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Archive for January of 2007

São Paulo, terra estranha

January 30, 2007
Numa terra estranha,
não entendo sequer
minha língua materna.
Musas esqueléticas
e sacerdotes andróginos
ditam a lei.
E a lei vem da China.

Numa terra estranha,
o anjo caído
dispensa os serviços
de Cérbero.
E o tempo é medido
em estações.

Numa terra estranha,
vejo a estranha marcha
de um exército bulímico.
(A fome tem muitas faces
numa terra estranha.)

Numa terra estranha,
a cratera engoliu
sete plebeus
que passavam.

O mausoléu aponta o céu
e faz saber:
a terra é estranha.

O taxista baiano
tem sotaque do Brás.
Mesmo eu, caipira
pé-vermelho,
nasci na terra estranha
em 1970.
Nasci na Pompéia,
hoje coberta de lava.
Digo isso
ao taxista baiano.
Ele ri
e não acredita.

São Paulo, terra estranha,
certidão de nascimento e morte,
regida pelo deus dos pesadelos.
Contudo, compensações:
você, mulher de sonho;
o sorriso de Teo;
o reencontro dos amigos.

Tudo que é paulistano
me é estranho.
Mas o mundo é paulistano.

(Crônica publicada no JL – dia 29.01)

O mundo e o tempo

January 25, 2007
O mundo é raso.
O tempo é abismal.

O mundo é falho.
O tempo é cabal.

O mundo é quente.
O tempo, coisa fria.

O mundo é noite.
O tempo, meio-dia.

O mundo sofre.
O tempo desconsola.

O mundo é canto.
O tempo, uma viola.

O mundo é surdo.
O tempo é calado.

O mundo, imundo.
O tempo, asseado.

O mundo é fala.
O tempo, pensamento.

O mundo, eu acho.
O tempo, eu invento.

O mundo é sombra.
O tempo, todo luz.

O mundo açoita.
O tempo – seduz.

O mundo luta.
O tempo ama e cala.

O mundo é muito.
O tempo, quase nada.

Deep thought

January 25, 2007

Hoje acordei pensando.
A grande vantagem de ser o Darth Vader consiste em você poder dormir durante reuniões chatas. Mesmo que você ronque, os outros vão pensar que é aquela respiração do exo-esqueleto.

Ela quer fazer uma tatuagem

January 24, 2007
Ela quer fazer uma tatuagem.
Não importa a cor. Não importa a forma.
Uma tatuagem. De monge ou de tigre.
De herói ou de flor.
Ela quer fazer uma tatuagem.

Ela quer fazer uma tatuagem.
E que fique pra sempre. Não importa.
Uma tatuagem. De águia ou de lontra.
De cima ou de baixo. Do norte ou do sul.
De deus ou de onça. De ideograma.
Uma tatuagem. Tatoo.

No calor do mundo, ela quer tatuagem.
Um vínculo eterno com a vida.
Na pele. Uma sombra. Ferida.
Viagem: sem ida, sem volta, selvagem.
Ela quer fazer tatuagem.

Uma imagem que fale por si.
Um tempo.
Uma hidra.
Um adágio.
Ela quer fazer tatuagem.
É fácil.

A agulha que fura.
A tinta que sangra.
A doença e a cura.
O poder de quem ama.
Que importa?
Ela quer é abrir
um só vinho,
uma porta.
Como o sangue caminha
do ar à aorta.
Tatuagem!

Para sempre.
E se o tempo
quiser intervir,
que nem tente.

Piada engraçada!

January 24, 2007
Nos Estados Unidos, um bêbado caiu do décimo-sétimo andar e não morreu.
Sabe por quê?
A primeira foi pro santo.
(Posso ouvir o retumbar e ribombar das gargalhadas incontroláveis.)

