página inicial do tipos

Receba por e-mail os posts de Repórter das Coisas: RSS - Assine os feeds deste blog

Archive for February of 2007

Professor de nada (e Estão acabando com a mulherada - parte II)

February 28, 2007
Ontem dei minhas duas primeiras aulas de literatura (em minúscula). Devo reconhecer que os alunos foram muitos gentis e educados. Mas, lamentavelmente, o professor não correspondeu. Vesti o guarda-pó (que não esconde a barriga) e tentei resumir 5 mil anos de literatura (nunca há certeza dessas datas) em 45 minutos. Claro que não consegui. Me enrolei bagarai, apesar de ter me preparado bastante (passei os últimos dias obcecado com as tais aulas).
Sem demagogia ou pedido de confete, confesso: nada sei, nada sei. Sócrates dizia o mesmo, mas era só pra enganar. Sabia bem mais que os outros. Meu caso é de estagnação intelectual congênita: às vezes me espanto com a extensão da minha ignorância. E sou meio burro também. Defendo o liberalismo e livre concorrência unicamente porque as alternativas são bem piores. Mas nasci loser. Que fazer? Repetir meu mantra: nada sei, nada sei.

*****

Alguém disse: "Cultura é aquilo que sobra quando esquecemos de todo o resto". Esqueci tudo e não sobrou quase nada.

*****

Vi Tânia Khalil de perto, num desfile há três anos. Era uma gostosa, para usar o português claro. Eis que estou passando pela banca de revistas e vejo uma foto de capa com a referida rapariga. Emagreceu. “Afinou”, na linguagem viadística da mídia de celebridades. Está que é um osso só. Repito: estão acabando com a mulherada. As gostosas entraram em extinção.

Rigor mortis

February 26, 2007
Morreu hoje, em idade indeterminada, a poesia. Os legistas ainda tentam identificar se o óbito decorreu de causas naturais ou violentas. Consta que, nos últimos anos, ela estava isolada e vendia muito pouco; nem mesmo conseguia pagar o condomínio. Além disso, não rendia comentários em blogs. Polígama, deixa vários viúvos e filhos ilegítimos. Metáfora, soneto, métrica e rima agradecem as manifestações de pesar e convidam a todos para a missa de sétimo dia – sabidamente, o dia em que se descansa. O resto é prosa.

*****

(Escrevi esse obituário depois de ler o ótimo artigo de Nelson Ascher na Folha de S. Paulo, edição de hoje.)

Jair Ferreira dos Santos e "Cybersenzala"

February 26, 2007
Sempre bom conhecer um escritor de verdade. É o caso de Jair Ferreira dos Santos, autor do livro “Cybersenzala”. Reportagem sobre “Cybersenzala” saiu hoje no Jornal de Londrina. Por motivos de espaço, lá não publiquei a íntegra da entrevista com o autor. Publico aqui:

Jornal de Londrina: Fale um pouco sobre sua vida em C. Procópio de 1946 a 1971. Foi preciso sair de Cornélio para escrever sobre Monte Castelo?

Jair Ferreira dos Santos: Venho de uma família simples, classe média baixa interiorana. Meu pai era padeiro e violonista. Durante anos teve uma orquestra. Minha mãe é uma camponesa católica fervorosa que me forneceu boa parte do meu caráter. Ascensão social ali significava: mandar os filhos para escola para que tivessem uma vida menos dura. Fui bom aluno no primeiro e segundo graus. Na adolescência, seguindo o clima de contestação da época, comecei a ler muito – Freud, Marx, Sartre, Camus, Clarice Lispector, Osman Lins, depois foram os americanos, Hemingway, Fitzgerald, Mailer, mas sobretudo John Updike. Em 1970 entrei para o Banco do Brasil e no ano seguinte vim para o Rio. Quanto a Monte Castelo (C. Procópio, em dois contos do livro), realmente foi preciso distanciamento para atenuar os conflitos sociais, as fantasias revanchistas com relação ao lugar e apreciar o valor da minha história ali como o da beleza irremovível da sua paisagem. Somos uma promessa feita a uma paisagem.

JL: A que classe social pertencem Boanerges, o Boina, e Tôni Labanca, personagens que vivem em Monte Castelo?
JFS: De fato, Boanerges, no conto “Justiça Eleitoral”, é mais um estróina que um simples proletário do setor de serviços que tem seu dia de glória, isto é, de poder, quando preside a mesa nas eleições. Seu conflito é mais com a comunidade como um todo, pela sua deformidade, do que com a classe dominante. Já Tôni Labanca, no texto que leva seu nome, é o típico arrivista, oportunista fascinado pelo glamour do cinema, algo parecido com um lumpen pequeno-burguês que simula servir à burguesia para se dar bem. Ou seja, o popular picareta travestido de puxa-saco. Esses tipos são interessantes porque são criativos, hábeis e fazem a comunidade progredir, civilizar-se. No conto, esse personagem lida com as várias formas de corrupção que floresceram no país nas últimas décadas.

JL: Onde começa a senzala e termina a cibernética, na literatura e na vida real?

