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Archive for September of 2006

Hemingway: criminoso?

September 29, 2006

 

 

Sempre gostei do Hemingway contista. Já os romances... Li “O Sol também se levanta” com uns 20 anos, e achei ducas. Tenho medo de ler de novo. “Por quem os sinos dobram” e “Adeus às armas”, li com mais de 30 e, embora tenham belos títulos (tungados de poetas, diga-se), me pareceram datados, cheios de um heroísmo vazio, meio babaca. (Hemingway deve ter ficado fulo da vida quando Edmund Wilson comparou-o a Popeye, no célebre ensaio “Hemingway e a medida do moral”).

 

Agora tem um pesquisador dizendo que Hemingway assumiu, por carta, ter matado 122 prisioneiros alemães na Segunda Guerra. Se for verdade, isso o torna um criminoso de guerra, embora não diminua nem um centímetro a sua estatura como escritor.

Mas é preciso ver o seguinte: Hemingway andava piradinho da silva, principalmente nos últimos anos (a carta é de 1950; ele morreu em 62). E sempre – sempre – gabou-se de supostos feitos de machão, Nélson Rubens avant la lettre (“Eu aumento, mas não invento...”). Pode ter sido loucura ou mentira do velho Papa. 

Gore Vidal (seu xará, Vidal!) sempre disse que Hemingway era uma farsa. Hem teria copiado o estilo de Stephen Crane – cuja coletânea de contos achei num sebo e pretendo ler agora, para saber se a bicha velha está certa. Eu, na minha ignorância monoglota, acho que Hem deve muito a Turguêniev.

 

Mas “As neves do Kilimanjaro” e “Um lugar limpo e bem-iluminado” permanecem obras-primas do conto, para mim. Com ou sem crime de guerra; com ou sem Stephen Crane.

No futuro estaremos todos mortos

September 28, 2006

No futuro estaremos todos mortos. Patéticas as nossas discussões. Ridículas as vaidades. Lula, Geraldo, Heloísa, Cristovam, Ey-ey-ey-mael, um democrata-cristão. É tudo de César, pobre César... Dossiês forjados ou autênticos, comprados com dinheiro público ou não – todos mortos. PT, PSDB, PFL, PSOL: a grande roda da história. Rá! Essa é boa.        

O Freud de Brasília, tão morto quanto o de Viena. De todos, só um restará um lapso de memória. No futuro seremos vertigens sem nome; fumaça de fogueiras extintas; mares mortos aterrados; sal sem sal; piadas incompletas; o ato falho de alguém que nem saberá falar nossa língua – porque ela também estará morta, como a de César. Nem mesmo os papagaios e as tartarugas terão lembrança do velho idioma.        

Se eu fizer um filho em você esta noite, ele nascerá daqui a alguns meses. Gritará quando vier à luz, porque saberá no fundo: é o início. No futuro seremos da morte.        

Todos esses que hoje gritam e fervem e apontam os dedos – eu incluído – estaremos bem longe. No pó. Na viração. Na moagem sem mó. Nosso filho – feito, quem sabe, hoje à noite – com sorte estará aqui por uns 90 anos. Depois, a mesma sorte, a mesma morte. O mesmo reino.        

Escrevo num ônibus. Se o ônibus não explodir até meu ponto, estarei vivo por mais algum tempo. Mas nele – no futuro – a morte vai levar todos os passageiros, motorista e cobrador. A morte, sem catraca. A morte, sem passagem.        

No futuro estaremos todos mortos. Seremos a sombra da sombra da sombra; as imperceptíveis ondas no lago de uma pedra arremessada há mil anos – há um milhão. Antes do lago, antes da água, antes do vapor. E seremos o lago do lago do lago. E seremos a pedra da pedra da pedra. Todos mortos.        

Por isso vou agora para o bar tomar uma cerveja. Chegou a quinta-feira. Eu te amo e tenho saudades. O tempo é curto; aproveitemos. A noite começou. O reino não é este. No futuro estaremos todos vivos. Amém – e saúde.

Tragédia e farsa

September 27, 2006

Os heróis trágicos, por mais que tentassem, nada podiam fazer contra as forças que controlavam seus destinos. Os vaticínios dos deuses eram infalíveis. Nós, ao contrário, somos anti-heróis farsescos: sabemos o que está acontecendo, e o que vai acontecer, e insistimos em caminhar a passos largos para o abismo. Votar em Lula, hoje, é isso. É claro que eu não vou votar nele, como já disse e repeti inúmeras vezes, mas o clima que eu sinto é esse. Apesar de tudo, acho que vai dar segundo turno. E então o medo poderá vencer a esperança – assim espero. 

***** 

Um policial lotado no Palácio Iguaçu, assessor próximo do governador Roberto Requião, instala um central de grampos telefônicos. Assessores que trabalhavam no Palácio do Planalto, intimamente ligados a Lula, têm prisão decretada por compra de um dossiê fajuto. Só não são presos porque a lei eleitoral impede. Requião e Lula dizem que ganham no primeiro turno. Mas pode não ser tão fácil assim. 

***** 

Estou no Youtube. E falando bobagem. Dêem uma olhada no site www.toscorama.com.br. Nome mais adequado não pode haver – afinal, estou lá!

Skank e Pitty – The Movie

September 26, 2006

Há (infelizmente) um Skank da música; mas também há os Skanks de outras áreas. No cinema, a banda mineira é formada por Nicolas Cage, Tom Hanks e Jim Carrey. Qualquer filme em que esteja presente algum desses senhores tem 95% de chances de ser insuportável. Já Meg Ryan – que alguém um dia teve a desfaçatez de comparar à minha musa Juliette Binoche – é a Pitty das telas. Caetano Veloso é Godard; Carlinhos Brown é Spike Lee. Dinho Ouro Preto é Tom Cruise. E por aí vai. 

***** 

Parodiando o Claudinho Yuge, eu quero que você fique com uma música do 50 Cent na cabeça. Que é precisamente o que aconteceu comigo. 

***** 

Hoje vou dar uma palestra em Maringá. Por que ainda insistem em me convidar? Eu já não provei que falo só besteira?

A alegria de um liberal

September 25, 2006

Apesar de cristão, raramente vou à igreja. Neste domingo, batizado da Bruna (filha do Preto Ranulfíssimo), fui (8h45, vai vendo). É um acontecimento tão significativo que até fizeram uma faixa pra mim. E - vaidade das vaidades - não tive como resistir aos pedidos dos fotógrafos. Notem como estou gordo (não confundam com prosperidade, por obséquio).

September 25, 2006

 

A Lua sorri no alto.

