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Archive for November of 2006

Eu, ateu

November 30, 2006

 

Quando eu era ateu, a vida não era mais difícil nem mais fácil. A vida só era inevitavelmente triste. Olhava para a indiferença de tudo, depois da morte, e me sentia só como a poeira debaixo dos tacos.

Ninguém é ateu 24 horas por dia. Mesmo durante os sonhos, vislumbra-se alguma possibilidade de Deus. Hoje percebo que nunca escrevi Deus com letra minúscula.

Acho que na maior parte do tempo eu era agnóstico. Ateu, só em alguns momentos de iluminação. Isso mesmo: o ateísmo tem a sua própria mística.

Nos meus tempos de ateu (e foram longos tempos: ao menos 15 anos), nunca desprezei ou ridicularizei os crentes. Agora que acredito em Deus, não desprezo nem ridicularizo os ateus. Continuo preferindo um ateu honesto a um crente canalha.

A existência de Deus me põe diante de uma testemunha – como se houvesse um valor transcendente nos meus atos (os bons, os ruins, os neutros). A culpa me acompanha, mas não tortura mais.

Antes de uma viagem de carro, ônibus ou avião, eu fechava os olhos e ficava em silêncio. Era como se eu dissesse: “Não creio. Mas, por favor, me proteja”.

Quando eu era ateu, é óbvio, não rezava. Mas pedia que meus amigos rezassem por mim. “Por favor, peça ao seu Deus...”, eu costumava dizer. E era o mesmo Deus de agora, esse concerto de João Sebastião sem fim. Escute só.

De ferro e carbono

November 29, 2006

Mãe não entende se você não come tudo que está no prato. Mãe não aceita desculpas do tipo “Se os outros podem, por que eu não posso?”. Mãe responde: “Os outros não são meus filhos”.

*****

Mãe adora ouvir o barulho da fechadura quando o filho chega. Mãe tem cheiro de banho, tem cheiro de bolo, tem cheiro de casa limpa.

*****

Mãe fica assustada quando vê o caso daquela modelo que morreu de anorexia: “Eu já falei pra você comer tudo!” Mãe fica assustada quando lê notícia de assalto. Mãe fica assustada quando lê notícia de acidente. Mãe fica assustada quando lê notícia de briga. Mãe fica assustada quando lê notícia. Mãe fica assustada.

*****

Mãe não está nem aí para o que os outros pensam. Mãe foge com o filho para o Egito, montada num burrico. Mãe tem sonho. Mãe tem pressentimento. Mãe tem sexto sentido – e sétimo, oitavo, nono, décimo. Mãe não faz sentido (para quem não é mãe).

*****

Mãe chora ao pé da cruz. Mãe chora em rebelião. Mãe chora se o filho é messias ou bandido. Mãe acredita. Mãe não pode ser testemunha no tribunal. Mãe é café com leite. Café com leite, pão com manteiga, biscoito, bolacha de água e sal, banana cozida. E ainda faz você levar um pedaço de bolo pra casa.

*****

Mãe só tem uma, mas é tudo igual. Mãe espera o telefone tocar. Mãe espera a campainha tocar. Mãe espera o resultado do vestibular. Mãe espera o carteiro. Mãe moderna espera e-mail. Mas espera. Mãe sempre espera.

*****

Mãe ama. Assim, verbo intransitivo, como queria Mário de Andrade. Porque, se é mãe, já se sabe o que ela ama. A culpa é da mãe, dizem os freudianos superficiais. Os verdadeiros freudianos sabem que, sem mãe, nada feito.

*****

Uma amiga costuma dizer: “Pai é palhaço, mãe é de aço”. A frase é interessante, porque o aço é uma liga de ferro e carbono. Ferro é o símbolo da força; carbono é o elemento presente em todos os organismos vivos. A mãe constitui a liga entre a fragilidade e a força do indivíduo. Não há algo mais vulnerável e mais sólido que a maternidade. Mãe é de aço.

*****

A esta altura, você deve estar perguntando: “Mas por que esse cara está falando tanto de mãe?” A verdade é que eu não sei. Talvez seja porque a palavra mãe não tenha equivalente. Já notaram? Mãe só rima com mãe.

A morte se veste magra

November 28, 2006

Ontem à noite escrevi a Canção da anorexia, inspirada pela morte daquela moça. Leia lá no Scalassara.

