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Archive for September of 2007

Sister

September 27, 2007
Bocas de Matildes garantiram a este blog que Nicole Bahls, formada em jornalismo, ex-aluna do meu amigo Fábio Silveira, mais conhecida como a garota Paraná Clube (mas que também poderia ser garota coxa, se é que vocês me entendem), está no bico para entrar no Big Brother vindouro.
E mais não digo porque não sei.

Quando

September 26, 2007

Quando esse portão foi fabricado, minha avó ainda existia.
Quando essa casa foi erguida, minha bisavó ainda existia.
Quando esse prédio foi construído, meu amigo Bonfim ainda existia.
Quando esse carro acelerou pela primeira vez, meu avô ainda existia.
Quando essa calçada foi feita, o filho do meu amigo ainda existia.
As coisas são impiedosas. Não perdoam. São frias e terríveis.
Quando meu bisavô foi abandonado, ainda criança, num país desconhecido, as coisas não se importaram.
Nunca choram, nunca riem. Tendem à ruína. Menos que nós, menos que nós.
As coisas são de um mutismo incalculável. As coisas não são humanas, nem precisam ser. Há os que dizem: as coisas não morrem. Estão errados: elas morrem, só não sofrem. Vaso ruim não quebra. Ou melhor: quebra, mas demora.
As coisas são parecidas com Stálin, Molotov, Kaganovich, Béria, Dzerzhinsky.
As janelas de madeira da velha casa se parecem com as janelas de madeira da escola.
Veja: as roupas sobrevivem aos seus donos. As idéias insistem em perturbar nos livros. As histórias são contadas eternamente, de ouvido em ouvido. Tudo permanece, com grande cinismo e indiferença. A vida é empírica? Deve ser.
Mas, de vez em quando, surge um sol estranho. Uma luz plácida e incoerente. Uma espécie de vulto se esconde entre as árvores sombrias.
São as frases ocultas de quem já se foi; o olho inútil de quem já morreu. É o amor dos fantasmas: nossa única saída. Um dia seremos assim. Um dia.

O homem que adiava

September 26, 2007
Minha vida tem sido um adiamento. Deixo para depois de amanhã o que poderia fazer anteontem. Adiar é a minha segunda natureza, talvez a primeira.
O fato de nascer me deixou cansado. Cresci em estado de preguiça, por osmose e inércia. Adio todos os dias. Sou o maior enrolador do universo.
Adio as compras da semana; a geladeira vazia. Adio a consulta com o cardiologista; as artérias em perigo. Adio a arrumação dos livros; o caos na prateleira. Adio a hora de ler Ulisses; alguém leu?
Minha lei é a do menor esforço. No colégio, adiava o estudo até a véspera da prova. Na faculdade, arrumava atestado médico falso para fazer segunda chamada (boa oportunidade para cassarem meu diploma!). O romance está sendo adiado há uma década; a comédia dramática, idem – a não ser a da minha própria vida.
Adiei os exercícios e a dieta; barrigudo. Adiei a escola de inglês; monoglota. Adiei as viagens; nada além de dez dias em Paris. Adiei a mudança para São Paulo; adeus, grande imprensa. Fui ficando. Eis minha história. A história de um mané provinciano. Jung Jeca Tatu.
Agora, apareceu alguma coisa que não posso – nem vou, nem quero – adiar: o casamento. Pela primeira vez na vida, estou incrivelmente em paz com a idéia do inadiável.

Por que você é briguento, Briguet?

September 21, 2007
Todo poder aos sovietes! Pão, terra e liberdade!

“Nossa personalidade é uma invenção dos outros.”
(Marcel Proust)

“Em um país cujo único empregador é o Estado, oposição significa morte por fome. O velho princípio daquele que não trabalha não deverá comer foi substituído por um novo: aquele que não obedece não deverá comer.”
(Leon Trotsky)


