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Archive for October of 2006

Fator Kutuzov

October 30, 2006

Tenho medo de reler Guerra e Paz. Eu estava com 20 anos quando li essa obra-prima de Tolstoi; faz, portanto, uma vida – um eleitor poderia ter nascido na época e, ontem, de mãos dadas com a maioria, obrar na urna eletrônica (conforme já descrito pelo Tanga).

É normal ter medo de reler Guerra e Paz. Não apenas pelo tamanho do livro – mais de 1.500 páginas, e letra pequenininha, ó –, mas porque não queremos destruir a impressão que a obra nos causou antes.

E não é só isso.

Na leitura de Guerra e Paz, adorei os trechos de ficção, a história propriamente dita, e revoltei-me um pouco contra a chatice dos longos ensaios filosóficos entre um capítulo e outro.

Desconfio que agora poderei adorar também os trechos filosóficos, e assim ver os trechos romanescos de uma outra forma. Certamente não deixarei de gostar da história, e do jeito como Tolstoi a conta, mas poderei admirar os fatos e personagens sob outra perspectiva – afinal, quem vai ler é um liberal moderado e cristão, e não um trotskista radical e ateu, convicto eleitor do sr. Luiz Inácio.

Li recentemente um ensaio de Isaiah Berlin, Tolstoi e o Iluminismo, em que o autor relembra uma passagem memorável de Guerra e Paz. Durante a invasão napoleônica da Rússia, os franceses chegaram a ocupar Moscou – um fato histórico que é magistralmente descrito no livro.

Mas o trecho comentado por Berlin se refere a um personagem importantíssimo, misto de figura histórica e herói de ficção: o marechal Kutuzov, comandante do exército russo.

Sabe o que Kutuzov decide fazer quando as tropas napoleônicas invadem a Rússia? Nada. Isso mesmo. Nadica de nada. Necas de pitibiribas. Como diria meu amigo Aurélio Cardoso, “deixou rolar”.

Na Moscou ocupada, os franceses primeiro perderam o ânimo; depois perderam a compostura; depois causaram um grande incêndio; depois veio o inverno russo; ao final, houve uma retirada humilhante. O maior êxito de Napoleão tornou-se o seu maior fracasso. Foi ali que o baixinho começou ladeira abaixo.

Kutuzov venceu por saber não fazer nada na hora certa.

Quando li esse belo ensaio de Isaiah Berlin (por sinal, ô Marcio, fina flor do liberalismo contemporâneo), dei-me conta de que o marechal Kutuzov foi uma das minhas maiores influências na vida, mesmo antes de eu ter lido Guerra e Paz. Ele foi meu irmão em armas.

O tempo é meu inverno russo. Não pense que é fácil. Essa obsessão com o tempo causou-me grandes problemas ao longo da vida, porque ele é corrosivo. Materialmente e amorosamente, tive uma infância feliz, mas me lembro da infância como uma época de angústia excessiva – era o efeito do tempo que já se fazia sentir, mas eu não sabia. Hoje, sei. E talvez seja meu único mérito.

O que fazer diante de um absurdo desproporcional? Nada. O tempo – inverno russo silencioso e inevitável – fará por nós.

Em boca fechada não entra mosquito (mas da minha boca fechada sai jingle)

October 26, 2006

Confesso: sempre quis ser ventríloquo. É um dos meus sonhos (irrealizados) de infância. Agora que a eleição está perdida, tenho colocado em prática alguns métodos pouco ortodoxos de convencimento, entre eles a ventriloquia amadora. No ônibus, de preferência lotado, canto aquele bordão do primeiro turno com a boca semi-aberta:

– Geraaaldo presideeeeeeeeeeente!

Não sei se vou ganhar algum voto assim; provavelmente vou perder. Mas já é café-com-leite. E os taxistas – ao menos todos os que eu conheço – vão votar no Geraldo.  

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Caro Fabebum, fiquei lisonjeado por você me dedicar um longo post de resposta, mas aquela história de que a telefonia no Brasil vingou por causa do avanço da tecnologia... faça-me o favor! Imagine o desenvolvimento da tecnologia de ponta sob um monopólio estatal, com um político petista à frente... Todo mundo sabe que aquela privatização deu certo. Opa! Acho que o seu celular tá tocando. Abraço.

  

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Hoje tem Quinta Sem-Lei. Portanto, tem Geraaaldo presideeeeeeeeente!

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(A formatação do Tipos continua ruim bagacete.)

Ensaio sobre a cegueira acompanhada da surdez

October 25, 2006

Salvo algum milagre, e milagres são raríssimos, o Brasil vai reeleger Lula no próximo domingo. Gostaria de estar errado, mas não estou. Podem comemorar, os que assim desejam, a “fragorosa derrota do empresariado paulista”.

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A reeleição do Barba é uma tragicomédia, uma compra de passaporte para o caos. A economia já está fazendo água, e não há nenhum indicativo de que o governo tenha um plano para diminuição de gastos públicos. Privatização tornou-se um assunto proibido; os marqueteiros vetaram qualquer declaração favorável à venda de estatais, porque o “povo” não gosta do assunto. Nada se discute sobre uma das piores bombas-relógios do país, que é a Previdência. Vai estourar, e vai estourar logo. Duvido que Lula tenha condições políticas para fazer as reformas previdenciária, tributária e fiscal, e, mesmo que tivesse tais condições, não as faria por total incompetência e falta de visão estratégica.

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Sem falar na corrupção. Lula vai começar governando com lama por todos os lados. Para compor maioria no Congresso, vai ter que apelar para meios, na melhor das hipóteses, fisiológicos. Na pior das hipóteses... cala-te, boca.

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No sábado passado, vi as duas principais chamadas de capa do Estadão, lado a lado: uma falava sobre o envolvimento de Dirceu e Berzoini com a compra do dossiê fajuto, e lembrava que parte do dinheiro veio do jogo do bicho; a outra apontava vantagem de 25 pontos percentuais de Lula sobre Alckmin.

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Parecia que as duas manchetes falavam de países diferentes – e, de certa maneira, falam. Aí é que está. Enquanto não soubermos integrar esses dois países – e não separá-los radicalmente, como faz o PT –, enquanto as pessoas não souberem falar a língua da democracia e da justiça, nada vai dar certo no Bananão. O Senegal é composto por seres humanos que merecem respeito, trabalho e dignidade. Enquanto ele for tratado a esmolinha e mensalão, a esmolão e mensalinho, será um país dos pesadelos. A única forma de integrar o Senegal à Suíça é fazer o Senegal crescer; é ter a Suíça como modelo e meta; é respeitar contratos e estimular, e não punir, a livre iniciativa.

***** 

 

Parte do Senegal se transformou em Suíça com a privatização das teles. Estou cansado de ver neguinho desancando o FHC por causa das privatizações e ser interrompido pelo toque de um celular de última geração. É o caso de perguntar: Alô? Em que mundo você vive?