Estado de coma

January 24, 2007
Ah, o Lula. Às vezes tento ficar sem falar do prefidente. Mas eis que, no caso dele, um desvalor mais alto (sempre) se alevanta.
O tal do PAC. É claro que vai empacar. É jogo para acalmar a arquibancada (pois a geral, que o botou de novo na cadeira, já está recebendo bolsa-esmola).
Que plano de crescimento pode dar certo se não ataca os problemas básicos do país? Nenhuma palavra sobre diminuição do tamanho do Estado. Nenhuma palavra sobre a bomba-relógio chamada Previdência. “Cortes” de impostos feitos à base de renúncia fiscal (um passo para negociatas) e, claro, empurrando a batata quente para os governadores. Lula faz o keynesianismo dos idiotas. Sem guerra, sem depressão, sem cérebro.
Quem poderia fazer o Brasil crescer (o diabólico empresariado, pois iniciativa privada no Brasil é considerada crime e pecado capital) continua como está: levando no lombo 40% de impostos para sustentar o Estado paquidérmico e ineficiente.
Quanto à falta de uma proposta sobre os juros, estabeleça-se o óbvio (coisa dificílima no Brasil): os juros não são a causa, mas apenas o sintoma da doença. A economia brasileira, sob Lula, é comatosa. Você não faz melhorar a saúde de um paciente em coma simplesmente fazendo-o voltar à consciência. Os juros do BC – cujo presidente o pessoal da UNE odeia, portanto deve ser boa pessoa – são apenas a manutenção minimamente racional de um paciente em coma. Acorde-o, e ele morrerá. Lula não faz nada pela saúde desse paciente. Apenas encheu-o de guirlandas publicitárias.
É claro que não vai dar certo. Mas os culpados por não dar certo já estão escolhidos: a classe média, a oposição, o empresariado e a mídia.
O próximo passo, não tenho dúvida, é rasgar contratos e reestatizar empresas (como Chávez e Morales já vêm fazendo). Sem contar a crucificação da “mídia capitalista” (da qual, vocês devem saber, eu sou lacaio). A classe média, como de costume, entra com o rabo.
Os manés aí que criticam as privatizações de FHC pode ficar contentes: em breve, vocês perderão os celulares e, quem sabe, seus blogs.
A filosofia do estatismo é assim. Não deu certo? Taca mais Estado neles!

January 24, 2007
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O melhor trocadilho dos últimos tempos

January 18, 2007
A Daniela Ciscarelli agora cismou que quer fazer direito. Ora, está comprovado em vídeo do YouTube: fazer direito ela já sabe!

Que os mortos desenterrem seus mortos

January 17, 2007
Tarde de janeiro.
Ano-novo, vida nova.
Caminhando eu pensava
no passado sem volta,
nas coisas que nunca mais.
De repente o chão se abriu
do nada
e fui engolido pela terra.
Eu sou aquele
que nunca será achado
pelas equipes de resgate.

Vida de Preto é difíci

January 16, 2007

Não conheço nesta vida ninguém que tenha acumulado tantas atividades profissionais como meu grande amigo Preto, também conhecido como Ranulfo Pedreiro, ou ainda Ramón Pedreira, Landulfo Pedrisco, Rodolfo Petrin, Ronaldo Petrucchi – e outras alcunhas que ele vem recebendo ao longo da vida (confirma todas, pois não tem paciência de corrigir os lapsos da turba).

Pois Preto só teve menos nomes do que profissões. Já atuou como corretor de imóveis (na época, a base de sua alimentação era constituída de pão e banana). Já foi baixista da banda de heavy metal Santa Inquisição, em Cambé-PR. Já foi agricultor (consta que tinha uma propriedade no Norte Pioneiro). Já desenvolveu atividades de relações-públicas (participou de vários eventos na área de neurolingüística, inclusive no papel de cobaia). Já foi entregador de salgadinhos (atividade que lhe foi mais rentável, e só não seguiu adiante por que o Fiat 147, veículo usado para as compras, pifou). Já foi garçom do finado Bar Araucana (uma época em que, reza a lenda, Preto não via a luz do Sol e, mesmo trabalhando como um camelo, acabava sempre devedor de muitas cervejas à proprietária do boteco).