Um velho conhecido, esquerdista histórico, fundador do PT, me procurou ontem depois da palestra e disse: “Briguet, eu também mudei. Compartilho inteiramente de sua visão política”.
Na palestra para estudantes, eu havia declarado, pela enésima vez (conheço que sou chato), minha opção pelo liberalismo político e econômico. O velho conhecido pode ser considerado, portanto, um ex-esquerdista.
Ao final, um estudante disse: "Então, precisamos de uma revolução...". Eu apenas redargui: "Tudo que o Brasil menos precisa ter é uma revolução. Precisamos de uma dose cavalar de normalidade e óbvio".
Com a experiência da esquerda no poder central lulístico – e também no poder local nedsístico -, descobrimos que o grande erro não estava no comportamento deste ou daquele esquerdista; estava no próprio ideal esquerdista, que se apresenta como generoso e se comporta como predatório, infame, cínico. Vide Trotsky, Stálin, Lênin, Prestes.
Uma leitora me perguntou, durante a palestra: “Briguet, por que você é briguento?”. Respondi que não sou de briga, na verdade. O Paulo Briguento corresponde a menos de 10% da minha personalidade. Sou um cara tranqüilo, tímido, diplomático até demais. O que mais me incomoda não é ver os cínicos de esquerda (estes já são caso perdido); o que dói é ver os que se auto-enganam com essas idéias delirantes em torno do estado, do coletivismo e do igualitarismo.
Aconteceu comigo; não quero que aconteça com outros.

*****

Mas nunca, nunca vou deixar de ser amigo de alguém por razões políticas. Só a canalhice pode destruir uma verdadeira amizade. E um canalha nunca é puramente político. Há mais, há mais. Só procurar.

Sinceramente

September 17, 2007
Desce duas.

A você que começou a ler esta crônica, só posso dizer obrigado. A você que leu a anterior; a você que talvez leia a próxima; a você que continua lendo só para saber que besteira vou dizer hoje – a todos vocês, obrigado.
Agradeço a vocês que me chamavam para jogar futebol mesmo sabendo que eu era grosso; a você, boa senhora, que me deu água naquele dia em que tinha muita sede e estava longe de casa, no Jardim Nova York (eu morei lá); a você, mulher, que me escolheu entre a multidão de homens no mundo.
Minha eterna gratidão aos amigos que me levaram para casa quando eu estava bêbado; aos que atenderam telefonemas em horas impróprias; aos que relevaram recados incompreensíveis em secretárias eletrônicas.
Obrigado aos taxistas, porque me conduziram; aos repórteres, porque me informaram; aos médicos, porque me tranqüilizaram; aos humoristas, porque me divertiram; às mulheres, porque me encantaram; à família, porque me criou; aos bons cronistas, aos bons poetas, aos bons contistas, aos bons romancistas, aos bons pintores, às Neosaldinas, a João Sebastião Bach – a esses tão raros eu agradeço, porque me curaram, porque me salvaram.
A vocês que ouviram a gente cantar o Hino da Independência e a Turma do Balão Mágico no balcão do bar – eu agradeço sete vezes. A vocês que tiveram paciência, que tiveram compaixão, que tiveram humor – eu agradeço setenta e sete vezes. A vocês que compreenderam – eu agradeço sete vezes setenta e sete.
Agradeço a você que resolve minhas dúvidas gramaticais por telefone. A você que me liga só para contar a última piada ou pegadinha. A vocês que escutam pela enésima vez às minhas imitações de Lula, professor Eduardo, Silvio Santos, Nedson, Roberto Carlos, Siqueira Martins... Como não agradecer a almas tão solidárias e caridosas? Só em homenagem a vocês vou cantar “Londrina é nossa paixão” com a voz do Lula. Obrigado, obrigado. (Leiam essa última frase com o sotaque presidencial.)
A você que me agüentava quando era um radical trotskista e hoje agüenta meus sermões liberais. A você que continua sendo meu amigo apesar das diferenças políticas. A você que agüenta minhas piadas politicamente incorretas e reclama pouco, pelo simples fato de que só as piadas politicamente incorretas têm graça. A todos vocês, eu agradeço de coração, cabeça e estômago.
Agradeço porque agüentaram e agüentam minha vaidade; minhas tolices; minhas imprecisões; minhas repetições; minhas melancolias. Agüentaram e agüentam. Aceitaram e aceitam. Compreenderam e compreendem.
E, se chegaram ao final desta crônica, eu digo obrigado. Setenta e sete vezes sete.