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A Suíça pode salvar o Senegal. O Senegal só pode destruir a Suíça. O Brasil está optando pela segunda hipótese.

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Mas tudo que se disser sobre Lula cairá em ouvidos moucos. Alckmin triturou-o no primeiro debate – vocês viram a cara do Lula quando acabou? –, e Lula capitalizou a vitória do adversário em seu próprio favor. Palmas para Duda Mendonça, o verdadeiro mestre da campanha petelha, o apreciador das rinhas de galo que recebeu os dólares “não contabilizados” do Caribe. Geraldo Alckmin chegou ao cúmulo do absurdo kafkiano: ele não pode ganhar debate, sob pena de perder votos. O mundo está de cabeça para baixo, como Karl Marx queria fazer com a filosofia de Hegel.

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Como é que um país não vê – ou melhor, finge não ver – que o dinheiro do dossiê é sujo? Se uma parte veio do jogo de bicho, significa que veio do submundo – um lugar onde as contravenções e crimes caminham de mãos dadas, incluindo o narcotráfico e o comércio ilegal de armas. Como é possível falar em segurança num país em que líderes do PT recebem dinheiro do submundo? Como dá para falar em segurança se, na onda de atentados do PCC, esses mesmos líderes do PT criticaram o PSDB, e não os criminosos? Não é à toa que os líderes do PCC recomendam o voto no PT. Não foi à toa que Boris Casoy acabou demitido da Record – por pressão do governo federal – depois de ter perguntado a Lula sobre a relação entre o PT e os narcoguerrilheiros colombianos.

*****

José Saramago falou da epidemia de cegueira naquele belo romance. Sei que ele deve ser lulista – afinal, é admirador de Hugo Chávez –, mas nem por isso seu livro deixa de ser bom. Ocorre que, no Brasil, não padecemos só de cegueira; a surdez também nos afeta. Mas o mutismo ainda não chegou a todos. Passarei um bom tempo sem falar sobre política – o assunto me é indigesto –, mas não queria deixar de escrever estas palavras antes da eleição. Não vou mudar o voto de ninguém; talvez sem querer até ajude Lula a conquistar alguns, pois marketing nunca foi meu forte. Mas falei. Pronto, falei.

*****

Eu nunca disse que Alckmin é uma beleza de candidato, ou que vai resolver todos os problemas do país. Ele apenas é um político, com as limitações e mentiras de todo político em qualquer lugar do mundo. Alckmin certamente diz algumas mentiras. Lula É a mentira. E é essa mentira que o país vai reeleger. Parabéns a todos – e boa sorte. Porque vamos precisar. 

Todo homem é um naufrágio

October 24, 2006
Todo homem é um naufrágio.
Dentro da hora, do dia ou do ano; dentro da vida, um naufrágio.
As águas invadem o barco. O tempo invade o homem.
O homem? Naufrágio.
Um navio não escapa ileso da terra. Um homem não escapa vivo do tempo.
Todo homem é um navio à deriva, sem bússola ou rádio, sem rota, sem rumo.
Todo homem é um navio fantasma.
Todo homem é um estranho como um barco no oceano.
Não é peixe, não é água, não é sal. Não é alga nem areia. Não é onda, furacão ou nuvem. Não é raio, nem lume. Não é polvo, nem atol, nem fossa, nem cavalo, nem estrela. Nem raio, nem sol, nem cardume, nem recife, nem orca. Tubarão não é. Tampouco espuma, esponja, medusa, maré.
Todo homem, indesejado. Estrangeiro na terra, forasteiro no mar.
Todo homem é um pedaço de madeira, testemunha do naufrágio, mudo e movente, a boiar.
Todo homem é um marujo de si mesmo, um marujo que não sabe mais nadar.
Todo homem é um barco no mundo, e aos poucos aderna, e aos poucos deriva, e aos poucos desaba no porto mais fundo do fundo do mar.

"O argentino que se foda!"

October 24, 2006

 

Vocês já repararam que a Marta Suplicy e a Marisa Letícia estão se tornando a mesma pessoa?
Eu tenho cá minha teoria. Acho que a esquerda tem um cirurgião plástico de confiança. Se é que vocês me entendem.
O doutor esticou aqui, puxou ali, cortou aqui, turbinou ali, a Marisa acabou ficando mais bonita; e a Marta, mais feia. Tornaram-se gêmeas univitelinas graças à interferência da medicina moderna.
Quem deve ter gostado da história é o Lula. Imagino que de vez em quando ele vai com os três pés e os noves dedos no peito (sussurrando naquela voz rouca e mandando ver no que lhe restou de charme proletário):

– Vem cá, minha galega! Quero te dar um agarrão, mulé.
– Que é isso, Lula? Sou eu, a Marta!
– Desculpaê, Marta. Mas já que tamo aqui, chega mais! O argentino não tá olhano, ele que se foda. Sempre fui ligado numa quatrocentona. E como você não tem melhor neste país! Afinal de contas, eu sô o prefidente dessa porra ou não sô?

Kaiser é uma bosta

October 23, 2006

Olha, Fabebum, agora que eu te conheci pessoalmente, embora de relance, e vi que você parece boa pessoa (pelo menos não me lembra um cara que vai clonar meu cartão de crédito na primeira oportunidade), quero lhe dar um conselho de tiozinho: não invista muito nessa história de ser conhecedor de cervejas, não.
Que isso não é coisa de caminhoneiro. Daqui a pouco, essa degustação de marcas vai resvalar praquela viadagem dos enólogos, os caras que diferenciam vinho bão do vinho ruim por “bouquet”, ou porque têm gosto de caramelo queimado, ameixas frescas, framboesas da porra, morangos do cu, canela refogada do pinto, uva do caralho, amêndoa da buceta.
Olha, eu tomo Skol, tá valendo? Mas também tomo, sem drama nenhum, Brahma, Antarctica, Original, Serra Malt ou qualquer uma dessas vagabundas que tem por aê (Brahma Extra não dá; fico com dor de cabeça).
Agora, a Kaiser é um caso à parte. A Kaiser nem pode ser enquadrada na categoria de cervejas. Aquilo é feito de merda; é a merda borbulhante. Esse atorzinho babaca, de nome Selton Mello, que nunca fez nada interessante na vida (a não ser aquele papel em “Auto da Compadecida”, onde aliás o Mateus Nachtegaele – sei lá se é assim que escreve – tá muito melhor), apareceu na propaganda da Kaiser. Lógico: merda atrai merda. E o cara incentiva o pessoal a fazer o “teste cego” da Kaiser. Cego é o olho do cu, isso sim, ô traste humano. 
É claro que, depois de umas ou outras, ou mesmo sedento, a Kaiser pode não me parecer diferente (esse negócio de paladar refinado é pra boiola). Mas tem três fatores que o tal do “teste cego” não vê – ou finge não ver:

1) O amargo da Kaiser. Aquele que você sente de 10 minutos até 10 horas depois de ter ingerido essa bosta;
2) A dor de cabeça no dia seguinte; quem sentiu dor de cabeça de Kaiser sabe que é diferente de todas as outras – e muito pior;
3) A caganeira subseqüente; e a bosta sai com cheiro de... Kaiser!

