Uma boa QSL para todos.
Já estive em muitas cidades – em pessoa, em pensamento, em sonho, em cinema, em livro, em conversa. Mas sei que só uma existe uma cidade: aquela que me cerca.
Minha verdadeira profissão é ser o construtor desta cidade sem nome – a cidade quando penso. Se penso na Rua Humaitá, agora, a Rua Humaitá existe; ou pelo menos existe o trecho da Rua Humaitá no qual estou pensando; ou pelo menos existe o trecho da Rua Humaitá, numa noite de dezembro de 1992, sob o facho da luz amarela do poste, diante da república que depois seria demolida (mas permanece ali, para mim, com a arrogância dos corpos indestrutíveis).
Em São Paulo, quando alguém vai para o Centro, diz: “Vou para a Cidade”. O Centro é a Cidade dentro da cidade. Nunca entendi isso na infância. Agora, 30 anos depois, entendo.
Às vezes me pego descendo a rampa da garagem de um prédio na Alameda Barão de Limeira, Centro de São Paulo. Desço a rampa da garagem em direção ao subterrâneo. Só uma forma se destaca na escuridão que ganha corpo na medida em que caminho: é a maçã descascada que alguém abandonou no chão da garagem. A maçã sem casca, impassível na garagem subterrânea, vigia os arredores como se tivesse luz própria. De seu corpo branco – lembre-se que não há casca – brota uma haste escura ligeiramente caída para a esquerda.
É a minha cidade, é o meu exílio. Onde um cão late a noite inteira. Talvez seja o fantasma da mulher que caiu no poço do elevador; ou o garoto argentino atropelado no Minhocão; ou o porteiro careca e bravo, Seo Bill, que certo dia brigou com todos os garotos do prédio. Ninguém sabe com certeza quem é – só o cachorro – mas o cachorro não fala – está morto há muitos anos – há quase 10 anos. É um fantasma que late para os fantasmas. Só eu posso ouvi-lo – em minha cidade.
Certo dia – acho que eu estava com 7 anos – me perdi na loja de departamentos; fiquei chorando diante da prateleira dos Falcons. Felizmente a mãe apareceu logo. Caso não aparecesse, eu poderia me tornar um mendigo, como aquele que dormiu na jardineira do prédio, aqui em Bauru, enrolado em farrapos. Talvez seja eu mesmo caso tivesse sido abandonado para sempre na loja de departamento, diante da prateleira dos Falcons.
Aqui em Bauru – é estranho dizer isso. Hoje pensei em ter acordado nas imediações do Bar Brasil. “Já são 10 horas, estou atrasado pra Quinta Sem-Lei!” Acordei – eram 10 horas, mas da manhã, e era quinta-feira, mas muito longe do Bar Brasil.
Nos finais de tarde, faço a minha caminhada pelas imediações. Vou ao campus da Universidade – deserto nesta época de férias. Quase nenhuma alma viva: na segunda-feira, vi apenas uma freira branca e um gato preto. Cumprimentei a religiosa com um aceno protocolar – ela respondeu com simpatia e sem palavra. Segui meu caminho. Não havia nenhum som na natureza. Nas imediações do campus, duas ou três lojas vazias brilhavam como fogos fátuos. O Sol se escondia como um agente penitenciário. Em algum lugar do meu exílio, um ônibus pegava fogo.
Na Igreja do Rosário, eu pedi perdão pelos meus pecados. Era uma tarde de terça, mas parecia noite dentro no interior da igreja barroca; também parecia noite no corredor da clínica. E o médico me olhou, antes de receber o dinheiro: “Bico calado”. Saí da igreja e contemplei o cemitério vizinho, tão silencioso. Mortos tão antigos como as pedras do casario. Sim, Ouro Preto tem a sua população: no entanto, é difícil imaginar alguém morando em casas tão velhas. No hotelzinho em Paris, levanto e abro a janela para ver as plantas do caramanchão. Um pequeno rato me dá bom-dia em francês, lá fora.
Depois vou embora, ao lado do Bonfim, em direção a um bar do Bixiga. Consegue ouvir? É o meu cachorro. Consegue ouvir? É o pessoal cantando no Bar Brasil: “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!” Consegue ouvir? É o garoto argentino atropelado. É o mendigo que dormiu na jardineira. É o Seo Bill brigando com a turma. É a mulher que caiu no poço do elevador. É o menino que se perdeu da mãe diante da prateleira dos Falcons.
Só sei que vou para a Cidade.