – vupt! – R$ 2.789 milhões. Até entendemos essa cifra: além de ser a pasta do turismo (e turismo é caro!), os funcionários de dona Marta resolveram seguir à risca o slogan criado pela chefe.
O Ministério do Planejamento, do londrinense Paulo Bernardo, foi o líder nos gastos com cartão corporativo em 2007. Foram R$ 34,44 milhões – um aumento de 662,95% em relação a 2006, segundo informa o blog do meu amigo e jornalista José Antonio Pedriali.
O governo, ao todo, gastou R$ 75 milhões com o CC. O gabinete da Presidência também resolveu testar a magia do cartãozinho e chegou à vice-liderança em gastos: R$ 16,07 milhões. Vupt!
Mas, em breve, o governo federal não será o único beneficiado pelos poderes do CC. Lula vai garantir um cartão corporativo para cada cidadão brasileiro, como nuncaantesnestepaís. Ninguém mais terá problemas em pagar contas, em financiar compras, em quitar carnês. Todo mundo – sem distinção de etnia, credo, classe social ou time de futebol – poderá usar o CC quando bem entender. Problema de dinheiro? Vupt, o cartão corporativo resolve. Nem será preciso mais furar os pedágios, como nos aconselhou Romanelli, esse baluarte da legalidade e do bom senso. O CC também pode ser usado nos pedágios. E nas faturas da Copel e da Sanepar. Até as multas da TV Educativa poderão ser pagas com o CC, viu, governador? Com o cartãozinho mágico, ninguém vai ter medo de ser feliz. Vupt.
Algum chato pode perguntar: “E quem paga a conta?” Ah, fi, você também vem com cada detalhe! Isso a gente vê depois...

Paulo e Antônio

January 31, 2008
Em família, todos me chamam de Paulo Antônio. Na universidade, também era assim. A predominância do Briguet veio depois, com o jornalismo.
Paulo é o nome do meu pai, que nasceu um dia depois do dia de São Paulo.
Antônio é nome do meu bisavô materno e do meu avô paterno.
Antonio Costa veio de Portugal com a família; desembarcou em Belém do Pará. A família resolveu voltar para a Portugal; ele e um irmão ficaram. Antonio tinha 7 anos; o irmão, 11. Não consigo imaginar uma solidão maior. Pois Antonio acabou se tornando maquinista de trem; aprendeu a ler e escrever sozinho.
Antonio, pai de meu pai, era espanhol de Murcia – uma cidade que, segundo meus parentes, fica no meio do deserto, no meio do nada. Falava espanhol com os filhos brasileiros e torcia desesperadamente para a “Fúria” (seleção espanhola de futebol). Um dia atropelou um ciclista, que ficou paraplégico. Pelas leis do trânsito, Antonio estava certo, mas nunca mais foi o mesmo homem, segundo conta Paulo, meu pai. Nunca aprendi a dirigir – talvez o acidente de Antonio seja um dos motivos.
Paulo Antonio. É desses prenomes que sou feito. Eis que ontem li pela primeira vez um poema do nicaragüense Pablo Antonio Cuadra (1912-2002), traduzido por Manuel Bandeira. O mestre brasileiro preferiu traduzir “apellido” – sobrenome em espanhol – por “apelido” em razão da métrica e da rima.
Eis o poema:

AUTO-SONETO

Poeta chamam ao ser por mim cumprido.
Levo mundo em meus pés ultravagantes.
Um pássaro nas veias. E ao ouvido
Um anjo de conselhos inquietantes.

Se quixotesco, ao que meu apelido
– Cuadra – me enviai: questor de rocinantes,
assim terá pretextos cavalgantes
meu interior ginete enlouquecido.

Sou o que fui. Como homem, verdadeiro.
Sonhador, como poeta, e estreleiro.
Como cristão, de espinhos coroado.

E pois que a morte ao cabo a tudo vence,
Pablo Antonio, à tua cruz entrelaçado
suba em flor teu cantar nicaragüense.



*****

Hoje, Quinta Sem-Lei no Madgalena. É isso mesmo que vocês leram. E mais não digo porque não sei.

A viagem definitiva

January 30, 2008

Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.

Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.

Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto de meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico...
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido...
E os pássaros ficarão cantando.


- Poema de Juan Ramón Jiménez (poeta espanhol, 1881-1958)
- Tradução de Manuel Bandeira (poeta brasileiro, 1886-1968)

Mané ficou hospedado no Hilton

January 29, 2008
Depois do programa vou comer todas essas, manezão.

Eu gostava de ver o Qual é a Música do Silvio Santos. Torcia muito para a Gretchen.
Mas o melhor vinha no final, quando SS rodava o pião. Ao lado, um mané qualquer, hospedado no Hilton Palace Hotel, rezava para ganhar o prêmio (geralmente, uma casa).
Silvião perguntava ao auditório:
– E se ele não ganhar quem ganhaaaaa?
– A caaaaaarta! – era a resposta das colegas de trabalho histéricas.
Eu tinha ódio dessa carta. O mané ao lado do Silvio parecia humano; a carta, não. Era um dado abstrato, perdido nas profundezas abissais do correio.
E o pião rodava. Primeiro, aquela musiquinha de suspense. Tuiiiim! Tuiiiim! Tuiiiim! Silvião, sádico como ele só, resumia em alta velocidade o calvário do mané ali presente: “Ele veio de Pirapora do sul ele não tem dinheiro para pagar os estudos da filha que tem rinite alérgica ele mora de favor com a sogra que não agüenta mais tanta criança em casa ele ficou desempregado há seis meses e não consegue arrumar serviço porque não tem dinheiro para comprar uma bicicleta usada ele tem parentes no interior do Sergipe ele não comemorou o Natal e sofre de uma doença rara no intestino delgado”.
E o maldito pião parava no signo da CARTA.
Maldita carta!