Portanto, vai fazer “teste cego” lá com suas negas, ô Réton Mello! E, Fabebum, por favor me apóie. Sou liberal, mas não tomo Kaiser.

Notas de um homem de 100 anos

October 23, 2006
Todos os meus amigos já morreram.
Todos os homens, para mim, são meninos.
As duas companheiras que me restaram são a vida e a morte; tomei café com elas hoje.
Vou viver o quê? Uma semana? Dois dias? Dois anos? Não importa.
Sou o homem mais tranqüilo do mundo, porque nasci e morri muitas vezes.
Alguns, desinformados, dão-me por morto. Surpreendem-se quando me vêem saudável e lúcido – na medida em que se pode ser saudável e lúcido aos 100 anos.
Qual o segredo para chegar aos 100? Não há segredo. É preciso paciência; os impacientes morrem cedo.
Subi até o alto da torre. Observo a cidade.
Sou estranhamente calmo, estranhamente vivo.
Correria como um jovem, se tivesse as pernas de um jovem.
Tornei-me um corredor de resistência. Um atleta sem atletismo: minha medalha é viver.

O Brasil é triste

October 21, 2006
Tenho encontrado alguns amigos na rua. Não são exatamente amigos, mas eu os chamo assim, por falta de um melhor nome; não gosto da palavra conhecidos, e não são estranhos. Aliás, eu concordo com a velha frase: “Nada do que é humano me é estranho”.
E eu digo uma coisa: esses meus amigos não vão bem. Um brigou com a família; outro esteve no hospital; um terceiro perdeu os dentes; o quarto andou deprimido; o quinto, nos infernos; o sexto, bebeu demais; o sétimo, desempregado; o oitavo, mãe doente; o nono, tio entrevado; o décimo, sujo no Serasa. E vai assim. Tudo bem? Não, tudo mal.
Quase sempre, eles me pedem dinheiro. Quando posso, dou. É sempre um dinheirinho picado: um, cinco, às vezes dez reais. Não estou me gabando, pois não o faço por bondade. J.C., o Homem, recomenda que a nossa mão esquerda não saiba o que a direita fez; não dou esmolas para parecer bom ou porque desejo assim garantir meu lugarzinho no Paraíso. Faço-o por razões menos nobres: não sei dizer não; vivo com pressa; é uma forma de encerrar o papo. Esmola não deixa ninguém bem, nem quem dá, nem quem recebe – exceto quando quem dá a grana é o governo.
Esses amigos pedem dinheiro; o dinheiro não mais retornará; portanto, trata-se de esmola. Mas eles nunca usariam a palavra. É sempre um dinheirinho para comprar remédio; para inteirar uma passagem pra Arapongas; para comprar um pão e um leite; para encher o tanque porque a gasolina do carro acabou ali na Arthur Thomas.
Na verdade, não me interessa para onde vai o dinheiro da esmola; nunca me interessou. O dinheiro passa a ser de quem o recebeu, e este é livre para aplicá-lo da melhor maneira, seja investindo na Bolsa de Valores, comprando um dossiê ou tomando uma cachaça.
E vou dizer outra coisa. Se tenho algum trocado na carteira, às vezes dou dinheiro para esse pessoal que fica fazendo malabarismo no semáforo. A chance é de mais ou menos 50%. Mas, se o malabarista deixa cair o bastão, eu fico com pena, e dou a grana com toda certeza.
Uma amiga minha – de quem eu gosto muito, e que não pede esmola – acha que os malabaristas de sinal trazem alegria para o cotidiano. Pois eu acho o contrário. Fazer malabarismo na esquina é um negócio triste demais, um símbolo do subdesenvolvimento. Muito pior, porém, é fazer malabarismo e deixar cair o bastão; isso é de uma tristeza oceânica, quase uma pequena tragédia. Dou dois reais.
Tudo bem no Brasil? Não, tudo mal. Esse país é imensamente triste. É um bastão caído no asfalto, deitado em berço esplêndido.

Talento, bom senso e clichê

October 19, 2006

O companheiro James-Margo reclamou por eu dizer que ele é um cara talentoso, mas que às vezes não usa o bom senso.

Ora, e daí? Nenhum problema nisso. Gostaríamos que o talento e o bom senso andassem de mãos dadas, mas nem sempre acontece. Ou quase nunca.

É um velho problema da humanidade. Quem é talentoso nem sempre é sensato; quem é bonito nem sempre é bom; quem é justo nem sempre é simpático; quem é carismático nem sempre é honesto; quem é representativo nem sempre é fundamental; quem é competente nem sempre é versátil.

Eu nunca disse, e nunca direi, que Lula é burro ou não tem talento. A arrogância e a ignorância do homem às vezes atrapalham, o seu universo lingüístico não é dos mais amplos, mas em geral ele é bem esperto e rápido. Lula é um governante incompetente, um vagabundo profissional, mas um político quase genial.

Não é para qualquer um liderar as pesquisas com quase 60% dos votos depois de Waldomiro Diniz, mensalão, Lulinha, crescimento pífio, Evo Morales e dossiê fajuto. Não aceito explicações do tipo “a mídia é governista” ou “o povo está sendo enganado”.

Só o talento explica Lula. Talento para o caos, é bem verdade, mas talento. Por isso, eu continuo preferindo a falta de carisma do Chuchu. 

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Nenhum escritor sobrevive sem uma caixinha de clichês. Pode ser escritor de blog, jornalista, publicitário ou Leon Tolstói. Se escreve, tem que ter clichê.

Acabo de chegar do jornal; hoje escrevi três matérias, além de uma crônica. Na terceira matéria, de gastronomia, já cansado, lasquei que o almoço “é uma hora mágica, um ritual, um momento sagrado”. Brabo, brabo. Mas fazer o quê?Eu tenho alguns clichês, e deles não abro mão. Alguns se incorporam à gente, como a ---Pulga!--- do Daniel, os nonsenses do Moraes e os blés do Guilherme Mendes da Costa. Nelson Rodrigues sempre começava as crônicas futebolísticas com um “Amigos”, depois parafraseado por Matinas Suzuki no bordão “Meus amigos, meus inimigos”. Eu não vivo sem o meu “não por acaso...” ou o meu “e mais não digo porque não sei”.

O duro é quando a gente só consegue escrever com clichês. É o caso de 90% da literatura esquerdista e acadêmica.

Vejo vocês na Quinta Sem-Lei. E mais não digo...

