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Archive for August of 2007

Grande Grota

August 30, 2007
Vejam só o crítico Luiz Carlos Merten escreveu no Estadão hoje:

Melhor curta do recente Festival de Gramado, Satori Uso ganhou prêmios da crítica e o de aquisição do Canal Brasil, mas foi contemplado pelo júri oficial só com o prêmio de fotografia. Não que a fotografia de Carlos Ebert não seja fundamental no conceito do filme (além de ser muito bem resolvida, do ponto de vista técnico e artístico). É que Satori Uso merecia mais – o Kikito de melhor filme, que o júri outorgou a Alphaville 2007. No mínimo, o prêmio de direção.
Para falar sobre Satori Uso, talvez seja interessante recorrer a autores que certamente estão no centro das referências de cinéfilo do jovem diretor paranaense Rodrigo Grota. Ele viu, sem sombra de dúvida, Zelig, de Woody Allen, e Verdades e Mentiras, de Orson Welles (e François Reichenbach).
O segundo, em especial, baseado na obra do falsificador Elmyr de Hory, tinha tudo a ver com a falsificação de Satori Uso.
O filme sobre um poeta que nunca existiu é assinado por um documentarista imaginário, Jim Kleist. Nenhum dos dois existe, mas Rodrigo Grota, com base nas investigações descritas na reportagem acima, criou o correspondente cinematográfico do poeta, este cineasta para o qual inventou uma filmografia e um estilo.
Jim Kleist nunca concluiu um filme. Satori Uso visava a sombra e o silêncio. Como contar a história de um homem que não quer aparecer? Satori é revelado por meio de Kleist e de Satine, sua musa, cujo nome é a uma homenagem a Nicole Kidman de Moulin Rouge, de Baz Luhrmann.
Esplendidamente escrito, filmado, fotografado e dirigido, Satori Uso concentra toda uma aula de cinema (e arte e vida) em 17 minutos.
Este grau de sofisticação não é muito freqüente no cinema brasileiro de qualquer formato.

Vergonha alheia

August 30, 2007

Vocês me envergonham – vocês que votaram em Lula. E vocês que lavaram as mãos, apostando no velho clichê anarquista – “São todos iguais” –, também me envergonham profundamente. Três dos principais líderes do governo Lula no primeiro mandato – José Dirceu, Luiz Gushiken e José Genoíno – são réus no maior tribunal do país, acusados de formação de quadrilha. E vocês são os culpados.
Sim, estou falando com vocês. Vocês que votaram em Lula; que reelegeram Lula; que se omitiram diante de Lula; que arranjaram argumentos falaciosos para votar em Lula; que se apoiaram no que o “povo” pensa (como se o “povo” fosse a matriz da sabedoria); que ofereceram os lombos servis para que o PT voltasse ao poder.
Vocês deveriam estar com vergonha, com profunda vergonha pelo que fizeram. Mas não estão. Continuam aí, felizes, como se nada tivesse acontecido, e ainda se comportam como donos da verdade, querem ditar regra.
Votar em Lula não deixa ninguém impune: porque a mentira – ouvi essa hoje – tem pernas curtas, barba branca, língua presa e um dedo a menos.

O ex

August 28, 2007
(Uma crônica dedicada a quem gostaria de me ver como ex-Tipo.)




Se perguntarem o que faço, digo que sou ex. Ex o quê?

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Sou ex-esquerdista, daqueles que acreditavam no “futuro socialista da humanidade”. A vida mostrou que socialismo, na melhor das hipóteses, vira a quadrilha do Zé Dirceu; na pior, as quadrilhas do Mao Tsé-Tung e do Stálin.

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Sou ex-militante estudantil. Ainda bem. Não suportaria nem mais um minuto de assembléia. Quando vejo essa ridícula UNE estatizada, só sinto vergonha alheia.

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Sou ex-estudante. Não sei como, mas acabei me formando.

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Sou ex-sindicalista, mas sem cargo público. Olha só o que os ex-sindicalistas com cargo público estão fazendo – lá em Brasília e aqui em Londrina.

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Sou ex-músico. Para o bem de todos os ouvidos.

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Ao contrário do que dizem as más línguas, não sou ex-Don Juan, porque nunca o fui. E logo vou ser ex-solteiro (sem despedida).

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Sou ex-boêmio. Para ser um bom marido – e para não ter um ex-fígado.

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Sou ex-redator publicitário. Hoje não consigo vender uma rifa.

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Sou ex-ator. Mas estou perdoado; tinha 15 anos. Mas ainda faço figuração nos filmes do Grota.