*****

Na semana seguinte, a CARTA aparecia em forma real, humana. Era a dona Salustiana, coitada, toda magrinha e tísica. Também hospedada no Hilton. O mané da semana anterior estava ali ao lado, com as esperanças já praticamente nulas.
SS fazia a pergunta fatal:
– Você pagou em dia o carnê do Baú da Felicidade?
Um silêncio sepulcral no auditório. Respirações presas.
Salustiana olha para a câmera.
– NÃÃÃÃO! – grita, já entre soluços.
E o mané de Pirapora ganha a casa própria – porque ele não foi um Atrasildo.

Aos senhores ecomalas

January 29, 2008
Vão Gogo - Ponte japonesa na chuva

Cadê o aquecimento global que estava aqui?

Cinco reais, duas vodcas

January 29, 2008
Faz muito tempo. Eu estava no balcão do Bar Brasil quando chegou a viúva. Me pediu cincão. Isso mesmo: o pessoal costuma me pedir cinco reais. No caso, eram para duas doses de vodca.
Dei o dinheiro. Então a viúva me pediu um beijo e abraço. Ela – que eu já tinha visto bater em homem. Fingi não escutar. Pedi licença, dei meia-volta e fui ao banheiro. O banheiro do Bar Brasil é sujo.
Nunca mais a vi.

E se fosse o Belinati?

January 28, 2008
O governador Roberto Requião causa muita vergonha. Em Londrina, ele não teve mais do que 30% dos votos (Lula também não). Mas eu continuo tendo vergonha dele. Já sugeri que Londrina fosse incorporada ao Estado de São Paulo; assim ele não seria nosso governador, e passaríamos menos micos. Mas a minha proposta não foi bem recebida. Temos que agüentar Requião – sua estupidez, sua demagogia, suas bravatas – por mais um tempo.

*****

Hoje, ao abrir o Jornal de Londrina, fiquei com mais vergonha ainda. A ex-deputada Elza Correia enviou a seguinte carta, que segue em negrito:

“A tentativa de silenciar o Governador do Paraná, nos indica que os entulhos dos tempos da ditadura brasileira ainda não foram totalmente varridos de nossos dias.
Chamamos a atenção para algo muito mais grave, que esta por trás da determinação do juiz Edgar Lippmann. É preciso enxergar muito além da decisão judicial e perceber o perigo nela contido para a democracia brasileira. Nosso silêncio poderá ser entendido como consentimento – e aí, exatamente aí, é que reside a questão.
Nos ensinou o poeta:

“Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão e não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer mais nada.”


Aqui no Paraná, não! Aqui o governador não se intimida e continuará lutando para resgatar o direito de, através da rede pública de rádio e TV, prosseguir de forma transparente, prestando contas das ações do governo, aliás, como deveria acontecer com todos os gestores públicos. Nos arrepiamos só de pensar na volta da censura. Ledo engano, achar que não temos nada a ver com isto!

Elza Correia.”


*****

Sei por que Requião teve uma votação tão pífia em Londrina. Dias antes da eleição, a sra. Elza Correia saiu gritando pela cidade, em cima de um caminhão de som, fazendo loas ao candidato à reeleição. Se Elza usasse o mesmo expediente em outros municípios, o cara não teria sido reeleito.

*****

Mas o empenho de Elza, ainda que tenha sido improdutivo, teve o reconhecimento do governador. Ela foi premiada com um cargo de extrema importância: a coordenação da Remela* (Região Metropolitana de Londrina). A exemplo da Sealopra do sr. Mangabeira Unger, é um órgão burocrático que simplesmente não diz a que veio. Uma pasta sem pasta, sem função, sem vestígios de necessidade.

*****

Já era melancólico ver a ex-deputada numa secretaria tão pífia e nula de sentido; mas vê-la atuando como tropa de choque do governador – isso já é revoltante.

*****

Os leitores de outros estados não sabem, mas Requião vem usando a TV Educativa local como um palco para suas diatribes pessoais e baixezas politiqueiras. Ele coordena uma tal “Escola de Governo” que não passa de uma paródia involuntária da “Escolinha do Professor Raimundo”. Com a diferença de que Chico Anísio falava menos e era mais engraçado. Requião se comporta como se a TV Educativa fosse sua propriedade particular. O desembargador Lippmann, ao arbitrar multa para esse uso privado da televisão pública, só fez cumprir a Constituição.

*****

Imagine José Serra resolvesse fazer uso político da TV Cultura em São Paulo! No dia seguinte, a oposição pediria a cabeça do governador.

*****

É compreensível que Requião – a exemplo de seu ídolo, Hugo Chávez – se faça de vítima. O que não dá para engolir é a cartinha da ex-deputada. Sem dúvida, ela teve um papel importante na cassação do sr. Antonio Belinati, que foi três vezes prefeito de Londrina. Agora, imagine se, na época, Belinati usasse uma TV municipal para falar suas bobagens – o que Elza não diria?

*****

Na semana passada, o episódio da TV Educativa teve mais um desdobramento lamentável. A procuradora-geral do Estado, Jozélia Broliani, aconselhou o governador Roberto Requião a cumprir a decisão judicial sobre o caso. Levou uma bronca em público. Requião desrespeitou-a na presença dos jornalistas. Jozélia pediu demissão através de uma carta, que reproduzo aqui:

"Senhor Governador
Há algum tempo tenho percebido haver divergência de sua parte com relação a posturas corretas por mim adotadas, sempre pautadas na defesa do Estado do Paraná e do interesse público. Em inúmeras situações percebi sua incompreensão, o que fez subtrair, de minha parte ao menos, a indispensável segurança que deve haver por parte do Chefe do Poder Executivo aos seus secretários de Estado.
Hoje pela manhã, contudo, Senhor Governador, Vossa Excelência superou-se. Em público, diante da imprensa e de todos os demais secretários de Estado, as agressões verbais ultrapassavam todos os limites de tolerância, de civilidade e, com todo respeito e sinceridade, de educação também.
Na certeza de ter pautado minha atuação institucional sempre de acordo com o interesse público, comunico a Vossa Excelência que estou deixando, nesse momento, o cargo de Procuradora-geral do estado e todas as outras atribuições que me foram delegadas.
Retiram-se, também, das respectivas funções, a Diretora-geral, a Chefe de Gabinete e a Assessoria Técnica.
Atenciosamente,
Jozélia Nogueira.”


