Repórter das Coisas

A morte do português

Hoje comprei um mapa de Portugal e Espanha. Um tiozinho me vendeu o rolo por quinzão na calçada da Tiradentes.
Por que fiz isso? Não sei bem ao certo. Sempre gostei de geografia. Estou lendo “Dom Quixote”, e queria conhecer a Mancha de perto, tal como é hoje. Mas a principal razão é outra; uma espécie de nostalgia antecipada.
Daqui a um tempo esta língua estará morta. Pouco tempo. Estará mortinha da Silva, como nossos antepassados. Em breve – muito breve! – nós seremos os antepassados, quiçá ainda vivos, e ninguém nos entenderá – nem à nossa fala, nem aos nossos documentos.
Talvez, dentro de décadas, um punhado de estudiosos velhos e caquéticos – nós mesmos? – compreenderá a língua portuguesa. Seremos mais ininteligíveis, para a maioria, que o galego-português da “Cantiga da Ribeirinha” (dei aula sobre isso hoje, e quem perguntou?).
Nosso idioma vai morrer de maneira rápida e seca. A língua morrerá à míngua, transformada em inglês cucaracho, chinês tupiniquim, subespanhol de alfândega, internetês miguxo debuquisondetêibou. Seremos – logo logo – a fraca, melancólica e solitária língua portuguesa, apodrecendo em meio aos livros velhos, ela própria um livro velho que ninguém mais abre. A última flor do Lácio morrerá como veio ao mundo: subalterna, triste e trágica. Sem pétalas, sem cheiro, sem espinho, sem flor. Língua sem bocas.
Assim as morrem as línguas – “não com um estrondo, mas com um suspiro”. Morrem abandonadas em pensionatos falidos – em casas da luz vermelha – em trens de subúrbio. As línguas se formam ao longo de séculos; mas, com o frenesi da comunicação mundial (óia que palavra: frenesi!), levarão minguadas décadas para sumir do mapa. O português, tenho certeza, vai sumir geral. Não há maneira de salvar o gajo. Mesmo que aparecessem hoje mil Camões (o legal desse nome é que já vem no plural...), o destino do idioma luso está selado, fudido e mal pago – inscrito na pedra. Na lápide: aqui jaz.
O português, para mim, não é uma língua; é um vício. Tal como outros vícios, ele me impede de travar contato com a vida real. Falar português é um modo de incomunicação; uma espécie de autismo verbal; um monólogo com seres mortos e imaginários; um sintoma de afasia. Hoje ainda é útil – amanhã será fútil. Talvez até antes de amanhã.
Sinto pelo português. Desde já derramarei uma lágrima por ele; uma lágrima no teclado do computador. Terei saudade de minha lingüeta; afinal, é a única que sei falar. Sou mais monoglota do que o papa é monoteísta (e sou monoteísta também; mas Deus fala hebraico, aramaico e esperanto).
Repudio com todas as minhas forças (que são poucas) essas bravatas nacionalistas, essas leis idiotas para “preservar o idioma pátrio”. Idioma pátrio é a puta que o pariu. A morte do português é inevitável porque assim prevê a dinâmica da linguagem humana; se o latim morreu, que dirá o portuguinha? Não há como salvá-lo, muito menos por decreto. Ê, povo tonto.
Durante séculos (vamos botar aí uns nove séculos), o português teve sua chance. Brilhou nas piadas, ah se brilhou! Teve um Camões aqui; um Bocage ali; um Fernando Pessoa acolá; um Drummond de vez em quando; um Herberto Helder, sem dúvida; um Euclides da Cunha na hora do pega-pra-capar. Mas naufragou. O véio do Restelo já tinha avisado; vocês acharam que ele tava gagá. Qualquer medida “protecionista” terá um só efeito (o mesmo que na economia): tornar o caso ridículo.
A morte do português é triste. Por favor, não a tornem grotesca. Deixem o portuga morrer com dignidade. Daqui a um tempo, o pessoal vai ler este texto sem entender lhufas. Em caso de dúvida, é só perguntar ao papagaio.

Publicado em 20 de março de 2007 às 23:12 por briguet

Comentários

  1. salome
    • Caro briguet,
      Gosto muito de suas crônicas. É sempre muito bom entrar aqui no tipos e descobrir que você continua produzindo idéias ativamente (ao contrário do Tanga, outro cronista genial, porém um tanto ocupado demais com suaS enxadaS, de acordo com o que revela a baixíssima freqüência de atualizações em seu blog). Porém, uma dúvida insiste em me assombrar. Enquanto não atualiza, leio seus posts mais antigos e tenho vontade de comentar, mas desisto quase sempre por crer que você não lerá tais comentários. Estou certo? Você tem algum tipo de controle sobre os coments em posts que o avisa de quando um comentário foi feito? Ou você responde apenas os comentários do post em vigor?
      E mais não digo, pois muito já disse e não quero gatigar ninguém.
    • por leitor assíduo, porém leigo...
    • 21.Mar.2007 às 16:09 - Permalink - Reportar
    leitor assíduo, porém leigo...
  2. the same reader
    • Caro, eu recebo um e-mail sempre que alguém comenta os meus posts, mesmo os antigos. Alguns poucos foram fechados para comentários (entre eles o famigerado "Poema da b-o-c-e-t-a"), mas na maioria das vezes os comentários são livres. Ademais, estou sempre dando uma olhada aqui na página inicial do Tipos. Um abraço.
    • por pbriguet
    • 21.Mar.2007 às 16:13 - Permalink - Reportar
    pbriguet
    • Há uma diferença entre mim e o mestre Tanga. Ele escreve muito em qualidade e pouco em quantidade.Comigo é o contrário. Deve ser porque a cabeça dele é bem maior que a minha.
    • por pbriguet
    • 21.Mar.2007 às 16:15 - Permalink - Reportar
    pbriguet
    • Belo texto e triste também.
      Espero não estar viva para ver isso.
    • por Mirian
    • 22.Mar.2007 às 10:26 - Permalink - Reportar
    Mirian
    • bah, eu não sou tão pessimista assim. acho que o português sobrevive. modificado sim, mas ainda o português...

      afinl, ele jáse modificou tanto, já foi se adaptando a tanta coisa, por que não resistiria ao futuro?
      lembro de um tabalho na faculdade em quetive que ler as ordenações filipinas (coisa do século 16 eu acho). depois disso, assistir desmundo foifichinha...
    • por groucho, sobrevivente
    • 22.Mar.2007 às 11:23 - Permalink - Reportar
    groucho, sobrevivente
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