- Publicada no Jornal de Londrina (17.09.2007)

Saudades do Bar Brasil

September 14, 2007
Um dia, cara, você vai sentir saudades da turma cantando hino às quintas-feiras, no balcão do Bar Brasil. Liberdade! Liberdade! Abra as asas sobre nós! Você vai sentir saudades e se arrepender por não ter cantado junto.
É, cara. Um dia você vai sentir falta das nossas piadas sem graça; das nossas imitações do Lula e do Eduardo Judas Barros; das musiquinhas do Silvio Santos e do Balão Mágico; dos nossos comentários absurdos misturando política, biologia e gramática.
O silêncio vai ser difícil pra você um dia, cara. Salve o lindo pendão da esperança / Salve o símbolo augusto da paz / Tua nobre presença à lembrança / A grandeza da pátria nos traz. Um dia você ainda vai sonhar com esse hino, cara. E a música não vai sair de sua cabeça.
Finalmente, você está livre de nós. É o afeto que se encerra, cara. Acho que alguém vai sentir uma tremenda falta da época em que o Tanga, sabendo que você era ranzinza, gostava de provocá-lo imitando personagens de kung fu (o chinês do Tanga é muito bom, quase sem sotaque, e você vai sentir falta disso também).
Talvez você tenha razão, cara. Talvez eu seja um idiota, um sujeito ridículo, um picareta. Mas um dia você vai sentir falta do que chamava de idiotice. Do tempo em que éramos seus amigos: os moleques crescidos e o adulto que não cresceu. Estendíamos a mão quando você chegava. Comentávamos sobre a morte do Orlandão (fiz uma crônica sobre ele, a seu pedido). Até emprego lhe arranjávamos, cara.
A quinta agora tem lei. Fique com o balcão todo para você. Boa-noite. Passe bem.

É coisa nossa

September 13, 2007
Mais que vai, vai... ui! Mas que vai, vem.

Aracy de Almeida - "Vou mandar treixx mangoxx, patrão!" - terá companhia hoje nas altas esferas.
O inefável Pedro de Lara acaba de levar seu buquê de lírios para o outro lado.
Quem não conhece é porque nasceu depois de 1985.
Pedro tinha 82 anos. RIP.

No fundo, eles adoraram

September 13, 2007
Cada bobagem que eu tenho de ouvir nessa vida...
Ninguém razoavelmente sóbrio diria que o Senado era uma casa de santos ou a “reserva moral da República”. Mas, até ontem, representava uma base de resistência ao lulismo. Ali, a lambeção de botas não era tão absoluta...
Às vezes é bom refrescar a memória. Durante o governo Fernando Henrique, os senadores ACM e Arruda foram obrigados a renunciar (só o fizeram pela certeza de que seriam cassados). Jáder Barbalho, hoje conselheiro fiel de Lula, também renunciou. Luiz Estevão foi cassado. Até Roriz, essa mistura candanga de Lula e Belinati, teve de cair fora.
No início da semana, tudo levava a crer na cassação de Renan Calheiros, não fosse a atuação suja do PT. Atuação suja do PT? Desculpem a redundância.
O Senado tinha problemas? Claro! Mas o que aconteceu ontem não tem precedentes.
Dizer que “são todos farinha do mesmo saco”, “político é tudo a mesma coisa” – desculpem, mas isso tem um nome. E não é anarquismo.
(Ah, devo estar dizendo tudo isso porque pertenço à “mídia golpista”.)

O suicídio do Senado

September 12, 2007
Renan absolvido = Senado fraco = Lula forte.
Ideli Salvatti - generala da tropa de choque no caso mensalão - voltou a fazer bela figura no Senado. Aloísio Mercadante – o bigode por trás do dossiê fajuto –, idem.
Não haveria maneira mais eficiente de acabar com o Senado – um projeto defendido pelo Congresso do PT.
Com a absolvição de Renan Calheiros, o Senado acabou. Morre um dos últimos focos de resistência ao petismo. O STF ainda está vivo – mas até quando?
Re(pug)nan(te).
É de dar nojo de ser brasileiro.

Já Elvis

September 07, 2007

Depois de casar com a Lady Murphy, o príncipe Charles continua dando bola-fora. Seu comentário sobre morte de Pavarotti: " O mundo ficou mais vazio".