*****

Em outros tempos, Elza Correia teria saído em defesa da procuradora Jozélia – afinal, uma mulher foi ofendida e desrespeitada em público por uma autoridade. Mas Elza Correia, além de ex-deputada, é ex-feminista. Só não é ex-requianista.

*****

Elza Correia já tinha dado vexame parecido quando era deputada. Votou contra a lei que acabava com o nepotismo no governo do Paraná. Passou vergonha. Foi fragorosamente derrotada nas urnas. E a família Requião continuou bem empregada.

*****

(Ao contrário do que Elza Correia supõe, o autor do texto original sobre o nazismo, citado em sua carta, não é o poeta Vladimir Maiakóvski, nem o teatrólogo Bertolt Brecht. O texto original é de Martin Niemöller, um teólogo protestante alemão. Ei-lo:

Um dia, vieram e levaram meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar.)

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Remela: copyright Groucho.

Eu renuncio!

January 25, 2008
Jararaca e Ratinho. Todos os direitos reservados.

Quem disse que a educação brasileira vai mal? A bandidagem aprende rapidinho. Agora, ao ser preso, o malandro diz:
– Eu renuncio!
– O quê? – pergunta o policial, desorientado.
– Eu renuncio, pô. Você não pode mais me prender. Eu era assaltante, renunciei, agora vô ficá livre e solto.
Um montão de gente vai se safar da cadeia. O garotão celebridade é pego com a boca na botija, ou melhor, com o nariz na farinha. Está ao lado de um conhecido traficante. Não tem problema:
– Eu renuncio.
– Que mané renuncia, rapaz?
– Ao meu cargo de cheirador.
O traficante aproveita e também renuncia ao tráfico. Todos ficam felizes. Doce é a liberdade.
Tem gaiato por aí pegando táxi em vez de ônibus. Na hora de pagar a corrida, o cara-de-pau fala:
– Renuncio ao meu cargo de passageiro. Estamos quites, sr. motorista.
E o gaiato ainda manda o taxista reclamar na prefeitura.
A vida com renúncia é uma beleza. O sujeito vai ao bar, toma todas e, na hora de pedir a conta, informa ao garçom:
– Ô, amijade, até maix ver. Não xou maix cliente dexte extabeleximento.
Agora é um tal de filho renunciando, aluno renunciando, marido renunciando. Do mendigo ao executivo, da Juliette Binoche à Dercy Gonçalves, do Philip Roth ao Bambam do Big Brother, todos abandonam seus cargos no dia D e na hora H.
E se alguém perguntar por quê, a resposta vem na ponta da língua: “Foram as forças ocultas”.
Todo mundo renuncia. Exceto os que não largam osso.

Fanfarra

January 25, 2008
A banda.

O vereador Henrique Barros (PMDB), aqui de Londrina, renunciou para evitar a cassação. Seguiu o exemplo de leões morais como Valdemar Costa Neto, Silvio Pereira, Bispo Rodrigues, Paulo Rocha e Severino Cavalcanti.
Algo a dizer, Capitão Nascimento?

*****

Karl Marx, teu nome é legião. Fica até difícil escolher: o criador da monstruosidade ideológica que matou 100 milhões no século 20; o materialista chinfrim avesso a qualquer princípio moral; o mau leitor e péssimo continuador dos economistas clássicos; o racista defensor da eliminação dos povos “inferiores”; ou apenas o patrão que fez um filho na empregada e a expulsou de casa.
De qualquer maneira, é o filósofo preferido dos anônimos saídos das trevas. Marx deu a justificativa para os grandes crimes; não seria diferente com os delitos da pequenez.

A ideologia da crise

January 24, 2008
Ferreira Gullar tem uma frase boa: “Eu não quero ter razão; quero ser feliz”. Ao ler a crítica de meu amigo Paulo Galvez ao sr. George Soros, por este ter defendido injeção de recursos estatais face à recente crise financeira, eu me lembrei imediatamente da frase de Gullar. Soros não quer ser coerente, Galvez; ele quer ganhar dinheiro. E é bom que seja assim. Enquanto o planeta tiver gente a fim de ganhar una plata, ainda haverá esperança para a humanidade.
Eu, por exemplo, não sei ganhar dinheiro. Tenho 15 anos de profissão; recebo o piso salarial da catiguria até hoje. Não estou reclamando. Se ganho pouco, é por incompetência ou comodismo da minha parte; não vou culpar o sistema. E o mais importante: estou feliz do jeitinho que estou. Sou facinho de agradar. Não tenho luxos. Meu único luxo é ser casado com a mulher da minha vida.
Considero-me um brasileiro privilegiado. Meus pais sempre me apoiaram; estudei em universidade pública, é verdade; mas, se fosse particular, eles pagariam. Nunca passei fome, frio ou sede. Ressaca, apenas. E alguma dor-de-cotovelo.
Tudo que eu tenho é fruto exclusivo do meu trabalho. Acho meio ridículo dizer uma coisa dessas; é mais ou menos como dizer: “Tomo banho todos os dias”. Mas vejo-me obrigado a dizer essas coisas porque alguns acham que meu liberalismo é sinônimo de oportunismo, traição, perfídia. Não é, podem acreditar. É convicção, princípio, moralidade.
Quem me conhece sabe que as idéias liberais não chegaram até mim do dia para a noite. Foi um processo longo, gradual e doloroso. Se eu fosse menos burro, talvez tivesse me livrado das bobagens socialistas com maior rapidez. Mas sempre fui um cara lento.
Tornei-me liberal porque todos os outros sistemas são piores. Não ganhei nada com isso – só bordoadas. Alguns amigos se afastaram. Outros – os verdadeiros – me respeitaram. Os mais próximos – orgulho-me em dizer – hoje pensam parecido.
Desde que me entendo por gente há crises no capitalismo. “Pior que 29”, dizem os mais exaltados. Trotskista, eu adorava essas crises. Fazia discursos apocalípticos, imaginava que o futuro socialista da humanidade estava próximo. Em questão de semanas, a poeira baixava. E eu voltava ao “trabalho subterrâneo”.
Agora não é diferente. Diante da possibilidade de recessão nos EUA, a esquerda coletivista anda toda assanhadinha. São indivíduos que detestam o capitalismo e o usam como explicação para suas mazelas pessoais. Não digo que o façam conscientemente; é um hábito adquirido. O uso do cachimbo – Stálin sabia – entorta a boca.
Essa crise também há de passar, garotos. E o Soros vai ganhar muito mais dinheiro que nós.

