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Archive for August of 2006

Plante que o esquimó garante

August 31, 2006
Leio no UOL que o aquecimento global está beneficiando os agricultores da Groenlândia. Que vida é essa de plantar no gelo! Esses caras têm a paciência que precisamos ter – e não temos – no Brasil.A situação dos agricultores groenlandenses me impressionou tanto que eu escrevi uma crônica. Tentei publicar o texto aqui no Scalassara, mas o o adm do site – em reformas, como um outro portal aê que eu conheço – deu chabu. Depois eu faço o link.

Pra agüentar a estupidez do Barba, só com paciência de agricultor groenlandês.

*****

A minha repulsa pelo Lula, e tudo que ele representa, escorre para aqueles candidatos que o apóiam. Eu não posso considerar um político sério, se ele apóia o Lula. Como quase todos o apóiam (já que ele lidera as pesquisas), vou anular o voto de governador a deputado estadual. Só vou abrir uma exceção no caso do Chuchu para evitar mais quatro anos da praga lulista. Acho no mínimo estranho deixar de votar no Lula e cravar PT (ou aliados) em todas as outras opções. Me parece uma tremenda vontade reprimida de votar no Barba. Lula e o PT são igualmente a doença e o sintoma de si mesmos.

***** 

Antes que me acusem de intolerante ou qualquer outra denominação parecida, devo esclarecer que jamais deixaria de ser amigo de alguém por causa de política. Amigo, tudo bem. Voto é outra coisa. E uma coisa que deveria ser facultativa.

***** 

 E hoje é QSL, confere?

A cama é meu país

August 30, 2006

 

Minha primeira cama, naturalmente, foi um berço. Mas não era berço de ouro; era de madeira. Nosso apartamento alugado ficava no primeiro andar do Edifício Veneza, na Alameda Barão de Limeira, centro de São Paulo. Triste apartamento, em cima de uma lavandeira, um barulho dos diabos. Meus pais iam trabalhar e me deixavam na casa da vó Maria, na Rua Brigadeiro Galvão, Barra Funda. Ali, minha segunda cama.

Depois meu pai comprou um apartamento duas ruas acima, e eu ganhei uma cama branca. Essa cama existe até hoje: é engraçado ver como ela ficou pequena; parece de brinquedo. Outro dia, no entanto, dormi nessa cama, quando fui visitar meus pais.

Aos 15 anos, compraram-me outra cama, que parecia mais forte. Também existe até hoje.

Na faculdade, aos 18 anos, herdei uma cama de solteiro pequena, que já havia pertencido a outros moradores da república. O estrado caía facilmente, principalmente quando eu dormia acompanhado. Tive que fazer um reforço de tijolos. Os tijolos agüentaram uns seis meses; depois, joguei fora a cama e os tijolos, resolvi dormir só no colchão. O colchão ficou sendo minha cama por uns três anos.

Quando mudei para o meu atual apartamento, mandei trazer a minha cama da adolescência. Ela também não agüentou muito tempo. Tive que juntar dinheiro para comprar uma cama de casal supostamente forte, que é onde eu durmo hoje em dia (hoje em noite). Mas gosto de levar o colchão de casal para a sala e dormir perto do chão.

Camas têm personalidade. Algumas falam (chiam); outras são silenciosas. Há as que se desmontam em sinal de protesto. Podem ser duras, suaves, vastas e concisas. Guardam segredos, mas às vezes são indiscretas.

Alguns melhores momentos da minha vida – desnecessário dizer, mas digo –, passei-os na cama. Não é assim com todo mundo? A cama é meu país. O nosso.

Notícias de Altamara

August 28, 2006

Terríveis as notícias que nos chegam de Altamara.

Escritas em tinta vermelha.

Pobre Altamara, pobríssima. Esquecida por Deus.

O líder será reeleito, após investir na fome geral.

As ambulâncias de Altamara não levam doentes – levam pagamentos. Os doentes ficam do lado de fora. Não podem ir de ônibus porque os ônibus foram queimados.

Não se pode falar mal do líder de Altamara. Os que ousam fazê-lo são imediatamente espezinhados como cães direitistas, porcos reacionários, abutres conservadores, urubus decadentes.

Ninguém sabe de nada em Altamara – muito menos o líder. Por isso – defendem os bem-falantes – é necessário democratizar os veículos de comunicação. No início do próximo ano civil, serão instituídos conselhos populares. Todo poder aos conselhos! – é o novo slogan de Altamara.

Em Altamara, muitas reformas deverão ser feitas no próximo mandato do líder. A primeira delas é a reforma gramatical. A palavra menas será dicionarizada. A concordância verbal será abolida, como um resquício decadente da antiga ordem verbal.

Pão, terra e liberdade – é outro slogan divulgado pelo governo altamarense. Pão é o que pode ser comprado com a bolsa-esmola. Terra é o que pode ser adquirido com a bolsa-invasão. Liberdade é o que poder ser obtido em casos de bom comportamento.

Ninguém mais será indivíduo em Altamara – só haverá cidadãos.

Se alguém insistir na conduta politicamente incorreta – por exemplo, criticar as cotas raciais na universidade – será imediatamente atingido por uma chuva de processos judiciais.