E assim - sorridente - diz:

- Diante do próprio nariz,

vocês, soturnos palhaços,

não sabem dos próprios atos.

Mais leituras de WC

September 25, 2006

Como vocês já sabem, meu metabolismo tem precisão suíça. E a Ilustrada, da Folha de S. Paulo, é a minha leitura predileta enquanto eu boto os menininhos pra nadar. Não apenas pelos quadrinhos (adoro Angeli, Níquel Náusea e Chico Bacon) e a ótima coluna da Mônica Bergamo (onde escreve minha talentosa amiga Audrey Furlaneto); o que mais me diverte nessa hora ritualística é ler as matérias falta-de-enxada ali encontradiças.

Hoje, na primeira página, tem um texto dugarai, falando sobre uma tal artista plástica performática Marina Abramovic, que participa de um ciclo sobre arte pornográfica.

A referida senhora, 59 anos, acaba de realizar a performance “The house with the ocean view”, na qual permaneceu 12 dias dentro de uma casa de vidro, sem comer e sem falar. Ela é o Garotinho das artes plásticas (alguém aí se lembra que o Garotinho fez greve de fome; aliás, alguém se lembra que o Garotinho existe?).

Em 1988, a mulher fez uma caminhada de ponta a ponta da Muralha da China, junto com o marido – ou melhor, junto não; um de cada lado da Muralha. Quando se reencontraram, 90 dias depois, assinaram o divórcio. (Alguém responda: É possível discutir a relação em lados diferentes da Muralha da China?)

E isso é artchi, minha gente! É artchi! PEEENSE! – diria Denise Estóica.

Não tive como deixar de ver a íntegra da entrevista de sra. Abramovic, disponível neste link. Segue um trecho antológico: 

“Podemos usar nossos órgãos sexuais para a cura, por exemplo, mas só o usamos com um propósito. O que me interessa é apontar para a parte espiritual do corpo. Em meu trabalho (...) há um momento em que as mulheres mostram seus genitais buscando assustar os deuses e fazer parar a chuva.” 

Deixa a Cicarelli ouvir esse papo, ô dona...

O dedo e a mão (ou A mancada do Vanhoni)

September 23, 2006

Recebi um e-mail do deputado Ângelo Vanhoni – aquele que não foi eleito prefeito de Curitiba porque, segundo consta, deu muita mancada na campanha – “denunciando” o surgimento de uma campanha anti-Lula que usa o símbolo acima. Segundo o deputado, a imagem contra o prefidente seria desrespeitosa e preconceituosa contra os deficientes físicos.

É a doutrina politicamente correta na sua pior versão. Vanhoni, sem ser convidado, aparece no meu e-mail para dizer que os responsáveis pela tal campanha devem ser punidos “na forma da lei”. Sinceramente, vá caçar o que fazer, deputado. Vá derriçar uma rua de café, lavar um tanque de roupa, pintar uma guia na Avenida das Torres.

Por motivos rasteiros e eleitoreiros, vossa excelência finge não saber que o verdadeiro alvo da referida campanha não é a falta de dedo do Lula – pelo menos, quando o perdeu, o homem estava trabalhando, coisa que hoje em dia ele não é muito chegado a fazer –, mas a falta de vergonha na cara e decência da alma do candidato à reeleição. Ninguém se lembraria do problema no dedo de Lula se ele não tivesse as mãos tão bettiamente sujas. E mais: a campanha é inteligente porque se põe contra a idéia de mais quatro anos para Lula (quatro anos, quatro dedos, hã, hã, entendeu, entendeu?)

Uma das pessoas que eu mais amo neste mundo tem sindactilia. Prefaciei os livros de dois amigos diletos, um totalmente cego e outro quase surdo, que enxergam e escutam muito melhor do que eu. Meu ídolo e querido avô, o seu Briguet (que esteja com Deus), teve parte de um dedo comida por uma piranha – piranha peixe, vou logo avisando aos engraçadíssimos – durante uma pescaria. Já a vossa falta de bom senso, deputado, é infinitamente pior do que vosso problema físico.

Um copo de morte

September 22, 2006

 “Nada é tão importante que não interesse a ninguém”, disse o aluno do Enem, citado pelo James-Margo.

Essa frase cabe perfeitamente na minha sexta-feira. Todas as sextas, eu bebo um copo de morte. Minha sexta-feira começa a ser produzida na Quinta Sem-Lei, aquele agradabilíssimo encontro no dia anterior com os mestres Rocha, Tanga, Pafu e outros bons amigos no Bar Brasil. E do céu – meio dantesco, com dificuldades para mijar, mas ainda céu – se produz o inferno. 

Desconfio que, no fundo, a verdadeira motivação da alegria da quinta é a ressaca da sexta. Um copo de morte, com duas Neosaldinas. 

“Nada é tão importante que não interesse a ninguém.” Mais não digo, por desnecessário.

(Será este mais um daqueles posts piegas?)

"Ética"

September 21, 2006

 

Ética? Não, eu não sei o que é ética. Nunca soube, na verdade. Um dia, achei que pudesse saber, mas estava errado, erradíssimo; eu já fui uma besta por me achar um paladino da ética. Peço desculpas.

Quem sabia de ética, talvez, era Moisés, era Jó, era Aristóteles, era Jesus, era Paulo, era Agostinho, era Spinoza, era Tolstói. Talvez Euclides da Cunha, nosso maior escritor, tenha sido o único brasileiro que soubesse de ética. Bach, na sua genialidade de harmonias, passou por perto em alguma sonata. Hoje ninguém sabe o que é ética. A ética acabou, está morta, foi brutalmente assassinada (como se todo assassinato não fosse brutal...).

A ética tornou-se uma palavra-valise, onde se coloca o que se deseja, de acordo com a tática e a estratégia de cada um. Mataram a ética esvaziando-a de sentido, como quem esvazia de sangue um animal, ou de seiva uma planta. A ética virou uma coisa – uma coisa sem tempo.

Não me venham falar em ética. Muito menos em código de ética. O último código razoável foi o código Morse. Depois dele, só veio bosta. Ame e faça o que quiser, disse Jesus, pela boca de Tomás de Aquino, se não me engano. É isso. Não é ética.

Hoje em dia qualquer candidatozinho, qualquer empresário de meia-pataca, qualquer filósofo ou sociólogo de araque se arvora a falar de ética. Que apodreçam nos infernos! Teve um partido aí, não se vocês conhecem, que se autodenominava guardião da ética. Veja no que deu. Quem se lembra do Movimento pela Ética na Política? Assim mesmo, em caixa alta. Rá! Que piada, Zé Dirceu, Berzoini, Gushiken, Palocci! Que piada, ó núcleo duro da ética!

