Archive for July of 2006
Rua dos Mortos
July 29, 2006Esta é a Rua dos Mortos,
onde não vive ninguém.
Ninguém passa desta rua,
desta rua não se vem.
Não há lares nesta rua,
bares também não há.
Nem paredes, nem calçadas,
nem casas para alugar.
Não se mora impunemente
neste oco logradouro.
Ninguém diz: “Aqui eu vivo”;
só se fala: “Aqui eu morro”.
Sinais, todos são vermelhos,
e placas, só as de “Pare”;
nos postes em cada esquina
os cachorros não mijaram.
Os galos e passarinhos
nesta rua jamais cantam.
Nas folhas do calendário
não se acha um dia santo.
Porém, todo santo dia
nesta rua chega alguém.
Vem sem mala, vem sem nome
– para dar um passo além.
Nas mãos traz um endereço
que nunca vai existir.
Neste momento lhe informam:
“Você agora mora aqui”.
O amigo canalha
July 28, 2006
Todo mundo tem um amigo canalha. Aquele cara que é cínico, perdulário, bazófio, mentiroso, sicofanta, mau caráter – mas de quem, inexplicavelmente, a gente gosta. O Filho do Homem mandou amar os inimigos – pois que aproveita ao homem amar apenas os amigos? –, mas nada falou sobre o amigo canalha. Para ser um bom cristão, eu preciso amar o Janene, o Lula, o Hugo Chávez, o Pastor Amarildo. Mas não preciso – segundo a letra da lei – amar o amigo canalha. No entanto.
Amigo canalha é aquele que dá em cima da sua namorada; que pede dinheiro emprestado e não paga; que só aparece ou telefona quando tem algum interesse. E o pior é que a gente não vive sem o desgraçado.
Meu amigo canalha é o álcool. Sim: a bebida, a canjebrina, o capote-de-pobre, a esquenta-por-dentro. O álcool faz comigo tudo que há de ruim: deixa-me barrigudo; tira-me a saúde; dá-me ressaca; gera manchas vermelhas em meu rosto; incita-me a cometer idiotices. No entanto.
O álcool é canalha porque me deixa na mão, sempre. Não existisse a Neosaldina, eu já estaria comendo capim pela raiz há muito tempo.
“Bebo porque é líquido; se fosse sólido, comê-lo-ia”, diz a antológica frase de JQ. A natureza líquida do álcool é a essência da canalhice: ele não tem forma definida; ocupa todos os espaços; estabelece a confusão. Sabe quando você tem uma coisa nas mãos e ela “escorre entre os dedos”? Esse é o álcool.
No entanto.
(Ester, você não foi à Quinta Sem-Lei, e não pense que isso vai ficar assim!)
Amigo canalha é aquele que dá em cima da sua namorada; que pede dinheiro emprestado e não paga; que só aparece ou telefona quando tem algum interesse. E o pior é que a gente não vive sem o desgraçado.
Meu amigo canalha é o álcool. Sim: a bebida, a canjebrina, o capote-de-pobre, a esquenta-por-dentro. O álcool faz comigo tudo que há de ruim: deixa-me barrigudo; tira-me a saúde; dá-me ressaca; gera manchas vermelhas em meu rosto; incita-me a cometer idiotices. No entanto.
O álcool é canalha porque me deixa na mão, sempre. Não existisse a Neosaldina, eu já estaria comendo capim pela raiz há muito tempo.
“Bebo porque é líquido; se fosse sólido, comê-lo-ia”, diz a antológica frase de JQ. A natureza líquida do álcool é a essência da canalhice: ele não tem forma definida; ocupa todos os espaços; estabelece a confusão. Sabe quando você tem uma coisa nas mãos e ela “escorre entre os dedos”? Esse é o álcool.
No entanto.
(Ester, você não foi à Quinta Sem-Lei, e não pense que isso vai ficar assim!)
A voz
July 26, 2006
Conversando com a doutora:
– Paulo, você tem um superego muito forte.
– Forte?! É que a sra. não viu o do meu pai.
*****
A voz. O que é a voz? É isso que eu persigo. Isso que está falando comigo mesmo desde que eu nasci.
*****
Hoje eu comi o melhor macarrão com frutos do mar do mundo. E foi minha namorada que fez. Lula, só se for assim.