JFS: Em Cybersenzala, como o título indica, elas se fundem. O telemarqueting, os call-centers, os 0800 são atividades estafantes, em cubículos minúsculos, com horários rígidos e metas de produção a cumprir. Ninguém trabalha nisso mais de seis meses em média. É uma senzala cibernética. No mercado financeiro, o que pega é a tensão, a incerteza, a complexidade do setor e ali a senzala é na verdade a mentalidade dos operadores. Nossa literatura não fala dessa gente, mas eles estão aí, com seu estilo de vida, suas roupas grifadas, sua ambição, seu hedonismo, seu cinismo, sua falta de cultura. Eu quis sabe como eles viviam, o que comiam, bebiam, como falavam e daí saíu o conto que dá título ao livro. Isso é a literatura. Na vida real, estamos todos embarcados numa revolução tecnológica calcada na informação, teremos na verdade um Modo de Produção Informático no futuro, isso se a ecologia deixar, mas acho que o mundo das telas, e o que não está nas telas não está na vida, serve mais é para mascarar uma crise civilizatória, uma ausência total de valores com o fim dos deuses, da pátria, do dever, da revolução.

JL: No conto “Fado Pauleira” há uma frase impressionante: “Todas as portas estavam fechadas, até a do suicídio”. Lembrou-me um verso de Drummond: “Chega um tempo em que a vida é uma ordem”. Você concorda com o poeta? No mundo de hoje a literatura é uma forma de resistência e sobrevivência?

JFS: A frase do personagem Breno Bastos e a de Drummond são convergentes, mas no conto trata-se do esgotamento das ilusões pessoais. A aceitação da velhice implicará mudanças na auto-imagem do escritor, que deverá viver e escrever com seu ego real sem pagar tributo ao seu ego ideal, conversão sempre dolorosa. O que eu quis mostrar é como a geração 70 está envelhecendo, sua dificuldade em abandonar o forever young, em lidar com as alterações na sexualidade, na vida literária, etc. Quanto ao suicidio, está dito lá que “as pessoas se matam para deixarem de morrer”, mas não era o caso de Breno Bastos. Ele havia cruzado uma linha em que o suicídio deixara de ser saída honrosa, pois até a idéia de suicídio envelhece em nós. Ele sofria mesmo era da manha de não querer “paz na desilusão” (expressão de Sérgio Sant’Anna). Hoje mais do que nunca literatura é resistência, sobretudo agora que a cultura letrada enfrenta não só a cultura visual, mas dentro das suas linhas luta também contra o entretenimento impresso. O best-seller, a auto-ajuda, o pessoal midiático que se põe a fazer romances e contos roubam espaço da literatura séria, aquela que pretende escrever livros com tal força e questionamento que as pessoas sejam modificadas pela sua leitura. Nenhum best-seller ou novela de tv afeta a vida de ninguém, mas a leitura de Kafka pode mudar profundamente a sua (mudou a minha).

JL: Seus contos estão repletos de referências irônicas – e sarcásticas – ao vocabulário pop. Comente a influência da linguagem pop na literatura atual.

JFS: Vamos chamar o pop de cultura de massa ou entretenimento cujas simplificações e estereótipos cometem dois pecados: sugerir que arte é diversão (sem instrução) e que tudo é dizível. Ora, desde Homero até Borges, arte é diversão e conhecimento, descoberta, ao mesmo tempo que esforço para reconhecer o indizível. Sem isso, o pop só faz empobrecer a problematização da realidade e a língua que empregamos, porque se apóia na linguagem cotidiana. Nos anos 80 o Jornal Nacional era dado com 850 palavras apenas. Por isso meu livro está na contramão do conto enxuto, rápido, comercial, pronto para consumo. Escrevo histórias um pouco mais saturadas de informação, com um vocabulário maior, sem ser hermético, para penetrar na complexidade do mundo atual. E aí o humor entra como arma de guerra contra a alienação, as ilusões do entretenimento em que o Bem, identificado com o consumo e a ordem social, sempre vencem. As ironias são para expor nossa existência sem fundamento.

JL: O virtual já tomou posse do real – até mesmo em relação à morte, como em “www.joy&peacefuneraldesign.com”?

JFS: Há duas leis que o capitalismo ainda não revogou: a proibição do incesto e o enterro dos mortos. O resto, vale tudo, desde que pago. Mas os serviços funerários já começam a “destragicizar” a morte (o que, para ser franco, não acho de todo mau). A morte vai sendo pouco a pouco dessimbolizada, o luto hoje, por exemplo, é mínimo. O que procurei nesse conto foi mostrar, através de um site, como a morte vem sendo desdramatizada pela linguagem do entretenimento: fantasias, decoração, enxoval do morto, bandas de rock, sorteios, comidas espetacularizam a cena fúnebre, tiram a transcendência da morte usando uma linguagem melíflua, meio negócio meio publicidade. Isto pode significar que aquilo que é tentativa no virtual, com o tempo se instala no real. Veja a pedofilia como vem crescendo em função da Internet. Por aí, meu livro viaja pelo contemporâneo explorando em cinco ou seis contos uma mídia em cada um deles. O cinema em “Tôni Labanca”, a televisão em “Natália no Horizonte”, a publicidade em “Recursos Humanos”. Isto ocorre porque nosso acesso à realidade se dá quase que exclusivamente através dos meios. E não há saída para isso, a menos que limitemos a sociedade de consumo, que depende deles – ameaça que o problema ecológico vem tornando cada vez mais provável. Felizmente.

