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Archive for April of 2007

Proibido plantar árvores

April 30, 2007

Ouço Bach enquanto nos preparamos para sair de casa. No momento de sair, você diz: “Não vai desligar a música?”. Eu me surpreendo com a pergunta. Há 20 anos – antes mesmo de te conhecer, ou sonhar com você – ouço esse concerto de João Sebastião. A primeira vez que o ouvi foi durante um filme de Woody Allen, “Hannah e suas irmãs”, em 1987 – e desde então é como se não tivesse parado de escutá-lo. Gosto tanto desse concerto para dois violinos que sinto dificuldade em separar vida e música.
“Não vai desligar a música?” Ouço o que você diz em voz suave, e essa breve pergunta parece ter estado ali desde os tempos imemoriais – antes mesmo de eu e você termos nascido, antes mesmo de existir esse concerto para dois violinos, antes mesmo de Bach ter nascido. Todas as coisas fundamentais – você, Bach, o concerto para dois violinos – têm uma ligação inequívoca. A máquina do mundo (que Camões e Drummond descreveram) manifesta-se em detalhes quase invisíveis. Quase.
O velho clichê diz que todo homem precisa ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Adoro clichês – ninguém que escreve pode viver sem eles.
Todos os dias, sonho com o filho que ainda vou ter com você – e o fato de ser um pobre cronista não me afasta da idéia –; escrevi um livro, mas acho que não ficou bom, pretendo escrever mais alguns; e há algum tempo, vendo a cidade se transformar em deserto de sol inclemente, tenho planos de plantar uma árvore aqui por perto.
Mas agora ficou difícil plantar árvore em Londrina. Um grupo de ambientalistas plantou mudas numa praça em litígio; a prefeitura foi lá e arrancou as mudas.
No tempo de Castro Alves, a praça era do povo, como o céu era do condor; agora, a praça está em litígio – e o céu é das pombas. Se a praça está em litígio, é bom o povo ficar bem longe dela. Plantar árvores, então, nem pensar; atrapalha o plano de desertificação da cidade (um dos poucos planos da prefeitura que têm dado certo ultimamente).
Ao contrário, se a idéia da pessoa é cortar uma árvore, é fácil demais. Digo isso por experiência própria (freqüentemente vejo árvores sendo cortadas), e com a tranqüilidade de quem nunca foi grande entusiasta de grupos ecológicos. Sou citadino e capitalista. Mesmo assim, continuo preferindo a sombra de uma árvore plantada à cegueira do sol.
Espero sinceramente que daqui a pouco a prefeitura não venha me dizer se eu posso escrever um livro ou ter um filho (como fazem em Cuba e na China). Aí não vai ter Bach que me console.

As coisas que importam

April 26, 2007
Incêndio do Edifício Andraus (SP, 1974))

Há coisas que importam – e coisas que não importam. Tudo que não pertence ao amor é um grande erro. Preciso de alguém para me lembrar que existem coisas fundamentais e outras que não merecem atenção, nem por um instante.
Quando ela acorda tão bonita, por exemplo: isso é importante. Quando alguém quer discutir política: isso não é importante.
Meu avô corintiano bebendo um copo de bagaceira, enquanto eu tomava uma Guaraná caçulinha, 6 anos de idade, uniforme da Sociedade Esportiva Palmeiras. Minha avó Maria rezando em voz baixa no quarto. A mulher atropelada na Alameda Barão de Limeira. Os carros de bombeiros acelerando rumo ao Edifício Andrauss, que pegava fogo. Tudo isso é importante. O resto não é.
O pai conversando comigo na área de serviço; a irmã esperando o sobrinho; a mãe relembrando um de seus ditados: “Tá nervoso? Tira as calças e pisa em cima!”
Maio de 1987, por volta das 8 da noite, esperando a hora de beber cerveja no Bar do Folquito. Conversar com o Dr. Tanga, na quinta à noite.
E existe a frase de João. A espantosa frase de João. A incrível, surpreendente, quase acintosa frase de João. A apocalíptica, arrebatadora, alucinante e quase insana frase de João.
O vendedor de bolhas do Calçadão – sim, existe um vendedor de bolhas na Avenida Paraná. O cachorro perdido no meio do nada. Um homem raquítico e trêmulo morrendo de uma doença que não sabe qual é. Isso importa. O resto, não.
A grama que cresce alucinadamente em nosso jardim de inverno, fruto da chuva. A própria chuva – o cheiro da chuva, a bênção da chuva, a longevidade da chuva. Gotas que molharam Noé e afogaram o mundo; gotas que fazem a grama crescer alucinada, inadvertida, quase acintosamente. João pisou na grama.
O olhar do velho jornalista – um olhar que veio do fundo da noite. A concentração diante do tabuleiro de xadrez. A fúria e o desalento nas mãos de quem perdeu o filho. Um imigrante com saudades de uma aldeia que não existe mais. A velha Tebas, a gloriosa Tebas, transformada em planície. Onde os fantasmas? Aqui. Ao lado. Nesta crônica. Nestas palavras. Na letra irrecuperável de um analfabeto extinto.
O vendedor de bolhas no Calçadão. Um filho que teria 15 anos. A mãe, o pai, a irmã, você. Está na hora de acordar – para ouvir a impossível frase de João.