Chamou de gordo, tontão.

*****

E Bush, o hómi mais odiado do Brasil, chamou os australianos de "austríacos".

Ainda assim, "voto" nos republicanos.

Coitado do tiozinho

September 06, 2007
Tudo que é bom é velho.

Caí. Alguns vão festejar a notícia, mas logo aviso que não fui demitido. Na verdade, caí do ônibus. Aconteceu ontem.
Machado ensina: “É melhor cair das nuvens do que de um terceiro andar”. De certa maneira, eu estava nas nuvens: lia no ônibus uma biografia de Santos-Dumont. Quando desviei os olhos da leitura, percebi que o ônibus chegava ao meu ponto. Levantei-me com certa pressa – uma pressa inadequada para passageiros que descem do ônibus. Calçava uns sapatos pretos até bonitos, mas que escorregam muito. Segurando a biografia de Santos-Dumont com a mão esquerda e a pasta de trabalho com a direita, perdi o equilíbrio ao descer os degraus do ônibus. Caí na calçada.
Quedas em público têm um irresistível caráter cômico. Alguns gaiatos deram risada quando me viram estatelado na guia. Ouvi um deles jocosamente gritando: “Iu-huu!”
Mas devo reconhecer que um casal de estudantes, que passava pelo local na hora do incidente, foi extremamente gentil. Ajudaram-me, a garota e o garoto. “Coitado do tiozinho”, devem ter pensado. “O sr. se machucou?”, foi o que disseram.
Não me machuquei, com exceção de um pequeno ferimento superficial na mão esquerda (felizmente, a mão da aliança ainda é outra). Por esse ângulo, até que o incidente foi positivo: comprei um vidrinho de Mertiolate, medicamento que faltava em casa.
Todo mundo cai em público ao menos uma vez na vida. Acontece. Nessas ocasiões, parece que a gente descreve a curva da queda em câmera lenta. O clima é do sonho; a diferença é que, nos sonhos, as quedas geralmente não têm chão. A sonhador cai, cai, cai – e acorda na cama.
Gaiatos – aquele do “Iu-huu!”, por exemplo – poderiam imaginar que eu estivesse embriagado. Nada mais injusto. Eu voltava de uma honesta jornada de trabalho; tomara café é água do filtro.
Bocas de matildes, por outro lado, poderiam dizer que sou um nefelibata – e não sem motivo. O cronista, por força do hábito, às vezes tem que habitar as nuvens. Talvez seja preciso cair de um ônibus para que o cronista caia em si.
“A queda” é o título de um livro do existencialista Camus. Millôr Fernandes compara a existência humana ao cara que se joga do oitavo andar e, ao passar pelo quinto, pensa: “Até aqui, tudo bem”.
Mas a minha queda não foi existencialista nem fatalista. Não caiu o presidente, nem o governador, nem o prefeito. Não caiu nem mesmo uma árvore (não se ouviu o barulho de moto-serra, apenas o acelerador do ônibus). Caiu apenas o cronista. Caiu e levantou-se para seguir a vida.
Seguir a vida: a parte mais difícil. “Coitado do tiozinho.”

- Texto publicado no Jornal de Londrina.


*****

Pelo menos dessa vez eu não culpei a esquerda...

Entrevista: Cristovão Tezza

September 03, 2007
Na última sexta-feira entrevistei o escritor Cristovão Tezza, que acaba de publicar “O filho eterno”. É um belo romance sobre Felipe, filho do autor, nascido com a síndrome de Down. Uma história livre de qualquer pieguismo ou retórica.
A seguir, a íntegra da conversa por e-mail:


Quais as diferenças entre o narrador de “O filho eterno” e Cristovão Tezza?

Tezza: O narrador é sempre uma "persona", uma olhar destacado do evento vivo, real, cotidiano das pessoas; é alguém que escolhe o que vê, recorta e interpreta. É, também, alguém que sabe mais do que os seus personagens - o seu olhar já tem o começo, o meio e o fim. Já Cristovão Tezza é um objeto de narração; sobre o seu passado, não há mais nada a fazer - está pronto.

Quando o sr. se sentiu pronto para escrever essa obra libertadora?