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Sou ex-fã do Jim Morrison. Mas estou perdoado; tinha 16 anos.

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Sou ex-fã do Silvio Britto. Mas estou perdoado; tinha 5 anos.

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Sou ex-jovem. Mas ainda não fiquei velho o suficiente.

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Paradoxalmente, não sou ex-criança.

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Sou ex-ateu. Hoje rezo por uma pessoa muito querida. Sei que ela vai viver ainda muitos anos, tempo suficiente para ver o filho casar e a netinha crescer.

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Sou ex-revolucionário. Descobri ser conservador – e quero me conservar assim.

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Sou ex-animador de passeatas. Hoje só animo festinhas.

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E chegará o dia em que serei apenas um ex-ex. Se Deus quiser, vai demorar bastante.

Nada de novo sob o Sol

August 23, 2007
O véio é que é bom.

Eu disse (sem exclamação):
O novo é a fonte do mal”.
A Margo disse:
O novo é a fonte da vida”.
(Notem que, quando eu a cito, faço o link correspondente; já ela não compartilha da mesma generosidade, talvez porque tenha medo de aumentar meu ibope, imagino.)
O grande Marcelo Rocha - que será meu padrinho de casório - disse:
A Cleo Pires é o uma coisa boa e nova”.
Excelente argumento, Rocha. Só que, para a Cleo Pires nascer, o sr. Fábio Júnior e a sra. Glória Pires tiveram que fazer alguma coisa que não é propriamente nova na história da humanidade.
Eu já disse: a fonte de todas as coisas boas é antiga, eterna, primordial. A tentativa de mudar essa ordem original das coisas torna-se a fonte não apenas do mal, mas também do fanatismo (um dos capítulos do mal).
Nada do que é humano me é estranho; o resto não passa de pop.

Notas para desenvolver melhor amanhã

August 22, 2007
Tudo que é bom é velho, mas nem tudo que é velho é bom. Não me deturpem, não me deturpem. Aquilo que é feito com o único e exclusivo propósito de ser novo é, na melhor das hipóteses, uma lástima; na pior, uma tragédia. Uma grande pensamento é o do romântico alemão Achim von Arnim, citado por Otto Maria Carpeaux: "Somente a infâmia começa por si mesma um novo mundo. O que é bom o foi eternamente". Há algo que une o pop e o independente - é o gosto pela novidade. O totalmente novo é a encarnação do mal.
Meu Deus: Ratos do Porão!

Se o mundo acabasse agora, eu gostaria de ouvir João Sebastião

August 22, 2007
Rock? Muito pouco, quase nada. É barulhento. Silêncio é melhor que barulho. E já basta agüentar o Bar Brasil às quintas-feiras. Falar a verdade, acho que é tudo meio parecido. Quero dizer, há umas quatro ou nove escolas que se repetem ad infinitum: Elvis, Beatles, Stones, The Who, Jimi Hendrix, heavy metal, progressivo, punk... Depois de um tempo é tudo igual. Vira-mexe, uns bagrinhos aí acham que estão criando algo revolucionário, mas não fazem nada além de repetir o que o Lou Reed fez em 1971 ou o Iron Maiden fez em 1984. (Meu Deus, como é que pode um ser humano gostar de Ratos do Porão?)
De MPB, não quero nem ouvir falar. Quando ouço algum cantor de MPB, hoje em dia, tenho a impressão que ele vai organizar uma passeata pró-Lula naquele exato momento. Olha o Paulo Bétti aê, gênti!
Pop é um desastre. Sinceramente, pop está no nível de debilidade mental. Não estou dizendo que todos que gostam de pop sejam débeis mentais. Não me deturpem. Um cara inteligente pode até gostar de pop, mas essa não será sua característica mais brilhante. Tenho vários amigos inteligentes que adoram música pop.
Do mesmo modo, um idiota pode gostar de música clássica (muitos dirão que sou um exemplo). A música não faz ninguém ficar mais inteligente; só no cinema é que a trilha sonora pode salvar um filme ruim.
Era mais ou menos isso. E algo mais: tudo que é bom é velho.