A barriga e o tempo

April 25, 2007

Conversando hoje com meu amigo taxista, chegamos juntos à conclusão de que o tempo passa diferente. Quando você quer que ele (o tempo, não o taxista) acelere, ele anda a passo de cágado; quando você quer que ele demore, ele passa mais rápido do que um namoro da Luana Piovani.
Todas as manhãs eu tenho a comprovação empírica de que o tempo passa mais rápido quando você está com sono. Hoje acordei às 6 horas, para preparar aula, e acionei a tecla soneca – que dá mais nove minutos de sono antes de tocar outra vez. Impressionante: foram os nove minutos mais rápidos da história mundial da soneca. Tive a impressão de que os nove minutos duraram 12 segundos.
Semana passada, recebi um e-mail da leitora Maria das Dores. Ela é mãe de trigêmeos e ligou para me informar que os filhos estavam completando 15 anos de idade. O detalhe é que eu escrevi uma reportagem sobre João Alfredo, Mayara e Maynara (os trigêmeos) quando eles tinham... 3 anos. Uma dúzia de anos se passou, e esses meninos logo vão entrar na faculdade (hoje estudam no Vicente Rijo). Eles cresceram – e o tempo vai passando com uma rapidez incrível. Não há como escapar ao clichê: parece que foi ontem – eu lá, de bloquinho na mão, na Rua da Carioca, entrevistando Maria das Dores e seu trio de miúdos.
Quando escrevi a reportagem sobre os trigêmeos, minha barriga era consideravelmente menor. Na semana passada, fui à nutricionista, e ela mediu minha barriga: 104 centímetros. Risco cardíaco. Preciso dar um jeito nisso antes de me casar. Faltam só alguns meses; se eu deixar a barriga crescer mais, logo vão me confundir com mulher grávida.
Na segunda-feira, conversei com alunos de 3ª série da minha amiga professora Missae. Eles ficaram horrorizados ao descobrir que sou jornalista há 14 anos (caminhando para 15). Ou seja: quase o dobro da idade deles.
Em 1995, fiz uma entrevista com Júlio José da Souza, a primeira pessoa nascida em Londrina. Ontem recebi a triste notícia de que Júlio morreu, aos 74 anos.
No mesmo ano, participei de um debate sobre o futuro da Sercomtel, e me mostrei um convicto adversário da privatização da telefônica. Hoje concordo com a frase de Roberto Campos: “A diferença entre a empresa privada e a empresa pública é que aquela é controlada pelo governo, e esta por ninguém”.
Só o tempo é mais incontrolável que uma empresa pública.

(Crônica publicada no JL.)


*****

Os hippies invadiram a reitoria da UEL. Imagem deprimente. Tão mais deprimente quando eu lembro ter feito exatamente a mesma coisa em 1990. Mas nunca fui hippie - sou maníaco por banho.

Disseram por aí... (ou Das virtudes do Ctrl C + Ctrl V)

April 24, 2007


“A sociedade que coloca a igualdade à frente da liberdade irá terminar sem igualdade e liberdade.”
(Milton Friedman)

“Subjacente à maioria dos argumentos contrários ao livre mercado está a descrença na própria liberdade.”
(Milton Friedman)

"Só há dois meios de coordenar as atividades econômicas de milhões: um é a direção central utilizando a coerção – a técnica do Exército e do Estado totalitário moderno. O outro é a cooperação voluntária dos indivíduos – a técnica do mercado".
(Milton Friedman)

“O único modo que já se descobriu de ter muitas pessoas cooperando entre si voluntariamente é através do livre mercado. É por isso que é tão essencial preservar a liberdade individual.”
(Milton Friedman)

“Um Estado grande leva invariavelmente aos assistentes passarem melhor do que os assistidos.”
(Roberto Campos)

“O contribuinte é o único cidadão que trabalha para o governo sem ter que prestar concurso.”
(Ronald Reagan)

“A violência da flecha dignifica o alvo.”
(Roberto Campos, respondendo a um crítico feroz)

"A diferença entre a empresa privada e a empresa pública é que aquela é controlada pelo governo, e esta por ninguém."
(Roberto Campos)

“Altruísmo é uma virtude indispensável às sociedades humanas. Mas, enquanto virtude, tem de ser ‘internalizada’ na alma das pessoas, num esforço nunca acabado de formação. Os sistemas econômicos e políticos não são sujeitos morais, são entidades que funcionam com suas leis e burocracias. (...) Os totalitarismos e fundamentalismos deste século (XX) mostraram como é terrível a virtude que uma autoridade acha que nos deve enfiar de fora para dentro, para o nosso próprio bem. E disso às formas sorrateiras de embutir preferências ideológicas na governança coletiva vai só uma questão de grau. Esse é o risco trágico dos socialismos: sufocar a liberdade sob o pretexto de implantar a igualdade...”
(Roberto Campos)

(Conclusão: passear pelo Google em busca de frases inteligentes é bem melhor do que assistir ao Roda Viva com Franklin Martins.)

Nada disso. Eu sou católico!

April 23, 2007


Comentário de uma participante do curso de noivos neste final de semana:
– Nossa, como seu noivo fala bem! Ele deve ser professor, advogado ou pastor.
O noivo em questão sou eu.
Pastor Briguet. Era o que faltava.
Te cuida, Reverendíssimo!

PS: Acho que o fato de eu ter levado uma Bíblia de Jerusalém contribuiu para a impressão da mulher.