Transmimento de pensassão

January 24, 2008
Há poucos minutos, lá no blog do Paulo Galvez, o assunto era liberalismo e assistência social.
Eis que entro no blog Ordem Livre e vejo este artigo.
Excelente! Não deixem de ler - e de ouvir o Chopin aí embaixo.

It's only rock'n'roll

January 23, 2008
Uma das coisas boas da vida é ouvir o Prelúdio no. 15 de Chopin. Tocado por uma bela mulher, então...
Ouça e veja aqui.

Triste

January 23, 2008
Dora Bria (1960-2008)

Semaninha dura para o mundo das celebridades.
Primeiro morreu o cara da Chapada dos Viadeiros. Overdose, coisa feia. Tinha seu público.
Agora, morreu Dora Bria, musa do windsurf. Belo ensaio da Playboy. Figura, não de proa, mas de respeito, do panteão onanístico brasileiro.
RIP.

É do Kareca que eles gostam mais

January 23, 2008
Você tem direito a permanecer calado...

Blog do Briguet também é notícia. A quem interessar possa, informamos que o apresentador e showman Marcão Kareca é o novo assessor de imprensa OAB em Londrina.
Há quem possa contestar a escolha de Kareca, já que ele não é formado em Jornalismo. Bobagem. É o que eu sempre digo: ninguém precisa ser formado em Jornalismo para exercer a profissão.

PS: Alguém aí se lembra de Arakém, o showman?

Pronto-falei

January 21, 2008
Esse Briguet vai fundo!

Sonhei que estava no Big Brother. Talvez o caldo de ervilhas e o fato de ter dormido com a TV ligada na Globo tenham influenciado o repertório onírico. Mas sonhei, pronto-acabou. E pronto-falei.
Este BBB tem uma atração especial: a ruivinha filha da Nádia Lippi, estrela de algumas pornochanchadas nos anos 70. Na época, quem queria semi-nudez tinha que ir ao cinema. Nudez de verdade ou lesco-lesco verdadeiro, só em catecismos e revistas importadas, caríssimas. O jeito era ir de Nádia Lippi – de cuja filha veremos a nudez completa em alguma edição futura da Playboy ou da Sexy.
O drury’s é que o BBB do sonho se realizava no meu antigo apartamento de solteiro. Pensei: “Se eu for pro paredão e perder, vou ser expulso da minha própria casa!”
E no sonho também pensei em usar a proverbial barrigutcha como instrumento de marketing. Lembram-se dos outros BBBs? Quando havia um coitadinho ou coitadinha no meio dos marombados e gostosas, era sempre ele ou ela que ganhava, né mesmo? Pois imaginei que, exibindo a barriga, estaria me diferenciando perante o público. Barrigudo é simpático, todo mundo sabe. Vem ne mim, paredón.

*****

Faltou a Nádia Lippi no sonho. Não a filha. Ela.
Diante de qualquer favor prestado por minha pessoa, ela diria:
- Obrigado, Briguet!
E eu responderia de bate-pronto:
- De Nádia!
(Posso ouvir o estrondo ensurdecedor das gargalhadas.)

*****

E se houvesse um Tipos Brothers? Hein? Hein? Hã? Hã?

A mensagem da névoa

January 21, 2008
E os ingleses se lembravam de Londres.

Na noite de sábado para domingo, a cidade foi encoberta por uma espessa névoa. Era o velho fog, que já fez os ingleses se lembrarem de Londres. Da janela, eu não conseguia ver nem mesmo os edifícios mais próximos.
A névoa ainda se manteve por algum tempo depois que amanheceu. Dissipou-se lentamente, como se tivesse alguma vontade própria. Por um momento, achei que ela queria permanecer entre nós.
A manhã de domingo veio, como sempre, silenciosa. Uma bomba de nêutrons parecia ter sido jogada sobre a cidade. De vez em quando, o motor de um automóvel rompia o marasmo, como se para provar a sobrevivência da espécie humana. E os cães das redondezas conversavam no seu idioma ancestral. Senti saudades de você, que está viajando a trabalho. Pensei em telefonar, mas achei melhor deixar para outra hora. Não queria chateá-la com minhas divagações matinais.
Antes que eu pudesse acionar a cafeteira ou recolher os jornais deixados ao pé da porta, pensei no sentido daquela névoa sobre a cidade. Fisicamente, ela não existia mais; já se havia dissipado nos ares da manhã. Mas o sentido da névoa ainda estava ali – sobre todas as casas, sobre todas as ruas, sobre todas as cabeças.
Garrafas long-neck reluziam jogadas no passeio público. As janelas dos prédios estavam quase todas fechadas. O mercado municipal amanhecia fechado. As águas do lago tinham cor de terra e sujeira. À primeira vista, a normalidade era o único atributo da manhã de domingo. Mas eu desconfiava: havia alguma coisa. Talvez a névoa quisesse dizer algum segredo ao observador da janela.
De repente, tudo ficou mais claro para mim: a névoa está entre nós. Não é a névoa física; não é a manta branca que envolve a cidade. É a névoa das almas; a névoa que escraviza; a névoa que obscurece; a névoa que tripudia; a névoa da mentira. É a névoa trágica que impede a distinção entre o bem e o mal.
O grande perigo do mal é que ele se apresenta como o bem. O mal não se parece com as imagens populares do coisa-ruim. Ele se aproveita da névoa para agir. Da outra névoa.
Quando um detalhe do mal aparece à luz do dia – ou nas manchetes do jornal –, estejam certos de que há muito mais na obscuridade. O mal conspira para esconder o mal.
Abri a porta, li os jornais. E pedi a Deus para que eu saiba encontrar a diferença entre o bem e o mal, no meio da névoa.