*****
Nelson Rodrigues disse: “Só os profetas enxergam o óbvio”. Mas ele se referia ao óbvio ainda não descoberto, é claro. A praga que existe hoje em dia – via TV, principalmente – é a indústria do óbvio. A indústria cultural, de que falavam os tais Adorno e não-sei-quem, é pinto perto da indústria do óbvio.
Exemplo exemplar: programinha sobre a inauguração de concessionário de veículos. A apresentadora, devidamente “combinada” com os donos do estabelecimento, pergunta a um convidado:
– E aí, o que você achou da nova concessionária Blues Zambow?
O cara responde:
– Ah, é mais uma bela iniciativa em nossa cidade. Está fadada ao sucesso!
Por acaso iria ao ar alguma resposta do tipo:
– Nem sei que porra é essa tal de Blues Zambow. Eu sou bicão e só vim aqui por causa do coquetel.
?
(Essa interrogação existe porque eu iniciei uma pergunta algumas linhas acima.)
Ou então, tem aquele apresentador, o Babão Kareka. No meio de uma festa, ele chega para uma garota que está dançando e pergunta:
– E aí, tá gostando da festa?
A garota, já suada, responde, ajeitando a alça de silicone:
– Com certeza, Babão!
Alguém imagina a garota respondendo:
– Não enche, Babão. Eu vim aqui porque sou viciada em pó e tô esperando meu fornecedor chegar.
?
(Mais uma vez. Desculpem, é que senão serei multado pelo fiscal da Gramática.)
*****
E todos ganham muito dinheiro com isso.
*****
Esses emos estão conseguindo acabar com a reputação da emoção (desculpe a rima – digo: com a dignidade da emoção). Hoje eu vi um filme que é emoção no sentido mais pleno: “Saraband”.
É o último filme do Bergman (que já vem fazendo últimos filmes há uns 20 anos, e um melhor que o outro).
Eu sei que gostar do Bergman é cabefa, mas fazer o quê? Eu gosto, foda-se e pronto-acabou.
A “Saraband” do título é um movimento de suíte pra violoncello do João Sebastião. Pur sinar, Bach tem uma importância muito grande nesse filme. Não percam. O véio é dugarai. E a Liv Ulmann, mesmo (ou até porque) em processo de maracujização-de-gaveta, continua sendo a melhor atriz de todos os tempos (alguns centímetros atrás da Juliette Binoche, é claro).
Depois vem esses caras confundindo emoção com cabelinho caído no rosto. Vão carpir Roraima!
*****
Para compensar, peguei um outro filme, francês (meu Deus, eu não sei por que eu continuo pegando filme francês!), que é o clássico pé no saco. Tal de “A Dama de Honra”, do Klode Xabrol (escrevi em ortografia emo). Quando o protagonista pega uma estátua, um busto de mulher, e leva pra cama pensando na namorada ausente, eu comecei a sentir um formigamento bastante parecido com infarto do miocárdio. Depois, o mesmo cara liga para a mesma namorada (a de carne e osso, não o busto) e ouve o recado na secretária eletrônica, blasé no úrtimo:
- Não posso atender agora. Faça o que quiser.
Eu fiz o que quis: desliguei o DVD no segundo seguinte. Caso contrário, a esta altura eu já seria nome de sala (ou de lavabo) lá no Jornal de Londrina.
*****
Ah, agora os babacas da Fenaj querem diploma pra cartunista, ilustrador, câmera, etc. Por que que esses idiotas não mudam pra Cuba, já que lá é tão bom?
Amanhã ou depois, o Robinho se aposenta e não pode trabalhar como comentarista só porque tem algum petista no lugar dele. Alguém já imaginou se um cara como o Angeli precisa de diploma de jornalismo pra fazer charge? Talvez o alvo desses energúmenos seja o Diogo Mainardi; sem diploma em alguma merda de faculdade, nada de escrever contra o PT...
Detalhe é que o autor da emenda está na lista da CPI dos Sanguessugas.
Meu Deus, é o fim das coisas.
*****
(E iria deixar uma observação sobre Israel aqui, mas desisti. Do contrário, quase todos os comentários seriam sobre esse tema.)
*****
Ontem encontrei meu amigo Ricardo Nélson, médico de posto de saúde e notório antipetista (desde o tempo em que eu era trotskista), e ele me disse:
– Entre os candidatos ao Senado, eu só confio na Gleisi Hoffmann.
Fiquei estupetato:
– O quê? Na Gleisi Hoffmann? Do PT?
Ele confirmou:
– Isso mesmo. Eu só confio na Gleisi Hoffmann.