Tezza: Não sei se é "libertadora". A palavra talvez seja muito forte, e aprendi a desconfiar das palavras retumbantes ou altissonantes demais. Mas talvez a intenção tenha sido essa mesma, me livrar de um fantasma, da idéia de que havia um ponto cego na minha vida sobre o qual eu não poderia escrever. Pois bem, escrevi. O tema começou a amadurecer na minha cabeça nos últimos cinco anos. Nos últimos dois, finalmente o livro tomou forma.

A história da literatura registra vários casos de escritores confessionais: Santo Agostinho e Rousseau a Henry Miller, Pedro Nava e Kenzaburo Oe. Em que medida o sr. se inspirou nessa tradição?

Tezza: Gosto muito de literatura confessional, porque ela promove essa fusão de gêneros, o biográfico, o reflexivo e o ficcional, o ficcional não como a "fantasia", mas como a relativização do olhar. Ficcionalizar é, de certa forma, compreender, porque vemos de fora todas as variáveis que estão em jogo nos gestos humanos. Outros livros meus têm essa estrutura confessional, como Juliano Pavollini ou Uma noite em Curitiba. Em O filho eterno coloquei o dado biográfico no centro do texto. Dos autores que você citou, gosto de todos. Nunca pensei numa influência direta, mas certamente são textos que me marcaram.

“Nada do que não foi poderia ter sido.” Essa frase contém uma verdade?

Tezza: Certamente não - não vivemos às cegas; fazemos escolhas o tempo todo e respondemos por elas. Olhando para trás, entretanto, às vezes temos a sensação de que nada podia ser diferente, o que é um belo consolo. Mas, como diz o verso de T. S. Eliot, "o gênero humano não suporta tanta realidade". Daí talvez porque a idéia de "destino" seja tão atraente para nós.

O tempo é um personagem de “O filho eterno”?

Tezza: Não pensei nisso objetivamente, mas acho que sim. A idéia de tempo, quando desprovida de "finalidade" - isto é, na vida da cultura humana nada se dirige necessariamente a lugar nenhum - tem um toque absurdo, uma imensa solidão; é um tema maravilhoso para a literatura. E, claro, o tempo é a percepção do tempo e tudo que vem junto com ele.

Qual a relação entre os livros relançados simultaneamente pela Record – “O fantasma da infância”, “Aventuras provisórias”, “Trapo” – e “O filho eterno”?

Tezza: Do ponto de vista prático, são todos livros que estavam já fora de mercado, com direitos de edição livres. E, tematicamente, de certa forma encerram quatro momentos marcantes da minha produção literária, desde "Trapo", que me lançou nacionalmente, em 1988, passando pelas transformações de "Aventuras Provisórias" e "O fantasma da infância", até este "O filho eterno", que está tendo essa repercussão surpreendente. Enfim, representam minha vida literária nos últimos 20 anos.

Três vezes

September 01, 2007
Em memória de Felippo.


Três vezes eu nego a morte. Três vezes eu nego a mancha do pecado original. Três vezes eu nego essa dor, essa dor que quando termina é novamente dor. Três vezes o meu lábio beira a blasfêmia, como o de Jó quando perdeu os filhos e teve o corpo coberto de chagas. Maldito seja o demônio.
Três vezes eu nego a morte. Três vezes eu repudio o príncipe da morte. Três vezes me recuso a dançar nas trevas.
Três vezes eu nego a morte. Três vezes uma flor se abre e espalha seu veneno pelo ar. Três vezes eu vejo o naufrágio de que somos todos vítimas. Três vezes eu nego a morte pelo fogo, pela água, pela terra. Três vezes eu respiro e nego a morte.
Três vezes eu nego a morte. Três vezes eu peço aos filhos do mundo que não morram, não morram, por favor não morram. Três vezes eu contemplo a face do pai e da mãe que choram a morte do filho querido. Três vezes eu estarei diante da cama vazia.
Três vezes eu nego a morte, essa abominável certeza em meio à dádiva da vida. Três vezes eu me refugio na memória e espero o fim do tempo. Três vezes eu leio o Livro das Perguntas. Três vezes eu não compreendo os planos de Deus.
Três vezes eu nego a morte, maldita seja para sempre. E, antes de o galo cantar, eu negarei três vezes.