Mas, sinceramente, eu não conhecia a atividade que Preto acaba de revelar: relojoeiro. É o homem dos sete instrumentos!

O blog que virou novela (desculpem, mas a maior parte do post saiu escondida, só Deus sabe por quê)

January 15, 2007

Na sexta-feira entrevistei por e-mail o jornalista e escritor Helcio Brasileiro, um carioca radicado em Fortaleza que produziu a primeira blogovela brasileira, “A Casa Caiu”. Com trinta capítulos, a novela de blog usa o YouTube para contar a história de um seqüestro e suas implicações. Quem quiser conferir, é só acessar www.acasacaiu.com.br. Segue a entrevista completa, que não pôde sair no jornal por razões de espaço:

Pergunta: A vida imita o YouTube?

Helcio Brasileiro: "A Casa Caiu" foi a nossa primeira experiência em produção específica pra Web. O Paulo Maranfon tem muita bagagem como diretor de filme publicitário e já trabalhou com cinema. Eu sou jornalista com constantes incursões pelo marketing e publicidade.
Essa frase estava roteirizada pra algum momento que não me lembro bem qual era. O Paulo resolveu editar um primeiro capítulo bem videoclipe, com esse mote abrindo a idéia do que viria pela frente, e eu concordei. Se por um lado foi uma produção sem recursos, o bom foi a total liberdade que nos demos pra testar diversas ferramentas de narrativa. 

Não tínhamos nenhum interesse em buscar patrocinadores num primeiro momento, ou seja, era a hora de testar tudo.
Quanto ao YouTube, sem dúvida é mais uma ferramenta transformadora, o seu lema "Broadcast yourself" resume de forma maravilhosa tudo isso. Não tenho dúvida que estamos vivendo uma revolução cultural e acredito que o próprio YouTube irá mudar muito, até mesmo pra se tornar um modelo negócio que tenha uma lucratividade digna do seu potencial.
O YouTube nos proporcionou algo muito legal que foi alternar nossos vídeos com vídeos reais, o que acreditamos ter dado peso à trama.

É verdade ou mito a história de que "A Casa Caiu" teve o orçamento de R$ 500?

Eu deixei meu emprego "seguro" em maio pra trabalhar em Angola. Voltei três meses depois, disposto a pegar meus sonhos e encontrar uma forma de monetizá-los, porque, enfim, preciso pagar o aluguel.
Convenci o Paulo a fazer o "A Casa Caiu". Gravamos tudo em um dia, no sábado antes das eleições. O elenco é de amigos, apenas um é ator (humorista) todos praticamente conheceram o roteiro na hora e gravaram de graça. Até minha esposa gravou.
Fizemos questão apenas de ter uma câmera profissional e som direto. A câmera entrou numa permuta com uma produtora grande, o cinegrafista é amigo e não cobrou nada. Pagamos apenas o cara do áudio, os assistentes e a comida do pessoal. Eles foram incríveis. E olha que todos estavam trabalhando no ritmo louco de campanha política e dia seguinte teria votação do primeiro turno.

A concepção do projeto blogovela e a criação do blog, assim como viralização do conteúdo, ficou por conta de uma parceria com a Espalhe. Há cerca de quatro anos sou colaborador deles como gerador de conteúdo e foi lá que passei a ver a Web de outra forma. Eles também apostaram no projeto.

Por que você optou por uma linguagem bastante próxima ao videoclipe?


A gente não tinha muita experiência em compressão de vídeos e pouco conhecia sobre os players. Optamos então por vídeos curtos e no pela veiculação no YouTube pra facilitar a viralização, embora perca muito da qualidade de vídeo.
Essa questão do conceito é muito interessante. O fato de ser batizada de blogovela chamou a atenção de gente que gosta de telenovela e afastou a garotada que vive na Web direto. Uma moça que trabalhava comigo e que adora telenovela assistiu e disse: "não entendi nada". Esse era um risco previsível e que a gente quis correr. Nosso interesse não era reproduzir o que se faz na TV. 