Fui embora sem entender. Lento que só eu, vim a sacar horas depois.
Corremos o risco de ter a primeira candidata grávida ao Senado?
Hein, hein? Entendeu, entendeu?
*****
Esse post está prenhe de sentido!
*****
Quem estava certo: Freud ou Jung? O que herdamos provém de nossos ancestrais ou de nossas vidas passadas? Para mim, não faz diferença. Tudo – genética ou reencarnação – está mergulhado no tempo. E eu nem li Jung direito, posso estar dizendo besteira. Mas lerei.
*****
Lá perto de Gressoney tem um monte muito alto, com neve eterna no cume. Eu vi a foto, Janaína Ávila. Vi você, vi a mulher, vi o monte, vi a neve. Sempre que olhar para aquelas neves eternas, lembre-se da minha saudade. Sou eu.
*****
Terminei bem emo. Hein? hein? E mais não digo porque não vou. Só amanhã (na QSL...).
– Paulo, você tem um superego muito forte.
– Forte?! É que a sra. não viu o do meu pai.
*****
A voz. O que é a voz? É isso que eu persigo. Isso que está falando comigo mesmo desde que eu nasci.
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Hoje eu comi o melhor macarrão com frutos do mar do mundo. E foi minha namorada que fez. Lula, só se for assim.
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Nelson Rodrigues disse: “Só os profetas enxergam o óbvio”. Mas ele se referia ao óbvio ainda não descoberto, é claro. A praga que existe hoje em dia – via TV, principalmente – é a indústria do óbvio. A indústria cultural, de que falavam os tais Adorno e não-sei-quem, é pinto perto da indústria do óbvio.
Exemplo exemplar: programinha sobre a inauguração de concessionário de veículos. A apresentadora, devidamente “combinada” com os donos do estabelecimento, pergunta a um convidado:
– E aí, o que você achou da nova concessionária Blues Zambow?
O cara responde:
– Ah, é mais uma bela iniciativa em nossa cidade. Está fadada ao sucesso!
Por acaso iria ao ar alguma resposta do tipo:
– Nem sei que porra é essa tal de Blues Zambow. Eu sou bicão e só vim aqui por causa do coquetel.
?
(Essa interrogação existe porque eu iniciei uma pergunta algumas linhas acima.)
Ou então, tem aquele apresentador, o Babão Kareka. No meio de uma festa, ele chega para uma garota que está dançando e pergunta:
– E aí, tá gostando da festa?
A garota, já suada, responde, ajeitando a alça de silicone:
– Com certeza, Babão!
Alguém imagina a garota respondendo:
– Não enche, Babão. Eu vim aqui porque sou viciada em pó e tô esperando meu fornecedor chegar.
?
(Mais uma vez. Desculpem, é que senão serei multado pelo fiscal da Gramática.)
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E todos ganham muito dinheiro com isso.
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Esses emos estão conseguindo acabar com a reputação da emoção (desculpe a rima – digo: com a dignidade da emoção). Hoje eu vi um filme que é emoção no sentido mais pleno: “Saraband”.
É o último filme do Bergman (que já vem fazendo últimos filmes há uns 20 anos, e um melhor que o outro).
Eu sei que gostar do Bergman é cabefa, mas fazer o quê? Eu gosto, foda-se e pronto-acabou.
A “Saraband” do título é um movimento de suíte pra violoncello do João Sebastião. Pur sinar, Bach tem uma importância muito grande nesse filme. Não percam. O véio é dugarai. E a Liv Ulmann, mesmo (ou até porque) em processo de maracujização-de-gaveta, continua sendo a melhor atriz de todos os tempos (alguns centímetros atrás da Juliette Binoche, é claro).
Depois vem esses caras confundindo emoção com cabelinho caído no rosto. Vão carpir Roraima!
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Para compensar, peguei um outro filme, francês (meu Deus, eu não sei por que eu continuo pegando filme francês!), que é o clássico pé no saco. Tal de “A Dama de Honra”, do Klode Xabrol (escrevi em ortografia emo). Quando o protagonista pega uma estátua, um busto de mulher, e leva pra cama pensando na namorada ausente, eu comecei a sentir um formigamento bastante parecido com infarto do miocárdio. Depois, o mesmo cara liga para a mesma namorada (a de carne e osso, não o busto) e ouve o recado na secretária eletrônica, blasé no úrtimo:
- Não posso atender agora. Faça o que quiser.