Não, eu não sei o que é ética. Nem quero saber. Talvez eu saiba, assim muito por cima, o que é ter alguma vergonha na cara, o que é um resto infinitesimal de decência, o que é dormir sem ter tanta vergonha do que se fez durante o dia. Talvez uma vaga noção dessas coisinhas, que bóiam em minha ignorância oceânica. Mas – ética? Nada consta. Assim como não sei o que é cidadania, justiça, igualdade – palavras assassinadas pela vulgaridade pretensiosa e maliciosa.

Queimem a ética. Destruam a ética. Abominem a ética. Expulsem a ética de suas casas. Mandem a ética à puta que a pariu. Porque a verdadeira ética foi derrotada, está a sete palmos, virou cinza e pó e amnésia. A ética que se propaga pelos ares é uma impostora, um demônio com nome de anjo.

Ser reacionário não é o problema. Reacionários reagem. Ser conservador não é o problema. Conservadores conservam. O importante é saber a que se reage; e o que se conserva. Direita e esquerda são ilusões de ótica - dependem do referencial adotado. Esquerda é o que se chama de esquerda e tenta renascer mesmo após os piores crimes e atrocidades. Direita é o que cada vez mais sente vergonha de ser o que é. Isso é o que se chama por aí de ética, hoje em dia: tomar posição. E posição, eu só respeito as sexuais.

A ética hoje é o dossiê forjado, é a culpa-é-do-sistema, é o todo-mundo-faz-assim-mesmo, é o não-estamos-no-primeiro-mundo. É dizer que a culpa é da classe média e dos liberais – eles e ela, cada vez mais acuados e fodidos. A ética hoje é o presidente do Irã defendendo a destruição de Israel; é o homem-bomba; é aquele palhaço venezuelano falando besteira na casa dos outros; é o culto aos sanguinários Che Guevara e Fidel Castro; é o pobre do papa sendo espezinhado porque citou um documento medieval (que, por sinal, dizia a verdade). A ética hoje é o Freud de Brasília. A ética hoje é o bolsa-esmola. A ética hoje é o candidato ecologista que faz poluição sonora. A ética hoje é belinatizar o Brasil. A ética hoje é Lula lá e Requião aqui. Eu tenho nojo dessa ética. Nojo e náusea. Eu quero distância dessa ética de merda.

Vá ao seminário de ética – mas não me chame. A partir de hoje, só vou escrever essa palavra entre aspas. “Ética.” Ó grandíssima bosta.

(E agora eu vou pra Quinta Sem-Lei, que esse papo tá muito sério e chato.)

Eu sou fiscal do Sarney

September 21, 2006

Aquele marimbondo energúmeno, intelectual de novela mexicana, presidente que nos deixou com uma inflação de 80% ao mês e depois se elegeu senador por um estado que não é o dele, também conhecido por José Sarney, conseguiu o apoio de algum juizinho com pretensões de tiranete e está censurando o blog da jornalista Alcinéa Cavalcante. Mais do que motivo para visitarmos o blog da moça e deixarmos mensagens de solidariedade – além, é claro, de alguns adjetivos carinhosos ao abominável bigodudo. É aqui. (Detalhe: as letras de músicas são trechos censurados pela justiça - não é agora que eu vou usar caixa alta, né?)

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E o Berzoini caiu, hein? Tô com uma leve impressão, Moraes, de que o que você chama de "fragorosa derrota do empresariado paulista" (empresariado este que, por mais que tenha picaretas no meio, é uma das nossas únicas esperanças de criar uma economia forte, liberal e desenvolvida) não é tão certa assim. Acho que vai dar segundo turno - e a história é outra. "Amanhã vai ser outro dia".

O pêlo branco

September 20, 2006

  

Tem um pêlo branco em minha barba. Sim, senhores, acabei de achá-lo; é um fio de sombria alvura na solidão do meu queixo. Cortei-o com a lâmina de barbear; não adianta – ele voltará, e voltará acompanhado. Terrível pêlo sem cor, a menos de um palmo do meu nariz.

Nunca me importei com os cabelos brancos, já em pé de igualdade com os castanhos na minha cabeça.

Mas esse pêlo! Justamente na barba, essa barba que nunca tive nem chegarei a ter, projeto abortado de barba, máscara de Jeca Tatu que nasce todos as noites no rosto! Humpf.        

É uma barba adolescente. A única parte jovem que restava em mim – e agora tem um pêlo branco. Um emissário do tempo, um mensageiro da decadência, um repórter do já-passou.

A partir de agora, fio, sou um completo tiozinho.

A hora do pesadelo

September 20, 2006

Estava eu, tomando a minha Kaiser, enquanto via pela TV uma apresentação do Skank no programa do Marcão Kareca, quando de repente surgiu Hebe Camargo e me pediu em casamento. Aceitei com a condição de que os padrinhos fossem José Janene e Antonio Belinati, acompanhados de suas respectivas esposas, filhos e assessores. No mesmo instante, recebi um telefonema do Palácio do Planalto; a senadora Ideli Salvatti convidava-me a escrever uma ode ao presidente Lula, que seria lida em cadeia nacional, logo mais à noite. (Ideli me oferece um pagamento em cash ou em sexo - com ela). Marlene Matos, Adriane Galisteu, Caetano Veloso e Milton Neves me esperavam para um debate na TV Câmara, em que o tema seriam as influências de Glauber Rocha e Carlinhos Brown na cultura baiana como um todo. Depois, eu participaria de um encontro de ONGs capitaneado por aquele carinha que canta “Pra aprender a leeerr... Pra isso não tem hooooora”. Requião, Álvaro Dias e a planetária Gleisi Hoffmann estariam me esperando para uma noite no Acústico, ao som de Vanessa da Matta – “Tomar um banho de chuva, um banho de chuva, um banho de chuvaaaaaaaaaa!” Nessa hora, 19 sósias do Tony Ramos – com a voz de Cauby Peixoto e o hálito de uma onça pintada – ofereceriam uma sessão de massagem a todos os convidados.

 

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Gostei do vídeo da Cicarelli; ela subiu alguns pontos no meu conceito. Segundo meu amigo Guilherme (não o Mendes da Costa), o cara que fez as imagens vai ganhar o Pulitzer dos paparazzi.

 

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Por que o YouTube não foi inventado quando eu tinha 14 anos?

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"Não se pode nem mais trepar sossegado neste mundo", pensou Dani. 

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Golpe militar na Tailândia. Que coisa mais démodé! Esses caras têm que aprender com o Lula. (Por sinal, nada mais démodé que a palavra démodé.)