JL: Há algo de bom na nova literatura brasileira? E quais autores precisamos tirar da estante e reler.

JFS: É difícil responder porque há muita gente escrevendo no país, o número de editoras aumentou e o de títulos também (embora as tiragens tenham caído), não dá para se manter atualizado. Eu acompanho alguns autores – Sérgio Sant’Anna, Marçal Aquino, Domingos Pellegrini, Rubens Figueiredo, Miguel Sanchez, Cíntia Moscovici – e costumo zapear os novos para me motivar, o que tem sido raro. Nossa literatura parece tímida face à brutal complexidade do país. É muito subjetivismo, pouca busca de novos espaços ficcionais. Não conheço um romance importante sobre os operadores da bolsa de valores ou sobre o raggae em São Luiz ou sobre o tráfico de brasileiras para a Europa. Tiro da estante com relativa frequência O Homem sem Qualidades (Musil), A Náusea (Sartre), os contos de Clarice Lispector, Memórias Póstumas de Braz Cubas (Machado), A Ilha de Arturo (Elza Morante), o livro mais bonito que já li, e Casais Trocados (John Updike), um texto brilhante.

Estão acabando com a mulherada

February 22, 2007
Agora mesmo vi uma foto recente da Monica Bellucci, aquele monumento, e a moça emagreceu a olhos vistos. Ainda não virou esquelética, como as modelos de passarela, mas quase.
Caçamba! Rostinho chupado virou mérito. Osso é fashion. Raquitismo dá grana.
Nas bancas de revistas, a mesma cantilena: “Sabrina Sato emagrece 6 kg para o carnaval”; “Daniela Sarahyba mostra como secou em dois meses”; “Adriana Galhos Teus murcha mais que uva passa”; “Girafa é o novo padrão de beleza”.
Tudo bem, ninguém precisa ser a Preta Gil – madrasta da Mangueira –, mas faz favor, né? (Até porque o problema da PG não é o peso...)
Depois a menina morre de anorexia e ninguém sabe por quê.

*****

Já repararam que o Borat (repórter do Cazaquistão) é a cara do Freddie Mercury? Cosdiloco.

A coisa tá Preta Gil (notas de carnaval)

February 21, 2007
A Mangueira não tem madrinha da bateria. Tem madrasta.

*****

E que a Viradouro descanse em Paes.

*****

Nomes de peso (Beth Carvalho) não podem subir nos carros alegóricos da verde-rosa. Faz sentido.

*****

O garçom se saiu bem no quesito mestre-mala e porta-bandeja.

*****

Darwin mereceu déixxxx, nota déixxx em evolução.

"A mala vai, o mala fica"

February 21, 2007
Na mala que perdi – escorregou do bagageiro –, havia um tênis velho que já dava mostras de querer falar. Dois livros: “Achados e perdidos” e “Seminário dos ratos”. Uma camiseta vermelha que me anunciava de longe (será difícil achar de novo aquele tom rubro). Outra, verde-amarela, do Brasil-sil-sil (logo eu, traidor da pátria).
Na mala que se foi – caiu do porta-malas –, havia um barbeador, uma escova de dentes, um fio dental, duas Neosaldinas e um desodorante roll-on. Calças que outras pernas conhecerão. Lenços – lamento muito pelos lenços. Pelos lenços, vou chorar um pouco.
Da mala extraviada – rolou ladeira abaixo –, de marca Diplomata, sentirei saudades. Viajou conosco para tantos lugares; dormiu em variadíssimos cantinhos, carregou histórias e piadas. Entre nós nasceu uma silenciosa amizade. Com uma certa angústia eu a esperava nos aeroportos e rodoviárias.
Da mala que já era – alguém achou e pensou: “Achada não é roubada” – brotaram roupas sujas e uma bermuda com a qual eu visitara o Buraco do Padre e a Vila Velha, em Ponta Grossa. A camisa que usei ao tomar cerveja com Miguel Sanches Neto.
Malas dizem muito sobre nós. A minha era meio vagabunda, mas Diplomata. Tinha os pés redondos.
Mas é assim mesmo. Minha mala resolveu viajar por conta própria. Foi ser mala de outros malas. Foi ser Diplomata em outra embaixada. Foi ser vagabunda de outros lupanares. Vai morar entre ratos achados e perdidos.
Boa viagem, querida mala. E adeus.

Teje preso!

February 15, 2007
Pensando bem,
estamos todos na prisão perpétua,
sem liberdade condicional ou indulto.
Nascemos na cela do corpo incerto,
sob sentença de carne e osso.
Fomos réus de um tribunal sumário
onde não existe apelação.
Pensando bem,
o tempo é nossa pena;
o espaço, nosso claustro.
Pensando bem, estas grades,
estas formas, estas cadeias
são bem mais fortes que o aço.