Minha mãe reza por mim

November 27, 2006

Na primeira vez em que fui morar fora (para estudar), minha mãe me acompanhou até a rodoviária e chorou. Pensei: “É só a primeira vez”. Ela chorou também na segunda, na terceira e na décima vez. Pedi então a ela que não fosse mais à rodoviária – eu já estava ficando constrangido; era quase um veterano na faculdade e a minha mãe ainda chorava ao se despedir.
Fui para a rodoviária e minha mãe ficou em casa, onde também deve ter chorado. Mas, a partir daquele dia, ela se concentrou numa outra técnica maternal: a oração.
Minha mãe reza por mim. Não devo ter apenas um anjo da guarda, mas uma esquadrilha de querubins, todos tributários das rezas da dona Aracy.
Ontem, por exemplo, eu não fui ao bar. Deve ter sido reza da minha mãe.
Minha mãe reza por mim quando eu vou à Quinta Sem-Lei e exagero na cerveja. Quando durmo no bar. Quando durmo em festas. Quando esqueço a porta da sala aberta.
Minha mãe reza por mim para que eu acorde antes de o Miojo queimar. Para que eu não seja demitido. Para que os taxistas e os motoristas de ônibus guiem direitinho. Para que a minha namorada continue gostando de mim, e cuidando de mim, e me dando bronca quando eu mereço (a mãe dela também reza por ela).
Minha mãe reza para que eu sempre tenha idéias para escrever crônicas – e, se não forem crônicas, podem ser poemas. E, se não forem poemas, podem ser rezas. Rezas que me façam escrever e ganhar a vida.
Minha mãe reza para que eu ganhe dinheiro; para que eu guarde dinheiro; para que eu não gaste muito dinheiro; para que eu aprenda a dirigir; para que eu tome jeito, enfim.
Ela reza para que eu me alimente direito (café da manhã, almoço e jantar); para que eu coma frutas e verduras; para que eu faça exercícios; para que eu diminua minha barriga; para que eu vá ao médico fazer os exames que há tanto tempo prometi; para que eu não seja assaltado ao voltar do Bar Brasil. Minha mãe é corintiana, mas sei que reza, não para o Palmeiras ganhar, mas pelo menos para não cair para a Segunda Divisão (e não caiu, mesmo sendo aquele time de merda; só reza de mãe!).
Minha mãe reza para que a visite mais; para que eu telefone mais; para que eu reze mais. Minha mãe reza para que um dia não precise mais rezar tanto por mim. Nesse dia, os anjos finalmente terão sua folga, e minha mãe vai ficar mais tranqüila, pensando em outros motivos para rezar. Mas, mesmo nesse dia, tenho certeza de que ela vai dar uma rezadinha por mim. E Deus vai pensar: “Ah, essa dona Aracy. Não me dá sossego”.

Ora, bolas

November 26, 2006

O Porco está mesmo uma beleza. Continuamos na primeira divisão, mas levamos uma surra em casa de 4 a 1 para os gaúchos. Para piorar, o gol “de honra” do Palmeiras foi contra. Tinha que pegar aquele bando de carcamanos da diretoria e mandar de volta pra Itália. Fomos salvos por um outro verde, mas este bom de bola, o Goiás, que bateu a Ponte Pinas de Campreta. Quer saber? O time merecia ter caído. O Palmeiras está como aquela personagem do Tennessee Williams – depende da bondade de estranhos...

A indignação impera nos botecos da Rua Turiassu, Brás e Bexiga.  

***** 

Povo do Vaca:

Até agora estou rindo sozinho daquelas legendas do cowboy indiano. 

***** 

Tanga, disseram que aquela menina que mandou o Silvio Santos enfiar o bambu no cu carregou o trauma pelo resto da vida. Vítima de depressão, passou a levar um bambu de um lado para o outro. É sério. É sério?

E o SS lá, com seu indefectível sorriso. 

*****  

E quem não se lembra da verdadeira versão do grito do He-Man?

– Pelos poderes de gay que sou! EU QUEIMO A ROOOSCA.

O Aquático comentaria:

– Boloblboblolololololo.

Uma noite com Dandara

November 24, 2006

Era uma quinta-feira. Não era Quinta Sem-Lei, porque a Quinta Sem-Lei não havia sido inventada. Era apenas 1992. Porém, aquela noite ficou marcada. Pelo simples e milagroso fato de que Dandara decidiu dar pra mim.
E era uma atleta, Dandara. Submeteu minha pobre cama de solteiro – reforçada com tijolos de elemento vazado – a uma sucessão de tsunamis (embora eu não conhecesse o termo na época).
Pela manhã, após não dormirmos juntos, Dandara resolveu deixar sua marca no espelho do banheiro da república. Sacou um lápis de maquiagem, desses que as mulheres fatais carregam na bolsa, e tascou um EU TE AMO no espelho do banheiro.
Me amava porra nenhuma. Dizia isso pra todos. Queria apenas deixar sua marca.
Tentei água e sabão, tentei álcool, tentei querosene, tentei ácido sulfúrico. Nada apagava o EU TE AMO falso de Dandara.
O jeito foi dar um soco no espelho e ligar para o vidraceiro.
Quando perguntaram o que havia acontecido com o espelho, eu dei um sorriso bem amarelo e disse que havia sido piti do Baiano (hoje o respeitável dr. Anderson, casado e pai de gêmeos).
Cada coisa.
 

***** 

Imagine uma reunião da APCD (Associação das Pessoas que se Chamam Dandara). Você chega num sala onde se realiza a reunião da entidade e grita:
– DANDARA!
Todas olham. Todas. Inclusive aquela.

Você vai pagar caro por isso, He-Maaaaan! Montanha de mússssculos!

November 24, 2006

É assim que geralmente os guerreiros ficam depois da Quinta Sem-Lei:


Outros, porém, ficam assim:


E, depois de tanto líquido, os seres aquáticos dizem:

- Obolobobololololololoboblblbobobobolloooloolo. 