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Comprei um sabre de luz eletrônico do Obi-Wan Kenobi. Vou dá-lo de presente ao meu afilhado, o Danilo. Mas confesso que já brinquei um pouco.

 

Dadivadadividadavida

September 20, 2006

Tá bom, tá bom. Agora que a Janaína Ávila falou, eu vou falar também. Seguem meus seis segredos bestas: 

1. Com 11 anos de idade, eu cantava imitando o Oswaldo Montenegro, o que me valeu o apelido, no acampamento da AABB-São Paulo, de... Monte. (Alguns engraçadíssimos, é claro, passaram a me chamar de Monte de Bosta). 

2. Com 15 anos, fiz teatro. Tchiatro. Meu grupo se chamava Cromossomos, e a gente fazia trocadilhos com o nome: cromossomos loucos, cromossomos felizes, cromossomos engraçados! Meu papel na peça (Dadivadadividadavida) consistia numa mistura de maestro, homem das cavernas e hippie bem malucão. O figurino era... era... manja ceroula? Confesso que foi divertidíssimo. Tenho muita saudade daquele tempo. 

3. Gosto do Paulinho Moska. Pronto, falei. Raramente ouço em casa, mas toco as músicas dele no violão, principalmente com umas e outras na caveira. E também aprecio aquela música da Cássia Eller – “Eu ando na rua / Eu troco cheques / Tiro uma planta de lugar / Dirijo meu carro / Toco meu pileque...”  

4. Devo ser filiado ao PT. No século passado, ainda na minha fase trotskista, fui almoçar com um político do partido no extinto restaurante Casarão e preenchi minha ficha de filiação (paguei a minha conta, só para constar). E não me desfiliei por dois motivos: preguiça e porque assim eu não serei nunca chamado para trabalhar de mesário na eleição. Já que hoje eu considero Lula uma aberração iníqua, por que não me expulsam? 

5. (Nossa, eu ainda nem comecei o quinto segredo e já estou com vergonha pra caramba.) Quando foi lançado o filme do David Lynch, eu morria de medo do Homem Elefante. 

6. Eu mijo sentado quando estou muito cansado. (Putz, essa foi braba.)  

E mais não digo porque, graças a Deus (e à Condessa Vivi) são apenas seis. 

Coisa boa e coisa ruim

September 19, 2006

Há coisas que são desejáveis e deveriam acontecer sempre. Há coisas que não o são e, por conseguinte, nunca deveriam ocorrer.

Vamos a elas.

Hoje encontrei um capiau no ônibus. Professor de inglês, gente boa. Conversa vai, conversa vem, eu faço menção de me despedir - meu ponto já estava chegando -, quando o cara, do nada, me diz:

- Tá foda de votar nessa eleição. Só tem candidato cachaceiro.

- Como assim? - pergunto (que eu saiba, o Geraldo é mais sóbrio que tesoureiro do AA, conservador do jeito que ele é; e a HH já nasceu bêbada).

- Tem o Lula e o Álcool em Mim!

Isso é uma coisa que deveria acontecer sempre: piadas infames de qualidade sendo contadas em ônibus circulares.

Agora, coisa que não pode.

Eu tava pensando em votar num candidato a deputado estadual aê. Não vem ao caso quem é. O problema de votar em deputado é que você pode acabar elegendo um outro vagabundo da mesma coligação. Mesmo assim, eu cogitava sufragar o tal indivíduo. (Sufragar é verbo transitivo direto, não é, fiscal?)

Eis que, passeando pelo admirável site de relacionamentos Orkut, encontro o perfil de um capiau que tenho em baixíssima conta. E não é que o cara substituiu a sua foto no Orkut por um santinho do referido candidato a deputado estadual? Com tal atitude, o sonso obteve o efeito oposto do que pretendia, pois o candidato perdeu meu voto no ato. Imagina se ele dá um cargo para aquele puxa-saco? Eu nunca vou me perdoar.

É como eu digo: há coisas piores na vida que Bush. Bem piores.

E mais não digo.

 

Leituras de WC

September 19, 2006

Se há algo de genuinamente suíço em mim, é o metabolismo (além, segundo o James, do candidato presidencial). Cerca de 10 minutos depois do almoço, invariavelmente eu escovo os dentes e passo o fio dental (sou maníaco por higiene bucal), e peço ao Preto o caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo. De posse da instrutiva leitura, dirijo-me à casinha para, digamos, botar os meninos para nadar.

Descartes dizia, ironicamente, que o bom senso é o bem mais partilhado do mundo. Como diria nosso prefidente, “disconcordo”. A falta de enxada, sem dúvida alguma, é o bem mais comum do universo. A (excelente, por sinal) matéria de capa da Ilustrada de hoje nos apresenta um elemento chamado Devendra Banhart (ó o nome do cara; vai vendo), criador de um certo freak folk, por ele chamado de “naturalismo”.

Esse indivíduo, norte-americano cabeludo e barbudo, pinta a cara de azul, tem Caetano Veloso como ídolo “número 1” e costuma cantar “Bat Macumba” em suas apresentações. Vai se apresentar no Tim Festival, no Rio.

Algumas frases de sua (dele) lavra, só para vocês sentirem a dimensão da coisa: 

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“Não sei [quando foram nossos shows no Japão]. Podem ter sido dias atrás, podem ter sido anos atrás... Não tenho muita noção de tempo.” 

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[Sobre uma de suas dezenas de tatuagens.] “Essa daqui não me lembro por que fiz. Estava meio bêbado.” 

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“O tropicalismo foi um momento que aconteceu no Brasil nos anos 60, mas para mim é algo que existe fora da dimensão do tempo e está sendo redescoberto por várias pessoas. É algo contínuo e que me inspira (...)” 

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“A chuva é uma manifestação extraterrena. Se ela cair, é porque talvez os aliens estejam querendo se juntar a nós. Que seja bem-vinda.” 

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Carregar abóbora no Ceasa ninguém quer, né? Depois perguntam por que meu intestino funciona tão bem.

Só algumas coisas

September 18, 2006

Agora estão enchendo o saco do papa porque ele disse o óbvio – que os islâmicos devem reprimir sua vontade de matar todos os crentes de outras religiões. E o nível das ameaças é apenas e tão-somente uma confirmação do que Sua Santidade disse. Ou seja, os caras bradam: “Se não pedir desculpa, de joelhos, nós vamos aí em Roma estourar tudo!” Inclusive a cabeça do alemão, coitado (ele não tem culpa de ser sósia do Palpatine).

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Agora, vocês vêm me dizendo que o Lula é igual ao Alckmin depois de o chefe de segurança do hómi ter pedido demissão por ser o vendedor do dossiê contra o Serra? É brincadeira!