Reflexões de um traidor da pátria

February 14, 2007
“Querer mudar o estado de coisas parecia-me fútil. Eu tinha certeza de que nada seria mudado, a não ser por uma mudança de coração, e quem poderia mudar o coração dos homens?”
(Henry Miller, “Trópico de Capricórnio”)

*****

Às vezes sinto a morte passeando dentro de mim. Ela envia sinais pelos ruídos do meu próprio corpo. O caos insinua-se na ordem precária da vida material. Só Deus pode me salvar da natureza.

*****

Stálin e Trotsky. Mortos há mais de meio século, continuam lançando sombras nefastas sobre a civilização. Estão mais vivos do que nunca – e isso é péssimo.

*****

Na humanidade, impossível acreditar. Saídas políticas me parecem superficiais e ilusórias. Sou até favorável a uma punição maior para os que cometem atrocidades – como o assassinato daquele menino no Rio –, mas e a cultura que engendrou essas atrocidades? Notem bem, não estou aqui usando o velho jargão esquerdista de que “a culpa é do sistema” ou, pior, “todos somos culpados”. Essas são bobagens demagógicas, entre cínicas e debilóides. Mas há no ar uma espécie de cultura da violência, da vingança, da inveja. Há algo de muito errado – e doentio – num país onde empresários são vistos como bandidos e traficantes cultuados como heróis. Onde ganhar dinheiro ou simplesmente pertencer à classe média é pecado capital. Onde um presidente é perdoado nas urnas depois de um esquema de corrupção mais do que comprovado, documentado e depositado em agência bancária.

*****

A morte passeia no Brasil. A única saída é o aeroporto. Mas não falo inglês; terei que lavar pratos.

*****

Só para ficar registrado: detesto este país. Sou um traidor da pátria.

Enquanto seu lobo não vem

February 09, 2007
Aconteceu há poucos minutos. Eu estava almoçando com a minha noiva quando ouvimos os dois estampidos.
A gente nunca acha que tiro é tiro. Várias coisas passaram pela minha cabeça: escapamento, bombinha de São João, pneu furado. A certeza do tiro veio com a expressão assustada dos outros clientes do restaurante. Lá fora, movimentação estranha; todo mundo olhando para a rua entre o bosque e a catedral.
Depois, as versões:
– Um cara de bermuda saiu atirando atrás do assaltante.
– O cara de bermuda é policial.
– Ele atirou pra cima e mandou o bandido deitar no chão.
– A mulher tinha sido assaltada; estava tremendo.
– Tem gente dizendo que o assaltante foi ferido na mão.
Minha noiva não gosta dessas coisas. Quem gosta? Eu também detesto. Silenciosos, assustados, perplexos, terminamos de tomar o cafezinho depois do almoço. Tenho que pegar um livro na biblioteca. Ela me diz:
– Vamos pelo caminho do bosque.
Na biblioteca, todo mundo comenta os tiros e a perseguição. Mais um dia de pavor. Desta vez, por sorte, o final foi feliz: o assaltante foi preso. O povo até aplaudiu a coragem do policial. Mas quem garante que o próximo capítulo dessa história não será uma tragédia?
Sabe quando você fica com a mesma música na cabeça? Pois é. Aconteceu comigo. Estou com a música daqueles dois tiros martelando minha cabeça até agora. Bang. Bang. Esses eram tiros do bem; mas de qualquer forma são tiros. Bang. Bang.
Quase todos os dias há tiro no centro da cidade. Alguém poderia dizer que o governo precisa tomar uma atitude. Mas como? O governador nem mesmo admite que há problema de segurança em Londrina. Se não reconhece a existência do problema, como vai buscar uma solução? Aos que reclamam da insegurança na cidade, Requião responde com insultos e ironias. Não somos nada para ele. Estamos sós e completamente abandonados na linha de tiro. Dependemos da coragem eventual de um PM fora do horário de serviço. Dependemos do acaso. E quando o acaso não estiver a nosso favor?
Na história da Chapeuzinho Vermelho, o lobo se escondia no bosque. Na Terra Vermelha, os lobos agem à luz do dia. De vez em quando, como ontem, surge um caçador para afugentá-los, mas só de vez em quando. Azar de quem estiver pela frente. Permanecer vivo é uma questão de sorte – enquanto seu lobo não vem. Bang. Bang.