Pau e circo

August 21, 2007

Um dos meus passatempos é ler notícias bizarras nas agências internacionais. Olhem isto:

EDIMBURGO, 20 Ago 2007 (AFP) - Um artista anão do Festival Fringe de Edimburgo (Escócia), conhecido por seus espetáculos excêntricos, foi hospitalizado com urgência após introduzir seu pênis em um aspirador de pó e não conseguir retirá-lo.
O incidente aconteceu quando Daniel Blackner, apelidado de "Capitão Dan, o anão demoníaco", do Circo de Horrores, preparava um espetáculo que consistia em atravessar o cenário com seu pênis dentro de um tubo do aspirador, segundo a agência Press Association, o dispositivo que unia o aparelho ao anão se soltou e o "Capitão Dan" tentou repará-lo com uma forte cola.
O anão deixou a cola secar por 20 segundos, enquanto que o fabricante recomenda 20 minutos. Ao "conectar-se" com o aparelho, a cola ainda não estava seca, o que fez com que o pênis do anão se colasse.
O artista teve que ser levado de emergência ao hospital de Edimburgo, e a equipe do hospital conseguiu desprender o anão após uma hora.
"Estava preso a um aspirador de pó, sobre uma cadeira de rodas", disse Blackner, que assegurou que se tratou do "momento mais incômodo da sua vida".
"Queria sumir. Felizmente, a equipe foi bastante rápida e não sofri muito."

Elvis não morre

August 20, 2007
Elvis Presley morreu há 30 anos; na época, a televisão exibiu um show do rei do rock. O nome era “Elvis ao vivo”.

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Criança é um bicho muito lógico. Perguntei: “Mãe, já que ele morreu, porque eles não falam ‘Elvis ao morto?’”

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Se um adulto ouve esse tipo de pergunta, costuma ficar em silêncio ou dizer “Cala a boca, menino!” Não me lembro qual foi a reação da mãe. Acho que fingiu não ouvir.

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“Elvis não morreu”, dizem os fãs. Surgiu até uma teoria da conspiração segundo a qual a morte do ídolo teria sido forjada pelo FBI – sempre o FBI! – e Elvis estaria vivendo na Argentina. Na Argentina!

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Curioso é que, uns dez anos antes da morte de Elvis, houve a campanha “Paul is dead” (Paul está morto). Os caras diziam que o beatle Paul McCartney havia morrido num acidente de moto na Escócia, em 1966. A teoria sustentava ainda que os Beatles haviam substituído Paul por um sósia.

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Vejam que interessante. Paul estava vivo – e o pessoal dizia que ele estava morto. Elvis morreu – e o pessoal dizia que ele estava vivo!

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Em 1973, quatro anos antes da morte de Elvis, o rock perdeu outro ídolo, o cantor Jim Morrison, líder dos Doors. Inventaram a história de que ele havia forjado a própria morte e se tornado plantador de maçãs na Provença (sul da França).

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Em 2002, estive no cemitério Père Lachaise, em Paris, onde foram sepultadas várias personalidades da política e das letras (Marcel Proust, Voltaire, Balzac, Chopin, Oscar Wilde, Edith Piaf...). Pois ocorre que Jim Morrison morreu em Paris – e acabou sendo enterrado no Père Lachaise.

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Os fãs de Morrison são tão malucos que houve diversas tentativas de profanar o túmulo para provar que o cara não morreu. Resultado: o túmulo de Morrison tem um guarda 24 horas por dia. Certamente o túmulo de Elvis também deve ter vigia.

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Gosto de Elvis até hoje; já gostei de Jim Morrison (há uma idade para isto, lá pelos 16 anos); mas desses três roqueiros envolvidos com questões de vida ou morte o meu predileto segue sendo Paul McCartney. Ele está com 64 anos e continua fazendo boa música.

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Sabemos que Marilyn Monroe não foi a melhor atriz de todos os tempos, mas ela é praticamente um sinônimo de cinema. O mesmo acontece com Elvis. Ele é, foi e será um símbolo do rock. Eterno. Então, não é o caso dizer: Elvis não morreu. Basta mudar o tempo do verbo: Elvis não morre.

- Texto publicado no Jornal de Londrina (15.08.2007)

Pronto!

August 17, 2007

Ah, ah, ah, o livre mercado! O capitalismo!

Eu não precisei me simpsonizar. Já sou simpsonizado naturalmente.

Cabeça de vento

August 17, 2007
Elvis não morreu; Lênin também não!

O governador petista do Piauí, Wellington Dias, soltou uma frase antológica: "Tenho certeza de que o capitalismo afasta o homem do ser humano".
Será a epígrafe dos meus alfarrábios esquerdofrênicos.
Paulo Francis publicou dois romances em vida: "Cabeça de negro" e "Cabeça de papel". Não viveu o suficiente para escrever "Cabeça de vento" - sobre a esquerda no poder.

Piauí é vergonha alheia.