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O presidente do Irã, aquele débil mental, organizou uma exposição de charges “brincando” com o Holocausto e não houve nenhuma manifestação de rua, nenhuma ameaça de morte por bomba. Um milhão de vezes antes Bush, Israel e o papa do que essa doutrina homicida do terrorismo internacional. Politicamente correto? O cu! Repito: um milhão de vezes antes Bush do que qualquer governante de país islâmico!

Há 20 anos

September 18, 2006

Há 20 anos eu não imaginava que um dia pudesse usar esta expressão: há 20 anos. Há 20 anos eu tinha 16, portanto não sabia o que era viver 20 anos. Há 20 anos eu lia Paulo Francis para ficar com raiva (hoje releio para me divertir e aprender; pena que ele morreu, seria tão bom ele vivo com o Lula presidente!). Há 20 anos meu pai era apenas 10 anos mais velho do que eu hoje. Há 20 anos eu não morava em Londrina, nem sonhava em viver nesta cidade; o presidente era o Sarney, porque o Tancredo havia morrido no ano anterior depois de uma longa agonia (“este país” é mesmo cagado de arara). Há 20 anos lançaram o Plano Cruzado. “Tem que dar certo”, dizia o slogan, mas só deu certo por umas 20 semanas. Há 20 anos eu procurava os livros de Ignácio de Loyola Brandão na biblioteca municipal. Há 20 anos a França desclassificou o Brasil da Copa do Mundo. Há 20 anos eu tinha uma estrela no peito, mas também simpatizava com o Partido Humanista. Vinte anos atrás, Cazuza ainda não tinha escrito seu melhor verso: “Meu partido é o coração partido” (não me peçam para falar dos piores versos dele). Aliás, há 20 anos eu assisti a um show do Barão Vermelho no ginásio do Corinthinha, em Araçatuba, e o Cazuza ainda estava no grupo; ele era meio gordo, usava faixa na cabeça e tinha a língua presa. Há 20 anos, Lula também tinha língua presa, e era eleito deputado federal. Há 20 anos eu fazia teatro no colegial, mas o diretor me expulsou do grupo, e o nome do diretor era Paupitz. Isso mesmo: Paupitz. (Há 20 anos eu já fazia trocadilhos, e vocês podem imaginar os trocadilhos contra o diretor.) Há 20 anos eu tinha medo de cachorro e de morcego; fui a algumas sessões espíritas. Há 20 anos eu resolvi entregar em branco as provas de matemática, química e física. Fiquei de exame, mas consegui passar do 2o para o 3o colegial. Há 20 anos eu ouvia Pink Floyd e Cabeça Dinossauro, aquele disco dos Titãs. (Nossa, 20 anos vezes cinco dão um século.) Há 20 anos eu fui barrado num filme porque não tinha 18 anos (todos os meus amigos entraram e também tinham menos de 18 anos, mas isso não convenceu o porteiro do cinema). Há 20 anos eu queria cursar Artes Cênicas na USP (a falta de enxada me assolava). Há 20 anos eu beijei a Gisele, e depois ela me deu um fora daqueles. Há 20 anos eu peguei a Regininha da cantina se trocando no vestiário do Anglo; devo confessar, hoje, que ela era bem gostosa (mas eu não fiz nada, eu não fiz nada). Há 20 anos roubaram a prova de biologia do Wander Professor Parapopó e passaram uma cópia para mim; eu nem disfarcei; tirei 10 na prova. (Espero que o Wander Professor Parapopó leia este post.) Há 20 anos eu tinha uma motoneta Agrale com as rodas douradas, uma coisa horrível. Há 20 anos eu era uma besta. Não mudei muito.

*****

Meu amigo Fábio pediu para o sobrinho, de 14 anos, gravar algumas músicas do Djavan no mp3. O moleque perguntou:

- Quem é esse tal de DJ Avan?

Há 20 anos isso não aconteceria.

Testamento das cinzas

September 14, 2006

 

Quando eu morrer, reduzam-me a cinzas. Joguem meu corpo no fogo, de onde nunca deveria ter saído. Ali se queimarão os desejos mais toscos e proibitivos, vedados à gente razoável. Ao olhar o Sol, aquela usina nuclear, você verá uma parte de mim. E será pouco.

Quando eu me for, espalhem-me ao vento. Acaso será uma quinta? É provável. Só nos ares dissipar-se-ão essas memórias de mau gosto. Esses trocadilhos, piadas fracas, imitações, coisas de menino. Nos ventos ficarei bailando, pois dançar nunca soube em vida, nem mesmo no Club Albatroz. Ao respirar, você terá uma parte de mim. E será isso.

Quando eu partir, não chore, amor. Dissolva-me na água. Quero estar entre os peixes menores, minha eterna espécie. Com eles, voltarei ao elemento anterior. Serei a quirera dos pescadores do lago. Migrarei da boca ao olho de uma tilápia, de onde observarei a poluição do mundo líquido. Jogue-me – sem medo, mulher – no lago da cidade, para que enfim eu me apague. E será tudo.

Essa chaga da morte

September 12, 2006

Ao nascer fui marcado

com a chaga da morte.

Das cabeças, tem sede;

intestinos, tem nove.

Das doenças se fez,

em verdade a mais pura

e perfeita, de vez

que não se vê a cura.

 É ferida aberta

com dor e mau cheiro;

sua pena afeta

o planeta inteiro. 

Ao nascer foi-me dada

a ferida de morte:

a marca registrada

de humaníssima sorte. 

***** 

 Poema sobre morte ninguém comenta, né? Agora, postzinho sobre Caetano Veloso e Led Zeppelin, chove comentário. Brincadeira, viu! 

*****

Moraes, essa formatação do novo Tipos é dos infernos! Caráleo! Repito com a mesma grafia: Caráleo! 

Caetano, Led Zeppelin e musiquinhas de infância

September 12, 2006
Segundo meu amigo Carlão, o sr. Caetano Veloso andou dizendo que o Led Zeppelin é “cafona”.Cafona, ô tia velha, é usar a palavra cafona.

Eu não leio mais as entrevistas do Caetano. Só ouço os comentários. Tempo é uma coisa preciosa.

Caetano continua sendo pauta da grande imprensa, mas está mais por fora que mãozinha de afogado (esta não é minha, não é minha).

Agora, vamos admitir: "Stairway to Heaven" é Drury's. Campari as coisas.

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Da série “Musiquinhas da Minha Infância”.Tinha esta: 

Pulei de pára-quedas,

pára-quedas não abriu.