Duas coisas e uma crônica

April 23, 2007
(Primeira coisa.)

Nasceu no chão.
Dormiu na rua.
Casou na delegacia.
Comeu em pé.
Bebeu da torneira.
Lavou-se com caneca.
Falou e não disse.
Escreveu e não leu.
Morreu sozinho.
Jaz em cova rasa.

*****

(Segunda coisa.)


Agradeço ao talentoso Ygor pela dica do site bachiano. O problema é que eu sou do paleolítico e não sei baixar nada na Internet, além do meu próprio moral.

*****

Valeu, Bentão!)

(Agora, a crônica.)


O papa Bento acabou com o Limbo. É para onde iam as crianças que morriam antes de ser batizadas. Durante o catecismo, em 1978, quando perguntei à irmã Ângela se o Limbo era tão ruim quanto o Inferno, ela respondeu que não era um lugar de sofrimentos indescritíveis, mas apenas um lugar triste. Isso porque os habitantes do Limbo não privavam da convivência de Deus. O Limbo é (era), portanto, uma ante-sala do Inferno – sem fogo, sem Skank, sem Lula e com direito a ar condicionado.
Dante resolveu colocar no limbo não apenas os bebês pagãos, mas também os grandes filósofos e artistas anteriores a Cristo. O poeta latino Virgílio, que conduziu Dante pelos círculos do Inferno, era um habitante do Limbo. Por isso é que, na hora do Céu, Dante troca de guia. Virgílio não pode entrar, que o Pedrão não deixa; a guia do Céu é Beatriz.
Valeu, Bento! Fez-se a justiça. Esse negócio de Limbo não tava com nada; era uma excrescência teológica. Manda os nenês pro Céu. E leva esse Aristóteles junto!

*****

No final de semana, fiz curso de noivos. Meu pai, sempre tirador de sarro, advertiu: “Toma cuidado pra não ser reprovado, hein?” Ele sabe que o meu currículo não tem manchas. É uma só imensa mancha.

*****

Os primeiros cristãos – na verdade, judeus-cristãos – eram pescadores. Na terceira vez em que apareceu aos apóstolos, depois da ressurreição, Jesus os encontra chateados, porque não haviam conseguido pegar nenhum peixe no Mar de Tiberíades. Jesus manda que eles joguem a rede novamente ao mar. E não é que vem tanto peixe que a rede mal consegue suportar? O evangelista João fala em 153 peixes – um número que os geômetras associavam ao triângulo e simboliza a multidão e a totalidade. Nessa passagem do Evangelho, Jesus também pergunta a Pedro por três vezes: “Você me ama?”. Justamente a Pedro – aquele que havia negado Cristo por três vezes, e que viria a ser o primeiro papa.
Pedro não foi escolhido por acaso. Ele seria o chefe de uma instituição – a Igreja – que viria a arrebatar multidões em todo o mundo, mas não deixaria de cometer suas falhas. Somos todos seres da dúvida e da hesitação – e é dessa natureza que nasce a fé. Se tivéssemos certeza de tudo a cada passo que damos, a fé se tornaria desnecessária. Quando o papa – herdeiro do trono de Pedro –diz que o limbo não existe, ele não está decretando o fechamento de um lugar: ele está dizendo que esse lugar nunca existiu, a não ser na imaginação falha dos homens. Os nenês – e Aristóteles – sempre estiveram ao lado de Deus.

(Publicada hoje no JL.)

O mais corrupto da história

April 20, 2007
Neste Brasilzuca, muitas notícias nos enchem de vergonha.
Mas esta é mais do que vergonhosa: é vexatória, degradante, abismal.
Roberto Mangabeira Unger aceitou um cargo no governo Lula. O governo que ele chamou, em 2005, de “o mais corrupto da história”. Mangabeira também defendeu, no mesmo artigo, o impeachment de Lula.
Essas coisas acontecendo e o pessoal aqui no Tipos preocupado em aplaudir ocupaçãozinha de praça de pedágio pelo MST (Movimento Sustentado pelos Trouxas).

*****

Bom final de semana a todos! Vou fazer curso de noivos (requisito necessário para casar na Igreja Católica. Acho que será divertido).

Vocês vão ter que me engolir...

April 20, 2007
Milton Friedman - esse é o cara.)

Muito se enganam os que acreditam em minha capitulação. Deixei de fazer comentários apenas porque eles tomam tempo demais. Ficarei apenas nos posts. Mas tão cedo a garotada não se livrará dos dardos liberais e judaico-cristãos. (Claro que não posso fazer isso o tempo todo; portanto, poemas e crônicas continuam tendo prioridade.)
Fiquei sabendo, de fonte segura, que o ibope do Tipos deu saltos para cima com a recente “polêmica” entre este solitário escriba e seus muitos adversários petistas, criptopetistas, estatizantes, anarcóticos vermelhóides, ongueiros e chiliquentos - unidos por uma estranha e pansexual afinidade.
Alguém pode perguntar: por quê? Além do conhecido gosto popular pelo incêndio do circo, há também algo de didático em ver um só espartano (com apoio de um ou dois gatos-pingados) contra uma turma de persas ensandecidos. Eis o motivo do sucesso de “300” – que eu ainda não vi. Pensando bem, aquele piti do Rodrigo Santoro no cartaz do filme me lembrou bastante os piores momentos da Amargor Channing...
Voltarei amiúde para encher o saco. Pênis nisso.