Eu fiz o que quis: desliguei o DVD no segundo seguinte. Caso contrário, a esta altura eu já seria nome de sala (ou de lavabo) lá no Jornal de Londrina.
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Ah, agora os babacas da Fenaj querem diploma pra cartunista, ilustrador, câmera, etc. Por que que esses idiotas não mudam pra Cuba, já que lá é tão bom?
Amanhã ou depois, o Robinho se aposenta e não pode trabalhar como comentarista só porque tem algum petista no lugar dele. Alguém já imaginou se um cara como o Angeli precisa de diploma de jornalismo pra fazer charge? Talvez o alvo desses energúmenos seja o Diogo Mainardi; sem diploma em alguma merda de faculdade, nada de escrever contra o PT...
Detalhe é que o autor da emenda está na lista da CPI dos Sanguessugas.
Meu Deus, é o fim das coisas.
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(E iria deixar uma observação sobre Israel aqui, mas desisti. Do contrário, quase todos os comentários seriam sobre esse tema.)
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Ontem encontrei meu amigo Ricardo Nélson, médico de posto de saúde e notório antipetista (desde o tempo em que eu era trotskista), e ele me disse:
– Entre os candidatos ao Senado, eu só confio na Gleisi Hoffmann.
Fiquei estupetato:
– O quê? Na Gleisi Hoffmann? Do PT?
Ele confirmou:
– Isso mesmo. Eu só confio na Gleisi Hoffmann.
Fui embora sem entender. Lento que só eu, vim a sacar horas depois.
Corremos o risco de ter a primeira candidata grávida ao Senado?
Hein, hein? Entendeu, entendeu?
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Esse post está prenhe de sentido!
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Quem estava certo: Freud ou Jung? O que herdamos provém de nossos ancestrais ou de nossas vidas passadas? Para mim, não faz diferença. Tudo – genética ou reencarnação – está mergulhado no tempo. E eu nem li Jung direito, posso estar dizendo besteira. Mas lerei.
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Lá perto de Gressoney tem um monte muito alto, com neve eterna no cume. Eu vi a foto, Janaína Ávila. Vi você, vi a mulher, vi o monte, vi a neve. Sempre que olhar para aquelas neves eternas, lembre-se da minha saudade. Sou eu.
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Terminei bem emo. Hein? hein? E mais não digo porque não vou. Só amanhã (na QSL...).
Meu nome é Ninguém
July 22, 2006Para você, que volta hoje.
Meu nome é Ninguém. Moro de favor no mundo. Se os sinos dobram, não é por mim.
*****
Estou ouvindo João Sebastião nesta manhã de sábado; ontem à noite fui ao Valentino com meus amigos Jean Pafu Ribeiro e Francisca Aldunate. Lá encontramos Ester Falaschi e Fernandão Araújo. Tocava uma banda com nome de trocadilho: Relespública. Boa banda, de Curitiba – embora vocês saibam que rock não é exatamente meu ramo.
*****
Sessão DNA. O baixista da Relespública é uma mistura genética do Marquinhos Diet com o ator principal do filme do Grota (O Quinto Postulado). O baterista é uma combinação de Marcelo Domingues (do Demo Sul) com o nosso Theo Marques. O guitarrista e cantor é o irmão mais velho do Rodrigo Amadeu (ex-Cherry Bomb) – o filme que deu origem à série.
*****
No Valentino não há emos; mas no shopping os há, em abundância. É Drury’s! Campari as coisas...
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Antes de pedir um prato de macarrão à bolonhesa, Pafu diz que eu era mais convincente como trotskista do que como liberal. A explicação é simples, meu amigo. Comunistas e socialistas (em especial trotskistas) têm respostas para tudo; liberais, ao contrário, admitem a precariedade do mundo. Hoje tenho muito mais dúvidas do que certezas. E – como está pichado naquele muro em frente ao Bar Brasil – “não me invergonho disso!”
*****
Pensando bem, o Brasil, com o Barba presidente, é a verdadeira Relespública. E eu me invergonho disso.
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Converso com Ester sobre a estupidez burocrática de exigir diploma para profissões humanísticas (em especial, jornalismo). O curso que eu fiz foi uma bosta completa. Nada aprendi na faculdade, exceto bater à máquina catando milho. Como posso exigir que alguém passe por uma bosta completa para exercer a profissão que eu exerço? (A propósito, há um ótimo post da minha mais dileta amiga Janaína Ávila sobre o assunto.)
