Nasci em 1970, número redondo. Graças a Deus: fraco de contas, nunca tive muita dificuldade para calcular minha própria idade. Resolvi dar as caras poucos dias depois da conquista do tricampeonato por Pelé, Tostão & cia.
Era tempo de Médici no poder; milagre econômico; tortura e terrorismo; Nixon, Brejnev, fim dos Beatles. O sonho acabou; eu comecei.
Vim ao mundo de cesariana, no Hospital São Camilo, bairro da Pompéia, São Paulo. Sempre tive tudo – carinho, amizade, educação, casa, comida, roupa lavada, brinquedos, cadernos e livros. Mas também tive medo – muito medo.
No dia em que nasci, meu pai foi sorteado no consórcio. Fui para casa num Fusca 0 km, cor de vinho.
Meu Deus, 1970 me parece tão remoto. Sem dúvida, é um ano do século passado. Descubro, alarmado, que 1970 é o último dos anos 60; portanto, apesar de ter 36 anos, eu já vivi cinco décadas. As armadilhas do calendário.
O fato de ter nascido em 1970 me faz duvidar que alguma pessoa possa ter nascido em 1985 – por exemplo, a cantora britânica que foi capa da Ilustrada de hoje. É muito difícil para mim acreditar na existência de pessoas nascidas pós-1980, principalmente se elas já conseguirem andar, falar, pegar táxi, trabalhar, fazer sexo, etc. Na verdade, vocês que se dizem nascidos na década de 80 devem ter falsificado documento. Isso é crime, sabiam?
Em 1970, Kerenski, o primeiro-ministro deposto pelos bolcheviques, ainda vivia no exílio (morreu só no ano seguinte). Em 1970, Caetano Veloso já era chato. Em 1970, Syd Barrett já tinha saído do Pink Floyd. Em 1970, fazia 220 anos que o João Sebastião tinha ido para a cidade dos pés-juntos (mas, felizmente, nunca mais ficou quieto). Em 1970, 2001 parecia um ano longínquo, uma Odisséia no Espaço. Em 1970, se um cara como eu saísse dizendo que era liberal, só levaria bordoada (mas não é isso que acontece até hoje?). Em 1970, eu morava na Alameda Barão de Limeira, a 400 metros da Folha de S. Paulo, a 600 metros do Edifício Andraus (que pegaria fogo), no apartamento número 11, em cima de uma lavanderia. Me lembro de uma ratazana morta pelo zelador – aquele olhar do fundo da morte.
Em 1970, o grego que era nosso vizinho deu um golpe na praça e fugiu de madrugada, levando toda a família, menos a cachorrinha Laika, que ficou chorando na frente do apartamento vazio. Em 1970, Pol Pot era um simples estudante universitário em Paris. Um cara que tinha a idade do Vidal em 1970 hoje tem... 60 anos de idade!
Em 1970, você ainda não havia nascido, mulher. Mas eu sabia que alguma coisa muito importante estava para acontecer.
E mais não digo porque já são três dúzias...
Som na caixa, Mané: Qualquer João Sebastião tá valendo!
Publicado em 10 de julho de 2006 às 13:46 por briguet
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