Boa notícia

April 19, 2007
Sim, é boa. A ítalo-brasileira Janaína Ávila está na área. Fomos recebê-la – e ao seu amado Andrea – no aeroporto. Todos estão convidados para a Quinta Sem-Lei em homenagem à Tia Jana. Mesmo aqueles que falaram mal dela – da QSL, porque a Tia Jana está acima das críticas.
Hoje eu tô bonzinho. Conto com sua presença, Fabebunda. Margo, eu sei que você está em SP, mas ainda dá tempo de pegar o vôo da noite. Marcião, eu prometo não falar nada sobre suas relações com o governo federal. Feio Cristão, eu não sei quem você é, mas o balcão do Bar Brasil é grande. Moraes, Salomé, Glória Galembeck, Doutor Tanga, Ranulfo Preto Pedreiro, Chicó, Capitão Mantovani, Marcelo Carneiro Rocha, Renan, Rubão, Gibedendo, Pafu, Fernando Araújo, Karla Matida, Rosângela Vale e amigos em geral – aguardo-vos.
Abraço a todos.

A tecla soneca

April 18, 2007
Só mais nove minutinhos...)

Eu queria ser acordado todos os dias por Deus.
Queria não ter nenhum relógio, muito menos despertador.
Acordar; abrir os olhos no quarto semi-iluminado pela manhã – tarde? – em silêncio bachiano. E você ao meu lado, mulher.
Eu queria te acordar todos os dias com um beijo e o café da manhã.
O vento e os pequenos sons entram pela janela. A incrível harmonia do tempo. O coração jorra sangue. Nenhuma palavra, por desnecessária.
Eu queria ser simples como lavar o rosto, escovar os dentes, mijar e dar descarga. Depois, leite e pão. E silêncio bachiano.
Mas não é assim. Todos os dias, toca o rádio-relógio. Meu consolo é usar a tecla soneca; ela me dá mais nove minutos de sono. Quisera uma tecla soneca de nove horas – nem precisaria usá-las todas. Mas a tal tecla não passa de nove minutos; por isso, estou cansado. Acho que trabalho demais; minha índole é de vagabundo, mas trabalho muito (talvez para escondê-la).
Acabei de apertar minha tecla soneca para a vida. Daqui a menos de nove meses acordarei todos os dias ao teu lado. Graças a Deus.

A cissiparidade de Sandy Júnior

April 17, 2007
Sandy Júnior dá - dão? - entrevista coletiva.)

Acabo de receber a notícia da separação de Sandy Júnior.
Como é que Sandy Júnior pode se separar, se é apenas uma pessoa?
Não é separação, é cissiparidade. Aprendi isso uns 623 anos atrás na aula de Biologia do professor Parapopó (aquele de quem roubamos a prova).
Paulo Briguet, por exemplo, não se separa: onde vai um, vai outro; onde vai a corda, vai a caçamba; onde vai o cronista, vai o “polemista”. AlVacaeda e Margo, idem: juntinhos, juntinhos.
O que é que Chitãozinho Xororó está achando dessa história?
Pior: todo mundo sabe que Sandy Júnior namora a Família Lima. Como é que vai ficar a unidade familiar Lima e a integridade da música brasileira após tal divisão do mesmo organismo?
Depois criticam o papa Bento por definir a separação como chaga da modernidade. Ué, se até Sandy Júnior está se separando de si mesmo, como é que vão ficar os casais?
Resta-me usar o velho bordão dos velhos barrigudos e direitistas: Esse mundo tá perdido.

Karl Kraus (1874-1936)

April 16, 2007
Isto sim é olhar de desprezo.)

“Educação é algo que a maioria recebe, muitos transmitem e poucos têm.”

“Se tem algo a dizer, dê um passo à frente e cale a boca.”

“No Estado há pessoas de que não sabemos nada, exceto que devemos ofendê-las.”

“Não ter uma idéia e poder expressá-la: assim se faz um jornalista.”

“Qualquer sátira que um censor consegue entender merece ser proibida.”

O ostracismo do indivíduo

April 13, 2007
Aos jovens, só tenho uma coisa a dizer: "Envelheçam! Envelheçam!")