- Publicado no Jornal de Londrina.

Esopo e Lombroso

January 17, 2008

Será que só eu me lembro disso? Na Constituinte de 1988 – putaqueospa, faz 20 anos! – o senador Edison Lobão alcançou fama de pianista. Esse Glenn Gould, esse Rubinstein, esse João Carlos Martins da política brasileira apertou dois botões numa votação – por ele e pelo senador Sarney Filho (Lobão é um dos mais aguerridos sarneyzistas dubrasil). Foi punido com uma advertência.
Agora, o pianista volta a tocar. Vai assumir o Ministério das Minas e Energia. Indicação de Sarney. Uma mão lava a outra; um dedo aperta ali, outro acolá.
Lobão assume o ministério e deixa Lobinho no Senado. Este já enfrenta acusações de picaretagem. Lobão, Lobinho, Sarney, Sarneyzinho – essas famílias do Maranhão são fabulosas. E a moral da fábula é sempre a mesma: você se fode no fim.

*****

Há pessoas que são verdadeiras provas científicas. Esse Lupi (ministro do Trabalho e presidente do PDT) é uma tese lombrosiana ambulante. Inspira credibilidade, respeito, simpatia. E simpatia, todo mundo sabe, é quase amor.

Tenho um Lada quase novinho pra você!

*****

Eu diria que o Lupi, pelas características cranianas e faciais, é geneticamente próximo a outra liderança magna: Jáder Barbalho.

*****

Notaram a harmonia etimológica do governo Lula? Lobão, Lupi. É uma alcatéia de sumidades. Chapeuzinho vermelho, estrelinha vermelha. (Hã, hã? Hein, hein?) Homo homini lupus.

O candidato ideal

January 16, 2008

De uma coisa ninguém duvida: a coisa está feia. Para ser mais preciso, eu diria que ela sempre esteve feia – mas agora também PARECE feia. E não existe gel no mundo que possa domar nossos cabelos arrepiados.
Muita calma nessa hora, diz o velho clichê. Eu diria mais: não apenas calma, mas uma certa dose de realismo.
Seria fácil colocar mais fogo num circo que já se encontra em chamas. Mas este cronista não tem vocação de incendiário. Portanto, pretendo fazer uma crônica, sei lá, propositiva.
Face aos últimos acontecimentos, o leitor/eleitor deve estar um pouco desorientado. Este colunista, do baixio de suas ilusões há muito perdidas, propõe que, neste ano da graça de 2008, esbocemos o perfil de um CANDIDATO IDEAL.
Em primeiro lugar, é importante que o CANDIDATO IDEAL não tenha carro. Isso mesmo. Para que é que político precisa de automóvel? Ele já ganha bem o suficiente para pagar táxi. Eu, que ganho muito menos, ando de táxi – o político não pode fazer o mesmo? Ademais, se houver quaisquer complicações com a Justiça, o dinheiro encontrado no porta-malas poderá ser atribuído a outro passageiro, ou até mesmo ao taxista (que me perdoem os honestos amigos da praça; é apenas uma suposição para efeitos retóricos).
O CANDIDATO IDEAL não pode ser muito velho nem muito novo. Juventude demais causa avidez. Velhice demais causa impavidez. Além disso, candidatos que se apresentam como jovens geralmente não têm outra qualidade para ostentar. Da mesma forma, a velhice não transforma canalhas em beatos.
O CANDIDATO IDEAL não acredita em falastrões como Hugo Chávez.
O CANDIDATO IDEAL, no caso de Londrina, não pode ter passado por nenhuma administração dos últimos vinte anos. Em outras palavras, não pode ter (hoje ou no passado) nenhum vínculo com o PT ou com Belinati.
Se possível, o CANDIDATO IDEAL não dever ser muito amigo de juízes ou juízas.
Temas que atraem grandes fatias do eleitorado – pombos, lei seca, camelódromo, carteirinhas de estudantes, “o Sercomtel é nosso”, antitabagismo – não devem ser a conversa preferida do CANDIDATO IDEAL, porque são terreno propício para demagogias de toda sorte.
O CANDIDATO IDEAL não deve ter medo de parecer direitista, se direitista for apenas a qualidade de quem faz as coisas direito. Ele não se apresenta como candidato “de esquerda” nem candidato “de direita”. O CANDIDATO IDEAL sabe que a direita pode ficar sinistra e a esquerda pode ficar destra demais.
O CANDIDATO IDEAL não acha que “os bancos”, “os empresários”, “o capitalismo”, “os americanos”, “os imperialistas” e “o Bush” são culpados pelos males da cidade, do país e do mundo.
O CANDIDATO IDEAL é inteligente, simpático, instruído, civilizado, pragmático e bom.
É claro que o CANDIDATO IDEAL não existe. Talvez o meu amigo Tanga. Mas ele nem quer saber de política.
Ah – e ele tem carro.

- Publicado no Jornal de Londrina.

