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Formigas mortas
Eu posso mudar de nome.
Eu posso deixar a cidade.
Eu posso largar o emprego
e me refugiar no quarto escuro
de um país desconhecido
(onde não falam a língua
que eu também esqueci).
Estarei sendo visto
pelo Olho que tudo vê.
Cada parte de Deus é Deus.
O Olho tudo sabe, desde o início.
Sabe quantas vezes respirei hoje
e quantas vou respirar
até o dia da minha morte.
Ele sabe a hora, sabe a data,
sabe o preciso minuto e segundo
em que meu coração vai parar.
Ele sabe o rumo das formigas
em todas as paredes do mundo.
Se tudo vê, tudo viu.
Também lê pensamentos,
conhece cada erro
de concordância e sintaxe
do meu espírito mais oculto.
Todas as coisas e palavras
de somenos importância
o Olho que tudo vê
apreende, guarda e cataloga
para uso no Final Juízo.
As voltas que meu fígado,
Fernão de Magalhães,
dá em torno de si mesmo
a Ele voltam.
Quanto a mim, só a cegueira.
Sigo sendo o marinheiro morto
De uma nau deserta
que sou eu mesmo.
(E sempre tenho pena
das formigas que morrem
quando vou escovar os dentes.)
Posted in Geral
at 13:32 on Tuesday 15 May
by briguet
Comments
12 comments
concordo quanto a nossa cegueira
mas não coaduno com a idéia de um ente que tudo vê e tudo sabe.
sei lá, pra mim deus improvisou e a gente apareceu. agora ele se diverte com isso, hehe
Então deus é um puta jazzista... só queria saber em qual jam session eu nasci.
unsleeper
tu deve ter nascido durante a execução de um swing hehehhe
Concordo com muitas das idéias do Briguet com relação a religião. Mas não gostei deste post... Acho que Deus tem mais o que fazer do que ficar contando nossa respiração (tá, entendi que foi figurado, mas não concordo mesmo em senso figurado).
Tá, e vc deve ter saído da onde? De um dueto entre a Sheryl Crow e o quadradinho de papel higiênico dela?
fala sério unsleeper, tu só ficou nervoso porque não conseguiu pensar num trocadilho melhor que o meu.
vai pensando até inventar um decente.
trocadilho de cu é rola, ta bom esse?
hahahahaha
TARA-DUSH!
Deixa só O Olho de Sauron, que tudo vê e tudo sabe, ler este post...
“... me refugiar no quarto escuro
de um país desconhecido
(onde não falam a língua
que eu também esqueci).”
O poeta em conflito com ele mesmo (Guerra e Paz), propõe a si próprio viver num mundo que existe no interior de suas reflexões, semelhante a personagem de Guimarães Rosa que se trancou num quarto escuro a procura de gatos pretos.
Quanto a mim, só a cegueira.
Sigo sendo o marinheiro morto
De uma nau deserta
que sou eu mesmo.
Sofro da mesma compaixão.
ah!eu acho muido triste e errado,por que as formigas foram criadas por deus como nós.isso pra mim eu , eu acho isso um crime apesar que muitas pessoas matam as formigas sem querer.
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mas não coaduno com a idéia de um ente que tudo vê e tudo sabe.
sei lá, pra mim deus improvisou e a gente apareceu. agora ele se diverte com isso, hehe