Não acredito em amor por coletividades. Neguinho que vem alardeando “respeito aos gays”, “respeito ao povo de Xambrê”, “respeito aos baianos”, “respeito aos habitantes da Cidade Canção”, “respeito aos torcedores do XV de Piracicaba”, “respeito à Associação de Moradores de Pirapora”, “respeito ao fã-clube do Samuel Rosa” – pra mim esse cara é um demagogo. Respeito é algo que acontece de indivíduo para indivíduo, no trato pessoal, na educação, no simancol. De que adianta você se arvorar em defensor das minorias se rotineiramente maltrata o garçom, o colega de trabalho, o mendigo, a balconista das Pernambucanas? O maior flagelo do mundo não é a “intolerância”, como querem os militantes. É a estupidez.
Domingo passado um professor deu uma entrevista à Folha de Londrina, que acabou sendo a manchete do jornal. “Ninguém respeita os direitos da maioria”, disse ele. Na mosca! Se, numa classe de 30 alunos, dois estão a fim de arrepiar, bater na professora e seqüestrar a tia da cantina, todas as atenções públicas e especializadas se voltam para a dupla de arruaceiros e bandidinhos; ninguém liga para os 28 que estão a fim de estudar. A maioria sempre se fode. O indivíduo que não pertence a nenhuma ONG ou entidade para “defender os seus direitos” está condenado ao ostracismo. O individualismo, núcleo-gerador da riqueza humana, é visto no Brasil como um defeito. Estamos jogando o nenê fora e consagrando a água da bacia.
Veja a Parada Gay: um negócio brega, chato, afetado e chiliquento. (Isso é uma opinião estética, não é uma defesa da proibição das paradas gays. Continuem organizando a viadagem, só me digam o endereço pra eu passar longe.) Não por acaso, “parada” é um termo derivado do militarismo mais imbecil. Todas as ditaduras têm “paradas”. Agora, só porque eu sou caminhoneiro e não gosto desse parangolé, vão me “denunciar” como “preconceituoso”, “homofóbico” ou o escambau? Tanto terreno pra carpir neste mundão, e as enxadas continuam intactas.
Delfim Netto, quando ainda não estava gagá, disse uma frase interessantíssima: “Numa assembléia, é impossível comprovar o teorema de Pitágoras”. Numa parada, idem. O Brasil, pátria do clichê, é governado pelos coletivistas. Não foi à toa que Lula construiu sua fama como líder sindical. O país em que vivemos é uma grande assembléia.
A palavra fascismo vem de “fascio” – feixe, em italiano. Os militantes de diversas causas não sabem, mas estão sendo fascistas quando organizam suas paradas, propõem leis contra a “homofobia” e defendem a linguagem “politicamente correta”.
No Brasil, as minorias são a maioria de fato. Quem não faz parte do feixe, está por fora. Eu estou, graças a Deus.

Salmo de sexta-feira 13

April 13, 2007
chagall

Senhor, viver é uma sorte. É como ter perdido o avião que caiu matando todos os passageiros. É como ter fugido da Alemanha antes de ser levado para um campo de extermínio.
Concedei-me a graça do amor, dos amigos de verdade; o precioso dom da paciência; e uma dor suportável.
Amar, Senhor, a vós antes da própria vida é uma contradição em termos. Concedei-ma, Senhor – a contradição, porque a vida e os termos já mos concedestes.
Livrai-me, Senhor, das passeatas e assembléias; das paradas gays e militares; dos feixes coletivos e das ONGs; das minorias majoritárias e dominantes; do dr. Gori e do Samuel Rosa; dos que não compreendem uma auto-ironia.
O humor, Senhor, não me deixeis perdê-lo nem um segundo.
Dai-me a boa solidão e o dom da velhice. Antes disso, porém, dai-me um filho.
O tempo passa – perdoai-me a redundância, o clichê. Os meninos (bons meninos, diga-se) não entendem, mas passa. Ensinai-os, Senhor. Santo dos santos dos santos, mostrai a eles toda honra e toda glória.
Senhor, obrigado pela sexta 13, pela quinta 12 e pelo sábado 14.
Louvar-vos-ei para sempre. Porque o avião partiu, partiu-se e não me levou.

Pão Pondera

April 11, 2007
outro paul: cezanne

Todas as manhãs eu espero o remédio fazer efeito.
São 20 mg de Pondera. Bem melhor do que Prozac.
Gosto do nome do remédio: Pondera. É como se ele aliviasse o peso do mundo. Melhor que ele, só a Neosaldina. Ambos constituem a minha vida farmacológica.
O incrível é que eu acordo sempre de bom humor. Piadas (uma ótima do Joãozinho), músicas desenterradas (Ritchie, Metrô, Magazine), trocadilhos não me faltam. Mas sempre falta alguma coisa. Alguma coisa.
Tomo então o remédio. Já faz parte de minha rotina: levantar, lavar o rosto, escovar os dentes, tomar banho, tomar café, tomar o remédio, ler os dois jornais.
Placebo? Talvez. Mas sinto falta se ele acaba. Sensação de maresia; uma angústia de arquipélago.
É. Desconfio que o remédio já faz parte da minha vida.
Muda muita coisa? Não. Mas os críticos – numerosos – diriam que o meu liberalismo é conseqüência química do Pondera. Bobagem; é conseqüência do tempo. Aposto minha coleção do Bach que daqui a sete anos todos vocês – ao menos, os inteligentes – serão capitalistas convictos.
O Pondera é outra coisa.
Confesso que gosto de ler Milton Friedman depois de tomar o remédio.
O efeito vem aos poucos. Senhor, o Pondera nosso de cada dia dai-me sempre. Fazei de mim um homem ponderado.

Balada do meu sobrinho

April 10, 2007
Outro Paul: Klee

Minha irmã espera um filho
e o tempo espera o tempo,
invisível, inesperado.
Ela espera meu sobrinho
que virá bem a seu tempo,
pequeno e bem-amado.

Ela espera um menino
ou menina, um rebento,
e o rebento espera o tempo
de ser revelado à luz.
Minha irmã espera um filho
que o seu ventre conduz.

Meu sobrinho é pequeno,
tão pequeno, pensamento,
porém espera que o tempo
passe ainda mais veloz
do que passa normalmente
para ele ou para nós.

Meu sobrinho ainda não fala,
mesmo a luz, não sabe olhá-la,
e se aninha, mas já sabe,
meu sobrinho, ele que cabe
na palma da minha mão
– meu sobrinho, ele já sabe
o tempo do coração.