Ester pede que eu escreva sobre o assunto. Eu digo:
– Não vale a pena. Vou arranjar um monte de inimigos.
Ela responde, de bate-pronto:
– Você já arranjou.
Como sói ocorrer, Ester tem toda razão. Fiz um monte de inimigos. Mas, cristão, rezo por eles. Que me aproveita amar apenas os amigos?
*****
As besteiras que eu já falei dando palestra em faculdade de jornalismo.
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E, se eu disse que meu nome é Ninguém, é porque tenho a estranha sensação de que já fui, ou serei, mendigo. Talvez algum ancestral o tenha sido. Toda vez que vejo um mendigo, sinto o dever de tratá-lo bem, porque pode ser Deus disfarçado.
*****
O primo Álvaro me contou a terrível história de um ex-professor de Física em Araçatuba, um cara famoso e bem remunerado. O professor se perdeu na vida depois do divórcio. Teria morrido como indigente. Senti um gelo na espinha – de compaixão e medo. Quem sabe se eu não encontrei o professor na rua, algum dia, e o cumprimentei achando que era Deus disfarçado?
*****
Na verdade, Deus se disfarça de todas as coisas. E continuamos a morar de favor no mundo.
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Som na caixa, Mané: Concertos Italianos, J.S.
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E mais não digo porque não sei.
Férias
July 21, 2006
Só agora, aos 20 dias de férias, começo a me sentir longe o suficiente de qualquer sombra de enxada. Abóboras do Ceasa estão a uma distância astronômica; idem as guias da Avenida Tiradentes (que continuam esperando uma demão de tinta).
Só agora, depois de passar algumas horas da sexta-feira lendo “Stálin – A corte do czar vermelho”, de Simon Sebag Montefiore; só agora, depois de cochilar e sonhar com Molotov (tanta gente pra eu sonhar neste mundo, incluindo Catherine Zeta-Jones, e eu sonho com Viacheslav Molotov!); só agora, depois de abrir a geladeira e nela encontrar quatro latinhas geladas de Skol, e descobrir que, sim, eu posso tomá-las; só agora, portanto, eu me dou conta de que sou UM COMPLETO VAGABUNDO.
Já declarei aqui o meu verdadeiro talento. Mas, por uma dessas ironias que regem a vida, trabalho demais. Deve ser medo de que descubram minha real natureza. Se a polícia pudesse ler pensamentos, eu seria preso todos os dias – por vadiagem.
Minha primeira correção à lei trabalhista é aumentar as férias de 30 para 37 dias. Sei que é estranho ouvir isso de um liberal, mas foda-se a coerência. É que na primeira semana de férias não temos férias de verdade; são dias queimados na difícil tarefa de se desvencilhar do trabalho. Contas a pagar, trabalhos pela metade, compromissos assumidos, limpeza de casa – um milhão de pequenos deveres nos atormentam antes de entrarmos nas férias propriamente ditas. Mas vagabundagem, vagabundagem mesmo, do tipo ver Sessão da Tarde de cueca, folheando jornal de transanteontem, isso só vai acontecer lá pelo 20º dia – que vem a ser hoje. Se algum presidente diminuísse o tamanho do Estado, isso seria muito mais fácil, mas vá explicar...
Só de pensar que ontem foi Quinta Sem-Lei, na qual eu estive, na seleta companhia de Pafu, Ester, Marcelo Rocha, capitão Mantovani e outros membros do Núcleo Duro (incluindo a Juuuuuuuuuuuuuu, que conheci pessoalmente, e é legal), e agora estou aqui, vagabundeando diante do computador, eu sinto vontade de soltar fogos de artifício qual um torcedor tresloucado do XV de Jaú. Pena que o mestre Tanga não foi.
E mais não digo porque não sei. Nem quero!
Só agora, depois de passar algumas horas da sexta-feira lendo “Stálin – A corte do czar vermelho”, de Simon Sebag Montefiore; só agora, depois de cochilar e sonhar com Molotov (tanta gente pra eu sonhar neste mundo, incluindo Catherine Zeta-Jones, e eu sonho com Viacheslav Molotov!); só agora, depois de abrir a geladeira e nela encontrar quatro latinhas geladas de Skol, e descobrir que, sim, eu posso tomá-las; só agora, portanto, eu me dou conta de que sou UM COMPLETO VAGABUNDO.
