Ó amiga, melhor entre as melhores:
Descendo a Higienópolis, a velha angústia. Lembrei-me de Camões:
O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar(...)
Farei 36 anos daqui a menos de uma semana. Tenho três dúzias de aniversários e três pílulas que tomo todos os dias: uma azul, uma clara, uma escura. Não sou muito versado no assunto, mas, em Matrix, a pílula azul era a do esquecimento, não era? Pois eu tomo essa pílula todos os dias, no café da manhã, e continuo me lembrando de tudo.
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Converso com o taxista, garoto de 21 anos; ele me diz que a mulher está grávida de seis meses. “Não foi programado, mas tudo bem.” Eu digo a ele que é impossível fazer planos para tudo. Quem pensa não casa, nem tem filhos, nem muda de país. (Nesse momento, lembro que você casou, minha amiga, e mudou de país.)
O rapaz concorda. É o momento de eu parar de falar besteira - uma espécie de senha divina. Mas, não.
Falta de enxada como só eu consigo ser (trabalhar limpando capacete no Mototáxi Batalha ninguém quer, né? Empreguinho na Visatec nem passa perto, né?), comento ainda que a vida é “o ensaio que já vale como peça” (pseudaço, roubei isso de Milan Kundera; uso sempre; e você continua com o meu livro, Marcelo Rocha, seeeeeiiiim-vergonha!).
Não contente, solto outro chavão:
– Se tudo corresse conforme o planejado, a vida não teria graça.
Bravo, bravíssimo! Palmas para Briguet, O Leviano. Adoro chavões. Chavão, como já diziam Itamar Assumpção e Guará, abre porta grande. E essa graça que a vida tem é exatamente a graça bíblica, aquela que significa “mais vida”. Nosso ponto de contato com o Pai Jacó (aquele que lutou com o Anjo, não o do jornal O Berro).
É assim que eu sempre penso em você, minha amiga Janaína: ao pensar em você, eu sei que preciso de mais vida.
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Pus a mão no telefone para te ligar, minha amiga, mas achei melhor escrever estas palavras aqui mesmo. Viciei-me em fazer declarações de amor públicas (como já notou aquela-que-você-e-a-torcida-do-Corinthians-sabem-quem-é, que por sinal esta aí na península itálica). As minhas mal-digitadas sempre são mais fortes. 'pesar disso, amanhã voltarei a ler minhas crônicas na rádio (o PT saiu do pedaço), mas escritas elas continuam bem melhores. Embora longe do aceitável...
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E já que estamos no terreno da falta de enxada (hein, hein?) outros versos, agora de Drummond:
As guerras, as fomes, as discussões entre os edifícios
Provam apenas que a vida prossegue
E nem todos se libertaram ainda.
Esses debates aqui no blog sobre Lula, Alckmin, Belinati, Parreira, Zagallo, Cristovam Buarque, Heloísa Helena e outras figuras funéreas – nada disso tem importância. Nada vai mudar minha vida em um centímetro – e aposto que não mude a vida de ninguém. Política é um negócio absolutamente inútil. Futebol é passatempo, simulação de guerra. O importante é saber como estão meus amigos, como está você, como está Andrea, como está o Theo (filho do Zé e da Carla, que nasceu agora), como está a mulher que eu amo.
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Minha irmã está noiva de um japonês, sabia? Um cara muito legal. Vão se casar em janeiro, numa cerimônia budista. Chique no úrtimo. Meus pais se mudaram para aquela cidade com nome de sanduíche... Hambúrguer... Não... Hot Dog... Não... X-Salada... Não... X-Bagunça... Não. Bauru – isso! Meus pais se mudaram para Bauru. Eu vou para lá na Sexta Neosaldina.
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Faço essa piadinha infame de lanches porque acabo de interromper a redação desta carta: chegou meu filé mignon light do Gato Ke Ry. (Sempre achei ótimo esse nome, principalmente a grafia. Gato Ke Ry! Do verbo ryr!)
Certa vez, comentei com o Galão (sumido, exceto em alguns comentários cannéticos) que uma libertação pessoal importante para mim tinha sido receber o entregador de lanches de cueca. Nenhuma conotação sexual, é claro (não vou virar viado logo com o entregador de lanches...). Mas hoje não fiz isso, por dois motivos: está meio frio e a porta externa anda com um problema – tive que descer a escada (a síndica me taca uma multa se eu sair de cueca no prédio).
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É, Janaína Ávila. Brutais diferenças de classe nos separam (o cara pode deixar o marxismo, mas o marxismo não deixa o cara). Sobre mim, o fantasma do subdesenvolvimento (que sou eu mesmo, um caipira suíço, segundo o James. Meu codinome, já adotado, é Jung Jeca Tatu). Você aí morando na cidade onde foi inventada a pizza margherita e eu aqui falando de filé mignon light do Gato Ke Ry! Classe é classe. Crasse é crasse. (E crase é crase, complementaria mestre Tanga. Péssima, admito.)
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Noto que ainda nós, brasileiros do Brasil, temos que conviver por alguns dias (talvez semanas) com os escombros publicitários da Copa do Mundo. A cerveja que eu acabo de abrir tem frisos verde-amarelos. Que só servem para deprimir, mas fazer o quê?Agradeça ao Andrea pela solidariedade prestada no pífio jogo com a França e aproveite para cumprimentá-lo pela classificação da Azzurra à final. (Confesso que nem vi o jogo. Já tive a minha cota de COPA!)
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Espero que você ainda ouça meu João Sebastião, de vez em quando, principalmente de manhã.
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Viu só? Enrolei tanto para te escrever e no final não era nada naquilo. Mas a saudade é bem grande. Sinto sua falta sempre. Você é o meu dream team de uma mulher só. Com a diferença que você funciona, mesmo na Europa – e o do Parreira, não.
Beijos.
Som na caixa, Mané: Cantata BWV 57, de João Sebastião (BWV 57... isso parece nome de carro... Mas não é, acredite... Ô se não é...)
Publicado em 04 de julho de 2006 às 19:50 por briguet
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