Malhação no Tipos

January 16, 2008


Dílson Catarino não está mais entre nós. Entre nós, eu quero dizer, do Tipos. Professor, poeta, escritor, educador, marido da Teté, companheiro de cerveja e churrasco, um dos anfitriões mais generosos e educados que eu já conheci, Dílson é um conversador de primeira categoria. Sabe ouvir; sabe falar (foi locutor de rádio, sabiam?); sabe rir; sabe gelar e beber cerveja; sabe, enfim, ser uma figura admirável para todos que o cercam – sejam eles amigos, colegas, alunos ou leitores.
Não escondo minhas amizades. Tampouco compartilho da noção ginasiana de que elogio é viadagem, frescura, puxa-saquismo. Quando tenho que elogiar, elogio mesmo. Já fiz elogios a Margo, Marcião, Reverendo, Fabebum e muitos outros – quando achei que eles mereciam.
Puxa-saquismo é o elogio por interesse escuso; e eu não tenho outro interesse no Dílson a não ser conversar com ele e ler o que ele escreve.
Há duas semanas, encontrei Dílson. Churrasco, é claro. Perguntei por que ele não escrevia mais no Tipos. Ele disse que estava chateado com os comentários da tropa de choque do Vaca. Argumentei que isso era bobagem – eu mesmo já havia brigado com os vaqueiros (sozinho, sempre; eles em bando), com a Margo, com o Marcião, com a torcida do Corinthians – e o mundo continuou seguindo seu curso. Eu já disse que me divirto com as polêmicas, amo muito isso tudo. Mas nem todo mundo é assim. Dílson não é. Caberia respeito.
Não deu outra. Dílson voltou – e a tropa de choque do Vaca não deu trégua. Anzol, sempre folgazão, fez um comentário especialmente tolo sobre o conto “A morte do meu irmão”, uma pequena obra-prima do Dílson, com a qual ele teve a generosidade de brindar o Tipos. Depois vieram Reverendo et caterva. E foi aquele linchamento de baboseiras.
Já conversei com várias pessoas que não mais escrevem ou escrevem pouco no Tipos porque acham um saco esse patrulhamento do Vaca. É uma estratégia bem semelhante à das tropas de choque políticas, tanto é que eu já os chamei, mais de uma vez, de criptopetistas.
Até acho que isoladamente os vaqueiros podem ser caras legais e decentes. São profissionais e pais de família; alguns eu conheço pessoalmente. Mas aqui no Tipos, protegidos por pseudônimos bizarros, procedem como punheteiros virtuais. Adolescentes, individualmente, podem ser civilizados. Quando em grupo, geralmente são insuportáveis. Sei que os vacas já não estão mais na adolescência; mas continuam espremendo espinhas mentais. Nunca ouviram falar em Acnase?
Dílson foi vítima da eterna fúria adolescente contra professores e intelectuais. Isso é de uma puberdade espiritual compreensível em garotos de 16 anos, mas inaceitável em se tratando de homens barbados. Sem contar que, se esse papo de "eu desafio os donos do saber e do poder" não é coisa de hippie, meu tio é filho único.
O Vaca, nos comentários, age como se fosse o elenco do Casseta & Planeta participando da novelinha adolescente Malhação.
Enfim, eles conseguiram. O professor não está mais entre nós. Mas o Tio Briguet continuará aqui para atormentá-los até o final dos tempos. Nada pessoal. Apenas diversão.

1968, 1988, 1989, 2008

January 15, 2008
Magnum e Higgins

O prefeito do Rio, Cesar Maia (DEM), apresenta hoje uma idéia no mínimo curiosa em seu “ex-blog”.
Maia diz que os movimentos estudantis de 1968 eram essencialmente liberais e não sabiam. Apesar de os estudantes se apresentarem como esquerdistas, anarquistas, maoístas ou trotskistas, o espírito geral do movimento na França – e, eu acrescentaria, na Tchecoslováquia – era liberal.
Elio Gaspari desenvolveu uma tese semelhante, ao dizer que o verdadeiro 1968 foi 1989, com a queda do Muro de Berlim. Há até uma piadinha numerológica: 89 é 68 de cabeça para baixo.
Cesar Maia vai mais longe: para ele, as reformas empreendidas nos anos 80 por Ronald Reagan e Margaret Thatcher – sob inspiração de Friedman e Hayek – não teriam sido possíveis sem as revoltas de Danny Le Rouge e seus companheiros: “Thatcher e Reagan articulam-se em torno de reformas liberais profundas em relação ao Estado e a economia, impensáveis com a base de resistência social e política, anterior a 1968”.
Em 1988, quando eu era um sem-noção estudante de Filosofia na USP (larguei o curso em seis meses), li um artigo de Fernando Henrique Cardoso e fiquei meio revoltado. Ele dizia que as revoltas de 1968 foram geradas pelo próprio capitalismo: uma geração intrinsecamente consumista se fazia escutar. Hoje acho que FHC acertou na mosca. (Não guardei o artigo, mas era mais ou menos isso que ele dizia – 1968 foi uma revolta de jovenzinhos consumistas; Fernando Henrique escrevia mal na época; melhorou bastante.)
O efeito 1968 dura até hoje. Quando amigos ou conhecidos de esquerda se aproximam do anarquismo, é batata: em dois anos, serão liberais convictos. E estou dizendo liberal no sentido clássico, e não no sentido americano (nos EUA, “liberal” – leia com sotaque – é sinônimo de esquerdista).
Mas é sempre bom lembrar – como fazia o ótimo Paulo Francis – que, entre os estudantes de 1968, estava um jovem cambojano chamado Pol Pot. E este não era nem um pouquinho liberal.

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Meu Deus, já faz 20 anos que eu entrei no curso de Filosofia. Livrei-me por pouco de ser aluno da Marilena Chuí (não tive tanta sorte assim: fui aluno da Olgária Mattos), morei no Bexiga (o apartamento ficava no 22o andar) e assistia ao Magnum numa TV preto e branco formato miniatura.
Acho que nunca saí dos anos 80. Dia desses, fui escrever o nome do diretor de “Crash”, Paul Haggis, e tasquei Higgins, que era o nome do patrão do Magnum.
Aliás, alguém aí lembra como se chamavam os dois cachorros do Higgins? Para mim, 1988 foi o ano que não terminou. No ano seguinte, vim parar em Londrina.

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Tirando o Maluf, alguém pode me citar o nome de um político acusado de corrupção que passou mais de uma semana na cadeia?

Nossa linda juventude

January 11, 2008
Página de um livro boooom.