Valeu, Grota

August 16, 2007

Quem me conhece sabe que eu nunca tive pretensão alguma nesta vida. Considero-me um reles cronista de província (ou cornista, como querem alguns). Gostem ou não, continuarei sendo o mesmo loser de sempre.
Mas se há uma coisa que eu gosto de fazer é assistir ao sucesso dos amigos. Quando vejo um cara como o Rodrigo Grota receber elogios (merecidos) pelo seu trabalho, sinto apenas uma profunda satisfação. Leiam aqui os comentários de Luiz Carlos Merten, crítico de cinema do Estadão, sobre o curta “Satori Uso”.
E Merten está com a razão. O filme é ótimo.

Sem purpurina

August 16, 2007
É o único jeito de sair uma foto da Madonna neste blog. Até que ela não é tão feia.

Saiu uma lista dos 100 blogs mais populares da Internet. Me parece uma lista bem mais confiável que algumas outras recentemente publicadas, porque inclui blogs evidentemente populares (Noblat, Reinaldo Azevedo, Pensar Enlouquece, alguns dos Wunderblogs).
Não há um só e escasso blog do Tipos por lá.
Portanto, moçada, mais humildade e menos deslumbramento. Popularidade não é grande coisa; mas quando é falsa, é muito feia.

Solidão

August 14, 2007
Há um mundo que só existe na crônica. O mundo das coisas que foram e não são mais. Aqui elas vivem, ou revivem, por um golpe de tempo.
Esqueceram a maçã na cesta da cozinha. A família foi viajar e deixou a fruta no centro geodésico da mesa de fórmica. Jamais será mordida por bocas humanas, a pobre maçã. Quando a família voltar de viagem, a fruta estará mole e apodrecida, numa solidão irreparável.
Os livros antigos moram na crônica. Outro dia um amigo me emprestou um romance de José de Alencar, edição de 1951. O livro pertencera ao pai do meu amigo. Em algumas páginas, havia o carimbo e assinatura do ex-dono. Sempre penso nos livros que não são lidos há muitos anos; livros que ninguém jamais retira da biblioteca. Ficam tristes?
Difícil não pensar na solidão dos objetos. (Só mesmo a crônica para pensar em coisa tão desimportante!) Quando abro as páginas de um livro antigo, respiro-lhe a saudade do dia claro, da luz acesa, do calor das mãos, do hálito humano. Letras não lidas sentem-se mal. Acham que foram mal-escritas – talvez sejam apenas uma crônica.
Animismo é a crença de que as coisas possuem alma. Às vezes sou animista; agora estou sendo. Quando xingamos o computador que deu pau, ele ganha personalidade, nome, alma. (Espero não xingar o computador até o final desta crônica.)
Alma! O segredo dos objetos. A atordoante sensação de que Deus me observa disfarçado de todas as coisas.
Há dois anos, ganhei um litro de vodca bem vagabunda. Guardei-a na estante. Coisa inútil: não bebo vodca desde os 19 anos, quando tomei um porre de Balalaika e quase entrei em órbita. Ademais, se recebesse um convidado que aprecia vodca, não lhe serviria a bebida vagabunda, mas outra, de melhor qualidade. De vez em quando penso na solidão daquela pobre vodca – jamais passará por uma garganta humana.
Acho que só eu penso na tristeza das latas de cerveja vazias ao final da festa. E nos carvões já consumidos do churrasco de ontem. Em certos dias, eu me lembro de algum LP – aquele objeto circular e preto que provocava música no século passado – há muitos anos silencioso. E ponho o disco na vitrola. Por onde andará aquele compacto que sempre a gente tocava no Natal – “A Harpa e a Cristandade – com Luiz Bordon”?
E os dois cachorros com cara de dó na frente do supermercado do Com-Tour? Estavam lá, hoje. Prometi que sairiam na crônica. São eles dois objetos animados. Inexplicavelmente, a dupla de cães me fez lembrar do velhinho esquecido pelos parentes na enfermaria do hospital público. O velho recebeu alta, mas ninguém foi buscá-lo. E ali ficou ele, sentindo-se maçã sem mordida, cão sem dono, livro sem leitor, objeto sem uso, coisa sem alma.
Nunca saberei o nome do velho. Mas o nome da crônica é Solidão.

Observação da noite

August 10, 2007

Um dia serei a noite.
Pra noite caminharei,
longos passos na noite,
mais que os braços da noite,
a noite que já nem sei.

Um dia serei a noite.
A noite irremovível,
acesa, impassível noite,
a noite mais que a noite
a senhora do impossível.