Minha mãe vê meu sobrinho
no ventre de minha irmã.
E espero, eu tão filho,
que venha pela manhã.
Tanto espero meu sobrinho,
filho de meu cunhado,
e da placenta nadador;
ele, menino ou menina,
mais do que prosa ou rima
sabe ser o inesperado
que tanto se esperou.

Minha irmã espera um filho
que está sendo, lá no ventre,
no dentro mais que o dentro,
o espelho mais cristalino
que o tempo já inventou.
Esperamos meu sobrinho,
o neto de seu avô.

Vamos fugir!

April 09, 2007
Chumbrega. Taí um adjetivo perfeito para definir o Skank.

A banda do Monocelho toca depois de amanhã nessa terra mardita.

Segue o set list pra neguinho ter uma idéia do que é o Inferno:

01- AMORES IMPERFEITOS (Samuel Rosa/ Chico Amaral)

02- É UMA PARTIDA DE FUTEBOL (Samuel Rosa/ Nando Reis)

03- BALADA DO AMOR INABALÁVEL (S.Rosa/ Fausto Fawcett)

04- ACIMA DO SOL (Samuel Rosa/ Chico Amaral)

05- TRÊS LADOS (Samuel Rosa/ Chico Amaral)

06- GAROTA NACIONAL (Samuel Rosa/ Chico Amaral)

07- PROIBIDO FUMAR (Roberto e Erasmo Carlos)

08- DOIS RIOS (Samuel Rosa/ Lô Borges/ Nando Reis/)

09- RESPOSTA (Samuel Rosa/ Nando Reis)

10- SAIDEIRA (Samuel Rosa/ Chico Amaral)

11- VAMOS FUGIR ( Gilberto Gil/Liminha)

12- TANTO ( Bob Dylan – Versão: Chico Amaral )

13- CANÇÃO NOTURNA (Lelo Zaneti / Chico Amaral)

14- VOU DEIXAR ( Samuel Rosa / Chico Amaral )

15- JACKIE TEQUILA ( Samuel Rosa / Chico Amaral )

16- ATÉ O AMOR VIRAR POEIRA ( Samuel Rosa / Chico Amaral )

17- MIL ACASOS ( Samuel Rosa / Chico Amaral )

18- O SOM DA SUA VOZ ( Samuel Rosa / Chico Amaral )

19- UMA CANÇÃO É PRA ISSO ( Samuel Rosa / Chico Amaral )

20- BALADA PRA JOAO E JOANA ( Samuel Rosa / Chico Amaral )

21- GARRAFAS ( Lelo Zaneti / Chico Amaral )

22- SEUS PASSOS ( Samuel Rosa / César Maurício)

23- LUGAR ( Samuel Rosa / César Mauricio)

24- CARA NUA ( Samuel Rosa / Humberto Effe )

25- EU E A FELICIDADE ( Samuel Rosa / Nando Reis )

O homem que partiu

April 09, 2007
Paul Gauguin.

Quem nunca pensou em partir, ir embora sem dizer adeus, nem mesmo uma carta, nem mesmo um bilhete?
Virar as costas e ir. Esquecer o próprio nome; mesmo se o pronunciarem em voz alta, ignorá-lo. Não sou eu. Esse não sou eu.
Conhecer cidades perdidas no mapa. Dormir em vales frescos, em pousadas toscas, em bancos de cimento com o nome de uma loja de armarinhos que não existe mais.
Comer de favor; mendigar às vezes; fazer pequenos trabalhos e contravenções; escrever cartas para analfabetos. Passar a noite em cadeias vazias por motivo de bebedeira e vadiagem.
A vida, uma vadiagem. Ser escorraçado por prefeitos ciosos da tranqüilidade pública. Conversar com sábios analfabetos e padres sem paróquia. Amar uma camponesa de Quatiguá.
Contemplar a noite no escuro das estradas. Identificar as constelações, mesmo ignorando-lhes os nomes científicos e mitológicos (há diferença?); dar-lhes nomes inventados. De repente, na madrugada, lembrar um poema ou uma canção. Contar para si mesmo uma piada antiga – e rir muito, sozinho, na treva. Ver os dedos róseos do dia.
Quem nunca pensou em partir, sem motivo de Ulisses, para realizar em terra a epopéia de um homem só? Ter sonos pesados. Chamar cavalos e rochas pelo nome – Adamastor! Adamastor!
Numa quermesse, ganhar a corrida de saco de estopa. Dormir sobre o saco de estopa, embriagado pelo vinho que custou o valor do prêmio. Sonhar com a camponesa de Quatiguá.
Caminhar – e caminhar tanto que os sapatos já são mais parecidos com os pés do que os próprios pés.
Viajar – e viajar tanto que nas cidades os homens não mais falam a língua portuguesa. Ouvir um outro idioma, e depois outro, e depois outro – tão longe que até mesmo o idioma original será esquecido. “Que língua eu falava mesmo?”, perguntará o andarilho que pensa em dialeto vagamente derivado do sânscrito.
Partir – e um dia sem querer encontrar uma casa parecida com a da infância. Lá dentro todos eles me esperam para o almoço de Páscoa. Tratam-me pelo nome: Paulo, Paulo, Paulo. Como vai, Paulo? Tem passado bem, Paulo? Onde você esteve, Paulo? Mais um pedaço de peru, Paulo. Quer Coca-Cola, Paulo?
Mas não sou eu. Esse não sou eu. Portanto, fico.