Rebentos da Era de Aquarius

November 24, 2006

Hippie deveria ser proibido de dar nome para filho. Assim evitaríamos os traumas psicológicos dos rebentos da contracultura que se chamam Dandara, Zabelê, Krishna, Riroca, Thomas Green Morton Sobrinho, Jimi Hendrix da Silva, Moreno e Luã.

(Espero não ser processado pela APCD – Associação das Pessoas que se Chamam Dandara.)

Com certidão de nascimentuuuuuuuu... sou piradãããããão! 

Faltei à Quinta Sem-Lei

November 24, 2006

Hoje não preciso de Neosaldina. (Com voz de Silviosantosvemaí: “Isto é in-crí-vel”.)

É que ontem, pela primeira vez em muito tempo, não fui à Quinta Sem-Lei. O mundo não acabou por isso; nem mesmo choveu; a Fenaj continuou defendendo o diploma obrigatório para jornalista; e a letra do Hino Nacional continuou incompreensível para 99% da população.

Fiquei em casa com meus trocadilhos bestas, com meus concertos do João Sebastião, com a minha Coca-Cola sem gás. Estava um calor danado. Pus um pijama e fiquei lendo uma coisa ou outra, um conto do Machadão, um poemeto aqui e ali, um e-mail engraçadíssimo que tem, entre outros, os nomes de um professor de hipismo (H. Lopes), de uma mãe-de-santo (Sara Vaz), de um instrutor de auto-escola (Passos Dias Aguiar). Deu preguiça de tomar banho, chamar um táxi e comprar as protocolares três fichinhas da cerveja-mais-cara-dubrasil.

Fiquei em casa, cochilando, comendo pão com pão, pensando na vida.

Desculpem, meus amigos. Desculpem, Rocha, Tanga, Pafu, capitão Mantovani, Rubão, Cris P. (parabéns, moça!), Lílson e outros que porventura tenham ido ao famigerado balcão do Bar Brasil.

Mas, se a quinta é sem-lei, tenho o direito de não ir pelo menos uma vez, não? Na próxima estarei de volta ao balcão de sempre.

Bom-dia, amigo! Bom-dia, irmão!

November 23, 2006

De vez em quando você não se assusta por acordar sempre no mesmo tempo e lugar? Sinceridade, acho isso bem estranho. Se durmo ontem, acordo hoje. Se durmo hoje, acordo amanhã. É quase sempre assim. Por que nunca dormimos e acordamos, digamos, em 1985 ou 1996? Ou em Paris, em Los Angeles, em São Luiz do Maranhão (não; São Luiz deixa pra lá). A vida deveria ser mais variada, na minha modestíssima.

Em nome da variedade, eu me permito dar cochiladas em bares de vez em quando – mas acabo sempre acordando para tomar mais uma. Nunca me aconteceu de acordar em um boteco fechado, na companhia do balcão, das caixas de cerveja, dos ratos. Acho que ainda tenho amigos... Nunca despertei com o terrível barulho do freezer ligado noite adentro, quando todos foram embora, inclusive o dono do bar. Sem contar o cadeadão na porta de aço. Não, não aconteceu. (O anjo da guarda. Minha mãe reza pra ele todo santo dia.)

O máximo que me acontece é acordar na sala da minha própria casa, ao som de alguém vendendo alguma coisa no Polishop. E a desafinação ancestral dos passarinhos; o arrulho premonitório das pombas na janela; a criançada do prédio indo pra escola; os movimentos da faxineira do condomínio; meu vizinho de cima que pratica jogging no apartamento. Acordo precisando de um banho, duas Santas Neosaldinas e uma partita do João Sebastião.

Eu gostaria de poder escolher o dia em que vou acordar. O dia e o ano. O dia, o ano e o século. Minha vida seria uma sucessão de quintas-feiras com folga na sexta.

E mais não digo porque hoje é; mas amanhã não é.

A guerra do canudo

November 22, 2006

A história do diploma para jornalista voltou à ordem do dia.

Está no Supremo.

Precisa de diploma? É claro que não precisa. Para ser jornalista, basta saber escrever, ter um pouquinho de bom senso e cultura geral. E essas três coisas são cada vez mais raras.

Os mais prejudicados com o fim do diploma obrigatório serão: 1) os donos de faculdades particulares (que ganham rios de dinheiro em cima da exigência legal); 2) os que têm diploma, mas não têm competência; 3) o pessoal da Fenaj, que levanta essa bandeira há muitos anos (desde o tempo em que eu levava a Fenaj a sério).

O fim do diploma será bom para o jornalismo, porque facilita a liberdade de expressão e vai obrigar as faculdades a se redefinirem. Depois que o diploma cair, minha sugestão aos defensores dessa "bandeira" é simples: carpir data e/ou carregar abóbora no Ceasa.

Mas depende do Supremo. E o único supremo de que eu espero alguma coisa é o de frango.

Filho-da-puta

November 19, 2006

Filho-da-puta
é palavra forte,
unida por hífens
jurada de morte.