Toda e qualquer ação em Altamara será avaliada por seu significado social e coletivo. As ações consideradas socialmente inócuas serão classificadas como delitos; havendo reincidência, passarão a ser crimes.

Todo cidadão deverá andar pelas ruas com um bottom, onde se lerá o seguinte: O melhor de Altamara é o altamarense.

Ainda bem que nós vivemos no Brasil. Imagine que inferno deve ser viver em Altamara...

Mal de Alzheimer

August 26, 2006

1ª voz

 

Você faz as malas agora,

está sempre fazendo as malas,

com os olhos postos lá fora,

pensando aonde levá-las.

 

O relógio destas ruínas

funciona ainda, urgente,

rápido como a fumaça

dos fogos de antigamente;

mas, por mais que se faça,

vai se atrasar pra sempre.

 

Você faz as malas com pressa

pois seu lar não é aqui,

e a você não interessa.

2ª voz 

 Meu lugar é minha queixa:

 esta gente eu nunca vi,

 no aquário nunca um peixe.

 Que móveis e que jardim,

 que espelho é o que me deixa

 tão diferente de mim? 

 Me deixem dobrar as roupas

 (mudas rotas, meias finas)

 e ir de uma vez por todas.

 Me poupem da despedida,

 dos choros, das antibodas

 – quero uma volta só ida.

 

Estou pluto da vida

August 24, 2006
 

Os cientistas se reuniram pra decidir que Plutão não é mais planeta. Decidiram: pronto, acabou. Dizem que Plutão – menor que a Terra, menor até que a Lua – não tem dimensões para ser classificado como planeta, além de ter uma órbita, digamos, heterodoxa.

Não sei se eu já disse, mas a minha idéia na infância era ser astrônomo. Se o fosse, queria muito estar lá na reunião dos bambambãs, pra bater o pinto na mesa e acabar com essa história. Que mané rebaixar Plutão, ô seus nerds! Planeta lá é time de futebol pra cair pra segundona?

Plutão não bulia com ninguém, tava lá, quieto no canto dele, na sua órbita excêntrica, mas não menos orbital que a de qualquer planetinha por aí, cacete.

A vida inteira me disseram que Plutão era planeta. Agora vem um cidadão de jaleco me dizer que não é? Ah, passa amanhã!

Se a coisa continuar assim, o próximo passo será promover o mestre Tanga a planeta. Dimensões cranianas para isso ele tem.

 

*****

 

Por falar em Tanga, hoje à noite vamos falar mal do Skank e dos astrônomos lá na QSL?

Janaína Garcia informa que teve neguinho dizendo, em matéria jurnalística, que o Skank é um belo PROJETO de pop/rock, e que o Monocelho e seus comparsas criaram interessantes TEXTURAS sonoras.

Ah, passa depois de amanhã! O Monocelho por acaso é costureiro ou decorador pra entender de textura? PROJETO? Ele se formou em engenharia? Só for na mesma faculdade dos Engenheiros do Hawaiiii (hã, hã?).

 

*****

 

E mais não digo porque tenho trabalho pacas.

Kaiser Kareca Skank

August 23, 2006

 

Ontem ouvi um cara dizendo na mesa do Valentino:

– Eu prefiro dar para o Markão Kareca a tomar uma Kaiser.

O pior é que esse cara sou eu, e eu nem tava bêbado.

Mas é verdade. Desnecessário dizer que eu nunca dei para ninguém (se virasse gay, o escolhido certamente não seria o Markão Kareca, Deus me livre, eparrei três vezes). Mesmo assim, devo confessar, já tomei Kaiser, quando bêbado. É que depois de umas quatro ou nove a gente não sente o gosto – aquele gosto de merda líquida.

Por incresça que parível, contudo todavia entretanto, o que mais me apavora na Kaiser não é o gosto. É o K. Aquele K. A mera contemplação daquela maldita letra de logomarca me causa torturante ressaca.

A Kaiser está para mim como a kryptonita está para o Super-Homem; como os caminhões de gás estão para o Claudinho Yuge; como a Pitty e o Seu Jorge estão para o Galão.

O K da Kaiser, não por acaso, é o mesmo que aparece duas vezes em Skank, e outras duas vezes em Markão Kareca. A definição do Inferno: ouvir Skank, dando para o Markão Kareca e tomando Kaiser.

Sempre há degraus. E mais não digo.

*****

(Só mais uma coisa: troquei a fonte, a pedido do Visconde Vidal e da Condessa Vivi. Tá melhorzinho assim?)

Quase todo poema é ruim. Quase.

August 21, 2006
 

Ler poesia não é obrigação de ninguém. É para quem gosta. O cara pode ser inteligente, bom, justo, bacana, lido, viajado, educado, bom de papo – e não gostar de poesia. Tudo bem, não há nenhum problema. Poesia é igual a uísque e ópera – nem todo mundo aprecia. A maioria dos meus amigos não gosta de poesia – inclusive as que eu escrevo. Tudo bem, a amizade é a mesma.