Não posso calar

October 18, 2006

Grota, uma dica para a próxima Mostra de Cinema: Walter Hugo Khoury. Se me dessem 20 filmes do Khoury e um do Glauber Rocha, eu assistiria primeiro aos 20 do turco (inclusive aquele que a Xuxa retirou das locadoras) e só então pensaria em ver o do baiano. 

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Anunciada a mais nova contratação do Corinthians! É o Legacy. Pra ver se acerta o Gol.

Rocha: que dureza!

October 18, 2006

A primeira coisa a fazer, sem dúvida, é pedir desculpas à minha namorada por tê-la convidado ontem a ver o filme “Rocha que voa”, de Eryk Rocha. É o longa-metragem que faz jus ao nome: o mais longo e chato que eu já vi em toda a minha vida – e olha que eu já vi filme chato... Sabe aquele filme que você acha que vai terminar quatro ou cinco vezes, e nunca termina?

Imensa prova de amor foi você, Rosângela, ter suportado essa hora e meia de tortura, ao contrário de dezenas de pessoas que, compreensivelmente, saíram antes do final da sessão. (Idéia muitíssimo melhor seria ter convidado você a uma boa Terça Tilt no Valentino, onde discotecou o irrepreensível Rubão.)

A segunda coisa a fazer é dirigir um apelo ao meu amigo Rodrigo Grota, talentoso escritor e cineasta. Toque pra frente a idéia da Mostra Londrina de Cinema, Grota, mas evite, oh por favor evite, programar filmes como “Rocha que voa”.

O filme dirigido por Eryk Rocha fala sobre o pai dele, Glauber Rocha, apontado por 9 entre 10 críticos como o maior cineasta brasileiro.

Pois, se o filme serviu para alguma coisa, foi para provar uma tese que eu defendo há tempos: Glauber Rocha era um equívoco. Que tinha carisma pessoal e mesmo algum talento, ninguém nega. Só que o carisma virou delírio, e o delírio foi confundido com genialidade. Já o talento, de que se viu algo nos primeiros filmes, principalmente “Terra em transe” (que ainda assim é arrastado e retórico e datado), perdeu-se na monomania do autor. Ao procurar uma certa “estética da fome” e fugir aos padrões “imperialistas” do cinema, Glauber caiu nos braços mefistotélicos de Jean-Luc Godard, no arremedo do que havia de pior em Sergei Einsenstein e na mitificação de bandidos sanguinários como os cangaceiros nordestinos e Ernesto Che Guevara (para mais detalhes sobre o mito guevariano, é só ler algo sobre a prisão de La Cabaña, onde o “herói” cubano, perfidamente comparado a Cristo por seus aduladores de plantão, mas na verdade um Lavrenti Beria de boina, ordenou a morte de muitos).

Eryk Rocha herdou – e piorou – todos os defeitos do seu pai, que eram bastantes e subestimados, e nenhuma de suas qualidades, que eram parcas e superestimadas.

“Rocha que voa” fala sobre o período que Glauber Rocha viveu em Cuba, no início dos anos 70, e mistura imagens tremidas (o filme é o paraíso das imagens tremidas) com depoimentos de cineastas e intelectuais que viram o sonho da Revolução Cubana se converter em um pesadelo de pobreza e opressão (elas estavam lá, desde o início, mas eclipsadas por um romantismo libertário que hoje é apenas caricatural).

Em seu portunhol tosco, Glauber Rocha aparece no filme como um fantasma da Guerra Fria, atribuindo todas as mazelas do Terceiro Mundo aos “imperialistas”, à “burguesia” e ao “raciocínio colonizado”. Muitas críticas à ditadura militar brasileira – que sem dúvida as merecia –, mas nenhuma à tirania de Fidel Castro, esta que vai durar pelo menos até o último suspiro de “El Comandante”.

Meu querido Grota, no domingo tive o prazer de assistir pela segunda vez ao seu curta “Londrina em três movimentos”, uma belíssima combinação de artes plásticas com a música de Arrigo Barnabé (que eu considero primorosa, e o Tanga não acha, tudo bem). Aguardo ansiosamente o seu filme “Satori Uso”. Espero que você, Grota, ao contrário de Glauber Rocha, amplie suas qualidades – que são muitas, entre elas a inteligência e o bom humor – e minimize seus defeitos – entre elas, a devoção a esse tipo de cinema sem pé nem cabeça.

A história de Glauber Rocha foi a tragédia de um homem bom e talentoso, que caiu no desequilíbrio. De um diretor de belas imagens, influenciado pelo que havia de melhor no realismo italiano e nos westerns de John Ford, tornou-se um profeta malucão, de camisa aberta e pêlos do peito à mostra, urdindo confusões sob a influência maléfica de Godard e dos epígonos do kitsch soviético. Se “Rocha que voa” tem algum mérito, é deixar bem claro o equívoco chamado Glauber.

Mas vou continuar indo à Mostra de Cinema, Grota. A organização está ótima e há muitos filmes interessantes. Aceite as saudações de um amigo e admirador (sem viadagem, é claro). Mas um bom amigo – e admirador – precisa usar de franqueza quando necessário. A gente se vê.

Ser filho-da-puta

October 16, 2006

Ser filho-da-puta é uma arte. Não se é filho-da-puta por acaso, sem esforço ou paciência. A filha-da-putagem se desenvolve ao longo dos anos; é uma carreira, um processo evolutivo, uma construção arquitetônica. Há Muralhas da China de picaretagem (Mao Tsé-Tung, o líder chinês responsável por 70 milhões de mortes, é uma das mais notáveis).

Na carreira das artes, destaco o filho-da-puta Bertolt Brecht. Na recém-lançada revista piauí (parece que se escreve assim mesmo, com letra minúscula), há uma HQ, assinada por Edward Sorel, contando os detalhes mais sórdidos da vida de Brecht – entre eles, o curioso hábito de afanar os escritos de sua companheira Elizabeth Hauptmann, um espúrio flerte com os nazistas em 1932 e os elogios a Stálin. Não por acaso, a historinha vem ilustrando o perfil de outro filho-da-puta emérito: Fidel Castro.

Lembrei-me, pois, das palavras de Brecht que servem de epígrafe ao ótimo “Camaradas”, de William Waack:  

Quem luta pelo comunismo não tem de poder lutar e não lutar; dizer a verdade e não dizer a verdade; prestar serviços e negar serviços; manter a palavra e não cumprir a palavra; enfrentar o perigo e evitar o perigo; identificar-se e não identificar-se.Quem luta pelo comunismo tem de todas as virtudes apenas uma: a de lutar pelo comunismo. 

Desconheço melhor definição de filha-da-putagem. Isso é que é dialética! E daqui a pouco vou ver o que o filho do Glauber Rocha anda aprontando. Depois, detalhes.

