Repórter das Coisas

Notas de um leviano

Dia desses, o caríssimo James Cimino, codinome Margo, sobrenome de cineasta, disse que eu era “leviano” por ter escrito que “Lula belinatiza o Brasil”.
A argumentação de James, rapaz esperto, é interessante. Ele diz que um morador de Londrina, como eu, não pode conhecer o verdadeiro Brasil. Segundo James, eu e outros opositores do mensalão e do mensalinho (bolsa-esmola) vivemos na Suíça.
Depois, o mesmo James vem dizer que nos cinco anos passados em Londrina só conheceu caipiras. Que por aqui não viu “gente”. Aí pó pará, James. Ou bem sou suíço, ou bem eu sou caipira. Por mais que me esforce, não consigo imaginar um Jung Jeca Tatu. Na hora de xingar, vá em frente, fique à vontade. Mas escolha o xingamento. Um abraço, a amizade continua a mesma e toda aquela viadagem.

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Gostei de Jung Jeca Tatu. A partir de agora, só participo de abaixo-assinados com esse nome.

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O problema é que Lula e Belinati, para se perpetuarem no país, sempre usaram a mesma argumentação contra seus opositores: “Vocês não conhecem o verdadeiro Brasil”.
Eu posso dizer, mui modestamente, que conheço sim. Não é para me gambar, não, como diria Lula (perceberam a alusão à França, hein, hein?), mas fui repórter de cidade, repórter de rádio, assessor sindical, sindicalista, militante (trotskista, mas fui). Me fodi às pampas; perdi dinheiro, emprego, chances de melhorar de vida. Perdi sobretudo tempo. Conheço ratazanas à luz do dia, cafezinhos ultra-adocicados em favela, reunião de bairro, assentamento de sem-terra, exumação de cadáver, cartilha de assistência social, reunião do PT, sanduíche de mortadela, Câmara de Vereadores, rebelião em cadeia, panfletagem no Calçadão, greve, congresso da CUT, Janene, pancadaria da polícia, operário de prefeitura, traficante, hospital público, postinho de saúde, boteco sujo, time de futebol de periferia. Conheço – e posso garantir que é tudo uma bela merda. A única forma de mudar essa história é diminuir o tamanho do Estado, acabar com o paternalismo do governo, combater o voto de cabresto do Lulinati, permitir que a iniciativa privada se desenvolva, reduzir a cascata de impostos... enfim, aplicar a receita liberal. É uma receita ideal? Não é. Mas, como diria Churchill, todas as outras são piores.

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Leviano é uma palavra bem forte. Segundo o Aurélio, designa aquele “que julga ou procede irrefletidamente; precipitado, inconsiderado, imprudente; sem seriedade; inconstante”.
Nossa, acho que vou adotar esse adjetivo como epíteto. Não houve Carlos, o Chacal? Pedro, o Grande? Pepino, o Breve? Pois aí vai: Briguet, o Leviano! Combina bem, não acham?

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Vejo, pela primeira vez, “Memória do Subdsenvolvimento”, do cineasta cubano Tomás Gutiérrez Alea. O filme se passa na Cuba dos primeiros anos pós-revolução. O ditador Fidel Castro ainda de barba preta.

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Concordo com o mestre Paulo Francis: “Memórias do Subdesenvolvimento” é o filme que nenhum cineasta brasileiro conseguiu fazer. Conta a história de Sergio, um escritor que resolve ficar sozinho em Cuba enquanto a família e os amigos migram para Miami. Fica para ver no que vai dar aquilo tudo. Deu merda, como sabemos, mas ele fica.

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Gostei particularmente da cena em que Sergio, observando seus conterrâneos, diz que um dos sintomas do subdesenvolvimento é a incapacidade de relacionar as coisas. Cabefamente – porque o personagem é um cara bem cabefa –, ele cita Ortega y Gasset: “Tudo é alteração”.