Ter uma visão poética de mundo é outra coisa. Conheço homens e mulheres que têm uma visão poética da vida, mas nem desconfiam disso, e jamais escreveram um verso. Outros têm a tal visão poética, mas, se dissermos isso, eles retrucariam que é viadagem (o que, às vezes, é verdade; há muitos poetas viados, e outros que só escrevem viadagem, só para lembrar que viado e viadagem são coisas bem diferentes, James). 

Conheço um taxista que tem uma visão poética do mundo. Da mesma forma, conheço poetas que não têm uma visão poética do mundo – e geralmente são ruins; os concretistas são um bom (mau) exemplo.

Agora, tem outra coisa: não é a visão poética do mundo que faz o bom poeta. O que faz o bom poeta é o domínio da linguagem; é saber resumir uma idéia, ou imagem, nas palavras exatas – nem mais, nem menos. Se você tira uma palavra ou um verso de um poema, pronto, não é a mesma coisa.

Com poesia traduzida a coisa é ainda mais difícil. Para ser um bom tradutor de poesia tem que ser poeta; tem que dominar bem as duas línguas em questão; tem que criar soluções que sejam, ao mesmo tempo, honestas e um pouco infiéis em relação ao original.

A coisa mais chata para quem gosta de poesia é que quase todos – e, quando digo quase todos, eu quero dizer 99% –  os poemas publicados são ruins. Desse 1% que sobra, o leitor de poesia pode até admirar o conteúdo ou a técnica, a habilidade ou a versificação, a esperteza ou a ambição do escritor, mas quase nenhum poema realmente lhe toca o coração. Isso é muito raro. Mais raro ainda, quando se trata de um poema traduzido.

Hoje, eu vivi esse raro momento, ao ler pela primeira vez o poema “Elogio da Sombra”, de Borges, traduzido por Carlos Nejar. Não sei onde eu estava com a cabeça de não ter lido esse poema antes, mas lê-lo pela primeira vez é indescritível, é uma autêntica emoção, que nenhum emo de cabelo caído na testa sequer sonhou em sentir.

E aqui vai o poema em tradução (para os que gostam; para os que não gostam, vejo vocês no próximo post):

 

*****

 Elogio da sombraJorge Luis Borges


A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.

 

Viver dói

August 21, 2006

Anna Akhmatova, poeta russa (1889-1966)

À princesa de Gressoney

Nesta noite meus cabelos subitamente embranqueceram, e eu vi um homem caminhando a passos que eram de 10 centímetros no máximo cada um. O homem, que devia estar saindo do hospital, carregava uma pequena bolsa Adidas, e era de uma lentidão terrível; demorava mais para andar do que eu para responder aos e-mails da minha amiga do outro lado do oceano, que vive na aldeia das flores, a mil metros de altura. Subitamente eu me vejo respondendo a essa amiga, só para dizer que aqui no Brasil é época de campanha; foram proibidos outdoors, camisetas, bonés e distribuição de brindes, mas deixaram aqueles pobres seres carregando bandeiras e faixas nas rotatórias, sufocando ao sol, e também permitiram os carros de som. De que adianta proibir camisetas e bonés, se o carro continua gritando EMÍLIA BELINATI e REQUIÃO TEM RAZÃO em nossos tímpanos?

*****

Em menos de cinco minutos (não contei porque não uso relógio), a moça gorda sentada no ponto de ônibus comeu, em ritmo frenético, umas 12 bolachas, daquelas com recheio de morango, repletas de gorduras trans. E na frente do ponto de ônibus havia um outdoor, não de política, mas de pós-graduação – pós-graduação em acupuntura! E o nome da escola era Instituto de Therapias Alternativas. Isso mesmos: THERAPIAS, com th. Ah, professor Tanga, eu não saberia descrever a quantidade de caixas-altas e vírgulas erradas no referido outdoor, só sei que ele espetava o dia como um viciado em heroína espeta a perna esquerda.

*****

Subo no ônibus, desço do ônibus – meus cabelos embranqueceram nesta noite –, e de repente me dou conta de que viver dói, viver dói como andar para o homem recém-saído do hospital; viver dói como comer 12 bolachas com gordura trans em menos de cinco minutos; viver dói como ouvir um carro de som político; viver dói como tostar ao sol carregando uma faixa do Faraco, da Elza Correia ou do André Vargas. Viver dói, estar vivo é ser masoquista. Mas dói mais no Brasil.

Ele acredita em duendes

August 18, 2006

Leio no UOL que um juiz filipino foi afastado do cargo por causa diqui consultava duendes antes de proferir sentenças. Os duendes são três: Armand, Luis e Angel. Tem até nomezinhos, os salafrários! O nome do togado é Florentino Floro. (Florentino Floro, algo assim como Florisvaldo Fier, o “nosso” Dr. Rosinha.)

Canção da tempestade antiga

August 18, 2006
 

A tempestade antiga

que desaba há milênios

veio parar na quinta

da minha sexta-feira.

 

Veio parar na quinta

com raios e trovoadas

deixando pelo caminho

um acúmulo de nada.

 

A tempestade arcaica

que deságua há cem mil anos

é mais forte que a ressaca

de todos os oceanos.

É mais forte que a graça

de agora estar respirando.

Vai para o trono ou não vai?