 

Você tem um livro publicado e agora lançou a blogovela. Tem planos de se tornar o Manoel Carlos do mundo virtual?


De jeito nenhum. Só se fosse pela possibilidade de morar no Leblon com a conta bancária recheada.
O livro foi escrito quando eu era subeditor de cidade de um jornal. Achava aquelas matérias de buraco de rua um saco, ainda mais com o formato duro do jornalismo tradicional com seus malditos leads. Entre uma matéria e outra, eu torturava um personagem alter-ego no editor de textos. Até que um dia saí do jornal e resolvi transformá-lo em livro exatamente pra me livrar dele.
"A Casa Caiu" foi uma experiência que serviu pra criar a Fundamental Vídeo-Conteúdo. Não queremos ser uma produtora de vídeos pra Web, muito menos de novelas. Nosso interesse com mídia é aproveitar as diferentes possibilidades da rede pra gerar conteúdo variado, entretenimento de uma forma geral. Claro que já pensando em convergência, tecnologias móveis, IPTV, num mundo que está vindo por aí em alguns anos.

Qual foi a repercussão da blogovela?

Se você avaliar que com 500 reais conseguimos aparecer no Jornal de Londrina, tivemos grande espaço nos jornais locais, saímos no A Tarde, Folha de São Paulo, O Globo, em diversos sites e blogs, temos que considerar que foi um sucesso. Quanto à visitação, não foi estrondosa. Mas foi sem preço pra gente pelo grande feedback que tivemos, inclusive com relação aos hábitos das pessoas quando estão conectadas. Muita gente, por exemplo, entrava uma vez por semana e via vários de uma vez.  Claro que o tema era duro, nada aprazível. Tem uma amiga que nada comigo que disse que estava com medo de ir pra faculdade porque não sabia que acontecia aquilo tudo. Outro rapaz divulgava enlouquecidamente pelo MSN pq, segundo ele, ACasaCaiu era a "novela do que não se mostra na mídia".


Como você vê o recente imbróglio envolvendo Daniela Cicarelli e o YouTube?


Participo de uma lista de discussão onde o tema foi debatido de forma eufórica. Confesso que não abria os emails sobre esse caso, embora ele seja interessantíssimo. Percebi que muita gente se sentiu como se tivesse sido roubado, e de fato eles estavam sem poder utilizar uma importante ferramenta de expressão. Por outro lado, o convívio social necessita de regras e é preciso que existam formas de cada um defender seus interesses, e se a modelo (ou o namorado dela, como disse a nota da MTV) se sentiu "invadida", tem mais é que recorrer à justiça mesmo.

Mas a questão é complexa demais e não é na marretada que se resolve. Eu, por exemplo, tenho o vídeo em casa, que baixei na época porque minha esposa estava curiosa, já que os alunos dela na faculdade não tinham outro assunto. Se tirassem o YouTube do ar, eu, caso fosse esse meu interesse, poderia compartilhar esse vídeo por inúmeras vias ou mesmo enviar por email pra quem eu quisesse.
Não vejo forma sadia de manter o respeito na Web que não seja através das condutas dos próprios usuários. Como seria isso exatamente não sei, sei que não seria proibindo acessos nem marcando os usuários como se fossem vaquinhas.

 

Tentativa de post

January 15, 2007

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Últimas palavras

January 12, 2007

Não sei de que sorte
será meu dizer
na hora da morte. 

Não sei que palavra
me virá à mente
no duro poente. 

Já tanto pensei
na frase de adeus,
que nem mesmo um rei,
que nem mesmo um deus. 

Mas tanto esforço
foi um desconsolo:
eis que o resultado
pareceu-me tolo. 

Morrer como Goethe
a pedir mais luz?
Gritar-Lhe Por quê?
desde uma cruz? 

Dói-me como um corte:
quanto mais eu penso
mais sei que a morte
vir-me-á em silêncio.