Mandei o fabricante

lá pra puta que pariu. 

Perceberam a ironia e o descaso com a própria morte? “Pulei de pára-quedas, pára-quedas não abriu”, portanto eu me fodi. É uma cançãozinha quase heideggeriana, existencialista com toda razão (só faz o que manda o seu coração). Vou me estropiar no solo, mas não sem antes mandar o responsável pelo equipamento àquela parte, para desfrutar a companhia da progenitora de conduta reprovável (reprovável, dependendo do ponto do vista). Millôr Fernandes comparou a vida humana à situação do sujeito que se atira do 10o andar, passa pelo 5o e pensa: “Até aqui, tudo bem”. O personagem-cantor dessa musiquinha de infância vai mais longe: aproveita para xingar os desafetos! Ô, moleque.

Esse Briguet é engraçado mesmo, não?

September 11, 2006

De um pára-choque de caminhão:

A MARIA REZA – E A MERCEDEZ-BENZe.

 

França (ou Um herói)

September 09, 2006

A última vez que vi Francelino França foi no lançamento das filmagens de “Maria Angélica”, que ele escreveu e dirigiu. França estava animadíssimo; seus olhos brilhavam intensamente quando falava do filme. Magro, ele sempre foi. Naquele dia, estava quase bidimensional.

A primeira vez que vi Francelino França foi em março de 1989. Era uma manhã chuvosa e eu desci no ponto de ônibus errado na universidade. Tive que ir andando do Centro de Ciências Biológicas até a sala da primeira aula de jornalismo, do outro lado do campus. Eu levava uma aspirina no bolso da camisa (naquela época não havia Neosaldina). França se apresentou à turma: “Sou ator”.

Lembro até hoje de um domingo, em que havíamos combinado estudar para a prova de semiótica (ô matéria chata). Ele atravessou a cidade, de ônibus, e quando chegou à minha república, com os livros de Greimas na mochila, eu estava reunido com um bando de salafrários, usando oclinhos de John Lennon, totalmente chaparral: “Acho que eu não vou estudar pra essa prova não, França. Vou pegar um atestado.” Ele não disse uma palavra. Saiu batendo a porta, estudou sozinho e tirou 10. Eu tive que arrumar um atestado picareta. Tempos depois, rimos muito dos oclinhos do John Lennon.

Certa vez, encontrei o França na rua, e ele disse: “Estou indo para a minha 10ª cirurgia”. Deu a informação em tom de brincadeira; era quase uma comemoração, uma efeméride. Ele entrava e saía dos hospitais com a ironia e o bom humor de um autêntico herói. Não era por acaso que ele gostava tanto de Nelson Rodrigues. “Sou ator.”A exemplo de Estelio Feldman, França foi tantas vezes internado, e tantas vezes escapou, que achávamos impossível ele morrer. Como dizia minha querida vó Maria, ele iria “ficar pra semente”.

Mas hoje de manhã, a amiga Patrícia Morelli me ligou para dizer que o França estava mal, muito mal. Ele havia feito aniversário ontem, não sei quantos anos. Foi o último.

Parece que França concluiu as filmagens de “Maria Angélica”. Uma espécie de testamento.

Os oclinhos de John Lennon existem até hoje; devem estar guardados em algum baú. Vasculhando o baú das memórias, encontrei um poema, que escrevi para o França depois de uma de suas inúmeras internações (e da qual, mais uma vez, escapou bravamente): 

Minha força é minha fraqueza

Minha força é minha fraqueza.
Quando pensares em mim,
lembra que nada aqui é poder.
Lembra que meus braços não são fortes,
que meu olho se engana
e que a idéia, Deus meu, a idéia me foge.

Lembra que a carne me escraviza,
lembra que o escravo sobrevive
exaltando o senhor,
e que o refém se afeiçoa pelo seqüestrador.
Lembra-te da síndrome de Estocolmo
quando eu disser: minha força é minha fraqueza,
nada em mim é poder.

Refém de minha fraqueza, dela me tornei senhor.
Quando pensares que vou dizer-te palavras sábias,
nota que minha ciência é dos medíocres,
que meu talento é não saber.
(Não sou do ramo de viver.)

Como os chorões desabam sua fúria
delicada e verde contra a gravidade,
minha fraqueza expande seu poder de sobressalto.
A ela pertencem todos os fantasmas
que choram sob a árvore,
cegados pela sarça,
esteréis na figueira,
perdidos nas glicínias,
nas ervas e raízes que nascem pelo chão.
Ligada à sonda venal,
que faz do hospital, procissão,
minha fraqueza mora no ar
– mas sua força está no chão.

Minha fraqueza é minha força,
nada me faltará.
Assim irei libertar
a todas palavras primeiras.

Minha fortuna é minha pobreza
– meu saber, ignorância.
Minha beleza é feiúra,
– o meu sucesso, fracasso.
Minha vitória é derrota
– minha presença, ausência.
E assim, das águas, os vinhos.
Assim, das luzes, as trevas.
Assim também tua força
se move na procissão.
Tua força é tua fraqueza,
meu amigo, meu irmão.
 

A solidão de Maria José

September 08, 2006

Imagine a solidão da mulher que escreve o seguinte comentário no blog de alguém que nunca viu na vida: e muito legal esse negocio de orkut. Assim mesmo, sem acento, sem maiúsculas, sem nada. e muito legal esse negocio de orkut. Talvez ela tenha conseguido um convite para o tal site de relacionamentos, um convite que ela implorou a um outro desconhecido. E ela ainda assina Maria José. Eu acho esse nome tão triste. Maria José, Maria José. No teu nome eu vejo toda solidão do mundo. O Google é tudo que te  resta. 

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(Deve haver algum gene que explique a minha sexta-feira.)

A carta de FHC

September 08, 2006
Recomendo fortemente a leitura da carta de Fernando Henrique Cardoso, publicada no site do PSDB. Não sou tucano; votarei em Geraldo Alckmin por considerá-lo um mal menor; acho que FHC cometeu muitos erros em seu governo (o pior deles, a meu ver, foi a reeleição). Mas nem por isso deixo de dizer que a carta do ex-presidente é um dos melhores documentos escritos sobre o período em que vivemos, apesar dos problemas de estilo (FHC não é bom escritor, como já me disse o Raimundo Pereira, que foi revisor dele no “Opinião”). Sei que receberei um milhão de comentários críticos (inclusive ofensivos), mas isso nunca foi problema para mim. A seguir, trechos importantes da carta. Mas eu recomendo a leitura na íntegra, pelo link acima.   