August 16, 2006

Chato a gente não ter como inserir imagens durante esta Crise de Todos os Tipos. Se possível fosse, estamparia aqui a capa do tablóide inglês "Sun", com o príncipe Harry, segundo na linha de sucessão ao trono, apalpando o seio direito de uma senhorita. Na mesma foto, ao fundo, aparece o príncipe William, herdeiro do trono inglês, com cara de quem tomou umas quatro-ou-nove. Note-se (quem vir a foto poderá notar) que William e Harry tem manchas vermelhas no rosto, daquelas que surgem vez por quando na cara deste plebeu que vos escreve. Será algum indício de sangue azur em minha linhagem? O único trono que eu conheço...

 (Caso tivéssemos tags, as deste texto seriam Cagada e QSL. Será que os príncipe - adoro falar assim: os príncipe - tomam Neosaldina lá nos Reino Unido?)

Depois do João Sebastião Bar...

August 15, 2006

Abriu um novo bar em Londrina.

Vocês não vão acreditar no nome - tampouco no slogan.

 Lá vai:

 (...)

 Pera aí, tive um pouco de medo. Lá vai...

O nome do bar é...

Berimbar - Um papo arte

Isso mesmo.

E mais não digo.

Hino ao ar

August 12, 2006

Eu quero ar. Preciso de ar. Não passo sem ar. Por favor, Deus, dê-me ar. Sem ar, o que sou? Quem, eu?
Graças ao ar, as notas que João Sebastião escreveu há 300 anos chegam aos meus ouvidos agora.
Pense no ar. O ar que entra por suas narinas agora, que chega aos seus alvéolos agora, que entra em seus pulmões agora, que vivifica o seu sangue agora. Lembre-se: o seu coração só bate porque há ar.
Há ar. Deus seja, e que sempre haja. Quando não há ar, vem o desespero. Aquelas naves espaciais que explodem nos filmes de ficção científica – que grande bobagem! No espaço, onde não há ar, todas as explosões são mudas. O vácuo é pior que a morte. O ar é dugarai.
O ar é antigo. Meu Deus, como o ar é antigo. Vem sendo respirado há milênios. E pensar que o ar tem sido respirado por dinossauros, mamutes, Cleóapatras, Cyranos, Marcelos Rochas!
O ar é um milagre; passei a acreditar em Deus quando pensei no ar. O ar é sutil, é discreto, está em toda parte. O ar é silencioso – mas é o pai do som. Ouça. O ar tem um ar de superioridade. Não é à toa que tudo começou com um sopro do Verbo.
Por falar em verbo: sem o ar, não teríamos a primeira conjugação. Sem ele, nada de lembrar, amar, escutar, olhar, odiar, andar, falar, sarar, entrar, trepar, voltar, perdoar, respirar.
E só de falar no ar, eu fico sem ar.

*****

(Dedicado ao professor Jean Pafu, que aniversaria hoje.)

*****

Som na caixa, Mané: Actus Tragicus – Weinen, Klagen, Sorgen, Zagen (BWV 12) – João Sebastião, o bonzão.

Casa dos fantasmas

August 10, 2006

Aquela ali sentada no sofá de couro falso rasgado é a Loira do Banheiro (loira também falsa; percebe-se pelas raízes escuras dos cabelos). Há muito tempo deixou de freqüentar os sanitários das escolas. Hoje está velhota, fraca, entediada. Acompanha o “Vale a pena ver de novo” e “Floribella”. Vive praguejando contra a licenciosidade dos programas de televisão. Mal-amada, solitária ao extremo. Na verdade, seu hábito de freqüentar WCs de escolas era apenas uma busca por namorados colegiais. A Loira queria o amor dos garotos, mas eles sempre fugiam. Algodão na nariz nunca foi muito sexy – mas ela descobriu isso tarde demais.
Na cozinha – sempre na cozinha – está o Bicho Papão. Faz jus ao nome: não sai de perto da geladeira. Tem colesterol, triglicérides, pressão alta, todas as doenças de gordo. Uma pança do tamanho de um bonde. Mal consegue se mover. Foi enviado a um spa, mas os outros clientes fugiram. Sem motivo, pois o Bicho Papão não faz a ninguém; mesmo se quisesse, não conseguiria. O spa fechou as portas com a fama de mal-assombrado.
Na banheira (sobre)vive a Cuca. De bruxa, ela virou jacaré. Durante algum tempo participar como freelancer de vários circos e da exposição itinerante “Animais do Pantanal”. Aposentou-se quando perdeu os dentes. Hoje espera o dia em que vai virar bolsa de madame.
O Mestre dos Magos, Wilson Grey, Sergio Mallandro, Idi Amin Dada, Chucky o Brinquedo Assassino, todos estão por aí. A única que falta é Chiquinha – virou candidata a presidente pelo PSOL.
Pode entrar que a casa é sua.

*****

(Como estamos sem link, deixo aqui o atalho para a história original da Loira do Banheiro -http://tanga.tipos.com.br/bloco/item/a-loira-do-banheiro)

Poema do engano (e outras coisas)

August 09, 2006
O filme de hoje na Sessão da Tarde é “Pum! Emissão Impossível”. Conta a história de um garoto que quer ser astronauta mas tem problemas... como diria... intestinais. É sério; não estou inventando. “Pum! Emissão Impossível”, dr. Daniel!