O homem sem cabeça

January 12, 2007

Ezequiel sonhou que não tinha cabeça. Mesmo assim – sem olhos, sem boca, sem ouvidos, sem crânio – conseguia viver. Comunicava-se por código Morse. Vivia como um homem comum: tinha mulher, filhos, casa, trabalho, automóvel, time de futebol. Só não tinha cabeça. O sonho de Ezequiel veio numa noite agitada e quente. A última imagem que restou, antes do despertar, foi a de uma escuridão completa, de onde saíam risadas masculinas.

Quando Ezequiel acordou, ainda estava escuro. O relógio da cabeceira havia parado em 5 horas e 20 minutos. Ezequiel abriu os olhos.

“O relógio acerta duas vezes por dia”, pensou Ezequiel, e foi o seu primeiro pensamento do dia. O segundo pensamento foi o de que era preciso fazer alguma coisa. O homem sem cabeça do sonho era mais feliz do que ele, com cabeça, na vida real. Ezequiel fora abandonado pela esposa; os filhos sumiram no mundo; o último emprego fora no século passado; a casa de madeira estava sendo engolida pelos cupins; o Del Rey jazia no ferro-velho, depois de uma batida com perda total; seu time havia caído para a terceira divisão.

Ezequiel passava semanas sem falar com ninguém, exceto para pedir comida na rua. Nesses momentos de humilhação, ouvia o som da própria voz, e não se reconhecia. Era a voz de um garoto misturada com a de um velho – a voz de um estranho.

Ezequiel tinha uma lanterna; passava algumas mensagens em código Morse para ninguém. Naquela noite, a pilha da lanterna havia acabado.

Levantou-se sem lavar o rosto (a água estava cortada). Abriu a gaveta da cabeceira, onde guardava a lanterna, um estilete e uma carteira da previdência social. A lâmina do estilete faiscou diante dos primeiros raios de sol.

Ezequiel caminhou cinco quarteirões até o ponto de táxi mais próximo. Teve que acordar o único motorista de plantão, que fizera duas corridas durante a noite. Quando o motorista deu a partida no carro – era um Del Rey –, Ezequiel percebeu que pela primeira vez na vida estava andando de táxi. Disse o endereço com uma voz estranhamente firme.

Quando chegou ao local indicado, pediu para o taxista esperar um pouco. “Volto já.” O frentista de macacão azul contava as gorjetas no caixa do posto. Ezequiel espetou-lhe a ponta do estilete nas costas: “Passa a grana. Se gritar, morre”. Não era a voz de Ezequiel – era a de um demônio. Trêmulo, o frentista lhe passou o que tinha em caixa: R$ 250.

Ezequiel deu as costas ao frentista e marchou de volta para o táxi. No trajeto, pensava: “Eu vou pagar o taxista. Eu vou pagar o taxista”. Antes de abrir a porta do Del Rey, foi derrubado por uma onda azul de cinco frentistas, que o imobilizaram e chamaram a polícia.

O calor aumentou. Ezequiel foi jogado numa cela escura, onde homens riam.

(Crônica publicada no JL)

Olhos tristes

January 12, 2007

Os olhos da pomba são tristes, percebeu? Leão de zôo, diz o poeta Capucho, tem os olhos tristes. Não apenas: impossível ignorar a tristeza abissal dos olhos do leão de circo. Desconfio que todos os leões do mundo, livres ou não, reis da selva ou escravos da jaula, têm os olhos tristes, com a exceção do antipático treinador do Corinthians. Mas mesmo esse Leão aí, quando goleiro, traía alguma tristeza ocular ao recolher a bola no fundo das redes.

Ontem conversei com uma amiga de olhos tristes e verdes, estranhamente parecida com a garota que eu vira de longe, uma noite antes, no Valentino. Há na cidade um incalculável número de mulheres com os olhos tristes. Minha namorada, por exemplo – e são belos.