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“A CULPA É DO SISTEMA”

 O Presidente e de seu partido são, inquestionavelmente, os responsáveis por deixar que os piores setores da política ocupem a cena principal, expondo o país às misérias a que todos assistimos indignados. E mais indignados ficamos quando vemos o Presidente e seus arautos passarem a mão na cabeça dos que "erraram" (como se eles próprios não fossem os culpados) com a desculpa de que "todos são iguais" ou, então, em versão mais sofisticada da mesma falta de vergonha, dizerem que "a culpa é do sistema".

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MENSALÃO 

 Pagar mensalão é crime e como crime deve ser tratado. Pagar mensalão para deputados, comprar seus votos, não é igual sequer a outra transgressão, a de não declarar dinheiro obtido para a campanha eleitoral, o "caixa dois". A razão é simples: no caso do caixa dois, a fonte do dinheiro usado geralmente é privada, embora nem sempre o seja, e o objetivo é ajudar algum candidato individual em sua eleição. O candidato e seus financiadores devem responder por essa ilicitude eleitoral. No caso do mensalão a fonte foi pública; é roubo do dinheiro do povo, ainda que empréstimos fictícios de bancos privados tenham sido usados para encobrir esse fato. Os arrecadadores obedeciam a diretrizes de um partido, com a cumplicidade de partes da administração. A prática deu-se sob o olhar benevolente de ministros e mesmo com a cumplicidade de alguns deles (refiro-me à acusação do Procurador Geral da República). O próprio Presidente, que é responsável pelos ministros, não tendo atuado para demiti-los nem depois do fato sabido, é passível de crime de responsabilidade. E, mais do que simplesmente corromper pessoas, corrompeu-se uma instituição, o Congresso Nacional.

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CASO AZEREDO

 É verdade que também somos responsáveis pelo que hoje se vê: a cada dia mais corrupção; a cada dia, menor reação. Erramos no início, quando quisemos tapar o sol com a peneira no caso do senador Azeredo. Compreendo as razões: ele é pessoalmente decente; tudo se passou durante a campanha para sua reeleição como governador, que afinal ele perdeu. Mesmo assim, calamos muito tempo e sequer dissemos o que sabemos: entre os responsáveis pelas finanças de campanha do então governador estava seu vice, hoje ministro do Presidente Lula. Nem isso dissemos com força! Mas não por isso podemos calar diante do descalabro. Ainda que o eleitorado não nos acompanhe neste momento, deixaremos as marcas de nosso estilo, de nossas atitudes, para calçar um futuro melhor para o país. 

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DIFERENÇAS ENTRE LULA E ALCKMIN

 Nosso candidato à Presidência tem as mãos limpas. Tem história de seriedade. Por que não bradar isso com força? Por que não fazer o contraponto com o outro lado. Nada a temer nem a esconder. Geraldo Alckmin pode dizer o que Lula não pode porque sua história não passa por acusações de suborno a prefeituras. Ele não tem que explicar, como Lula, por que tendo tanto dinheiro vivo (e quanto!), não paga dívidas. Por que ora diz nunca ter ouvido falar de sua dívida no partido, ora que a discutiu, mas não a reconhece. Enfim: faltam condições morais a um e sobram a outro. Essa é a diferença. E este é o ponto de partida para recuperar o reconhecimento público do valor da política. Sem que haja uma diferença entre bons e maus, a geléia geral predomina e elegeremos de cambulhada um Congresso no qual os sanguessugas e mensaleiros derrotados serão substituídos por outros prestes a reviver a mesma história. 

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BOLSA-ESMOLA

 E não devemos temer a Bolsa-família. Ela não apenas resultou de programas que nós criamos (inclusive a preparação técnica para a unificação dos programas) como vem sendo desvirtuada pela velocidade eleitoreira com que cresce e pelo descuido na verificação da satisfação de requisitos para sua obtenção. E sobretudo porque tem sido feita no embalo da pura propaganda eleitoral, tornando um propósito saudável, pois inauguramos estes programas como um "direito do cidadão", numa benesse do papai-Presidente. Na verdade por este caminho formar-se-á uma nova clientela do governo. Se a ela somarmos a clientela dos assentados pela reforma agrária que não são emancipados, quer dizer, que não produzem para pagar seus compromissos e dependem a cada ano de novas transferências de verbas orçamentárias, estaremos criando o maior exército de reserva eleitoral da história. Aí sim caberá o "nunca se viu neste país..."! 

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PRIVATIZAÇÕES

 É preciso dizer com todas as letras e toda a força que a privatização da Telebrás foi um sucesso absoluto, que o preço pago pelo que o Estado possuía dela (20% do capital total, embora de controle) talvez não corresponda hoje ao valor total das empresas de telecomunicações e que o povo se beneficiou enormemente, dispondo o país de um moderno sistema de comunicações, sem o qual não haveria internet nem modernização produtiva. 

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That’s all, folks. Podem descer a lenha. Ou não.

 

September 08, 2006
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Assaltaram o Albatroz

September 07, 2006

Uma amiga, colunista social, me liga e diz:

– Briguet, assaltaram o Albatroz!

Fiquei estupefato.

Meu Deus, os manos tiveram a ousadia de assaltar um dos templos da noite londrinense, onde pontifica o Mestre Tanga?

O roubo teria sido durante o bailão? Durante o risca-salão? Durante o pega-cria?

Houve voz de assalto para a famosa freqüentadora Lamberei Teus Pés?

Nada disso. Assaltaram – a amiga esclarece – o Albatroz Turismo, uma famosa agência de viagens da cidade.

É. Tem certas coisas que indicam a sua classe social. Não preciso de Marx nem de Trotsky para lembrar que sou pé-rapado.

 

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E os que forem brasileiros me sigam – para o Bar Brasil!

QSL de Independência

September 07, 2006

 

 

Olha aê o Pedrão.

Só me diz uma coisa: o que picirica esse papagaio tá fazendo ao lado do portuga? Será uma homenagem aos mais importantes protagonistas de piadas neste Brasil varonil, il-il-il?

De qualquer forma, hoje é dia de cantar hino. Vamos todos à QSL de Independência. Servir ao Brasil, servir ao Brasil, sem esmorece-er! Eia, avante, brasileiros, sempre avante!

Mestre Tanga, Mestre Pafu, Professor Rocha, Condessa Ester, Jovem Rafael, Bravo Chicó, Capitão Mantovani, Coronel Lílson: hoje é dia (noite) de falar mal do Velho Barreiro. Podemos também falar da cabeçuda.

Senadora planetária

September 06, 2006

 

– Meu nome é Gleise Hófeman. Sou adEvogada, paranaense e irmã do Tanga.   