*****

Não votarei nela, tampouco recomendo o voto, mas, como bem definiu Reinaldo Azevedo, Heloísa Helena “jantou” William Bonner e Fátima Bernardes ontem no Jornal Nacional. Já meu candidato, o Picolé, saiu-se mal na segunda-feira. Dureza.

*****

Além do episódio Varig, há outras notícias frescas no setor de transporte aéreo. A companhia mais famosa do país acaba de lançar seu novo slogan: “TAM, de portas abertas pra você.” Gostou, Visconde Vidal?

*****

Profissional do sexo inglesa processa cliente por falta de pagamento a serviços prestados. Em outras palavras: a puta botou o cara no pau.

*****

Bom, depois do divertimento (grande divertimento, ouçam o eco das risadas), o poema em si:

POEMA DO ENGANO

Não, não é daqui.
Quer falar com quem?
Paulo de onde?
Com esse nome não tem ninguém.

Não se encontra,
está em férias até o fim de agosto,
não trabalha mais conosco.

É só com ele.
Faleceu no mês passado.
O celular dele?
Não estou autorizado.

Perdemos contato,
ninguém sabe pra onde.
Sim, este número
já foi de outra pessoa.
Ligam, ninguém responde.
Gastou impulso à toa.

O sr. ligou errado,
eu já disse.
O telefone está desligado
ou fora da área
de serviço.

Tecle cinco para falar
com nossas atendentes.
Nossas linhas estão ocupadas.
Tudo bem, não foi nada.
Daqui a cinco minutos,
tente novamente.

Vou passar à telefonista.
Houve engano em sua ligação;
consulte a lista
ou o serviço de informações.

Este número está programado
para não receber chamadas.
Não foi nada, tudo bem.
Quem era?
Não era ninguém.

Carta sobre a morte

August 08, 2006


Em memória de Jolinda Fenelon Gouvêa (1904-2006)


Ana Laura, você só tem 4 anos; fica difícil lhe explicar o que é a morte. Mesmo porque, nesse assunto, sei tanto quanto você – talvez um pouco menos.
Quanto mais vivemos, menos sabemos sobre a morte. Para mim, a morte é o estado em que a gente se encontrava antes de nascer. Meu nascimento ocorreu há 36 anos; o seu, há apenas 4; digamos que você esteja mais próxima desse estado anterior à vida, de quem um poeta chamado Camões, que só tinha um olho, sentia muitas saudades, “saudades do Céu”.
Você deve estar se perguntando, agora, por que a sua avó Jolinda morreu. Sinto lhe dizer, pequena, mas essa pergunta não tem resposta. Morremos porque vivemos – a morte é a única certeza da vida, e não sabemos qual é o significado dessa certeza.
Sua avó Jolinda tinha 101 anos. Você nasceu em 2002, começo do século 21; ela nasceu em 1904, começo do século 20. Hoje fiquei sabendo que você brincava de boneca com essa garota do século passado. Soube também que você ficou muito triste quando a vovó ficou doente; chorou escondida de sua mãe.
Saiba, Ana Laura, que não só você ficou triste. Também ficaram tristes sua mãe, sua avó, sua bisavó, um monte de gente – e até eu. Como a dona Jolinda já vivia há mais de um século, antes de qualquer um de nós, parecia que ela já era parte inseparável da vida. Sabíamos que ela era mortal, como todo mundo é, mas no fundo preferíamos não acreditar no fato.
Quando você tiver idade suficiente para ler estas palavras, Ana Laura, saberá que eu gostava muito da dona Jolinda – até escrevi um livro sobre as histórias dela. Uma das histórias mais bonitas desse livro envolve Joana, que era avó da Jolinda. Imagine só, Ana Laura: a avó da avó da sua avó! Pois é: Jolinda e Joana, lá em Uberaba, em 1910, acordavam cedinho para ir à missa, e Joana ensinava a Jolinda o nome das estrelas.
Algum tempo atrás, costumavam enganar as crianças dizendo que as pessoas viravam estrela. Hoje sabemos que esse é apenas um outro nome para a morte. Mas, da mesma forma que uma música não deixa de existir quando pára de tocar, dona Jolinda vai continuar vivendo nas histórias que contou. E você é a mais nova personagem desse livro.

Hoje acordei com a macaca

August 07, 2006


Trabalhar no final de semana é chato. Mas, com a justiça eleitoral do Paraná, é mais chato ainda. Neste sábado, fui escalado para editar matérias sobre a primeira pesquisa Ibope da eleição para governador. Quando já estávamos com os textos prontos e as páginas diagramadas, chegou a notícia de que o TRE havia proibido a divulgação da pesquisa. Parece que o Requião não ficou nem um pouco satisfeito com seus 39% nas intenções de voto, contra 24% de Osmar Dias. Esses números indicam forte tendência de segundo turno. Para mim, a pesquisa não diz nada: Requião ou Osmar Dias, estaremos no mesmo lodaçal. Bueno ou Arns, idem ibidem.