A Juventude do PMDB, vanguarda do puxa-saquismo no Paraná, divulgou a seguinte nota com a libertação dos dois (dois!) reféns que estavam em poder das FARC. Sintam a linguagem dessa gente:

JORNALÕES AMARGAM DERROTA

A libertação de Clara Rojas e Consuelo Gonzáles deixa clara a campanha difamatória dos jornalões contra o presidente da Venezuela, Hugo Cháves. A operação, batizada "Emmanuel", estava organizada para garantir, através da negociação com as FARC, a libertação das colombianas. Colaboravam com esta operação um grupo de solidariedade internacional, que incluía o assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia.
Durante vários dias, comentaristas, articulistas, âncoras e similares contaminavam as páginas de jornais, as rádios e televisões de todo o continente para agredir o grupo de solidariedade internacional que negociava com as FARC, pouco se importavam com Consuelo, Clara ou Emmanuel, o que lhes importava era de toda a maneira sabotar a ação.
O resgate de Clara e Consuelo é uma derrota da direitona jornalística e uma vitória do campo progrssista na América Latina. Esta operação mostrou que o diálogo e a coerência é que dita os rumos do processo democrático.
Parabéns Presidente Cháves
Parabéns a todos os membros do grupo de solidariedade internacional.


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É isso mesmo. Parabéns, Chávez! Agora só faltam 764 reféns em poder das FARC.
O gênero humano cada vez mais me decepciona. Essa juventude me faz lembrar outra.
E confesso: é difícil morar em Estado governado por chavista.

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E já que estamos falando em PMDB, um vereador do partido foi preso ontem aqui em Londrina, acusado de crime de concussão (favorecimento praticado por agente público). O nome dele é Henrique Barros. Apresenta-se como legítimo representante da juventude. É o campeão das carteirinhas para meia entrada. É a força jovem do PMDB!

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Ah, foi flagrante. Apreenderam 9.900 pratas no carro do vereador.

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Será que a Juventude do PMDB não vai emitir uma nota em solidariedade ao vereador? Estou ansioso.

Anoche cuando dormía

January 09, 2008

Anoche cuando dormía
soñé, ¡bendita ilusión!,
que una fontana fluía
dentro de mi corazón.

Di, ¿por qué acequia escondida,
agua, vienes hasta mí,
manantial de nueva vida
de donde nunca bebí?

Anoche cuando dormía
soñé, ¡bendita ilusión!,
que una colmena tenía
dentro de mi corazón;

y las doradas abejas
iban fabricando en él,
con las amarguras viejas
blanca cera y dulce miel.

Anoche cuando dormía
soñé, ¡bendita ilusión!,
que un ardiente sol lucía
dentro de mi corazón.

Era ardiente porque daba
calores de rojo hogar,
y era sol porque alumbraba
y porque hacía llorar.

Anoche cuando dormía
soñé, ¡bendita ilusión!,
que era Dios lo que tenía
dentro de mi corazón.


(Antonio Machado, poeta espanhol, 1875-1939)

Impostores

January 08, 2008
Esse Briguet só escreve merda.

Entro no ônibus correndo (o que nunca deveria ser feito). Na hora de pagar o motorista-cobrador, deixo cair no chão minha medalhinha de Nossa Senhora das Graças. Abaixo-me para pegar a medalhinha; coloco-a de novo na carteira e olho para um muro onde está escrito o nome Bastardo. Por uma associação de idéias, penso imediatamente no nome Impostor, de um antigo comentarista aqui do Tipos. Eis que, uma quadra adiante, ou nem isso, vejo o próprio Impostor, quase em frente à estátua de Mercúrio que aponta incansavelmente para o céu. Ele não me viu – o Impostor, não o Mercúrio. Esse jamais me veria mesmo; não tenho jeito para o comércio.
E penso que pode haver impostores – não o Impostor – de nós mesmos. Impostores involuntários, se me permitem a contradição em termos. (Eu adoro contradições em termos.)
Deve existir por aí, por exemplo, um Briguet que continua sendo trotskista. Meu amigo Preto diz que eu continuo falando como trotskista; só mudaram as idéias, o tom da argumentação é o mesmo. Pode ser, pode ser. Ranulfíssimo Preto me conhece há 20 anos e já ouviu muita pregação comunista de minha parte.
Outro vi na prateleira um livro escrito por um desses militantes antiglobalização. O nome do livro diz tudo: “Estamos vencendo”. Nós são eles – os esquerdistas que ocuparam a máquina do estado.
Na época de militância, eu defendia exatamente o que tem sido posto em prática por Lula e seus companheiros: a verdadeira revolução (a revolução permanente, que Trótski imaginava) consiste em esvaziar o capitalismo de todo e qualquer princípio – judaico-cristão ou liberal, não importa – sem interferir nas estruturas econômicas. O estado se fortalece, a pobreza se perpetua (vejam o ótimo artigo de Augusto de Carvalho hoje na Folha de S. Paulo, desancando o bolsa-esmola) e os empresários brincam de capitalismo. É triste, é melancólico. "Eles" estão vencendo. Um capitalismo sem princípios – de base judaico-cristã – é uma banheira de água suja sem bebê.
Trótski (prefiro escrever assim, com i, e não com y, que é a forma anglo-saxã) era um fanático e foi um dos comandantes do terror vermelho enquanto esteve no poder na Rússia. Mas era um bom escritor (melhor orador, mas um ótimo escritor). Claro que o leio traduzido (não sei russo, é óbvio), mas ele me parece ser, a exemplo de Tolstói-Turguêniev-Dostoiévski, um daqueles autores que resistem bem à tradução.
Voltarei ao assunto – como sempre.