Soneto circular

October 16, 2006

Se nove círculos tem o inferno,

com mais alguns se fará uma orquídea:

ele e ela contidos no eterno

ciclo de dor e prazer e acídia.

Se sete dias tem uma semana,

e no oitavo se repete o mesmo,

é circular este tempo que engana

ao vasculhar os lugares a esmo.

Se em nove meses a vida é gestada,

quatorze versos irão conformar

este soneto tão falta-de-enxada.

E um ponto agora devo colocar,

pois lá no ponto, com hora marcada,

vou pra labuta com meu circular.

*****

Ester:

Você saiu muito bem no jornal. Nos dois sentidos.

Moraes:

Eu sei que desculpa de aleijado é muleta, mas este novo sistema do Tipos é uma droga pra poema. Por que dois versos não podem ficar juntos iguar quinem na prosa? Ou me ensina um jeito!

Fabebum:

Prazer em conhecê-lo. Na próxima tomamos uma cerveja.

 

 

 

Canção de vida e morte

October 14, 2006

Viver a vida simplesmente

como um átomo vive

sendo a própria semente. 

Viver a vida como um raio

destroça um carneiro errante.

Viver, saber que a morte indócil

torna a vida interessante. 

Viver a morte todo dia

mas não viver a morte em vida,

com seu canto de sereia

e sua cabeça de hidra. 

Viver a vida sutilmente

sabendo embora que só há ida

na rota de toda gente.

Canção da noite enfim

October 13, 2006

Dia não ou dia sim,

está mais perto meu fim.

Está perto como um galo

cedo canta para mim;

como a água desce o ralo

em total ridimuim.

Dia não ou dia sim,

está mais claro meu fim. 

Dia não ou dia sim,

desço a meu próprio confim.

Chego mais perto do sonho

de elevar-me a querubim;

e, ditador medonho,

da vida Idi Amin,

à minha morte imponho,

Policarpo, um triste fim. 

Dia não ou dia sim,

nasce uma noite enfim.

Noite que não tem hora

pra se apossar de mim;

noite da vida afora

noite noite sem fim.

Que assim me leva embora

e me obriga a dizer sim.

Noite noite pandora:

um dia serei assim.

Sem a Neosaldina

October 13, 2006

 

Sem a Neosaldina, quem sou eu? Um gelo ao sol, um vereador sem voto, um carioca sem sotaque, uma estatal falida. Uma travessa alcoólica de impertinências. Só a Neosaldina me alça de novo às raias do ser-alguma-coisa. Sem a Neosaldina, eu sou a tortura contínua, a angústia permanente, a contramão do senso e sensatez, uma piada sem ouvintes, a bosta absoluta. Sem a Neosaldina, eu sou uma planária sem par no Oceano Índico, sou uma banana esquecida depois do Baile do Havaí, sou uma cisterna seca no último andar do Empire State Building. Sem a Neosaldina, eu sou uma Sexta-Feira da Paixão sem peixe, pão ou vinho à mesa. Sou um saquinho de chá esquecido no fundo da despensa, sou um repelente sem refil, sou uma lenda que ninguém lembra. Sou a dor, sem a Neosaldina – infinita e inevitável dor.

 Eu quase que te amo, Neosaldina.

É chato para caralho

October 12, 2006

         Alguns jovens idealistas (mais jovens até mesmo que os meninos da Al Vacaeda, pelos quais eu tenho muito apreço – não sexual, evidentemente) acreditam que a profissão do jornalismo é diferente das outras, repleta de emoções tais como derrubar o presidente, desmascarar corruptos, enfrentar poderosos, punir assassinos, flagrar inimigos da ecologia e denunciar adversários da paz pública.

         Pois eu lhes digo o que há de diferente nesta profissão, garotos: trabalhar em feriado. Qual besta quadrada, rumar para o local de trabalho, caminhando por ruas desertas, enquanto todos estão dormindo ou se divertindo em casa, no boteco, na praia, na fazenda ou numa casinha de sapê.

         É deprimente para caralho. Agora vocês me dão licença, que eu vou derrubar um presidentezinho aê e já volto. Sintam-se em casa.

          (Assinado: Paulo Briguet, um raro capitalista explorado pelo capitalismo. Ou melhor: trouxa.)

O que sai da boca do homem

October 12, 2006

“Terrível é a liberdade abrigue, em si mesma, o germe da corrupção. (...)Os estadistas são dotados de coragem, sagacidade, paciência. Deles se pode dizer o que se disse de Péricles: desde que passou a governar Atenas, nunca mais o viram rir. Os políticos são diferentes. Oportunistas, facciosos, forjadores de mentiras e de intrigas. Inescrupulosos agem, em nome da liberdade, contra a liberdade. Envolvidos, escapam pela via da palavra falsa e espirituosa. Ofendem, pela maneira de portar-se, o Parlamento a que pertencem e que, sendo-lhes afim, parece não se dar conta das ofensas e nem lhe ocorre expulsar esses conspurcadores do espírito da política. Com palavras sentimentais, eles representam a comédia da seriedade. São coveiros da liberdade.”

(Karl Jaspers, filósofo alemão, 1964) 

“Eu amo o governo do meu país por sua tentativa de, num mundo tão precário, preservar uma ordem pacífica na qual o trabalho é possível não para o bem do Estado, mas num Estado que existe para o nosso bem. E amo meu governo no mesmo grau e medida em que ele me deixa em paz.”

(John Updike, escritor norte-americano, 1978)

 “O especialista é um conspirador contra os leigos.”

(Bernard Shaw, escritor irlandês) 

O especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, e por fim acaba sabendo tudo sobre nada.”

(Bernard Shaw) 

“Todos os meus bens estão comigo.”

(Sêneca, pensador romano.) 

“A democracia é a arte e a ciência de administrar o circo a partir da jaula do macaco.”

(H. L. Mencken, jornalista e escritor norte-americano) 

“Se o governo comprar um circo, o anão começa a crescer.”

(Delfim Netto, economista brasileiro) 

“Marx escrevendo sobre dinheiro é como padre falando sobre sexo.”

(Paulo Francis, jornalista e escritor brasileiro) 

“Cu é lindo!”

(Adélia Prado, poeta brasileira) 

“O baixinho da Kaiser beijou a Karina Bacchi? Pois eu prefiro beijar o baixinho a tomar uma Kaiser.”

(Anônimo londrinense)

Teoria e prática do povo

October 11, 2006

Sempre ouvimos falar: o “povo”, o “povo”, o “povo”. Mas, afinal, o que é o “povo”?

O “povo” é uma entidade mágica que se adapta às necessidades de quem usa a palavra. O “povo” é diferente da população. Eu e você, leitor, fazemos parte da população, mas não fazemos parte do “povo”. Porque o “povo” não lê blogs; o “povo” não tem internet; o “povo” está trabalhando neste momento; o “povo” tem mais o que fazer. Há datas para que o “povo” possa carpi-las. Não importa que eu ande de ônibus, não tenha carro ou freqüente o Bar do Nonóca – eu não sou do “povo”.         