Existe um parentesco subliminar entre as mulheres de olhos tristes; como se elas fossem irmãs, mães e filhas umas das outras; como se compartilhassem o mesmo idioma secreto, uma língua sem palavras, o esperanto dos olhos tristes.

Se alguém tem os olhos tristes, não significa necessariamente que essa pessoa é triste; pode ser alegre, até mesmo feliz. Os humoristas, em geral, têm os olhos tristes. É que ninguém sabe rir, ou fazer rir, se nunca viu a tristeza.

Alguns olhos tornam-se tristes da noite para o dia, e nunca mais voltam a ser o que eram antes. Nenhum problema: olhos tristes podem ser muito melhores do que olhos alegres. E pergunto: o que são olhos alegres? É fácil imaginar um par de olhos tristes, mas complicadíssimo definir o contrário. O animal humano sorri com os olhos, é bem verdade. No entanto, surge o paradoxo: olhos que sorriem são tristes.

A arte de descobrir olhos tristes pertence à noite. É quando eles brilham mais. Se somos filhos das estrelas, como diz a Ciência, os olhos tristes reafirmam essa ancestralidade. Plutão, se tivesse olhos, teria-os tristes, pois acaba de perder a condição de planeta. Minha tarefa é estudar a astronomia dos olhos tristes. Difícil arte; passatempo e trabalho para uma vida inteira.

Os olhos da pomba são tristes porque, no fundo, ela sabe que vai morrer. Os olhos da pomba – e os do cavalo, e os do cachorro, e os da formiga, e os do morcego, e os da serpente, e os do homem, e os da mulher. No fundo, todos os olhos são tristes. Inclusive os de quem lê esta página agora.

(Crônica publicada no JL) 

Ciscar, entubar, censurar: verbos intransitivos

January 09, 2007

É como dizia Gene Simmons, físico e baixista do Kiss:

“Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Só tenho dúvidas quanto ao universo”.

Mestre Yoda comentaria:

“Certo ele está; Daniela Ciscarelli veja caso”.

Como todos já devem saber, o Brasil é motivo de (mais uma) chacota universal por censurar o MeEntube graças a uma ação movida por Daniela Ciscarelli & namorado-cumé-que-é-o-nome-dele-mesmo.

O juizinho que proferiu a decisão só se esqueceu de ver que todo mundo-e-seu-irmão, até o Porteiro Vivaldo, já assistiu ao vídeo da modelo man-dando ver com o namorado na Espanha.

Resultado da luminosa decisão do meritíssimo: os raros cidadãos que não viram o vídeo do lesco-lesco espanhol agora vão querer ver de qualquer jeito (e não há muita dificuldade nisso, já que todo mundo-e-seu-irmão gravou o vídeo). E Ciscarelli vai ganhar mais algum em cima do episódio espanhol (a simples publicação deste post já é lucro para a moça).

Eis que a estupidez asinina recebe mais um upgrade do Poder Judiciário.

Alguém poderia perguntar:

“Quem veio antes: o ovo, a justiça bananística ou a Daniela Ciscarelli?”

Ao que o baixinho responderia:

 “Lá sei eu. A língua pra Cisca mostra”.

(Boa dica do amigo Rubão: o comentário de Josias de Souza sobre o caso Ciscarelli-YouTube. Vá ao Google que eu não consigo mais fazer links aqui. Pelo menos até amanhã, né, seo Moreas?)

Esse é um país que vai pra frente

January 09, 2007


Reeleitores do Brasil, uni-vos! Telefone pra vocês!

Chávez anunciou que vai reestatizar a eletricidade e a telefonia na Venezuela. Os inimigos da privatização e do capitalismo, tão numerosos no Brasil, deveriam sugerir ao nofo prefidente que faça o mesmo nefte paíf. Sem dúvida, o aumento dos gastos públicos vai contribuir em muito para o pacote do crefimento.

(Desculpem o pequeno retorno à seara política. É que nesse ponto eu sou igual a alguém que conheço: não sei calar a minha boca.)