Hino à noite

February 08, 2007
Você sabe, eu prefiro a noite. A noite é mais discreta, à noite não tem trabalho. À noite eu posso ficar de camiseta e cueca. De dia também posso, às vezes, mas, convenhamos, é um espetáculo bizarro. À noite eu posso ser loucão, não é, Salomé? À noite eu posso ser ranzinza como sou aqui no Tipos, mas sem política. Mandando a política à merda, que é tudo filho-da-puta. À noite eu escrevo em pedacinhos de papel e não me sinto culpado. O que vier é lucro, em termos de escrever (não vou falar “em termos literários”, que isso é falta-de-enxada grossa). A noite é boa bagarai.
Prefiro a noite ao dia, por mim só haveria noite; vá lá, umas duas horinhas de sol por dia, mas sem calor, por favor. Eu não me importaria em morar num dos países em que o inverno é quase todo noite. Mas não posso morar nesses lugares porque sou brasileiro monoglota ignorante. É foda. Agora, não me venham com o papo de que a noite é boa porque é “misteriosa”, “obscura”, “enigmática”, “todos os gatos são pardos”, “glamourosa”. Glamourosa o caralho! Som de drag queen o caralho! Dadinho o caralho, meu nome é Zé Pequeno! Não me venham com viadagem noturna, parangolé de “gozei no escuro”, “fui na Friends”, “entrei no dark room”. Noite é noite, cacete.
A noite é boa, volto a dizer, porque ninguém trabalha. Ou melhor, só os garçons e os taxistas (e os guardadores de carro, nem tudo é perfeito). A noite é boa porque tem pouca gente na rua, só uns doidos de carro e uns ladrões (eu disse que não é perfeita). À noite, quando a noite é boa, não tem encheção de saco. E, acima de tudo, eu gosto da noite porque à noite é sempre quinta-feira.

Norah? Tô fora!

February 07, 2007
O músico indiano Ravi Shankar foi um dos maiores malas sem alça que o século 20 produziu. Era só aparecer qualquer mané da música pop – ou mesmo da música clássica – e lá estava o desgracildo guru Shankar, com sua cítara e chatice, oferecendo parceria. Uma espécie de Gandhi onipresente da música ruim.
Por incresça que parível, alguma louca resolveu dar para ele no final dos anos 70. Dessa conjunção carnal (ou conhecimento, para usarmos uma linguagem da Bíblia judaica) nasceu Norah Jones, a cantora bonitinha mas ordinária das baladas misturadas com falso jazz.
Norah é digna do pai. Herdou a beleza do outro ramo da família (porque, se é bonita, os genes não vieram de Ravi) e a chatice do ex-amigo do beatle místico George Harrison.
Para piorar um pouco as coisas (pois, quando se trata de chatice, as coisas sempre pioram), agora Norinha se meteu a ser “engajada” (eta palavrinha anos 60). Já de olho nos lucros, decidiu fazer o que todo mundo e a torcida do Corinthians fazem: sentar a pua em George Bush, definido por ela como “aquele que odiamos”. Nós quem, cara pálida? Minha religião manda amar os inimigos; por acaso eu vou odiar o pobre do Bush, que longe de ser inimigo meu é apenas mais um político besta quadrada?
À mediocridade musical, soma-se a bobagem politiqueira. Esse povo não sabe mais o que fazer para tirar dinheiro dos incautos. De qualquer forma, acho que Norah terá chance de progredir no Tipos. Quase todos por aqui (há exceções consoladoras) praticam o esporte mundial de odiar George Bush.
Quando o Tipos voltar ao normal (milagres acontecem), penso seriamente em incluir Norah Jones na lista ao lado, na companhia de Skank, Kaiser, Lula e Hugo Chávez.

*****

Reinaldo Azevedo, em seu bom blog, fez uma piada com o fuzuê do aquecimento global. Segundo Reinaldo, o apocalipse depende da próxima eleição americana. Se os republicanos mantiverem a Casa Branca, o mundo vai esquentar bagarai. Se os democratas vencerem, esfria rapidinho.
Taí uma piada que eu gostaria de ter feito.

Dona Miriam

February 06, 2007
Morreu Miriam Caciolari, uma pessoa extremamente doce e bondosa que eu tive o privilégio de conhecer. Dona Miriam era mãe da minha grande amiga Carina Paccola. Para saber quem era essa mulher - e sua talentosa filha - acessem o blog http://cpaccola.blogspot.com/ e leiam o texto "Todas as minhas mães". É comovente e imperdível. Toda força para você, Carina.

Notícias do mundo (entre aspas)

February 06, 2007
CUBA

A organização de defesa da liberdade de imprensa Repórteres sem Fronteiras (RSF), sediada em Paris, denunciou nesta segunda-feira a prisão do 25º jornalista em Cuba, o que agrava o balanço da liberdade de imprensa na ilha.

Ramón Velázquez Toranso, jornalista da agência independente Libertad, foi detido em 23 de janeiro de 2007 e detido na prisão provincial de Las Tunas (leste), onde faz uma greve de fome há seis dias.

"Desde que Raúl Castro assumiu suas funções à frente do Estado, em 31 de julho de 2006, foram detidos, agredidos e ameaçados uns quarenta jornalistas, e alguns deles várias vezes", denunciou a RSF em um comunicado.

Segundo a organização, as escassas promessas do poder interino de Raúl Castro "não se traduziram em nenhum progresso na área da liberdade de imprensa".

"Os jornalistas independentes continuam padecendo do assédio e da brutalidade da segurança do Estado. Ramón Velázquez Toranso não cometeu outro crime que se manifestar publicamente para pedir uma maior liberdade de expressão", reforçou a RSF.