Na época em que o Lula perdia as eleições, diziam que o “povo” estava sendo enganado pelo “sistema” (taí outra palavra que merece uma análise mais detalhada). Agora, na época em que ele as vence (se o Chuchu permitir, e espero que não permita), qualquer tentativa de oposição (a oposição que ele antes fazia tão ferrenhamente), é desqualificada como conspiração das “elites” contra o “povo”.        

Há cientistas políticos do “povo”. Cotas do "povo". Comentaristas do “povo”. Repórteres do “povo” (Regina Casé, com seu complexo de periferia santificada, é um deles). Políticos do campo “democrático-popular”. E acreditem: há até populares do “povo”.        

É como dizia o Ey-ey-ey-mael: “Depois da eleição, deixe comigo. E com o ‘povo’ de bem deste país”. Deixar com você o quê, Eymael? O quê?

Não importa. Importa que é preciso falar para o “povo”; escrever para o “povo”; usar a linguagem do “povo”; ganhar o debate para o “povo”; aceitar a corrupção porque o “povo” aceita; falar que privatização é coisa do demônio porque o “povo” assim considera; gostar de tudo que o “povo” gosta (ainda que seja merda pura). Caso contrário, se é suíço, se é “elite”, se é “do sistema”.

O “povo” é como um polvo: cheio de tentáculos. Com ele, estamos enrolados.

Os senhores poderiam me ajudar?

October 11, 2006

Eu e o pai bebíamos a segunda e penúltima no Bar do Nonóca. Discutíamos o debate dos presidenciáveis com um amigo que se achegou à mesa.

Vi quando ela se aproximou em marcha lenta, passando pela frente da casa de madeira da esquina, há pouco desaparecida. Atravessou a rua e dirigiu-se ao bar. Moça alta, magra, bem-vestida, de cabelos curtos. Bonita. Mas tinha os olhos e a voz de ausência. Ao aproximar-se de nossa mesa, disse em tom decorado:        

– Os senhores poderiam me ajudar?        

Respondi:        

– A gente acabou de pagar a conta.        

Ela não discutiu; virou-se roboticamente para a outra mesa, onde estava um casal, e repetiu a pergunta. Fez o mesmo com todos os que estavam no bar. Não sei se conseguiu algum dinheiro. Só sei que era bonita, magra, alta, bem-vestida – e tinha os olhos de alguém que já morreu.

Sumiu na noite.

Privatizar, já!

October 10, 2006

Depois de ler os belos poemas que o Ygor tem publicado, eu havia prometido parar de falar de política, mas não consigo ficar quieto.

É que simplesmente não entendo a resistência ao programa de privatizações iniciado pelo governo FHC e que, tenho fé, deverá continuar na gestão do Chuchu.

Não entendo – em termos. A resistência do PT às privatizações se deve a um fato muito simples: as estatais são a fonte primordial de recursos para Lula & seus 40 companheiros. Só não compreendo porque os eleitores decentes – e avessos à corrupção – continuam tão antiprivatistas, comportando-se como se o capitalismo fosse um pecado mortal (ou melhor, capital).

Joelmir Beting foi claro e didático no último debate: os juros não estão altos para evitar a inflação; eles estão altos para fazer frente à dívida pública. Portanto, É PRECISO CORTAR GASTOS. A maneira mais simples de fazer isso é diminuir o tamanho do Estado.

Você aí, que tem hoje o seu telefone celular, ou está lendo este blog na banda rápida, deveria agradecer a FHC e sua equipe pela competente privatização da telefonia. Um dia, continuo tendo fé, essa mesma lógica chegará à Petrobrás, ao Banco do Brasil e a outras estatais, sorvedouros de dinheiro público.

Todo governo é corrupto? Em certa medida, sim. Mas nem todos o são à maneira sistemática e orwelliana do PT. O de FHC não foi.

Menos governo, menos corrupção. É simples assim. Mas o Lula não aceita isso: como todos sabem, ele fala menas.

Ode ao bar

October 09, 2006

Este vício, estranho a não mais poder, e no entanto corriqueiro, de conciliar sol e tempestade, turbulência e placidez, imobilidade e pressa, talvez eu o deva a algum irmão que não nasceu. É o irmão que procuro quando bebo.

 

Álcool, demônio humorista, herói cômico, cachorro sem dentes e cavalo sem pernas – é você que me divide e unifica. É você que aproxima dos contornos do mundo. É você que me faz ser tanto o que sou – a ponto de perder a identidade e os sentidos. 

 

Irmão, além de inexistente, pérfido. Rouba-me dinheiro e saúde. Deixa-me grávido de mim mesmo: o parto será a morte.

 

Suas mentiras, álcool. Suas armadilhas. Suas extravagâncias. Suas vinganças, suas trapaças, suas rimas. Suas ironias e explosões. Suas saudades de ninguém sabe quando nem o quê. Quê?!

 

Adoro o bar, a esquina do bar, o acolhimento do bar, a luminosidade do bar, o silêncio das garrafas, a solidão do banheiro, o balcão tosco, a mesa marcada pelos círculos úmidos. O bar é o contrário da respeitabilidade. É o meu lado menos suíço, menos polido, menos diplomático.

 

O bar é meu paraíso provisório, meu caminho que não se bifurca, meu amargor necessário. O bar é minha igreja, e por ela eu agradeço a Deus todos os dias.

 

Os fantasmas adoram ir ao bar. Eu vou.   

Suíça ou Senegal

October 08, 2006

Sem medo algum de estar puxando a sardinha para o tucano, digo que Alckmin foi tremendamente superior a Lula no debate (que acompanhei do começo ao fim). Para usarmos uma comparação futebolística, das que o presidente aprecia, eu diria que foi algo como 4 x 1 (talvez 5 x 1) para Geraldo. É, meus amigos, o governo vai ter que rebolar muito para ter alguma chance no dia 29.

(A idéia de vender o Aerolula para comprar seis hospitais foi simplesmente genial, por isso causa tanta revolta em alguns.)

Geraldo vai decolar de Swissair - se é que vocês me entendem. Entre um futuro suíço e um senegalês, eu jamais terei dúvida. 

Título de eleitor

October 06, 2006

Recentemente, o Zero fez uma experiência tão legal que deu vontade de copiar: recapitular todo mundo em quem votei nesta vida de meu Deus. Hoje, farei mais: não apenas lembrar em quem votei, mas dizer em quem votaria hoje. Começo por 1982 e 1986, quando eu ainda não tinha idade eleitoral, mas mesmo assim já tinha candidatos (filho de cumunista é foda). 

1982 

Governador – “Votei” em Franco Montoro (PMDB). Repetiria o voto. Ele ganhou e foi um ótimo governador.