(Crônica publicada no JL.)

Caetano Veloso tem coisas boas. Pronto, falei

April 07, 2007

No balcão do Bar Brasil (templo do liberalismo onde, segundo o Fabebum, eu me inspiro ideologicamente nos “pleibas” – termo dele), eu e dr. Tanga falávamos sobre Caetano Veloso. Eu disse que, no meio da chatice e das frescurites do baiano, é possível encontrar algumas coisas boas. Canções que revelam um compositor de talento, eclipsado pelas próprias baboseiras.
Tanga, sempre cartesiano, exigiu:
- Dê um exemplo.
Na hora eu me lembrei de “Trilhos urbanos”, em que Caetano rima “krishna com vixi Maria” e diz “Rua da Matriz ao conde / no trole ou no bonde / tudo é bom de ver”.
Hoje eu estava pensando e me lembrei de algumas outras perólas do filho de dona Canô (aquela senhora preservada em formol em Santo Amaro da Purificação).
Caetano é uma das pessoas mais chatas do Brasil e quiçá do planeta. Como se não bastasse, é figura de proa da mefistotélica “máfia do dendê”, que privilegia “artistas” pelo simples fato de terem nascido na Bahia.
Mas, à semelhança de um relógio parado, o sr. Veloso acerta pelo menos duas vezes por dia. Seguem, aqui, dois acertos do baiano. É bom lembrar que são canções – e não poemas –, sujeitos, portanto, às vicissitudes do intérprete e dos arranjadores (que nem sempre têm o mesmo talento do compositor).
Se Caetano viver tanto quanto dona Canô, vamos ter que agüentar o cara por mais uns 30 anos. Espera-se que ele produza, em meio aos “Eu sou neguinha” e “Eu sou a filha da Chiquita Bacana”, alguma coisa que preste no período.
Vamos lá:


MEU BEM, MEU MAL

Você é meu caminho
Meu vinho, meu vício
Desde o início estava você
Meu bálsamo benigno
Meu signo, meu guru
Porto seguro
Onde eu vou ter
Meu mar e minha mãe
Meu medo e meu champagne
Visão do espaço sideral
Onde o que eu sou se afoga
Meu fumo e minha yoga
Você é minha droga
Paixão e carnaval
Meu zen, meu bem, meu mal


DOM DE ILUDIR

(Escrita em voz lírica feminina, em resposta a uma canção de Noel Rosa que diz: “Pra que mentir / Se tua ainda não tens / A malícia de toda mulher?”)

Não me venha falar na malícia de toda mulher
Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é
Não me olhe como se a polícia
Andasse atrás de mim
Cale a boca e não cale na boca
Notícia ruim
Você sabe explicar, você sabe entender
Tudo bem
Você está
Você é
Você faz
Você quer
Você tem
Você diz a verdade
A verdade é seu dom de iludir
Como pode querer que a mulher
Vá viver sem mentir?


******

Aí, pessoal: pode descer o sarrafo.

Atrações musicais da Terra Vermelha

April 05, 2007
Nosso cachê é em carne.)

Puta que pariu.
Capital Inicial e Skank vão tocar na feira bovina dessa terra mardita.
Um depois do outro; Capital Inicial, no dia 10; Skank, no dia 11.
É isso mesmo que vocês leram. Em 48 horas, teremos CoitaDinho e Rosinha.
Trepar com a Dercy Gonçalves é bem melhor.
Furar o olho com alfinete não é tão penoso.

Em terra de cego, quem tem um olho é rei

April 04, 2007
Estou a piscaire o olho, Fabebum!

A Folha de Sum Paulo reuniu 200 representantes do povo cabefa, tipo representantes-da-sociedade-civil-organizada, e essa turma escolheu o maior brasileiro de todos os tempos.
Deu Getúlio Vargas.
Por um lado, faz sentido. A escolha de Vargas mostra a merda que o Brasil é.
Sei que ninguém perguntou, mas eu tenho aqui um melhor brasileiro de todos os tempos.
É Camões.
Antes que os sabidos venham com os impropérios – “Esse Briguet é um ignorante vendido ao capitalismo, nem sabe a nacionalidade do Camões” –, é claro que eu sei que o Camões é portuga. Brasilzão mal tinha sido descoberto.
Mas ele nos deu a língua. E isso já é alguma coisa. Lá pelo décimo-quinto lugar, FHC, que nos deu a moeda. Em último lugar, Lula – que tem a língua presa.

O horizonte mental da esquerda

April 04, 2007
Essa imagem deve ser vista ao som da Internacional Socialista.