Por último, a organização lembrou a Raúl Castro que enquanto persistir na "intransigência e na arbitrariedade", aumentará seu isolamento com relação à comunidade internacional.

(France Presse)


TURQUIA

Temendo por sua segurança, o vencedor do prêmio Nobel de Literatura, Orhan Pamuk, deixou a Turquia na última quinta-feira e foi para os Estados Unidos. Após enfrentar os ultranacionalistas no tribunal, o escritor teria saido do país por conta de ameaças, segundo o jornal argentino Clarín.

A imprensa local assegura que o escritor, que recebeu críticas em Istambul por reconhecer o Genocídio Armênio, saiu do país temendo ter o mesmo fim de Hrant Dink, jornalista turco -armênio que tocou neste mesmo tema e foi assassinado por um fanático nacionalista.

O Genocídio Armênio, também conhecido como o Holocausto Armênio, refere-se à evacuação em massa e assassinatos de centenas de milhares de armênios durante domínio turco entre 1915 e 1917, no Império Otomano.

A República da Turquia hoje nega os a idéia do genocídio, atribuindo as mortes a confrontos étnicos internos, doenças e escassez de alimentos durante a Primeira Guerra Mundial. Em meio a esse clima, Pamuk cancelou algumas de suas viagens, à Alemanha, por exemplo. O escritor tomou um Avião das Linhas Aéreas da Turquia e foi aos EUA, abandonando seu país "por muito tempo", assegurou o diretor do Sabah, jornal turco de maior circulação.

O escritor foi levado ao tribunal por suas declarações, que ofendem a "identidade turca", em virtude do polêmico artigo 301 do novo código penal turco. Na Turquia é crime tipificado no código penal (art.301) afirmar que os turcos massacraram os armênios, assim como é proibido "insultar a identidade turca".

Segundo o jornal Sabah, os jornais sabiam da partida de Pamuk desde quarta-feira, mas não divulgaram para evitar protestos (dos ultranacionalistas) no aeroporto.

Pamuk não deu detalhes de quanto tempo pretende ficar fora de Istambul. Apenas se limitou a dizer à imprensa que tem alguns compromissos na Universidade Columbia, onde leciona. (Agência Estado / Agências internacionais)

O Tanga e a tanga

February 06, 2007
Sempre que tenho uma dúvida de português - e tenho muitas -, ligo para o mestre Tanga.
Hoje, pela primeira vez, eu tive uma dúvida de português durante um sonho. E liguei, ainda em sonho, para o Tanga, que pronto esclareceu a questão. Sonhar com a Natalie Portman (que, segundo meu amigo Zé, fagocitou, de tanga - a peça de roupa, a peça de roupa -, Clive Owen naquela fita "De Pertinho"), eu não sonho nunca. Mas Tanga é companhia e conversa agradável, mesmo durante o REM. Um dia vou apresentá-lo ao Zé. Natalie Portman? Tenho a minha particular.
Quase sempre é o mesmo enredo onírico: deixei de fazer alguma disciplina e tenho que voltar pra a facurdade sob pena de perder o diproma. Hoje, no entanto, um sonho diferente: além do Tanga, eu tinha que participar de uma cerimônia de formatura no Moringão. Estive fazendo os cálculos: me formei há 14 anos. Sou tiozinho mesmo, Reverendíssimo.


Francis, o general do indivíduo

February 05, 2007
(Texto dedicado ao meu amigo Rodrigo Manzano.)


A última guerra não será entre países, religiões ou blocos econômicos. A última guerra será do indivíduo contra a coletividade; do homem contra o Estado; do sujeito contra a ideologia.

O coletivismo tem várias estratégias para cooptar o indivíduo. Uma dessas armadilhas – prevista no “1984”, de George Orwell – é a manipulação da linguagem. O sentido das palavras individualismo e cidadania, em nossos tempos, é um sintoma do processo orwelliano de mutação verbal. Chamar alguém de “individualista” é considerado ofensa pela maioria. Dizer que fulano mostrou-se “cidadão”, pelo contrário, é visto como elogio.

Na verdade, tudo está invertido. No mais das vezes, individualista é tão-somente a pessoa que faz valerem seus direitos de expressão: pensa o que diz e diz o que pensa. “Cidadão”, pelo contrário, é quase sempre o indivíduo que se dissolveu na massa ignara, aderindo às facilidades do consenso, às delícias da unanimidade, ao cômodo sentimento de fazer parte do rebanho.

Coletivismo e Estado, embora estejam visceralmente ligados, não são a mesma coisa. Por vezes, o coletivismo se apresenta como um antagonista do Estado, quando na verdade apenas prepara o bote para conquistá-lo. É o caso do PT, no Brasil.

Há também as chamadas organizações não-governamentais e os conselhos corporativos (tais como OAB, CRM, Crea e outros). Com relação às ONGs, elas carregam a contradição na carne do próprio nome. Por que esse “não” taxativo? Para esconder a verdade amarga: 9 entre 10 entidades dessa natureza buscam apenas uma forma de parasitar o governo ao qual alegam não pertencer. Quanto às entidades corporativas, são pequenos mecanismos para-estatais de defesa de privilégios e barganhas de poder. Minha profissão não está livre disso. Diretores da Fenaj querem porque querem criar o tal Conselho Federal de Jornalismo – um soviete destinado ao controle das informações indesejáveis pelo coletivismo.