Filho-da-puta,
mais que palavrão,
é só a essência
da palavra não.

Filho-da-puta,
belo xingamento.
Melhor que jogar
palavras ao vento.

Filho-da-puta
é soltar os cães
da verdade oculta
nos filhos da mãe.

Onhersa de ãnho

November 18, 2006
– Uxa! Há nhanto hempo!
– Ãnhei nhiajando.
– Pra onhe?
– Eíve em Bé Onhinhonte.
– É esmo? E uê ostô i lá?
– Ostei as nhinga.
– Nhinga?
– É. As achaça. Incipalmente as ama’ela.
– E as uié?
– As uié ão unita.
– Uê coeu al’uma?
– Ão.
– Uh-ê?
– Uh-ê elas ão inhendia u eu alava.

******

Reflexão do dia (nada a ver com o diálogo anterior): “A maior preocupação das pessoas que se consideram sofisticadas é esconder que elas também cagam”. (Não sei por que as aspas, se a frase é minha mesmo.)     

Em número de três

November 17, 2006

 

1.

– Que perfume forte é esse
que me leva a outro lugar?
– É o cheiro da dama-da-noite,
mulher de alma invulgar.

 

2.

– Que rima será perfeita
pra minha vida encerrar?
– A rima pobre que, feita,
passará a não rimar.

 

3.

– Que espírito existia
antes de haver o tempo?
– O espírito sobre as águas,
que era Deus em silêncio.  

Papo de ônibus

November 16, 2006

Quem inventou o ônibus decerto não era passageiro. 

*****         

Existem três roletas: a do cassino, a russa e a do ônibus. Na última você perde sempre. 

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Ônibus é tão coletivo que já vem no plural. 

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(De um professor de redação enfurecido.) Este ônibus não vai até o ponto final? Uma vírgula! 

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Muito embarcam no ônibus, mas eu nunca vi ninguém onibusar em barco. 

*****         

Ônibus, óculos, ônus: palavras plurais para problemas singulares. 

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Quem corre atrás do ônibus corre o risco de chegar ao ponto desejado sem pagar passagem. 

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Se você perdeu o bonde da história, ainda há tempo de pegar o ônibus. 

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Mais um passinho pra frente, por favor. 

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O sr. vai descer no próximo ponto?

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Este aqui pára no terminal? 

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Bom ônibus é como a boa frase: pára no ponto certo. 

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Meu amor: subi no ônibus Roma-UEM. (É que eu li uma revistaí.)

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Da mulher do motorista, vendo o marido chegar bêbado em casa:

- A que ponto você chegou!

Santa burocracia, Bátema!

November 14, 2006

Sempre achei meio engraçado esse negócio de documento.
Carteira de habilitação, vá lá: o sujeito não pode sair por aí matando os outros com o automóvel (embora às vezes o faça). Título de eleitor é razoável, para evitar que o capiau vote cinco vezes (embora às vezes também o faça).
Agora, RG e certidão de nascimento... Ter que provar que eu sou eu mesmo, e que eu nasci! Acho absurdo. Até porque eu sou apenas vagamente parecido com o garoto de 16 anos que está na minha identidade. Sou tão diferente que fiz uma segunda via, uns 10 anos atrás – e agora estou diferente também da segunda via.
A pergunta do dia é: Quantas vias da carteira de identidade terei que fazer para provar que o cara da foto sou eu?

 ******   

 

Olha aê outro documento inútil. Com certidão de nascimentuuuuuuuuuuuu.... sô cidadããããããããão!

Eu quero ver Cuba lançar

November 13, 2006

Grata surpresa neste final de semana: “The lost city”, de Andy Garcia, com roteiro do grande escritor cubano Guillermo Cabrera Infante (morto em 2005, no exílio em Londres). O filme conta a história de uma família na transição de duas ditaduras: a de Fulgencio Batista e a de Fidel Castro. A ressaltar, no filme, a belíssima trilha sonora (talvez melhor que a do próprio “Buena Vista Social Club”) e – pela primeira vez que tenho notícia – o retrato de Ernesto Che Guevara não como um herói santificado, mas como um ideólogo sanguinário, sarcástico, dado a justificar sua crueldade com citações intelectuais. 

***** 

"A solidão do Diabo", (Bertrand Brasil, 355 páginas, R$ 45), de Paulo Bentancur, reúne 59 histórias dignas de um discípulo de Kafka, Tchekhov e Dalton Trevisan. Lembra um pouco Rubem Fonseca na sua melhor forma – a de contista. A seguir, a íntegra da entrevista com o autor, que não pude publicar no jornal por falta de espaço.

Ei-la, Sheila: 

Reproduzo aqui uma pergunta que o sr. já fez ao escritor gaúcho Sergio Faraco: "Como é que você se sente dentro da literatura brasileira? Tem algum parente literário, ou é um penetra numa festa de gente esquisita?"