Um dia terei a noite.
A noite antropofágica,
a noite cume da noite,
pedra vária da montanha,
noite a montanha mágica.

Um dia amarei a noite
como quem ama a salsugem,
como quem ama a vergonha,
a noite espelho da noite,
espelho que todos sujam.

Um dia estranhei a noite
como se não fosse amiga,
como se não fosse a noite.
Noite noite me siga,
noite mais noite que a noite.

Noite apuro da noite,
noite espinho da noite,
noite corpo da noite,
escuro da noite inteira
que acende mais que a noite.


Aos filhos do mundo

August 10, 2007
Neste final de semana há duas datas especiais.
Amanhã, 11 de agosto, é Dia do Estudante.
Domingo, 12 de agosto, é Dia dos Pais.
Se hoje perguntassem qual a minha profissão, eu não responderia jornalista, nem cronista, nem professor, nem escritor. Responderia: estudante. Estudante de meu pai.
Quando digo estudante, uso os dois sentidos da palavra. Estudo com o sr. Paulo Lourenço porque aprendo muito com ele; é uma relação de mestre e discípulo.
Mas também estudo o meu pai. Quero dizer: nele descubro novas e insuspeitas qualidades.
Ser estudante do meu pai é considerá-lo, simultaneamente, professor e objeto de estudo. Ele me fala sobre as coisas que estão na vida e nos livros – ao mesmo tempo em que é livro e é vida.
Ainda jovem, ainda estudante, meu pai dava aulas particulares de português, matemática e latim. Só agora – não mais jovem – tomei coragem de também ser professor. Mas, por causa dele, mesmo quando estou no quadro-negro, diante da turma, sinto-me aluno. A permanente sensação de que aprendi pouco; muito pouco; quase nada. Sou filho, não pai.
Hoje faço um pedido. Por um instante – o mínimo instante da crônica – vamos esquecer que somos advogados, pedreiros, mecânicos, médicos, engenheiros, eletricistas, empresários, açougueiros, dentistas, comerciários, garçons, físicos, porteiros, diagramadores, taxistas, diplomatas, síndicos, padeiros, pãozeiros, geneticistas, vagabundos, cabeleireiros, mendigos, pilotos de avião, bijuzeiros, halterofilistas, carteiros, judocas, coveiros, protéticos, agricultores, caixas de supermercado, taxidermistas, arquitetos, poetas, padres, biólogos, sindicalistas, cozinheiros, rufiões, marceneiros, sindicalistas, homens-sanduíche, músicos, bandeirinhas, designers, manicures, relações-públicas, economistas, consultores, manicures, vendedores, vidraceiros, estilistas, jornalistas, professores, escritores ou representantes de qualquer ofício que já tenha existido na Terra.
Vamos esquecer nossas profissões – por um dia, por dois dias, por três dias, pelo resto de nossas vidas. E vamos nos tornar estudantes. Estudantes de nossos pais. De nossos pais vivos, de nossos pais mortos; de nossos pais próximos, de nossos pais distantes; de nossos pais amigos, de nossos pais patrões; de nossos pais justos, de nossos pais injustos; de nossos pais crentes, de nossos pais ateus; de nossos pais biológicos, de nossos pais espirituais; dos pais de nossos pais; mas – sempre – estudantes de nossos pais.
Então chegaremos a uma espantosa conclusão. Será possível aprender que o bem existiu sempre, que o amor existiu sempre, estava lá desde o início. Nós é que não havíamos percebido.

- Publicado no Jornal de Londrina.

Perdidos no espaço

August 09, 2007
Meu sonho é entrevistá a Grete.