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Pelo jeito, a decisão do TRE foi revertida – porque os números da pesquisa foram publicados hoje.

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Estamos no século 21 – e a justiça ainda censura a imprensa.

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Será que a justiça vai me prender por eu estar usando letras minúsculas?

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Com a proibição do uso de bonés em campanha eleitoral, quem saiu perdendo foi Apucarana. Conhecida como pólo de produção “bonezeiro”, a cidade do bravo Nortão do Paraná ficou sem uma importante atividade econômica em épocas de campanha. Trocentos capiaus ficaram sem emprego. Eu digo, não sem algum dó, que Apucarana ficou de chapéu na mão. Eh, sertão!

*****

Considero repugnantes, para dizer o mínimo, essas propagandas da justiça eleitoral dizendo que “o voto é um direito do cidadão”. Ora, que mané direito? O voto no Brasil é vergonhosamente obrigatório – e, sendo assim, é uma violência do estado contra o indivíduo. Vou votar para presidente unicamente para evitar o Lula. Caso o voto não fosse obrigatório, o prefidente estaria em péssimos lençóis, não tenho dúvida.

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Escuto no rádio que a presidente da Associação de Mototaxistas de Londrina foi presa por tráfico de drogas. Isso é que é disque-entrega...

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Meu amigo e mestre
Lúcio Flávio diz que o meu texto sobre Fidel Castro “parece escrito em Wall Street”. Não, caro Lúcio. Foi escrito aqui na Rua Cacilda Becker mesmo. Mestre Passageiro da Agonia ainda lembra o caso de outro Paulo, o Francis, meu muito admirado, que era trotskista e virou conservador. Agradeço pelo fato de ser citado no mesmo parágrafo de um grande jornalista (e por outro grande jornalista), mas a comparação não cabe. Eu sou apenas um Jung Jeca Tatu, como bem intuiu James Cimino.

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Adoro o
Rodrigo Grota (pessoa e crânio), estou curioso para ver “Satori Uso” (anagrama de “Sou otário”, pensa que eu não sei?), mas fico com preguiça de responder aos seus comentários sobre a fragilidade das democracias francesa, alemã, americana... Bom mesmo é aqui no Brazuca, né, Grota? Valei-me Nossa Senhora do Paz...

A morte do ditador

August 06, 2006

O ditador Fidel Castro está morrendo – se já não morreu. É costume, entre as ditaduras comunistas, que a morte de um líder máximo seja mantida em segredo, por alguns dias, enquanto os quadros do poder se engalfinham para ver quem será o herdeiro da máquina. Em democracias – como Israel, Inglaterra, França, Suécia, Alemanha, Espanha, Japão, Austrália, Estados Unidos – a morte de um governante não precisa ser escondida. Morre-se, ou entra-se em coma, e a Constituição diz claramente quem sucede o mandatário.
Por hábito cristão, não costumo festejar a morte de ninguém, e não abrirei exceção no caso de Fidel, mas está claro que a passagem do ditador cubano será benéfica, não só para o povo de Cuba, imerso há 46 anos em miséria e controle policial, mas também para o mundo, que perderá um dos seus maiores símbolos catalisadores de tirania e opressão.
Triste, mas triste mesmo, é ver a esquerda brasileira apontando os cárceres de Guantánamo, controlados pelos EUA, como exemplos de desumanidade, quando toda a ilha de Cuba nada mais é que um presídio a céu aberto. Alguém já fugiu “para” Cuba? Só o Zé Dirceu, para ser treinado em guerrilha e picaretagem.
Além da cadeia que é o próprio país, Fidel já fez 100 mil presos políticos e ordenou 17 mil fuzilamentos. Tortura, patrulhamento ideológico e miséria são as pedras-de-toque desse país dos horrores, perto da qual o cenário do seriado Lost é a Ilha da Fantasia.
E pensar que dois candidatos presidenciais – Lula e Heloísa Helena – são amigos e companheiros de Fidel. Talvez até o Cristovam Buarque... Estamos perdidos.

Eu não me acostumo

August 03, 2006


Dizem que o homem se acostuma a qualquer coisa. Afinal, não tem gente que trabalha no Instituto Médico-Legal, em hospital da Baixada Fluminense, em mina de carvão, em depósito de lixo? Não há especialistas em desmontar bombas, em limpar fossas, em manipular resíduos atômicos, em ouvir ensaios do Skank?

*****

Sim, há-os. Mas eu não me acostumo. Deve ser algum defeito de fabricação, algum gene recessivo, algum trauma de infância – sou inadaptável a mim mesmo, ainda que em condições normais de temperatura e pressão (CNTP, lembra a Física do colegial?).

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Uma coisa a que eu não me acostumo nem fodendo é serra circular ou serra elétrica, dessas que o pessoal resolve ligar de preferência bem no meio da minha ressaca (lá pelas 3 da tarde da Sexta Neosaldina, versão salafrária da Sexta-Feira da Paixão, multiplicada por 52 semanas ao ano). No mesmo, mesmíssimo caso está a furadeira. Aquele barulhinho agudo e supersônico da furadeira – desconheço formas mais eficazes de tortura. Arrancar a unha do dedo mínimo perde.