Paulo Bentancur:
Tenho parentes, felizmente. Não sei se me reconhecem, mas os reconheço: Dalton Trevisan, Rubem Fonseca (o dos contos, e da primeira fase, 1963-1980!), Sérgio Sant'Anna, sempre, Campos de Carvalho. Isso na ficção. Na poesia, Manuel Bandeira, Drummond, Murilo Mendes. Na crítica literária, um pouco das provocações de um Agripino Grieco e muito da honestidade sem contemplações do Paulo Hecker Filho (um dos maiores críticos literários brasileiros de todos os tempos mas que nem sua cidade reconheceu, que dirá seu país...).

Kafka, citado em um de seus contos, dizia: "Tudo que não é literatura me aborrece". O sr. sente a mesma coisa?

Paulo Bentancur:
Sinto, sim. Exceto quando estou com meus amigos, minhas filhas, vendo meu time jogar, tomando cafezinho, vendo filme da década de 40 em preto e branco... Esta é a vida que me interessa (complemento soprado aqui ao lado por um amigo, claro).

Como a atividade de crítico influencia a sua literatura de ficção?

Paulo Bentancur: Influencia, e muito. Primeiro, a ser mais ainda desconfiado de minha literatura. Segundo, utilizando escritores como personagens. Terceiro, ficando atento a não tornar a narrativa um ensaio e, sim, uma sucessão de cenas, situações, que é o que importa.

O sr. escreveu o livro de poemas "Bodas de Osso". Em que momento uma idéia literária se torna poesia ou prosa no jardim dos caminhos que se bifurcam da literatura? Já lhe ocorreu de a mesma idéia virar conto e poema?

Paulo Bentancur:
Sim. Sobretudo as cenas de infância, que vêm e vão, num eterno retorno, refluxo, pedindo ora canto, ora conto. A história "Almoço", de "A Solidão do Diabo", pode ser encontrada em diversos fragmentos de poemas do "Bodas de Osso". Bom, respondi o fim da pergunta. Vamos ao início dela: o momento não é identificável. Ele acontece ou não, simplesmente; não importa se eu estou à frente do computador. Às vezes, o hábito faz a arte, e basta o ritmo de escrever para eu sentar-me e começar um texto. Às vezes, só o ritmo da atividade de escritor não basta, e é preciso esperar a hora (que hora? Não sei).
 
Monteiro Lobato dizia que escrever para crianças é igual a escrever para adultos, só que mais difícil. O sr. concorda? E quanto a escrever livros para o público infanto-juvenil?

Paulo Bentancur: Lobato tem inteira razão. Escrever para adultos é, de certa forma, escrever para mim mesmo. Escrever para crianças me leva a uma viagem no tempo (ao passado, no meu caso pessoal, e ao futuro, no caso da nova geração cuja linguagem ainda - e sempre - preciso aprender a dominar). Meus livros infanto-juvenis são em maior quantidade que os para adultos. Isso não significa que os faço com maior facilidade. Apenas o fato de serem breves me leva a ser mais produtivo no gênero.

O sr. hoje vive no Estado do Rio de Janeiro. O escritor sai de Santana do Livramento, mas Santana do Livramento sai do escritor? Em outras palavras, o sr. faz o que se poderia chamar de literatura gaúcha?

Paulo Bentancur: Faço a literatura que posso fazer, enraizada na minha vida, que é gaúcha, sim, mas que é brasileira (e uruguaia também, uma vez que nasci na fronteira). Não sou regionalista no sentido estrito do termo. Busco uma figura (personagem) que tenha os dois mundos (campo e cidade) atrás e à frente de si: um abismo, um caminho.
 
Se tivesse que escolher dois contos de "A solidão do diabo" para salvar do incêndio na biblioteca, quais seriam?

Paulo Bentancur: "Diante do Túmulo de meu Pai" e "Ruína". Mas salvaria mais uma meia dúzia, não sei se por merecimento, mas por afeto, esse doido maior que a razão.
 
O sr. acha que o compadrismo e as panelas ideológicas são obstáculos a uma apreciação crítica da literatura brasileira?

Paulo Bentancur:
Absolutamente certo, meu caro. São a carniça ideológica/política na vida literária. A corrupção estendendo seus braços na garganta de uma carreira, até que ela não respire mais - ou só respire a voz dos outros, sim identidade, engrossando o coro dos contentes.
 
A quem o sr. concederia o Prêmio Nobel de Literatura?

Paulo Bentancur: O Nobel a António Lobo Antunes, Philip Roth, Paul Auster, Ernesto Sabato, o Dalton Trevisan (se bem que o Trevisan nos mataria de vergonha: não aceitaria o prêmio ou, aceitando-o, não compareceria à cerimônia).
 
Quem é o maior contista de todos os tempos: Poe, Maupassant, Tchekhov, Kafka, Hemingway, Machado de Assis ou nenhum deles?

Paulo Bentancur: Todos eles e mais Simões Lopes Neto, Borges, Cortázar, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca (1963-1980), Sergio Faraco e Isaac Babel.

Qual é o escritor consagrado (ou os escritores consagrados) que o sr. mais detesta?

Paulo Bentancur:
"Detesto" é uma expressão um tanto forte demais. Na literatura brasileira, por exemplo, não me interessam em nada uns 100 nomes que são verbete de enciclopédia (Casimiro de Abreu, Joaquim Manuel de Macedo, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e... vamos parar por aí que o leitor do jornal recém está acordando!).