Reconheço que dona Margo é a verdadeira especialista em cultura pop (embora eu esteja 60 posições acima dela no ranking do blogblogs, mas sinceramente pouco se me dá; parangolé de popularidade é pra quem gosta de Madonna e Multishow...).
Bem, a Margo é expert no assunto, mas também posso dar os meus pitacos nessas partes aê.
Uma coisa que não deixa de me surpreender, no mundo pop, é que as tais celebridades, quando entrevistadas por telefone, têm as vozes... delas mesmas!
Por exemplo, fiquei estupefato quando liguei para a Sandra de Sá e atendeu... a Sandra de Sá! Ela era tão parecida consigo mesma que até parecia uma imitação dela própria. Achei que a qualquer momento ela iria sair cantando “bye-bye tristeza, não precisa voltar...” Mas fiquei triste quando lembrei que conheço a Sandra de Sá desde o tempo em que ela era Sandra Sá. Esse “de” é um sinal dos tempos, do tempo – “substância de que somos feitos”.
A mesma coisa acaba de acontecer com Sidney Magal. Cara, ele é o próprio Sidney Magal falando! O mesmo raciocínio do parágrafo anterior aplica-se a “Sandra Rosa Madalena”.
Juca Chaves é de um juca-chavismo radical. (Gosto dele. Epígonos de Bocage vão aparecer pelos próximos dez séculos.)
Com escritores não é diferente. Há muito tempo deixei de gostar de Luis Fernando Verissimo (envinagrou com o tempo; tudo que é bom nele é velho), mas quando eu liguei para casa do homem fiquei admirado ao perceber que ele mesmo havia atendido ao telefone com a voz... do Luis Fernando Verissimo. Verissimo é mais parecido com Verissimo do que Romário com a imitação do Romário feita pelo Tom Cavalcante.
Moacyr Scliar, então, é o Moacyr Scliar escrito. (Hã? Hã? Hein? Hein?)

*****

Antes havia nomes para todos os planetas.
Agora há bem mais planetas do que nomes.
A solução foi dar-lhes códigos, números.
Somos incompetentes.
Não sabemos nem ser cartorários do universo.
Burocratizamos o céu.
Somos mais cegos que minhocas.
Somos nuvens de nada.
É quando surge uma gargalhada nas galáxias.

*****

Ninguém dá a mínima pros boxeadores de Cuba. Fico triste.

*****

Eu – e a torcida do Flamengo – estamos fazendo figuração no filme do Grota. Em breve darei detalhes.

*****

E mais não digo porque não sei. Fui craro?

A democracia na lona

August 09, 2007
Depois da volta dos boxeadores cubanos à ilha carcerária, Fidel Castro voltou a escrever na imprensa oficial: “O atleta cubano que abandona sua delegação é como o soldado que abandona seus companheiros no meio do combate”.
O tirano diz que os dois boxeadores – Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, campeões mundiais amadores – não voltarão mais às futuras delegações cubanas. Isso equivale a dizer que a carreira dos dois atletas terminou. Com a habitual desfaçatez, o mesmo Fidel havia declarado dias antes que os rapazes não sofreriam represálias. Assim funciona a esquerda, desde Lênin: o que eles dizem não se escreve; o que eles escrevem muda na edição seguinte. (Leiam 1984, de George Orwell; a mudança imediata é a marca d’água dos regimes totalitários.)
Onde está a esquerda brasileira, que se diz tão combativa, guardiã implacável dos direitos humanos, e não se manifesta sobre mais esse crime do governo Lula? Quem acredita na versão delirante de que os dois rapazes foram dopados e presos por mafiosos alemães? Onde está a nossa Juventud Rebelde?

Viagem a outro planeta

August 08, 2007

Os antigos, quando olhavam para o céu, davam nomes bonitos às estrelas e constelações. Eram nomes de deuses, musas, animais, seres mitológicos. Depois, alguns homens célebres também foram homenageados no céu.
Com o desenvolvimento dos telescópios de longo alcance, acabou-se a poesia astronômica. Galáxias, estrelas e planetas são descobertos todos os dias. Não há nomes suficientes para tantos corpos celestes.
Nesta semana, por exemplo, foi descoberto o planeta TrES-4, que gira em torno da estrela GSC02620-00648, a 1.435 anos-luz da Terra.
Acontece que o TrES-4 é o maior planeta já descoberto até hoje. Só para vocês terem uma idéia, é 70% maior que Júpiter, o maior planeta do sistema solar; e Júpiter tem um volume 1.300 vezes maior que o da Terra. Sem dúvida, TrES-4 é um planetão.
No entanto, não gostaríamos de viver por lá. A temperatura média em TrES-4 é de 1,3 mil graus Celsius, mais alta mesmo que a do Teatro Ouro Verde quando o ar condicionado não está funcionando no verão.
Jamais conhecerei TrES-4, a não ser em fotos borradas de telescópio ou reproduções de computador. Mesmo que eu aprendesse a viajar na velocidade da luz, morreria muito antes de chegar a TrES-4. O planeta gigante da estrela GSC02620-00648 é inatingível, ao menos nesta vida. E o que é inatingível não me alcança.
Mas há outros planetas – menores e mais importantes. Hoje cedo passei em frente à pracinha da Rua Humaitá onde eu morava no tempo de estudante. A casa em que eu morei – a velha república – não existe mais; foi substituída por um prédio de apartamentos. A casa onde morava o seo Hugo – apreciador de cachaça e boa conversa – também foi derrubada para dar lugar à Gaiola da Cerveja. A casa vizinha virou uma cantina italiana.
Aquela praça é meu planeta. Tão próximo – e mais inatingível que a estrela GSC02620-00648. Não existe mais a cama em que eu li “Guerra e Paz” e “Trópico de Câncer”, enquanto meu primo Beto fazia macarrão. No mesmo lugar, há um poço de elevador.
Meu telefone tem o mesmo número da época da república, quando eu morava na pracinha da Humaitá. Sempre acho que alguém daquele tempo vai ligar me convidando para alguma festa em 1990. Mas nunca é. As festas são sempre em 2007. Algumas são até boas, mas diferentes. Outros planetas.
Por mais que eu ande pela pracinha da Humaitá; por mais que eu veja as crianças que ali brincavam e hoje são adultos; por mais que eu coma espaguete; por mais que eu tome uma cerveja na Gaiola; por mais que eu releia “Guerra e Paz” e “Trópico de Câncer”; por mais que eu faça ou deixe de fazer – nunca vou achar o meu planeta perdido.
E isso não é bom nem ruim. É apenas um fato.

