Eu queria ser acordado todos os dias por Deus.
Queria não ter nenhum relógio, muito menos despertador.
Acordar; abrir os olhos no quarto semi-iluminado pela manhã – tarde? – em silêncio bachiano. E você ao meu lado, mulher.
Eu queria te acordar todos os dias com um beijo e o café da manhã.
O vento e os pequenos sons entram pela janela. A incrível harmonia do tempo. O coração jorra sangue. Nenhuma palavra, por desnecessária.
Eu queria ser simples como lavar o rosto, escovar os dentes, mijar e dar descarga. Depois, leite e pão. E silêncio bachiano.
Mas não é assim. Todos os dias, toca o rádio-relógio. Meu consolo é usar a tecla soneca; ela me dá mais nove minutos de sono. Quisera uma tecla soneca de nove horas – nem precisaria usá-las todas. Mas a tal tecla não passa de nove minutos; por isso, estou cansado. Acho que trabalho demais; minha índole é de vagabundo, mas trabalho muito (talvez para escondê-la).
Acabei de apertar minha tecla soneca para a vida. Daqui a menos de nove meses acordarei todos os dias ao teu lado. Graças a Deus.
Muito bacana esse texto.