Para quando eu partir

January 07, 2008
Prefiro partir à noite, quando apenas os cães da vizinhança estiverem rompendo a lei do silêncio. Não levarei mochila, não deixarei bilhete. Dentro de um sonho banal, de repente não pertencerei mais à vida, sem maiores explicações. Se eu perguntar pelo direito de voltar a abrir os olhos, um anjo de recados – desses que trazem boas ou más notícias na Bíblia – vai apenas baixar a cabeça e silenciar; eu compreenderei tudo. Dali em diante, meu ouvido não perceberá mais os cães da madrugada. É que não terei mais olhos de ver, nem ouvidos de ouvir.
Prefiro partir em silêncio e resignação, depois de encontrar um inesperado alívio dentro da mesma dor. Será hora de entender, de uma vez por todas, que a angústia é parte da graça; e que os demônios eram apenas a minha sombra.
Já não terei sombra quando partir. A dor estará mais esquecida que as cantorias numa noite de bebedeira. Já não precisarei beber, pois serei a própria bebida. Já não precisarei cear, porque serei o próprio alimento. O ar de toda a atmosfera será inútil para mim. Deixarei o vento como lembrança e herança.
Não se assuste; não pretendo partir agora. Longe disso. Acho que ficarei por aqui bastante tempo, um punhado de carnavais. Mas tenho certeza de que irei bem antes de você. Como posso estar certo? Intuição. A moça que acabou de servir o café perguntou: “Açúcar ou adoçante?”. E eu respondi açúcar. A vida é boa, mas eu vivo demais. Não tenho a virtude da temperança. Minha vida é açúcar, arroz, feijão, cerveja e algum chocolate amargo. Minha vida é menos caminhada e mais dormir em frente à TV, com um livro aberto ao lado.
Depois que eu for embora, diga a eles, se você lembrar (você estará bem mais velha), diga a eles que tudo, ou quase tudo, fiz com as melhores intenções. Que meu pecado foi a preguiça, não a ira, jamais a inveja, mas certamente um pouco de soberba. Diga a eles que eu só desejei o bem para todo mundo. Igualdade de chances, diferença de resultados – e como poderia ser diferente?
O velho chavão diz que o inferno está cheio de bem-intencionados; mas eles não estão no último círculo, presidido pessoalmente por Lúcifer. Errei mais por omissão do que por atos; mais por pensamentos do que por palavras. Daí minha predileção pelo chocolate amargo. Um prato de arroz e feijão – que delícia! Será que tem cerveja no outro lado?
Não, esta não é uma despedida. O pessoal vai ter que me engolir por muito tempo. Como já disse, vou ficar aqui por bastantes anos. Esta foi só uma forma de dizer que – você já sabe, eu digo tantas vezes. Uma forma de dizer que o tempo está a seu favor. E que a angústia é apenas uma filha pródiga da benção de viver. Receba estas palavras de amor pelo vento: nele se dissipará toda e qualquer vaidade. Prefiro partir à noite. Eu não sou digno de que entreis em minha morada. Mas dizei uma só palavra.

A canção desconhecida

January 04, 2008

Acho que o mundo está de férias. Inclusive os meus sete leitores. Se não há leitores, por que escrevo? Ora, porque não sei assobiar. O pai tentou me ensinar – mas desistiu.
Ontem, quando entrei no ônibus para vir trabalhar, havia pouca gente. A maioria deve estar na praia ou na casa da sogra. Mas havia um senhor no assento dos aposentados – e ele assobiava. Não consegui identificar a canção; alguma fora do meu repertório. Mas o velho homem assobiava direitinho. Era – é – afinado.
Nunca saberei qual música o velho assobiava. Talvez um sucesso na voz de Mário Reis, Francisco Alves, Carmen Miranda. O vento no rosto e o barulho do motor complicavam a tarefa de identificar a canção. Eu poderia perguntar ao aposentado, mas não seria justo: para me dizer o nome da música, ele teria que parar de assobiar. E eu não queria interrompê-lo.
Um pensador grego disse que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. “Tudo flui.” O ônibus não é diferente. Tanto fluiu, que chegou ao terminal. Ali tive que descer para pegar outro ônibus. O velho que assobiava sumiu; não guardei seu rosto. Tudo flui: o velho, o assobio, a música para sempre desconhecida.
Um pedreiro que alinha tijolos; um violonista que faz acordes; um economista que faz cálculos; um alfaiate que corta o tecido; um médico que examina o paciente; um farmacêutico que manipula a fórmula; um juiz que assina a sentença; um bandeirinha que dá o impedimento; o elefante que foge dos camundongos; o aposentado que assobia no ônibus; e mesmo o cronista que agora escreve estas palavras para seus não-leitores – todos estão em busca de uma ordem, de uma lógica, de uma linguagem. Querem algum lampejo previsível no incessante acúmulo das coisas. Mesmo se o mundo estiver em férias – e acredito que esteja –, todos seguem na procura de um sentido. Algum sentido – ainda que ele se desfaça ao fim do dia. E esse mínimo sentido, essa impressão efêmera, é mais importante que o mundo.
O gaiato diz: “Tudo na vida é passageiro – exceto o motorista e o cobrador”. Está errado, o gaiato. Tudo na vida é passageiro. Inclusive o motorista e o cobrador. Inclusive o gaiato. Mas alguma coisa vai ficar – talvez a canção desconhecida.
Nós somos o nome do rio que passa. Nós somos a madeira roída pelos cupins – e os cupins se chamam tempo. Nós próprios somos rios – afluentes de sangue do caudaloso rio das coisas. Amanhã seremos mar.
E eu nunca saberei o nome da música que o velhinho assobiava no ônibus.

- Publicado no Jornal de Londrina.

A esmola dos jovens onanistas

January 03, 2008

Não aceito a monstruosa idéia de que tudo é política. Não é; do contrário, estaríamos todos mortos de tédio ou assassinato. O ideal da vida humana seria bem o contrário: uma vida em que nos lembrássemos da existência da política apenas em momentos estritamente necessários à manutenção da liberdade individual.
Infelizmente estamos longe disso. No Brasil, muito mais longe. A simples decisão de ignorar a política é fulminada, logo nos primeiros dias do ano, pela notícia de que Lula aumentou impostos e ampliou o bolsa-esmola para punheteiros de 16-17 anos. É um pacote ao estilo da ditadura militar: compensou-se, via decreto (também conhecido por medida provisória), a perda da CPMF e, de quebra, formou-se um novo exército eleitoral para 2008. (A expressão “exército eleitoral” é de FHC, o melhor presidente brasileiro, não que o páreo seja muito difícil.)
Tosco, desprezível, baixo. Esse é o governo Lula. Ainda bem que o mundo não é feito só de política.