- Texto publicado no Jornal de Londrina.

Juventud Rebelde

August 07, 2007
Os boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara – ambos campeões mundiais amadores – desertaram durante o Pan. Receberam o convite de uma academia alemã, que pretendia transformá-los em profissionais.
Imediatamente, o ditador Fidel Castro – ou o ghost-writer do homem – disse no jornal Juventud Rebelde que os dois eram mercenários e haviam abandonado a pátria socialista por dinheiro.
Com uma grande agilidade, a Polícia Federal conseguiu prender os dois rapazes antes que eles conseguissem o visto para a Alemanha. Segundo a PF, estariam “arrependidos”. Mas permaneceram isolados e incomunicáveis. Já estão de volta para ilha carcerária. Deportados, como queria Fidel, o amigo de Lula.
Disse e repito: boas tradições ajudam a combater a entropia. A tradição de amparar refugiados políticos – desde que não sejam criminosos – define sociedades democráticas. Em Cuba, abandonar o país é crime. No mundo civilizado, não é. Deportar esses dois rapazes de volta a Cuba significa devolvê-los a um regime tirânico e homicida. Se existe algum crime nessa história, foi cometido pelo governo Lula.

PS1: Boris Casoy tinha razão. Ninguém foge para Cuba. Com a exceção do Zé Dirceu, claro.
PS2: Juventud Rebelde poderia ser o nome de alguns blogs aqui no Tipos, vocês não acham?

É difícil encontrar um bom poema

August 03, 2007
Todos os dias a humanidade produz milhares de poemas que deveriam ir para o lixo; alguns são meus. A morte de milhares de poemas ruins é uma estatística; a morte de um bom poema é uma tragédia. Ler um bom poema é o mesmo que encontrar um velho amigo. E faz tanto que eu não via esse amigo, mas tanto tempo, que era antes do meu nascimento. (Com o Pelé aconteceu algo parecido: Edson era Antes do Nascimento.)
A Criação é o grande poema de Deus, diz Santo Agostinho. Ler um bom poema é encontrar um resquício do Verbo.
Além de ser um objeto raro, raríssimo, o bom poema varia de leitor para leitor. Há os bons poemas que pertencem à tradição, e devemos respeitá-los. Mas há os bons poemas que parecem ter sido compostos para você. O poeta de verdade tem esse dom de falar a cada um de nós individualmente.
Mas o bom poema não se atém ao círculo individual. Ele precisa criar algum vínculo com a tradição. Quando alguém lê seus poemas preferidos (há quem prefira romances, concertos, óperas, canções, filmes, programas, urtigas), firma um pacto com a vida. A tradição é a nossa única defesa contra a morte e a entropia.
No filme Farenheit 451, baseado no romance de Ray Bradbury, conta-se a história de uma civilização em que os livros são proibidos. Há bombeiros que lançam chamas para queimar os que ainda restam. Se não me engano, foi Samuel Johnson quem disse: “Se uma sociedade queima livros, acabará por queimar homens”.
Em Fahrenheit 451 há uma comunidade de homens-livro. Cada um deles decora um volume e passa a guardá-lo na memória. Há Odisséia, A Divina Comédia, Hamlet, Paraíso Perdido, Guerra e Paz, O Grande Gatsby. Eu gostaria de ser Quincas Borba; seria difícil decorar Os Sertões. Mas acho que vou acabar sendo apenas o Poema da Buceta.
É difícil encontrar um bom homem – belo título de um conto de Flannery O’Connor. É difícil encontrar um bom livro. É difícil encontrar um bom poema. E o difícil, como já dizia Vicente Matheus, não é fácil.