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Não me acostumo ao espelho – em qualquer hora do dia e da noite, acho que é alguém estranho que se reflete lá. Aquele cara ali não se parece comigo. Minha voz no gravador, idem. Não sou eu, é um impostor que falou. Mandem a fita para a Unicamp.

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Não me acostumo à existência do futebol depois da Copa do Mundo – depois de tamanha overdose ludopédica, quem agüenta aqueles 22 marmanjos atrás de uma gorducha?

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Depois de 16 anos de estudo (incluindo o pré-primário), eu já estava me acostumando a estudar, quando me formei – e tive que trabalhar. Quando eu estiver me acostumando a trabalhar, daqui a uns 40 anos, chegará o momento da aposentadoria. Acostumar-me à aposentadoria? Só quando vestir o célebre pijama de madeira. É tudo tão inútil. Por que a gente estuda, trabalha, se aposenta, vive? Não faço a mínima idéia. Mas também não me acostumo à dúvida, da mesma maneira que não me acostumo à simples existência de Carlinhos Brown, de A Diarista, de Sob Nova Direção, do dedinho-no-queixo-óculos-na-ponta-do-nariz-e-cara-de-inteligente da Marília Gabriela. Eu não me acostumo a nada. Acho tudo isso um atentado aos bons costumes (se é que eles existem).

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Não me acostumo a Guimarães Rosa, Ezra Pound, James Joyce. Li “A Casa dos Budas Ditosos”, do João Ubaldo Ribeiro, e achei uma bela merda. Poucas vezes vi “erotismo” de pior qualidade. Vou tentar “Viva o Povo Brasileiro”, apesar do título besta. Será que agüento?

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Suicídio, sugere-me o leitor Marcio (não o
Leijoto, não o Leijoto). Impossível: sou contra a pena de morte.

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Não me acostumo a eventuais arroubos de nacionalismo (“O nacionalismo é último refúgio do canalha”, disse alguém que não lembro quem é). Tampouco me habituo a quem consegue ouvir seriamente Heloísa Helena por mais de três segundos. Com o perdão dos meus queridos mestres
Tanga e Lúcio Flávio, não me acostumo a acreditar que a educação vai salvar o país. Salvaria, se todos os professores fossem iguais a vocês, meus caros amigos – mas não são. Nossos professores, em sua imensa maioria, estão tristes com o iminente fim da ditadura cubana.

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Não me habituo com o desfile zoológico-fantasmagórico-dadaísta dos candidatos a deputado; depois de uma passada de olhos pelas fotografias dos sanguessugas, perguntei a mim mesmo: “Que indivíduo, em sã consciência, acha que esses canalhas podem realizar um ato generoso e desinteressado em todo o curso de suas vidas?” Não me acostumo nem fodendo.

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Resta-me a QSL. E você, é claro.

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Som na caixa, Mané: Sinfonia nº 4, Brahms. Só o começo do primeiro movimento; depois fica chato. A Brahms eu também não me acostumo (só à Skol, hã, hã? Entendeu, entendeu?)

Sou brasileiro, desisto sempre

August 02, 2006

Tem uma propaganda na TV a cabo que diz: “Se a Ilha de Manhattan tivesse a mesma densidade populacional que o Alaska, seria habitada por apenas 25 pessoas”. O texto é acompanhado por imagens de uma Nova York vazia. Na tarde do último domingo, caminhando pelas ruas desertas aqui de Londrina, eu me senti no mesmo cenário. Se eu me mudasse para São Paulo (onde já morei) ou Rio haveria um pouco mais de agitação, mas só. A aridez mental continuaria a mesma.
Não me coloco fora dessa análise. Eu também sou um personagem do subdesenvolvimento em todos os sentidos (econômico, social, político, cultural, espiritual, moral). Brasileiro, considero-me habitante do deserto, esse grande sertão que só inspira tédio, preguiça, imobilidade (imobilidade esta que, de vez em quando, torna-se agitação gratuita, carnavalizada, do balacobaco).
A condição brasileira é tragicômica. A pior loucura é a que se acredita esperta; o pior isolamento é o que se diz conectado; a pior tristeza é a que se vê alegre. O Brasil é esse gol impedido, esse vice-campeonato, esse “quase deu”.
Retrato do nosso isolamento é a língua portuguesa – falada por poucos, entendida por raros, maltratada por todos.
Como (sobre)viver num país em que os mesmos que demonizavam o simples ato de dar esmolas hoje toleram a reeleição de um energúmeno por considerá-lo “mal menor” – sendo que o principal ato desse indivíduo foi distribuir esmolas com dinheiro público?
Como viver num país em que a Federação dos Jornalistas defende obrigatoriedade de diploma para cartunistas? Cartunistas! Daqui a pouco só poderei escrever crônicas com a benção da Fenaj.
Agora mesmo vi a repórter falando na TV: “Como evitar desperdício de tempo na hora de votar”. Pois eu tenho uma receita infalível: anular os votos, com exceção do cargo de presidente. Nesse caso, é bom fechar o nariz e votar no Alckmin Mal Menor. Leva pouco tempo, eu garanto.
Não brinco carnaval; não toco pandeiro; não gosto de calor; não sou otimista; não dou jeitinho; não leio Guimarães Rosa; não acompanho novela. O que faz de mim, um suíço caipira, Jung Jeca Tatu, um brasileiro? A resposta é simples: a preguiça intelectual. Esse é o meu lado autenticamente brasileiro, e nisso sou parecido com o nosso prefidente. Não aprendi a falar inglês; não me interessei por estudar nada; não saio do meu canto; nunca tive a paixão do conhecimento e da verdade. A verdade, para mim, pouco importa.
Eu sou brasileiro – desisto sempre. Do Brasil, já desisti faz tempo. Alguém pode me perguntar por que eu não vou embora. Por três motivos. Primeiro, não sei falar inglês. Segundo, não tenho dinheiro. Terceiro, que preguiça!