Uma prato de miojo

January 08, 2007

Que chuva, hein? Quatro dias quase sem parar. Acho que só parou mesmo de cair água na hora em que minha irmã Maria Fernanda entrou no salão de festas para se casar com o Roger, em cerimônia budista.

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Maria Fernanda me disse que os budistas recomendam pensar em cinco qualidades de uma pessoa antes de falar sobre um defeito. Difícil, não? Mas ser cristão também tem dificuldades imensas. Ou alguém acha que é simples amar os inimigos e não julgar para não ser julgado?

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Eu era ateu e virei cristão; era comunista e virei liberal. Há quem reclame da mudança. Alguns me acusam de vira-casaca, traidor, lacaio do capitalismo. Na verdade, eu não acredito o sistema capitalista seja grande coisa, não. Como dizia Churchill, é só um sistema menos pior do que todos os outros.

*****

A gente não muda de idéia da noite para o dia. Às vezes, leva anos. Foi o meu caso. Um dos livros que me ajudaram a deixar o credo comunista foi “Auto-engano”, de Eduardo Giannetti.  Há pouco o livro foi relançado. Vale a pena ler e reler.

*****

“Auto-engano” fala sobre as mentiras que contamos a nós mesmos. Algumas são inocentes, como tentar enganar o despertador de manhã. Outras são necessárias, vitais. Mas há mentiras trágicas. O comunismo e o nazismo produziram milhões de cadáveres em nome de falsidades ideológicas.

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Enquanto chovia aqui no Brasil, do outro lado do mundo morria um gênio do capitalismo: Momofuku Ando, o inventor do macarrão instantâneo. Li a notícia no blog vaca.tipos.com.br.

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Ando é um herói para mim. Desconfio que, sem o macarrão miojo, eu teria morrido de inanição nos tempos de estudante. Miojo era a base da minha alimentação entre 1989 e 1992.

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No céu tem macarrão instantâneo? Não sei. Por via das dúvidas, vou comer um prato de miojo. Sabor frango.

(Crônica publicada no JL)

Wilma!

January 03, 2007

 

Escrevi uma resposta para a moça Wilma. Essa aí de cima (e ali embaixo).

Depois pensei que ela poderia ser o Márcio Leijoto. O Moraes. O povo do Vaca. Disfarces! Não sei quem ela é. Só sei que me odeia. Desisti da resposta. E então decidi.

Wilma, cara Wilma, volte para as trevas. Por minhas mãos, você veio à luz; por minhas mãos, retornará ao escuro, de onde nunca deveria ter saído. Eu sou seu pai, Wilma. Sem mim, você não existiria.  

Veja que pesadelo: sua única chance é a minha benevolência. E esse é meu único poder, soldado raso e liberal que sou, salário mínimo. 

Volte para o escuro, Wilma – onde há choro e ranger de dentes. 

Bando do Brasil

January 03, 2007

Algum gênio do marketing teve a brilhante idéia de mudar o nome das agências do Banco do Brasil. Da janela do ônibus, eu vi o Banco do José. Agora mesmo fui almoçar e vi o Banco da Renata.

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Tenho aqui minhas sugestões de nome: Banco do Dirceu, Banco do Valério e Banco do Luiz Inácio.

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O nome mais adequado, contudo, me parece Banco do Mané. Somos nós na película, irmão! 

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Não defendo mais as privatizações. Mudei de idéia. FHC foi zeloso demais ao vender as telefônicas. Acho que as estatais devem ser dadas de presente. Sairia menos caro para o país.

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Requião, esse ícone da esquerda brasileira, elogiou Chávez em seu discurso de posse. Ótimo. Passarei a chamá-lo de Seo Madruga.

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Uh-uh. Tive uma recaída política. É o Efeito Wilma. Parabéns, moça!  Mas prometo ficar mais algum tempo sem falar no assunto.

Começando o ano bem

January 02, 2007

Acabo de receber dois comentários interessantíssimos de uma leitora que assina como Wilma. Publico-os aqui, com maior visibilidade, para conforto de nossos leitores e alegria da comentarista. Gostei principalmente dos trechos destacados em negrito. Vamos lá:


Coitadinho do Briguet!