Dois poemas alheios

August 02, 2007
A MORTE, O ESPAÇO, A ETERNIDADE
(Jorge de Sena)



De morte natural nunca ninguém morreu.
Não foi para morrer que nós nascemos,
não foi só para a morte que dos tempos
chega até nós esse murmúrio cavo,
inconsolado, uivante, estertorado,
desde que anfíbios viemos a uma praia
e quadrúmanos nos erguemos. Não.
Não foi para morrermos que falámos,
que descobrimos a ternura e o fogo,
e a pintura, a escrita, a doce música.
Não foi para morrer que nós sonhámos
ser imortais, ter alma, reviver,
ou que sonhámos deuses que por nós
fossem mais imortais que sonharíamos.
Não foi. Quando aceitamos como natural,
dentro da ordem das coisas ou dos anjos,
o inominável fim da nossa carne; quando
ante ele nos curvamos como se ele fora
inescapável fome de infinito; quando
vontade o imaginamos de outros deuses
que são rostos de um só; quando que a dor
é um erro humano a que na dor nos damos
porque de nós se perde algo nos outros, vamos
traindo esta ascensão, esta vitória, isto
que é ser-se humano, passo a passo, mais.

(...)

Para emergir nascemos. O pavor nos traça,
este destino claramente visto:
podem os mundos acabar, que a Vida,
voando nos espaços, outros mundos,
há-de encontrar em que se continue.
E, quando o infinito não mais fosse,
e o encontro houvesse de um limite dele,
a Vida com seus punhos levá-lo-á na frente,
para que em Espaço caiba a Eternidade.


CANTO FÚNEBRE SEM MÚSICA
(Edna St. Vincent Millay – Tradução de Lauro Machado Coelho)



Não me resigno a encerrar quem amei no chão duro.
Sempre foi, sempre será assim, desde que o mundo é mundo:
Lá vão eles nas trevas, os sábios, os bem-amados. Coroados
De lírios e louros eles se vão; mas não consigo me resignar.

Amantes, pensadores, vão para debaixo da terra,
Em união com o pó opaco e indiscriminado.
Um fragmento do que vocês sentiram ou souberam,
Uma fórmula, uma frase sempre fica – mas o melhor se perde.

As respostas prontas, o olhar honesto, o riso, o amor
Vão-se embora. Vão nutrir as rosas. Elegantes e sinuosas
Serão suas flores. Perfumadas elas serão, eu sei. Mas não aprovo.
A luz de teu olhar valia mais do que todas as rosas do mundo.

À escuridão do túmulo eles descem, descem,
Docemente eles descem, os belos, os ternos, os amáveis;
Lentamente eles descem, os astutos, os sábios, os bravos.
Eu sei. Mas não aprovo. E não consigo me resignar.

Náufragos e reféns

August 01, 2007

O paulista naufragou numa ilha deserta com seis garotas.
De início, beleza. Furunfava adoidado; lesco-lesco full time. Uma, segunda; uma, terça; uma, quarta; uma, quinta; uma sexta; uma, sábado.
No domingo, ele descansava.
Mas o tempo foi passando – e o paulista foi ficando cansado. Trepar todo dia, e só um dominguinho pra repor as energias... Difícil!
Eis que, um belo dia, o paulista vê uns braços se agitando no horizonte. Era um náufrago. Um homem, sem dúvida.
Logo o paulista pensou: “Beleza. Agora vou ter com quem dividir as minas. Eu, segunda; ele, terça; eu, quarta; ele, quinta; eu, sexta; ele, sábado”.
Mas eis que o náufrago chega à praia. Diz:
– Bah, tchê! Difícil nadar até aqui, índio velho!
E o paulista, desconsolado:
– Lá se foi o meu domingo.

*****

Seqüestradores tomam um vôo da TAM.
Ordenam que as mulheres se sentem do lado direito; os homens, do lado esquerdo.
O líder diz:
– E os homens podem ir arriando as calças, que nós vamos passar comendo o cu de todo mundo.
Uma das mulheres, indignada, retruca:
- Mas há tantas mulheres bonitas a bordo, por que cometer tal violência contra os homens?
Um passageiro do lado masculino intervém:
– Bah, tchê. Cala a boca, que tu não entende nada de seqüestro!