Um post que eu só poderia escrever durante as férias. Dedicado a:
- Syd Barrett (1946-2006), músico talentoso e patrono da FDE.
- Mestre Tanga (muitos anos de vida; que a longevidade lhe seja tão grande quanto a cabeça), detentor do copyright da marca.
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Há tantas coisas importantes para fazer no mundo. Mas encher uma carroceria de tora ninguém quer, né? Tampouco trabalhar na gráfica da Imprensa Oficial, levando aquelas bobinas de papel tamanho gigante. Pra carregar no muque geladeira velha, poste de cimento, piano de cauda – ah, não aparece um voluntário.
Empilhar elemento vazado no canteiro é uma atividade de grande valor – mas cadê os voluntários? Pra falar besteira no blog tem uns 15 neguinhos por dia, mas pra limpar o chão do Albatroz um dia depois do forró eu nunca vi candidato. Nem pra recolher as bitucas no Bar Brasil, depois da QSL. Lavar o banheiro do dito cujo, alguém aí se habilita?
O reino mineral oferece uma grande variedade de opções para quem necessita de trabalho. Transportar rochedo até o topo do morro, ao estilo de Sísifo, é uma delas; iniciar as escavações para uma “Viagem ao Centro da Terra” é outra; existem minas de carvão, amianto e cobre para todos os gostos. Picaretas, como se sabe, não faltam na praça; esses instrumentos podem ser usados na lida com pedras das mais variadas texturas (nenhuma delas, felizmente, mole). Quede os malandros para picaretear nesse sentido?
Da mesma forma, o reino animal proporciona excelentes razões para escapar da vadiagem. Amansar cavalo chucro, colocar guizo em gato-do-mato, pastorear ganso neurótico, adestrar rottweiller com trauma de infância – pô, como falar em desemprego se há tantas vagas disponíveis?
Virar emo, um monte de gente quer. Assinar como Senhorito Ricardinho (só pra imprexionar as meninas – ou, mais amiúde, meninos – imprexionáveis), mal se oferece já tem uns 15 neguinhos com a mão na caneta. Comprar carrão zero, azarar maria-chuteira em boate e fechar suíte presidencial em hotel cinco estrelas, até eu que sou mais bobo.
Ganhar uns trocados só pra posar de segunda atração da “Sexy”? Tiveram que distribuir senha para a multidão de garotas interessadas; é a febre do “nu artístico”. Mas pra aquele tanque cheio de roupa encardida, camiseta suja de mostarda, meia de Kichute e cueca samba canção quadriculada, eu não vi uma filha de Deus se habilitando.
Faturar cinco paus só pra fazer uma palestrinha de liderança empresarial, responsabilidade social ou como-vencer-na-vida-levando-tudo-na-flauta meio mundo quer. Só que ninguém quer pegar no trecho com a peãozada e pintar uma guia da Avenida Winston Churchill (da Tiradentes até a Rodovia, e o solzão brabo ali, ó).
Neguinho dizer que o bolsa-esmola é um importante “programa de segurança alimentar” e que permite aos pobres “um mínimo de participação na renda nacional”, eu já ouvi um monte. Agora, pra organizar no braço uma fila de postinho de saúde em época de rotavírus, ah, aí é difícil fazer uma lista, hein?
Vira-e-mexe junta uma penca de manés falando em “injustiça social”, “concentração de riqueza”, “conspiração das elites”; mas experimenta falar pra eles servirem a bóia dos presos lá no 5o Distrito. “Ah, hoje eu fiquei de terminar o relatório de marketing cultural...” “Hoje, eu não posso, fiquei em depê de introdução à metodologia...” “Tenho reunião da ONG...” “Justo hoje que tem palestra do Frei Betto?” Não sobra um, meu irmão.
Mais intocada que as vergonhas da Madre Teresa, mais abandonada que os comitês de candidato derrotados no 1o turno, mais injustiçada que a Seleção de 82 – e no entanto acessibilíssima, disponibilíssima, ao alcance do toque da mão: a enxada. Que falta ela faz!
e mais não falo porque já falo demais aqui: http://www.bonde.com.br/col...