O coração é um músculo sedento de sangue. É um vampiro com insônia permanente. O coração não tem cor; é cor.
O coração é a terceira mão que Deus houve por bem deixar interna. É o próprio Deus instalado em nós como possibilidade. O coração é o telégrafo do Criador. Ouve.
Maiakovski escreveu sua última carta com sangue. Ele dizia ser todo coração (“Em mim a anatomia ficou louca”). Toda e qualquer palavra deveria ser escrita com sangue, ou então calar. “Se tem algo a dizer, dê um passo a frente e cala a boca.” Kraus tinha coração.
Meu coração bate mais forte quando você está perto. (Quantos maus poetas já não disseram isso: Meu coração bate mais forte quando você está perto? Mais um, agora.) Se você ri ou chora, meu coração verte tanto sangue que poderia manchar do Alasca à Patagônia. Meu coração é uma pequena Arca de Noé em dilúvio de sangue. Nele vivem todos animais – e eu, Noé, um rei bêbado sem reino.
Tudo que existe é demência do coração. Somos árvores do coração. Ele é cerne, semente e sentido. O coração é a máquina mais perfeita da natureza. É a vida involuntária. É a missa de Bruckner, a sonata de Bach. É o irmão do tempo; desconfio que o coração e o tempo sejam a mesma pessoa, como aquela moça da novela. O coração é tosco – é um músculo. O coração não nega, mas também não afirma.
Logo vai nascer uma criança, e ela terá um coração. Que já bate. Ouve.
Publicado em 13 de junho de 2007 às 15:43 por briguet
E eu lembrei daquela música lúdica transformada em perversão leve na adolescência:
"Meu coração/ bate feliz/ quando te vê!"
Acompanhada das mímicas, lógico!