Dentro desse panorama nefasto, é natural que o jornalista Paulo Francis, morto há exatamente dez anos, tenha sido uma figura criticada, perseguida e, não raro, achincalhada pelos próceres coletivistas. Dono de uma cultura vasta e eclética, Francis dizia o que pensava sem se preocupar com os compadrismos ou delicadezas.

Era odiado por acadêmicos medíocres porque conciliava clareza e profundidade – os obscuros e rasos eram suas principais vítimas. Era perseguido por políticos porque não aceitava as conveniências toscas do poder. Era o inimigo número um do pensamento entre aspas, do idem ibidem, do beletrismo e da mamata com dinheiro público. A ele se deve o mérito de, já na década de 80, apontar o vazio mental dos falsos moralistas que hoje ocupam o poder. Seus textos sobre Lula, já em 1989, tinham a limpidez de uma profecia. “Só os profetas enxergam o óbvio”, dizia Nelson Rodrigues. Por trás das lentes fundo-de-garrafa, Paulo Francis antevia o Brasil do mensalão. “Lula vai nos transformar num grande Zaire, numa grande bosta.”

Paulo Francis era o indivíduo por excelência. Por isso foi acossado pela Petrobrás (ou Petrossauro, como ele e Roberto Campos gostavam de dizer). Em 1996, ao defender que a Petrobrás devia ser privatizada, Francis entregou-se aos arroubos típicos de sua personalidade e chegou a dizer que os diretores da estatal mantinham contas secretas na Suíça. Em vez de processá-lo no Brasil ou pedir direito de resposta, os capos da empresa resolveram processá-lo nos Estados Unidos e exigir uma indenização de US$ 100 milhões – dinheiro que ele não conseguiria ganhar nem se tivesse as sete vidas de seu gato Bundinha. Francis praticamente chegou a pedir desculpas pelas declarações mais incisivas, mas os capos da Petrobras não queriam retratação: queriam calá-lo. É assim que agem os coletivistas. Tal como Stálin, não buscam resposta para argumentos – buscam a picareta para rachar a cabeça dos opositores.

Após uma intervenção de José Serra e Fernando Henrique Cardoso, o processo contra Francis afinal foi extinto. Mas deixou seqüelas no indivíduo que os amigos sabiam ser vulnerável. O jornalista sentiu-se mal em 4 de fevereiro de 1997. Achava que era uma simples bursite; era um infarto. Morreu aos 66 anos, no auge da atividade jornalística e literária.

Quando Francis morreu, eu era um esquerdista convicto, mas ainda assim o considerava como um modelo intelectual. Mudei. “Só os idiotas não mudam”, dizia Francis, o que não me livra de ser idiota, mas oferece alguma esperança.

Ao saber da morte de Francis, uma amiga me ligou para dar os pêsames. Até hoje eu sinto saudades dele. Nunca o vi pessoalmente, mas jamais me acostumarei com a sua falta nas páginas dos jornais. Ele seria um general importante na última guerra.

Saudades do Paulo Francis

February 05, 2007
1

Há dez anos, quando Paulo Francis morreu, uma amiga me ligou para dar pêsames. Não foi a única. Senti a morte dele como se fosse a de uma pessoa da família. As quintas e os domingos nunca mais foram os mesmos sem o “Diário da Corte” (coluna que ele publicou na Folha de S. Paulo e, depois, no Estadão).
Francis foi o grande modelo intelectual da minha geração – mesmo dos que o odiavam. Era um espírito livre. Numa época em que os coletivismos ganhavam (e ganham) cada vez mais espaço, ele representou a força e o talento do indivíduo. Pertencia a uma espécie em extinção: o homem que pensa o que diz e diz o que pensa.
Francis escreveu sobre tudo e todos. Às vezes, falava de macroeconomia e ópera no mesmo parágrafo. É natural que tenha cometido erros e injustiças, pois era a antítese da unanimidade. Todos os dias, quando abro o jornal, pergunto-me o que Francis teria a dizer sobre as notícias do dia. E não há resposta. Saudades do quatro-olhos.