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Agora que Plutão perdeu o status de planeta e foi rebaixado à segunda divisão do sistema solar, começam a surgir alguns potenciais substitutos terrestres.

O primeiro, e mais cotado, não só pelas dimensões astronômicas de sua cavidade cefálica, mas também pelo bom uso que dela faz, é o mestre Júlio Tanga, nosso muito lido e assaz admirado colega de Tipos (escrevendo cada vez melhor, diga-se).

Mas eis que surge uma candidata do mulherio. Uma candidata não apenas a planeta, mas também a senadora. Trata-se de Gleisi Hoffmann, o único caso comprovado de macrocefalia na política brasileira. Como eu sou do ramo, posso assegurar que é a candidata mais cabeçuda que já tivemos em nossa longa e gloriosa trajetória democrática. Quanto ao bom uso de tamanha circunferência... ela é do PT. Não direi nada sobre isso, os leitores sabem o que eu penso.

Dona Gleisi foi diretora financeira de Itaipu; comenta-se que, no cargo, usou a cabeça fechando uma das comportas da usina.

O fato é que Gleisi entrou de cabeça nesta eleição! Mergulhou de peito neste pleito!

Para senadora, ela não ganha nem fodendo – o peruquinha leva. Mas, para planeta, tem grandes chances.

Canção da noite suicida

September 06, 2006
 

Quero

só um pouco de veneno,

que comece intangível,

mas aos poucos vá crescendo.

 

Quero

só um gole da bebida,

que pareça inofensivo,

mas com o tempo leve a vida.

 

Copo de cerveja eu quero,

mais um tanto de conhaque,

pra evitar que o desespero

o meu coração ataque.

 

Quero

uma dose assim tão forte

que me leve deste vale

pro altiplano da morte.

Pedido mui simples

September 05, 2006

Caríssimo sr. Moraes, administrador deste portal:

Reconheço e louvo seu empenho em nos dar uma residência virtual melhor aqui no Tipos.

Mas peço-lhe um só favor. Pelo amor de Deus, tire do ar esse maldito post em que eu falo dos e-m-o-s. Não agüento mais a babaquice, o analfabetismo e a falta do que fazer dos referidos adolescentes.

Reconheço, também, o empenho do sr. Ben Grimm em responder a esses retardados, mas é melhor acabar de vez com isso, pela raiz.

Só há um problema: diante das recentes mudanças modernizantes do Tipos, não consigo apagar o referido post. O sr. teria condições de fazê-lo? Este blogueiro ficaria imensamente grato.

O Tipos torna-se-ia, assim, um lugar melhor para se viver e escrever.

Em suma: Apaga esse post pra mim, Moraes! MordeDeus! (E os comentários também...)

Sem mais, subscrevo-me

Paulo Briguet, seu criado.

 

O jornal nosso de cada dia

September 04, 2006
 

O jornal de cada dia é um pedaço do que se pode apreender do mundo, e nesse mundo há um país; e nesse país há um estado; e nesse estado há uma cidade; e nessa cidade há um bairro; e nesse bairro há uma rua; e nessa rua há uma casa; e nessa casa há uma sala; e nessa sala há uma mesa; e nessa mesa há um jornal. O jornal nosso de cada dia nos dai hoje.

 

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O jornal é o último lugar do mundo em que eu esperava trabalhar. Mas, às vezes, o último lugar do mundo é o que está mais perto da gente.

 

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É dever de todo jornalista preencher os espaços que separam os anúncios. (Alguém já falou isso – e não fui eu.)

 

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Na Semana da Pátria, preciso confessar que o jornal é minha única nacionalidade.

 

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O jornal é o único lugar em que o hoje é ontem.

 

O cara que dá nome aos bois

September 04, 2006

Tem um poeta, ou publicitário, ou as duas coisas, trabalhando na Polícia Federal. Ele fica lá, numa salinha da PF, cercado por seus livros e dicionários, esperando o telefone tocar.

Esse cara não usa arma, não põe colete, não dá geral-mão-na-parede em ninguém. Seu trabalho, nas operações da PF, é outro, mas fundamental.

Ele tá lá, numa boa, e o telefone toca.

– Departamento de Criatividade da Polícia Federal, bom-dia!

– Pois é, rapá. Temos outro nome aí pra você bolar.

– Xacumigo.

E vamos combinar: o cara sabe o que faz. Aqui, alguns exemplos de nomes que ele já bolou:

Operação Petisco (quadrilha que “alimentava” uma região com drogas)       

Operação Pretorium (corrupção)       

Operação Clone (fraudes bancárias)       

Operação Terra Nostra (grilagem de terras)       

Operação Castanhola (tráfico de mulheres para a Espanha)       

Operação Curupira (crimes ambientais)       

Operação Anjo da Guarda (pedofilia)       

Operação Cevada (fraudes do grupo Schincariol)       

Operação Narciso (sonegação na Daslu)       

Operação Macunaíma (crimes contra o patrimônio histórico)       

Operação Roupa Suja (fraudes em licitação de serviços de lavanderia)

Operação Bye Bye Brasil (quadrilha especializada em remeter brasileiros ilegalmente para o exterior)

Operação Êxodo (tráfico internacional de gente)

Ponto Com (bem óbvia; crimes na Internet)

Firula (fraudes envolvendo negociações de boleiros)

Rudis (briga de galo; Rudis era a espada que entregavam aos gladiadores que sobreviviam à luta na arena romana; foi nessa que prenderam o Duda Mendonça, publicitário do sr. Lula, do sr. Mercadante, do sr. Maluf e de outros tantos. Certamente a rinha foi o menor crime desse gladiador.)

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Depois de tudo isso, eu só tenho uma coisa a dizer: Hã, hã? Entendeu, entendeu?

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Mas, para facilitar o trabalho do poeta-publicitário da PF, seguem algumas sugestões de nomes para operações ainda não realizadas:        

Operação Zorba

Operação Sagrada Aliança

 Operação Lázaro

Operação Gardenal

 Operação Peruca

Operação Botox  

Operação Amigo de Fé

Operação Pai Herói 

Operação Soy Loco por ti America

 Operação Velho Barreiro

Ladeira abaixo

September 01, 2006

Quando eu acho que atingimos o fundo do poço, eis que aparece alguém para demonstrar que o buraco é (bem) mais embaixo.

 

Agora tem o...

 

CIRCO DO EDGAR!!!

 

Ele mesmo. EDGAR. O boyzinho “gente boa” da MTV. Eu não posso imaginar nome mais adequado para o programa do rapaz.

 

CIRCO DO EDGAR!!!

 

Minha Neosaldina, por favor. Meu João Sebastião, pelo amor de Deus. Meu Pondera.