Seu livro é dividido em duas partes. "Febre" é o Inferno. "Frio" é o Purgatório. Teremos o Paraíso, ou ele foi inevitavelmente perdido?

Paulo Bentancur: Desde John Milton, desde o século XVI. Será culpa dos navegadores? (Risos.)

O escravo do instante

November 09, 2006
oh as casas que não mais existem oh os bares fechados oh as ruas que mudam de sentido oh as avenidas desertas oh as alamedas sem árvore oh as vielas sem paz oh as calçadas sem guia oh as torneiras secas oh as praças abandonadas oh as paredes do açougue oh as sinfonias inconclusas oh livro fechado para sempre oh cão que latiu há 17 anos oh pássaro da manhã estrangeira oh o animal sem voz e sem nome na fábula oh o figurante perdido na mesa de edição oh as flores recusadas oh gosto da própria boca oh ressaca de sexta-feira oh quarta faixa do lado b oh terceiro recado na secretária eletrônica oh o que era e já não é oh os que querem saber das trufas e das vidas passadas oh a dor dos dias oh os que não voltam oh que só voltam oh número frio do calendário oh esforço para calcular há quantos anos oh 45 dias para o natal oh papai noel de camurça oh matéria escassa oh a certeza do irrisório oh a lacuna de viver oh mulheres precoces oh mães viciadas em heroína oh quarto de hotel destruído pelo astro em decadência oh tv fora do ar oh arquivo deletado oh rio sem águas do mundo

Você está feliz

November 08, 2006

Você está feliz, meu amigo, quando pára de contar há quanto tempo levou aquele fora. Quando não lembra mais se foi em 1998 ou 2002 que a tal garota deixou de falar com você. Você está feliz quando se pega assobiando uma melodia do João Sebastião, ou dos Stones, e de repente descobre que antes não sabia assobiar.

Você está feliz quando não precisa mudar de calçada, nem responder a todos os críticos. Quando veste uma camisa bem feia, mas confortabilíssima. Quando, sem querer querendo, vai ao bar de chinelo e bermudas. Você está feliz quando não precisa de Orkut antes de dormir, e dorme muito bem. Feliz se, ao acordar, não lembrar o que sonhou, mas, no caso de lembrar, der muita risada.

Você está feliz quando não conta quantos meses faltam para as férias, nem quantos dias faltam para a quinta-feira. Você está feliz quando não espera com angústia uma carta enquanto só lhe chegam correspondências comerciais. Você está feliz quando não se irrita por ouvir uma péssima canção, mesmo do Skank, ou quando sente vontade de rir, e não de xingar, se alguém faz uma barbeiragem logo de manhã.

Você está feliz quando ri de piadas sem graça e cumprimenta duas vezes a mesma pessoa. Você está feliz quando o garoto da zona azul lhe pergunta: “Vai um talão de meia hora, tio?”, e você responde, com o ar divertido: “Mas eu nem estou de carro, garoto”, e nem se incomoda com o fato de ser chamado de tio, afinal tem idade para ser pai desse moleque (e um pai muito respeitado).

Engana-se, porém, quem acha que “a felicidade mora nas pequenas coisas” – ora, esse pobre clichê de novela barata e livro de auto-ajuda. A felicidade está no grande, no absoluto, no incomensurável – apenas se manifesta nas coisas pequenas porque o enorme é composto de miudezas.

Você está feliz, sim, se a galáxia em que estamos não explodir no próximo segundo, e quando tem dinheiro no bolso, comida se tem fome, bebida se tem sede, banheiro se tem vontade. Você está feliz se quiser dar um beijo e, bumba, bem ao lado está a mulher da sua vida. Se você pode ouvir sossegado, na hora que quiser, sua banda ou seu compositor preferido. Você está feliz se pode até esquecer quem é o presidente; se de vez em quando tem umas saudades gostosas daquela amiga que mora nas montanhas da Itália; se lhe vem uma inexplicável vontade de chorar diante de um pequeno cachorro.

Você está feliz se não pensa na felicidade. Mas, já que é nela que estamos falando, ainda falta muito, meu amigo, ainda falta muito. Caso contrário, seria muito chato, não?

Ninguém agüenta mais

November 06, 2006

Excelentíssimo sr. Moraes, provedor do portal Tipos: 

Está bem claro que ninguém agüenta mais os comentários sobre vidas passadas, Cytotec, Sessão da Tarde, The Sims, emos, ementas de correção gramatical e interpretação de texto (nada contra você, Fiscal da Gramática, sempre bem-vindo), trufas, “quero fazer um Orkut” e – por último, mas não menos odiado – o Poema da Buceta.

Se os autores dos posts acima citados nada tiverem a objetar, e eu nada tenho em relação aos últimos dois, seria ótima idéia impedir os comentários sobre os mesmos, sem necessidade de apagar nenhum texto.

É para o bem de todos e a felicidade geral do Tipos.

Sem mais, subscrevo-me.

Paulo Briguet, seu criado. 