2

Há dez anos, morria Paulo Francis, o mais polêmico jornalista brasileiro. Era fevereiro de 1997, e a capa da revista Veja dizia: “Ele vai fazer falta”. E fez. Uma década sem Francis, e ainda não apareceu ninguém à altura para substituí-lo.
A morte colheu Francis aos 66 anos, no auge da carreira. Um infarto que ele pensava ser bursite. Nos anos seguintes, veríamos a reeleição de FHC e os dois mandatos de Lula. Fico imaginando o que Francis teria dito sobre o episódio do mensalão... Que belíssimo trabalho a metralhadora giratória de Francis faria nessa guerra!
É claro que a imprensa ainda tem os bravos Diogos Mainardis e os Reinaldos Azevedos – mas Francis não tem comparação, porque não se limitava a fazer comentários políticos. Suas colunas falavam ao mesmo tempo sobre literatura, música, cinema, sexo, psicanálise, história, filosofia, gastronomia, artes plásticas e lembranças cariocas dos anos 50. Eram esperadas e lidas, mesmo por seus detratores. Houve uma época em que eu lia Paulo Francis para sentir raiva; hoje, releio o “Diário da Corte” porque sinto saudade daquela voz inconfundível.
Ele era o crítico por excelência: escrevia exatamente o que pensava. Certa vez declarou que os seus grandes modelos de estilo eram George Bernard Shaw e Leon Trotsky. Foi trotskista na juventude. Como bem observou o economista Roberto Campos (um inimigo que virou amigo) começou na esquerda, patrulhado pela direita; terminou liberal, patrulhado pela esquerda. Talvez seja uma trajetória natural. Depois dos 30 anos, desiludiu-se com a idéia de revolucionar a sociedade e viu que o capitalismo democrático, ainda que imperfeito, era o único sistema capaz de produzir riqueza e justiça de maneira aceitável.
A contribuição de Francis para a imprensa brasileira foi importante por duas razões principais: ele exerceu plenamente a liberdade de expressão individual (um direito básico que é sistematicamente ameaçado no Brasil) e criou um estilo próprio, franco, direto, irônico, próximo ao coloquial, em que não faltavam qualidades literárias. A exemplo de muitos nomes que atuaram na imprensa – a começar por seu ídolo, Machado de Assis –, era acima de tudo um escritor.
Atuou em grandes jornais e revistas brasileiros: Última Hora, Correio da Manhã, Senhor, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e O Globo. Foi comentarista internacional da TV Globo e um dos criadores do semanário “O Pasquim”, um dos símbolos da luta contra o regime militar.
Preso quatro vezes depois do AI-5, mudou-se em 1970 para os Estados Unidos. Ironicamente, foi lá que o “subversivo” se tornou liberal. Morreu em Nova York, mas foi enterrado no Cemitério São João Batista, no Rio, donde há de vir puxar o cobertor dos medíocres à noite.

– Textos publicados no JL em 4 e 5 de fevereiro

Everybody hates Bush

February 01, 2007
Se há uma unanimidade entre nós (e quando eu digo nós, ó plural majestático, quero dizer os habitantes da Terra dos Papagaios) é o ódio mortal ao cidadão texano ora inquilino da Casa Branca. Mas lamento informar que este escriba (aqui antecipo os “xingamentos”: Lacaio do capitalismo! Neoliberal mané! Tiozão direitista! Jung Jeca Tatu! Ex-comuna comedor de petizes! Sionista dugarai!) não comunga de tal sentimento. Entre o Seo George e o Seu Jorge, um bilhão de vezes o primeiro.
Gosto de Bush? Não. Em primeiro lugar, Bush é político. E político não é alguém que se preza, é alguém que se despreza. Mente? Mente. Fala bobagem? Fala bobagem. Dá mancada? Dá mancada. Mas, ao contrário do que vivem dizendo, não é sádico nem assassino sanguinário. Digo mais. Depois dos três aviões que atingiram as Torres Gêmeas e o Pentágono (e do outro que caiu na Pensilvânia e era destinado ao bangalô da Dona Laura), a retaliação de Bush foi bem mais cheia-de-dedos (ou cicarélica, diria um gaiato) do que seria caso outro político, de Chirac a Putin, de Lula a Chávez, estivesse esquentando a cadeira presidencial em seu lugar.
Que fez Bush? Tirou o Talibã e Saddam Hussein do poder. Palmas para ele. Eram tiranias absurdas, piores até mesmo que outras ditaduras do Oriente Médio (exceção feita a Israel, uma democracia onde os árabes votam, são votados e agora – ninguém noticiou – até ocupam pasta ministerial em governo conservador).
Por uma questão de princípio, fui contra o enforcamento de Saddam Hussein. Acho que não se deve usar contra tiranos o mesmo barbarismo que eles usaram contra suas vítimas. Mas daí a dizer que Bush deveria morrer no lugar de Saddam – e ouvi mais de um defendendo isso – é a distância que vai de um traque de São João à bomba H. Bush foi eleito (duas vezes; na primeira dizem que teve chuncho, mas a segunda ninguém questiona) e voltará para os seus cavalinhos no Texas assim que o zelador da Casa Branca lhe informar que a festa acabou. Num continente em que o coroné Chávez assume poderes ditatoriais e revela para a torcida do Corinthians que não pretende deixar o poder nem fodendo, Bush é mero pó-de-traque.
Sem contar o outro Império. Acabo de entrevistar um cara que foi à China e lá viu uma fábrica de cinco andares com 150 costureiras por andar. Todas trabalhavam em bancos de madeira, com um furo no meio; embaixo do furo, um penico. Se a lógica chinesa tomar conta do mundo, acho que vamos sentir muitas saudades do Seo George.
E o pior é que o Seu Jorge vai continuar.

*****

Leio no jornal: "Chávez consegue superpoderes".
Taí. Virou o Chapolin. (Não contavam com minha astúúúcia.)