Notas liberais

August 02, 2006

Nos Estados Unidos, liberal é “de esquerda”. No Brasil, liberal é “de direita”. O termo é sempre usado no sentido pejorativo, ou até como ofensa. Para os conservadores e puritanos, nos EUA, dizer que alguém é liberal equivale a chamá-lo de porra-louca. Para os brazucas petelhos, não há xingamento mais abominável que “neoliberal”.

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Nos sistemas totalitários, o liberal também não era nada bem-visto. Na ótima biografia “O Czar da Corte Vermelha”, Simon Sebag Montefiore cita um diálogo em que Stálin denominou Churchill como “liberal – a criatura mais repugnante no léxico bolchevique”. Hitler odiava liberais e moderados com todas as forças – uma de suas palavras preferidas era “radical”.

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Subdesenvolvimento gera submentalidade. E submentalidade gera a necessidade de medidas extremas. O maior inimigo dos liberais – e dos moderados – são os extremistas. O que os radicais odeiam no liberalismo é a falta de resposta para todos os problemas – o reconhecimento de que a vida é precária, e limitados são os nossos instrumentos para modificá-la.

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Os líderes comunistas e fascistas sempre falaram em construir “o homem novo”, “o país novo”, “o mundo novo”. Liberais, se autênticos, preferem seguir adiante com o velho homem, o velho país, o velho mundo. Nada se resolve por passe de mágica, revolução, confisco, decreto ou tabelamento.

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Em suma, o liberal sempre se fode. É o inimigo de quase todo mundo. Quase.

Sonhos lunáticos de uma noite de inverno

August 01, 2006
E tudo isso numa noite só


Preciso sair de casa. Estou com pressa e tenho que me vestir. Por algum motivo, não consigo vestir a camisa de jeito nenhum. Desisto da camisa, tento a calça. Inútil: não consigo vesti-la também. O mesmo com os sapatos e as meias. O tempo passa; o telefone toca; minha mãe vem me chamar (tinha que ter mãe – é sonho, né?); o tio Vicente aparece não sei de onde para atender ao telefone; a urgência fica urgentíssima; e eu não consigo me vestir, não consigo. Também, estou tentando enfiar a calça pela cabeça...

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Manja esses brinquedos de armar? Pois é. Lá estou eu, quase terminando de montar a geringonça, quando, na última peça, ele se desmonta sozinho. Com paciência de Jó, tento novamente, e acontece a mesma coisa. É como se fosse uma versão do mito de Sísifo, com brinquedo no lugar da rocha. (Parêntese informático: essa droga do meu Word insiste em transformar Jó em Jô. Na cabeça desse maldito corretor ortográfico, o apresentador gordo e mala é mais importante que o personagem bíblico!)

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Estou na Prefeitura (lugar que, graças a Deus, não visito há anos). Sinto uma tremenda vontade de mijar. Procuro um banheiro; encontro, mas está em reforma. O único WC disponível é o de um restaurante por quilo (!), mas o dono só me deixa usar o banheiro se eu consumir alguma coisa. Protesto, digo que aquilo é um absurdo, afinal de contas ele é apenas o “concessionário de um espaço público” (afinal, o restaurante fica na sede da Prefeitura; usei literalmente essa expressão: “concessionário de um espaço público”). Mas o cara é irredutível. Só posso mijar se consumir pelo menos uma garrafa de água mineral. Enquanto brigo com o dono do restaurante, chega o Marcelo Rocha e entra na discussão. Olho para o dono do restaurante por quilo com certa pena: ele tem uma cara de tio bonachão, óculos fundo de garrafa e umas veinhas pronunciadas nas bochechas. O restaurante está quase vazio; fico com dó do tio. Digo ao Marcelo, que insiste em brigar: “Vamos embora, eu arranjo outro banheiro”. Nesse momento, acordo com sede e vontade de mijar.

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Perco todos os meus dentes (não me perguntem como). Uma vez banguela, e como tenho um compromisso público (acho que vou discursar não sei onde), resolvo pegar emprestada a dentadura do Nedson (sim, ele, o prefeito de Londrina). Uso a dentadura, mas sou desmascarado. Tenho que devolver o artefato com um pedido de desculpas ao Nedson. (Na vida real, não sei se o Nedson usa dentadura).

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Som na caixa, Mané: Supertramp (juro que a trilha sonora do último sonho era Supertramp; sei lá qual música, mas era).