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No subdesenvolvimento, tudo se decompõe, nada persiste. Um trabalho de amparo social vira bolsa-esmola. Fulgencio Batista vira Fidel Castro. A pobreza gerada pelo êxodo rural do café abre campo fértil para a ação de demagogos como Belinati (e seus epígonos; quase todos os políticos norte-paranaenses, incluindo o atual prefeito de Londrina, são epígonos de Belinati; cresceram em torno dele, inspirados por ele, por causa dele; temo que Lula faça isso com o Brasil; já fez).

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Entendo, portanto, a confusão de ser chamado simultaneamente de caipira e suíço. Não é culpa do James, não, que é um rapaz espirituoso, gosta de polêmica; é sintoma do subdesenvolvimento no qual estamos todos mergulhados... 40 anos depois do filme de Alea!

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A única coisa chata no filme de Alea – e não é culpa dele, que morreu em 1996 – é um extra com comentários do Walter Salles, Eduardo Coutinho e Nelson Pereira dos Santos. Quando Salles começou a falar de “matéria fílmica”, sinceramente, eu fui tomar um chá de boldo. Que mané matéria fílmica, rapaz! Vai carpir uma data! Vá procurar um emprego na Visatec! Vá filmar “Diários da Motocicleta” com o pessoal do Mototáxi Batalha! Vá gastar o dinheiro da família com Bala Chita!

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Há muitos anos, um economista (acho que o Edmar Bacha – essa frase ficou meio concretista: acho que o Edmar Bacha) criou a teoria da Belíndia. Dizia que no Brasil conviviam dois países antagônicos: a Bélgica e a Índia. Fazia (faz) sentido. Mas, para acabar com a Belíndia, é preciso eliminar um outro país xifópago: a Ingana. Um país com a severidade tributária da Inglaterra e os serviços públicos de Gana. Ingana é uma criação, se não me engano, de outro economista, Eduardo Giannetti, um cara que eu escolheria para ministro da Fazenda sem pestanejar. Além de bom liberal, excelente escritor. Sem eliminar Ingana, jamais nos livraremos da Belíndia. O resto – para usar o título de um livro de Giannetti – é “Auto-engano”.

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Recebo um e-mail que é a síntese da ingenuidade brasileira (outro sintoma do subdesenvolvimento). No espírito da eterna teoria da conspiração, diz a mensagem que a Copa de 98 foi “comprada”. Só me explica uma coisinha: como é que se pode comprar alguém que receberia infinitamente mais se viesse a vitória?

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De férias, eu escrevo demais. Janaína Ávila pode perguntar: por que não escreve pra mim? Porque para você é mais difícil, minha amiga.

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E mais não digo porque esse post tá longo bagarai. Prometo não falar mais de política por uns seis meses.

Publicado em 04 de julho de 2006 às 10:38 por briguet

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Comentários

    • hahahaha.
      matéria fílmica... que palhaçada!