Precisa fazer análise, deitar no divã, expiar suas angústias e libertar-se de seus demônios. É melhor do que trazer pra cá a crítica de um leitor para ser consolado por seus amigos. Serve para conhecer a si mesmo, pelo menos. Ser confortado pela patota do Tipos desafoga mágoas mais fácil? Se sim, o colinho da mamãe é melhor ainda.

Certa vez vi o Briguet na UEL, ciceroneando o Raimundo Pereira e o Domingos Meirelles: "Estou chegando atrasado porque até a pouco estava cumprindo o horário para fechar sem atrasos a última edição de um porta-voz do capitalismo."

O que o ponta-pé na bunda que levou da Folha não fez, hein? Aprendeu na dor, hoje é liberal, é servil ao capital sem pudor algum.

Ouvi alguns de seus professores decepcionados com a atual postura dele. Tentando ser um Jabor, ou se espelhando nele (oh céus), faz o papel de mandalete na redação da subsidiária, pra chegar a grande colunista da Holding. Aplica seu “talento” em prol do Status Quo que sempre reinou, em prol de quem não sofre tanto.

Cadê aquele idealismo que ele trazia consigo e que seria capaz de elaborar uma ótima crônica a favor dos velhinhos aposentados que não conseguem visitar seus parentes distantes porque as empresas de ônibus e seus lobistas conseguem derrubar o Estatuto do Idoso na Justiça???? Ah... já sei, dá mais dinheiro escrever adulando os “pobrezinhos” que perdem o vôo por conta do "over booking" (JL - 27/12). Liberalismo é isso aí!!!

Procure sim um analista, Briguet. Não é tão fácil assim mudar da água pro vinho, no peito, sozinho, do dia para a noite. Os demônios sempre aparecem. Lidar mal com críticas é apenas uma destas manifestações. Saia deste armário, não se esconda. Amigos sempre vão puxar o saco. Faça análise, vai te ajudar. Pra quem já está pagando pau nas rodas dos botecos como o Paulo Francis caipira, o Jabor anão, o Mainardi paraguaio, o Domingos Pelegrini piorado... pode ser que resolva até. E é bem melhor do que ficar bancando o "macho cheio de culhões" que não gosta do Brasil.

Obs: até sua foto, nas colunas do JL, mostra um quê de arrogância. “O corpo fala”, Briguet. Vista de novo as sandálias da humildade. Nem bonito você é. Pra quê aquele ar de dono da verdade??

Wilma, vingada. E feliz por descobrir teu Blog.

*****

Você brochou, Briguet??? Por causa de um baseadinho??? Mas o que é brochar pra você?? É não levantar a ferramenta ou não conseguir conversar com uma mulher? É, porque testudo, dentucinho e feiinho como você, pra falar a verdade nunca vi você com mulher. E ficar ouvindo uma ária de Mozart então... putz, qual mina não quer ficar com um cara assim?Teu Sex Appeal é falho. Mas é bom ficar bancando o intelectual nos botecos, com o copo de bebida na mão(que também vicia e arruina muitos mais lares que a erva). A hipocrisia é a grande arma dos liberais. "Num pode fumá, ma podi bebê"
Fica doidão, sai de cuequinha na pracinha e precisa se afirmar macho que não libera o rabo nem pra fio terra. Sai do armário, encare a vida com toda sua dignidade.
É tua sina, feio. Solitário, com um monte de amigos te bajulando por conta de uma retórica mais ou menos engajada.

Wilma - vingada e feliz por achar estas porcarias que você despeja aqui.


 

Pobres dos pobres

January 02, 2007

Manchete da Folha de Londrina hoje:

REQUIÃO ENDURECE E INVESTE NOS POBRES

Depois dizem que os liberais é que são malvados. Mal começou o ano, e o Requião faz isso com os pobres. Sacanagem.