A esquerda me dá um cansaço danado. Já fui trotskista, como gosto sempre de lembrar aqui; também “atuei” como sindicalista e militante político.
Mudei, graças a Deus. “Só os idiotas não mudam”, dizia Paulo Francis, ele mesmo um ex-trotskista.
O mais engraçado em ser ex-trotskista é que os stalinistas em geral costumam vibrar com isso. Para eles, é como se todo trotskista escondesse um capitalista enrustido. (Antes fosse assim!) Não percebem entre Stálin e Trotsky há basicamente uma diferença: Stálin matou mais gente. Eu não tenho dúvidas de que Trotsky teria feito correr tanto sangue quanto Stálin, caso tivesse vencido a disputa pelo poder na Rússia. Mas foi o outro que ganhou – e matou.
Mudei porque, ao contrário da maioria absoluta da esquerda, resolvi ler o que os adversários escreviam. A mudança foi gradual, não aconteceu do dia pra noite, ao contrário do que dizia a amiga Wilma (lembram-se dela?); começou com “História Concisa da Revolução Russa”, de Richard Pipes; passou pela leitura das atas dos Processos de Moscou; prosseguiu com as obras de economistas liberais. Paralelamente, havia o simples ato de abrir os olhos para constatar a superioridade do modo de vida entre as “sociedades burguesas” e o fracasso absoluto do socialismo em todos os modelos e todos os países onde foi implantado.
Depois de muito hesitar (votei três vezes em Lula, e me envergonho disso), concluí que o tal "papel" do Estado, quando ultrapassa os limites da garantia de ordem legal e liberdade dos indivíduos, é no máximo o papelão do Estado. Intervencionismo funciona, ainda assim precariamente, em situações de guerra.
Acabei descobrindo o óbvio ululante: capitalismo e democracia liberal são sistemas imperfeitos, não há dúvida, mas os melhores. Ou, como queria Churchill (um dos meus grandes ídolos), os menos piores. A melhor forma de acabar com a pobreza não é dividir tudo que se produz; é criar mais riquezas. É um raciocínio tão simples e evidente, tão cristalino e acessível – mas será eternamente achincalhado pelos petelhos, incapazes de compreender um palmo adiante dos clichês de palanque.
O caso dos controladores de vôo é um sintoma. Supostamente, avião é “coisa de rico”. Rico, no ideário esquerdista, tem que se foder. Então, que parem os aeroportos. Essa gente não aprendeu a viajar de ônibus, não?
É um argumento esperado de um povo que reelegeu Lula. Se os aviões não voam, o negócio é todo mundo andar de ônibus. Temos aí o socialismo da miséria – algo que pertence ao horizonte intelectual do PT. O país não funciona? A culpa é dos ricos, diz o “povo”. Dos ricos e da classe média – talvez até mais da classe média, esses babacas que votaram no Alckmin (não por admirá-lo, mas por ser um mal menor).
Com esse tipo de raciocínio do “povo” (a mesma lógica de Chávez, Morales e outros), vamos chegar ao fundo do poço do calabouço (para usar a expressão de Carlos Nejar).
Eu sou um dos babacas que não acreditam em Lula – e que consideram criminoso o motim dos controladores. Só não venham reclamar pra mim quando o país estiver afundando na merda.
Antes, dizia-se que o aeroporto era a melhor saída para o Brasil. Hoje, nem isso. Talvez o mar.

Cachorrinho está latino lá no fundo do quintal

April 03, 2007
Todo es dominado.

Olha essa Maria Rita na Folha de S. Paulo hoje:

“Música que faz crítica social sempre tem espaço. Hoje há um certo patriotismo, um respeito à cultura nativa, uma tentativa de fazer um impedimento ao imperialismo cultural dos EUA, que é perigoso para a nossa identidade.”

Olha aí, Moraes! Depois de cantar com a Mercedes Insossa, a filhinha da Elis já pode ser chamada para escrever aqui no Tipos. Ela também odeia o Bush.

Socorro, Fábio Galão. Mutley, faça alguma coisa!

O homem mais velho do mundo

April 03, 2007
Walt Whitman, que (é claro) não sou eu.)

Todos esses carros
aí estacionados
são mais novos do que eu.

Todos esses velhos
acolá sentados
são crianças ante a mim,
são mais novos do que eu.

Os muros caiados
ou mesmo os derrubados
são mais novos do que eu.

Os astros do cinema
e as garotas de programa
são mais novos do que eu.

Mesmo os Opalas,
mesmo as igrejas,
mesmo as florestas
– tudo é mais novo do que eu.

É mais nova do que eu
a própria Tebas
que a relva recobriu
e o mundo emudeceu.
O clarão das trevas
e os tubarões em cio
– mais novos do que eu.

Sou eu mais antigo
que um pergaminho,
que o coração de um santo,
que o olho do profeta Daniel.
Sou eu mais antigo
que o plâncton marítimo,
que a figueira de Judas,
que a sarça ardente,
que o nascimento de Zeus.
Sou mais antigo
(principalmente)
do que eu.

Prazer à Secco

April 02, 2007
Reza a lenda que ontem meu amigo Diego Prazeres foi entrevistar Deborah Secco e a diabenta lhe disse:
-– Prazer, Deborah.
Ao que ele teria respondido:
-– Deborah, Prazeres.
E mais não digo porque não vi.

Tanga cum laude

April 01, 2007
O mestre Tanga agora é doutor Tanga.
Aos 28 anos, acaba de defender sua tese de doutorado em Lingüística.
Sem alarde, recebeu nota 10 com distinção.
Finalmente a universidade deu uma dentro! Num país de tantos doutores néscios (e que exigem ser tratados pelo título), Tanga é um doutor com mérito. Até porque nunca foi dado a academicismos. Uma hora depois de defender sua tese, estava tomando cerveja e falando besteira no balcão do Bar Brasil.
Consulte a quarta acepção da palavra gênio no Dicionário Aurélio.
É o que Júlio César Michelucci Tanga é. Esse rapaz vai longe, longe.