Senador – “Votei” em Almino Affonso (PMDB). Quem ganhou foi o Severo Gomes, do mesmo partido (naquela época podia ter até três candidatos por partido), mas de quem não gostávamos porque foi ministro da ditadura.

Deputado federal – Ulysses Guimarães (PMDB). Ganhou, é claro, e eu repetiria o voto.

Deputado estadual – Franco Baruselli (PMDB). Outro dia eu o vi na rua, lá em Araçatuba. Tá bem velhinho. Repetiria o voto. Mas ele perdeu. 

1986 

Governador – “Votei” em Suplicy (PT). Perdeu, é claro. Hoje votaria em Antônio Ermírio de Moraes (PTB), um empresário sério e competente; quem ganhou foi o bandido do Quércia (PMDB).

Senador – “Votei” em Hélio Bicudo e Jacó Bittar (PT). Até gosto do Bicudo; Bittar é um Lula piorado, se é que isso é possível. Hoje votaria em Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso (na época, do PMDB), que ganharam.

Deputado federal – Na época, “votei” em Fernando Morais (PMDB). Hoje, votaria em José Serra (mesmo partido).

Deputado estadual – Na época, votaria em Hélio Consolaro (PT). O caro é cronista, professor, gente boa. Mas acho que não votaria mais nele, não. 

1988 

Prefeito de Araçatuba (SP) – Meu primeiro voto. Em Hélio Consolaro (PT). Diante dos outros candidatos – inclusive um que cumpria prisão domiciliar, e ganhou, usando a esposa como testa-de-ferro –, era o melhorzinho.

Vereador – Meu amigo Cido Sério (PT). Nem saiu na foto. Hoje eu anularia. 

1989 

Presidente – 1º turno – Lula (PT).  Hoje votaria em Mário Covas (PSDB).

Presidente – 2º turno – Lula (PT). Hoje votaria nulo. Collor ganhou. 

1990 

Governador de São Paulo (meu título ainda era de lá) – 1º turno – Plínio de Arruda Sampaio (PT). Hoje votaria em Mário Covas (PSDB), que nem foi para o 2º turno.

Governador de São Paulo – 2º turno – É difícil dizer isso, mas eu votei no Fleury (PMDB). Tudo bem que era contra o Maluf, mas hoje eu anularia o voto.

Senador – Eduardo Suplicy (PT). Acho que eu até votaria nele, vai. É um dos melhores quadros do PT, apesar de – ou porque – debilóide.

Deputado federal – Florestan Fernandes (PT). Um homem honrado, mas comunista. Jamais votaria nele de novo. Elegeu-se, mas o Brasil estaria bem melhor com um José Serra, um Alberto Goldman ou algo parecido.

Deputado estadual – Votei em alguém do PT, não me lembro quem, acho que o Cido Sério. Só sei que perdeu, graças a Deus. 

1992 

Prefeito – 1º turno – Luiz Eduardo Cheida (PT). Apesar de gostar pessoalmente do Cheida, hoje votaria em Wilson Moreira (PSDB).

Prefeito – 2º turno – Cheida (PT). Ganhou do Moreira, e foi um prefeito inepto, embora honesto.

Vereador – Legenda do PT. Que bosta. Hoje votaria nulo. 

1994 

Governador – 1º turno – Jaime Lerner (PDT), esse aborto da natureza. Hoje votaria nulo.

Governador – 2º turno – Jaime Lerner (PDT). Ganhou, mas hoje não teria o meu voto nem fodendo.

Senador – Osmar Dias (PP) e um cara do PT, que é um advogado trabalhista lá em Curitiba, mas eu esqueci o nome. Acho que votaria no Osmar de novo, só para evitar o Tony Garcia; mas no cara do PT, não. Ganharam o Osmar e o Requião (PMDB).

Deputado federal – Paulo Bernardo (PT). Ai meu Deus, que vergonha confessar isso.

Deputado estadual – Legenda do PT. Vergonha, outra vez.  

1998 

Governador – Roberto Requião (PMDB). Foi contra o Lerner, mas eu jamais repetiria esse voto. Se o Requião for candidato a síndico no meu prédio, eu veto.

Senador – Nedson (PT). Foi um voto contra o Álvaro Dias, que acabou se elegendo, mas hoje eu não votaria nele, não. É até um sujeito simpático, mas...

Deputado federal – Ciro (PT). Coitado do Ciro. É gente boa, mas ainda bem que não foi eleito.

Deputado estadual – Irineu Colombo (PT). É do MST. Tenho muita vergonha desse voto. 

2000 

Prefeito de Londrina – 1º turno – Nedson (PT). Hoje votaria no inepto porém honesto Cheida (PMDB).

Prefeito de Londrina – 2º turno – Nedson (PT). Hoje votaria nulo. Era contra o Barbosa Neto (PDT).

Vereador – Márcia Lopes (PT). Gosto da Márcia, mas não concordo em nada com ela. Hoje votaria em Tercílio Turini (na época, do PSDB). 

2002 

Presidente – 1º turno – Nulo.

Presidente – 2º turno – Nulo.

Governador – 1º turno – Nulo.

Governador – 2º turno – Nulo.

Senador – Nulo.

Deputado federal – Nulo.

Deputado estadual – Nulo. 

2004 

Prefeito de Londrina – 1º turno – Nulo.

Prefeito de Londrina – 2º turno – Nedson (PT), para evitar o ladrão Belinati. Hoje anularia o voto.

Vereador: Nulo. 

2006 

Presidente – 1º turno – Geraldo Alckmin (PSDB).

Governador – 1º turno – Nulo.

Senador – Nulo.

Deputada federal – Nitis Jacon (PSDB) – teve 14 mil votos e não se elegeu.

Deputado estadual – Nulo. 

***** 

Como diria Seu Jorge, É ISSO AÍ...

Casa de madeira

October 06, 2006

O que mais me espanta nas casas de madeira é a rapidez com que elas desaparecem – da noite para o dia.        

Assim aconteceu com a casa na esquina da Rua Henrique dos Santos, em frente ao meu bar preferido, a Cantina do Nonóca.        

Até ontem, a casa estava lá. Agora, não está mais. Virou um monte de tábuas, que em breve serão levadas sabe-se lá para onde.        

Cultivo, porém, o vício de enxergar pessoas e coisas onde elas não mais estão. Nunca me acostumarei com a esquina da Rua Henrique dos Santos sem a casa de madeira. Nessa mesma esquina, há um ponto de ônibus que uso bastante. Será difícil levantar o braço e chamar o ônibus sem a testemunha silenciosa das paredes da casa; sem a sua vizinhança discreta e cúmplice.        

Quem morava ali? Não sei; não me lembro de ter visto alguém entrar ou sair da casa de madeira. Mesmo assim, a residência parecia bem-conservada, limpa e digna. A moradora da casa de madeira – sempre imaginei que fosse uma velhinha – devia ser tão discreta quanto a própria casa.        