      ei, esse filme chegou em DVD!
      que massa!
    • por grota
    • 04.Jul.2006 às 11:52 - Permalink - Reportar
    grota
    • Ei, é que agora estou meio com pressa e só li até o terceiro parágrafo. Será que o governo tucano também não tem estes programas de bolsa miséria?
      Aliás, acho que o blog do Briguet tá ficando tão anti-PT que até o código aqui embaixo que temos de digitar tucanou. Ele tá pedindo para digitar KH 13.
    • por Leijoto
    • 04.Jul.2006 às 11:57 - Permalink - Reportar
    Leijoto
  1. zero
    • é mesmo... como é que pode?!? nao me conformo... nao me conformo!
    • por Janaina, a esperança que nunca morre
    • 04.Jul.2006 às 13:08 - Permalink - Reportar
    Janaina, a esperança que nunca morre
    • Vamos lá. Primeiro, quando critico, critico conjunturas, não pessoas e considero que aqueles a quem dei a honra da minha amizade e do meu respeito estão sempre excluídos de minhas generalizações, necessárias a um texto crítico. Sobre ser leviano, quis dizer que você era leviano pois estava acusando o Lula de belinatizar o Brasil quando, na minha nada modesta opinião, quem belinatiza o Brasil são os próprios brasileiros. Terceiro, quando afirmei que nós do sul não conhecemos o Brasil, quis me referir ao fato de que até a miséria, acima do trópico de capricórnio, consegue ser pior aqui em cima. Eu morei na beira da linha, lá em Curitiba, no conjunto Trindade. Depois morei no Caiuá, em Colombo, enfim, um monte de lugar podre, mas nenhum deles era tão podre quanto a periferia de SP, Rio. Descobri que a frase Maria Rita, para ruim não tem limite, é um paradigma brasileiro. Sobre ter gente em Londrina ou não, já me justifiquei uma vez. Levem menos para o micro e mais para o macro, por favor. Além do mais, Briguet, ontem eu estava no Roda Viva e o seu querido Alckmin pretende manter a bolsa-esmola... Enfim, o que muda? Tudo continua a se resumir em bandidos fazendo jogo político referendados por um bando de ignorantes. E, Birguet, você pode ser, ao mesmo tempo, suíço e caipira, ou você acha que não há caipiras na Suíça? Lembre-se de Curitiba, não há nada mais caipirescamente europeu do que aquela cidade.
    • por margo
    • 04.Jul.2006 às 13:08 - Permalink - Reportar
    margo
    • o curitibano é um provinciano que se acha cosmopolita
    • por groucho
    • 04.Jul.2006 às 13:14 - Permalink - Reportar
    groucho
    • terminei de ler o terceiro parágrafo e pensei “Briguet pra presidente!”.
      heheheh
      saudades!
    • por deni
    • 04.Jul.2006 às 14:15 - Permalink - Reportar
    deni
    • já falei mas ninguém deu bola: lula e alckmin são iguais. o zero vivia falando: “o lula falava que ia ser diferente, mas tá fazando tudo igual ao fhc”. tá certo o zero, tá claro que é tudo a mesma coisa. os patrocinadores são os mesmos, caramba! fhc e lula = programas populistas + recompensas aos donos dos mercados. a discussão tende a rodar em torno dos nomes dos caras, mas o buraco é mais embaixo.
    • por flipper
    • 04.Jul.2006 às 14:49 - Permalink - Reportar
    flipper
    • Só um reparo, James: Alckmin não é meu querido, e nenhum político poderá ser (a Lu “400 vestidos” Alckmin, por outro lado, é bem bonitona); o Picolé de Chuchu é apenas resultado da minha falta de opções. Acho que até o Bornhausen é melhor que ele... Mas, enfim, é o que temos; aliás, é o que tenho. Lamento, mas não existe um candidato verdadeiramente liberal “neste país” (esta última expressão deve ser lida com a voz do Lula).
    • por briguet
    • 04.Jul.2006 às 15:10 - Permalink - Reportar
    briguet
    • Epa! Peraí! Bornhausen é demais.
      Morei em Floripa e conheço a peça. Esse é pior que o ACM!
      É o coronel do liberalismo.

      Há limites, por favor...
    • por ben grimm
    • 04.Jul.2006 às 15:17 - Permalink - Reportar
    ben grimm
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PAULO BRIGUET, SEU CRIADO

Dizem por aí que o autor deste blog é chato, feio e bobo – a exemplo do capitalismo e do judaico-cristianismo que ele defende com unhas, dentes e, acima de tudo, argumentos assaz irrespondíveis (para desconcerto dos oponentes).

Ex-trotskista, ex-ateu, ex-sindicalista, ex-cantor, ex-ex, arrepende-se de (quase) tudo. É amado e odiado na exata proporção de sua obscuridade.

A liberdade de pensamento e expressão aqui encontra guarida. A babaquice, porém, é rejeitada, apagada e excluída, quando não editada. Que os babacas sejam livres em outras freguesias. (Tosquices, ao contrário, são permitidas e até incentivadas.)

Quê? Jornalista? Desconheço, senhor. Alguém aí falou no assunto?

Que o Criador, bendito seja o Seu Nome, abençoe a todos os leitores deste blog. Lembre-se: Paulo Briguet reza por você.

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