PS: Também não custaria nada você mudar o nome da sra. Ester, algo que ela vem pedindo educadamente há algum tempo.

Maconha é uma droga

November 04, 2006

(Se você for criança, não leia este texto. Mas agora é que você vai ler mesmo, né, moleque?)


Vamos combinar: maconha é uma droga. Nunca fui do ramo; faz uns 10 anos que eu não fumo, e não me arrependo. Outras drogas também são uma droga, só que perigosas, trágicas. A maconha é uma farsa. 

Tenho nojo daquela lambeção toda no preparo do negócio. Também não me agrada nenhum tipo de produto consumido coletivamente; o que me faz detestar maconha e chimarrão. 

Ao contrário do Clinton, fumei e traguei. O resultado era que eu me transformava em verme. (Antecipo o comentário de meus detratores: Você se transformava no que já era.)

 O principal efeito da maconha é reduzir 50 pontos de QI do usuário. Eu, portanto, ficava devendo. 

Tempos de estudante, a coisa rolava. Turcão Baixaria apertava um logo de manhã. (Hoje ele é um pai de família, profissional respeitado; deve ter largado mão da coisa.) Nunca tive essa regularidade, mas estava sempre por perto, e o resultado é que algumas vezes saí de cueca na pracinha. Pronto, falei.

 A única lembrança boa que eu tenho de maconha é, depois de uma vela,  ficar escutando uma ária do Mozart no quintal da república, durante um churrasco. Só eu escutava a ária; usava um walkman (véio isso, né: walkman). 

Um dia, tive um troço. Crise de pânico. Nóia, no linguajar dos maconheiros. Broxei vergonhosamente. Meu pinto ficou residual, deste tamanhinho (estou fazendo um gesto com o polegar e o indicador).

 Aí parei. Também porque me incomodava a idéia de que o usuário financia o tráfico. E o tráfico é a pior das drogas. (Desculpe a platitude, mas é verdade.)

Não é à toa que o pessoal do reggae adora maconha. Quem gosta daquela droga de música só pode gostar daquela droga de droga. A linguagem maconhística também me incomoda bastante. Nunca vi expressão mais fascista do que “fazer a cabeça”. 

As outras drogas, conforme eu já disse, são perigosas. Mas a cachaça também é, e é liberada. Por princípio, eu acho que o capiau com mais de 18 anos deve ser livre para usar o que bem entender. Mas uma coisa é princípio, outra coisa é a aplicação do princípio. Alguns economistas liberais (o grande Milton Friedman, entre eles) defendem a liberação total das drogas. Eu acho que agora não dá. Uma medida desse tipo teria que começar pelos Estados Unidos, que são os maiores consumidores e donos do maior aparato de repressão. Mas a turma de lá não deixa. 

Agora, imagine maconha liberada aqui na Terra dos Papagaios. Quem iria vender a marofa? O SUS? Farmácias estatais? Estou até vendo os propinodutos resultantes... Acho que a liberação das drogas no Brasil seria o pesadelo da minha tia Mafalda: pipoqueiros botando bolinha no Guaraná das crianças, todo mundo na frente das escolas fumando cocaína e cheirando maconha... O caos, o caos.    

Liberalismo é assim, meninos. Tem coisa que dá pra liberar, e coisa que não dá. O meu rabo, por exemplo, eu não libero, nem pra fio-terra. Até eu, véio Briguê, que defendo a privatização de tudo, sei que não dava para vender o sistema de saúde brasileiro assim, do dia para a noite. Pobre iria morrer na calçada, e isso não é bom. Dou outro exemplo. Em tese, sou abolicionista penal. Acho que, no futuro, a humanidade vai criar um jeito de acabar com as prisões. Mas não dá para aplicar essa tese agora. Vamos fazer o quê? Deixar o Fernandinho Beira-Mar solto? Tô fora. 

Portanto, crianças, o veio Briguê recomenda: não ouçam Skank, não bebam Kaiser e não usem drogas. Pra resumir: não usem drogas. Façam uso de coisas mais proveitosas. E agora vou ouvir meu Mozart, que eu ganho mais.  

De como desistir do suicídio

November 03, 2006

Dizem que livros e escritores não salvam a vida de ninguém. Discordo. Acho que Perto das Trevas, de William Styron, salvou minha vida. De certa forma, ao menos.

Era o verão de 1991. Eu estava apaixonado por uma garota, sem esperanças. Resolvi passar uns dias na praia, sozinho. Fui para o lugar onde isso podia ser feito sem muita despesa: a colônia de férias do Banco do Brasil em Itanhaém.

Naquela época não existia Neosaldina; contra a dor de cabeça da cerveja, eu tomava Novalgina. Comecei a me sentir mal, muito mal. Alguma coisa me dizia que eu iria morrer ali mesmo.

Tudo que eu mais queria era ter alguém legal pra conversar, enquanto eu lia um romance do Philip Roth. Só apareceram um gordo ridículo e suas duas amigas barangas. (Se fossem legais, eu jamais ressaltaria essa qualidade de barangas.) Como eu lia bastante, eles me apelidaram com o nome de um personagem da novela das oito. Para eles, ler era uma aberração. Eu era uma aberração. Pior é que uma das barangas – cabelinho cacheado, eu lembro bem – me disse que era psicóloga, e começou a tentar me analisar. Mandei, educadamente (sempre fui cordial), pastar.