Repito: não sei quem era a moradora da casa de madeira. Mas, estranhamente, sinto saudade das duas. Há mais de dez anos venho a este bar, sento-me a esta mesa, e tenho certeza (uma certeza que eu não conhecia) de que a casa vizinha, a casa da esquina, a casa verde estará lá, entre suas heras e flores, com o telhado marrom percorrido por gatos e passarinhos, inimigos naturais.        

Sentir a falta da casa de madeira – e de sua desconhecida moradora – é sentir a falta de mim mesmo. Eu sou o habitante do vazio da esquina da Rua Henrique dos Santos. Eu sou a casa de madeira.        

Palhaçada

October 05, 2006

Só me respondam uma coisa: quando é que o Cirque du Soleil – o Skank do picadeiro – vai embora do Brasil? Os caras não se empirulitam nunca mais! Tô cansado de ver propaganda dos babacões na TV, e não agüento mais a musiquinha: “Durara-reraê-durara-reraê...”

Esse circo aê tá parecendo até aqueles argentinos, malabaristas ou o caralho, que vêm pro FILO e resolvem ficar na cidade.É claro que os cirquentos foram pagos com renúncia fiscal; um dinheirinho du guverrrno sempre tem que rolar.  

Eh! 

***** 

Discurpa, Zero. O incêndio que você noticiou com exclusividade foi no Shopping Estação, e não no Shopping Avenida (não sei de onde eu tirei isso). 

***** 

Hoje eu defendi o Proer; a privatização das teles (já realizada e bem-sucedida); a privatização da Petrobrás (infelizmente ainda não realizada); o Plano Real. Ainda restam temas importantes: ACM; as cotas raciais; a privatização do Banco do Brasil. Coisas de liberal... 

***** 

E vamo pra QSL que é melhor. Geraldo presideeeeeeeente.

Nota dez para o Zero

October 05, 2006
Um dos mais lúcidos posts que eu já li sobre Lula e o PT acaba de ser publicado pelo Zero. O mínimo que posso fazer é recomendar-lhe a leitura. Além de ótimo poeta, cronista e repórter (lembram-se do incêndio no Shopping Avenida?), o cara manda bem como articulista político. Parabéns, meu amigo.

Quanto a mim, sei que não vou ganhar um mísero voto para meu candidato (para quem ainda não sabe, Geraldo Alckmin, do PSDB).

 

Talvez eu perca alguns eleitores do Chuchu; até porque um dos meus hábitos é fazer o que quase ninguém mais faz, por politicamente incorreto: falar bem do FHC, o presidente brasileiro que mais esteve perto de ser um estadista.

 

FHC fez o Plano Real. Isso foi uma grande realização; uma realização efetivamente histórica, pois deu ao país uma moeda. Alguém está lembrado dos tempos da inflação? Pois é. Com inflação, quem sofre mais é o miserável, aquele que não tem conta bancária. E foram esses, principalmente, que o Plano Real beneficiou. A cada vez que usamos dinheiro, deveríamos dirigir um pensamento de gratidão a FHC e sua equipe. (Essa frase ficou ótima, hein, James? Imagine: você vai comprar uma paçoquinha, R$ 0,50, "Obrigado, FHC"; vai comprar uma tubaína, R$ 1,80, "Obrigado, FHC"; vai comprar um badulaque na loja de 1,99, "Obrigado, FHC".)

 

Outro bem que o FHC fez para o Brasil foi o apoio aos bancos durante as crises financeiras internacionais (que ficou conhecido como Proer). O Proer evitou a derrocada da economia brasileira diante de cenário internacional mais do que desfavorável, inóspito. (Imagino Lula e o Margarigna no mesmo contexto... Imagino e tremo.)

Ao impedir que houvesse uma onda de falências no sistema bancário, FHC beneficiou, acima de tudo, os correntistas – a maioria esmagadora, da classe média. Essa mesma classe a quem o meu amigo James-Margo “culpa” pela ida de Alckmin ao segundo turno.

 

É lógico que a classe média não votou no Lula, James. “Nunca neste país” ela foi tão cruelmente esmagada. Eu não acho que os males do Brasil sejam causados pela classe média; ao contrário, para mim, não existe civilização sem uma classe média fortalecida e atuante. Ditadores odeiam “pequenos burgueses” - eles são chatos e, desculpe a palavra, subversivos (no sentido de que não aceitam qualquer coisa). Classe média: é isso o que eu sou, e é isso que você também é, James-Margo. A diferença é que eu assumo, e não me entrego a delírios masoquistas (ainda que espirituosos, como quase tudo que você escreve).

 

Lula esmaga a classe média em prol de medidas populistas e assistencialistas como o Bolsa-Esmola. Ele torna os pobres mais pobres para cair na graça dos miseráveis. A diferença entre o Plano Real e o Bolsa-Esmola é sobretudo moral: uma moeda forte abre perspectivas de futuro e dignidade, além de atender a necessidades imediatas; uma esmola estatal mata a fome (e não sou contrário a isso), mas cria uma dependência espúria. É uma chantagem com o estômago, que passa longe da dignidade humana, e jamais poderá ser a base de um projeto de desenvolvimento nacional.

Como bem observou Zero, num comentário posterior, não há antítese entre o mercado e a política social. Fortalecer o mercado é a melhor política social!

Ah, e quanto ao apoio do casal Garotinho a Alckmin, eu também não sou chegado àqueles dois seres abomináveis. Mas comparemos: fazem parte do comitê central de campanha de Lula nada menos que Jader Barbalho, Newton Cardoso e José Sarney. Maluf e Collor também declararam apoio ao Barba. Mil vezes o PFL!

(Tag: Adoro ser de direita.)

É triste vender minhocas

October 04, 2006

É triste vender minhocas,

abandonar os sonhos da juventude,

perder a eleição, descobrir-se diabético,

ouvir Credence na Quarta Rock,

saber que Avril Lavigne cuspiu no fotógrafo,

ver o triunfo dos magnânimos salafrários,

sentir saudade do pai e da mãe,

constatar que a Neosaldina acabou.

É triste vender minhocas,

acordar de ressaca

e ter um longo dia de trabalho pela frente,

morrer com apenas 24 anos de idade,

ser transfixado por uma arraia

ou pender de uma cruz,

ter dúvidas no Jardim de Getsêmani.

Porém, mais triste que tudo

é não conseguir vender as minhocas.

Navio negreiro

October 03, 2006

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

 

          (Castro Alves, 1847-1871)



Esses moços, pobres moços

October 02, 2006

Os meninos da Al Vacaeda estão bravinhos. Gosto deles, acho-os boas praças, bem-humorados, e recomendo-lhes a leitura, embora saiba que eles não gostam muito de mim. Queriam os pimpolhos pecuário-terroristas, embora