Tudo que eu mais queria era tomar uma cerveja com Ranulfo Pedreiro, o Preto. Mas ele estava a milhares de quilômetros.

William Styron morreu na quarta-feira passada (1º de novembro), e os jornais brasileiros não publicaram quase nada. Esse cara era bom pra caramba. Escreveu A Escolha de Sofia, Deitada na Escuridão, As Confissões de Nat Turner, Manhã em Tidewater.

Em Perto das Trevas, Styron descreve a sua doença depressiva em 1985. Foi brabo; o cara quase se matou.

Eu nunca tive coragem física para me suicidar; o livro de Styron desfaz quaisquer ilusões nesse sentido.

A depressão de Styron começou a se manifestar antes de ele ganhar um prêmio na França. E bateu com força justamente quando ele foi receber o tal prêmio. Pode existir situação melhor? O cara foi pra Paris, com tudo pago, pra receber um prêmio internacional. E foi aí que começou a loucura de Styron, que quase o levou ao suicídio.

Li o livro de Styron – pouco mais de 90 páginas – ao voltar dessa temporada no inferno de Itanhaém. O livro foi um apoio incomensurável; eu não queria terminar nunca; terminei, e resolvi reler. Foi ducas. Me salvou.

Poema do Dia dos Mortos

November 02, 2006
Sempre chove
no Dia dos Mortos
para lembrar
que somos feitos de água,
e os átomos da água
são compostos
de uma coisa
muito parecida
com o nada.

O véio Briguê

November 01, 2006

 

Teveinhaí uma época, uma época lá pros transantonti, inquiqui eu num era tio. Inquiqui eu num era véio. Meus fio, ah meus fio, naquelas época eu era trostiquista (esqueci cumé que se escreve)!

I naquelas época, ó naquelas época, cês pódi nim quirditá, as pessoa me orvia mais. Purcasdiquê eu defendia o tar do Estado. Eu achava qui ganança era coisa dus hómi que num tem valô.

Ingora, ingora inquiqui eu achei esses nicho di mercádu di sê direitista, eu quéru mais é que essas universidádi seje privatizada, injunto cuas pétrobrais, us bancu do brasi, as caixa inconômica, as copér. E nu mais é orvi u Jão Sebastião.

Efeito Londrina

November 01, 2006

Lá em Brasília, militantes petistas ameaçaram jornalistas. 

Lá em Curitiba, Requião atribuiu sua vitória apertadíssima à perseguição da imprensa. 

Aqui em Londrina, o deputado petista André Vargas, recém-eleito, mas com votação pífia na cidade, disse que o prefeito Nedson não pode ser culpado pelo fraco desempenho local de Lula e Requião. Segundo o deputado, Nedson enfrenta uma “mídia hostil”. 

Já confessei estar sofrendo de um pessimismo federal, estadual e municipal. Minhas expectativas foram rapidamente confirmadas. 

Aqui no Brasil é assim: confirmação de pessimismo corre mais que notícia ruim. Ou melhor: corre junto com ela. 

Para os manifestantes de Brasília, foi a imprensa que inventou o mensalão; Waldomiro Diniz; a compra do dossiê; a ascensão econômica de Lulinha; o caso Celso Daniel; o caso das cartilhas; o crescimento pífio; o Aerolula; José Dirceu; Antonio Palocci; Luiz Gushiken. São todos frutos da imaginação midiática. 

Para Requião, foi a imprensa que inventou a propaganda enganosa dos “investimentos” em Londrina; a crise da aftosa; o estado de insegurança da população; as bravatas; as grosserias; o sarcasmo; o nepotismo; a estrada inaugurada pela metade. Devem ter sido os jornais que lhe deram o susto nas urnas. 

Para o deputado André Vargas, foi a imprensa que inventou o sumiço do prefeito; a greve que já dura três meses; a sensação generalizada de abandono na cidade. 

Erram todos eles, ao pensar assim (ou melhor: ao dizer que pensam assim). A imprensa não inventou nada. Não inventou a derrota de Lula na região Sul, tampouco a surra eleitoral do presidente e do governador em Londrina. 

Na Terra Vermelha, que não é nenhuma Suíça, Alckmin teve 73,21% contra 26,79% de Lula; Osmar Dias (que não teve o meu voto, diga-se) ficou com 71,71% contra 28,29% de Requião (em quem tampouco votei).

Londrina não é um caso isolado, senhores. Alguém se lembra da propaganda da vodka Orloff? O slogan dizia: EU SOU VOCÊ AMANHÃ. Ao inverter os resultados estaduais e federais, a cidade mostrou personalidade e indignação.

Talvez Londrina – nas urnas e na realidade cotidiana – seja uma pequena imagem do Brasil de amanhã. No bom e no mau sentido. No bom sentido, por lúcida. No mau sentido, por abandonada.