Já declarei aqui o meu verdadeiro talento. Mas, por uma dessas ironias que regem a vida, trabalho demais. Deve ser medo de que descubram minha real natureza. Se a polícia pudesse ler pensamentos, eu seria preso todos os dias – por vadiagem.
Minha primeira correção à lei trabalhista é aumentar as férias de 30 para 37 dias. Sei que é estranho ouvir isso de um liberal, mas foda-se a coerência. É que na primeira semana de férias não temos férias de verdade; são dias queimados na difícil tarefa de se desvencilhar do trabalho. Contas a pagar, trabalhos pela metade, compromissos assumidos, limpeza de casa – um milhão de pequenos deveres nos atormentam antes de entrarmos nas férias propriamente ditas. Mas vagabundagem, vagabundagem mesmo, do tipo ver Sessão da Tarde de cueca, folheando jornal de transanteontem, isso só vai acontecer lá pelo 20º dia – que vem a ser hoje. Se algum presidente diminuísse o tamanho do Estado, isso seria muito mais fácil, mas vá explicar...
Só de pensar que ontem foi Quinta Sem-Lei, na qual eu estive, na seleta companhia de Pafu, Ester, Marcelo Rocha, capitão Mantovani e outros membros do Núcleo Duro (incluindo a Juuuuuuuuuuuuuu, que conheci pessoalmente, e é legal), e agora estou aqui, vagabundeando diante do computador, eu sinto vontade de soltar fogos de artifício qual um torcedor tresloucado do XV de Jaú. Pena que o mestre Tanga não foi.
E mais não digo porque não sei. Nem quero!
Recapitulação
July 14, 2006
“Parto do princípio de que o terrorismo – seja ele individual, de resistência, de estado, ou qualquer outro - é um crime hediondo e condenável sob todos os aspectos. Entrar em um ônibus lotado e matar indiscriminadamente aqueles que lá estiverem – jovens, velhos, homens, mulheres, crianças – não é e nunca será uma atitude aceitável, em qualquer circunstância. Em entrevista à imprensa israelense, o diretor do filme ”Paradise Now“, Abu-Assad, declarou: “Uma bomba humana não pode ser definida como um terrorista. É simplesmente um homem com uma bomba. Os atentados suicidas são uma reação ao terrorismo de vocês [israelenses]”.
É sempre assim! Terrorismo é sempre “o dos outros”. Quando o exército israelense ataca alvos civis e mata crianças palestinas, os linhas-duras do Estado judeu costumam usar o mesmo tipo de argumento. A questão é que esse círculo de vingança – “os outros” sempre são os injustos, os covardes, os que mereceram ser banhados em sangue – nunca tem fim.
O filme “Paradise now” não colabora em nada para pôr fim a esse círculo de violência e vingança que tem calcinado a Terra Santa. Em nenhum momento, mostra-se o lado israelense da questão; quando judeus aparecem, ou são vítimas (passageiros do ônibus a explodir) ou são vilões (soldados armados até os dentes). A personagem pacifista tenta demover os homens-bomba de seu intento suicida-homicida, mas é uma voz solitária em meio ao sofrimento e ao fanatismo.
Em resumo: esteticamente, “Paradise now” é um filme mediano. Eticamente, é questionável. Nestes tempos em que o Hamas está no poder e o Irã lança ameaças sobre o povo judeu, o filme torna-se uma peça de bizarrice, que se nega a defender o terrorismo ao mesmo tempo em que o romantiza. O que a Terra Santa precisa (e mais: o que o povo palestino precisa) não é o “Paradise now” dos terroristas, nem o “inferno agora” do belicismo, mas aquelas duas palavras do movimento organizado por judeus e palestinos que buscam uma verdadeira solução: Paz Agora.”
(Jornal de Londrina, 28 de abril de 2006)
É sempre assim! Terrorismo é sempre “o dos outros”. Quando o exército israelense ataca alvos civis e mata crianças palestinas, os linhas-duras do Estado judeu costumam usar o mesmo tipo de argumento. A questão é que esse círculo de vingança – “os outros” sempre são os injustos, os covardes, os que mereceram ser banhados em sangue – nunca tem fim.
O filme “Paradise now” não colabora em nada para pôr fim a esse círculo de violência e vingança que tem calcinado a Terra Santa. Em nenhum momento, mostra-se o lado israelense da questão; quando judeus aparecem, ou são vítimas (passageiros do ônibus a explodir) ou são vilões (soldados armados até os dentes). A personagem pacifista tenta demover os homens-bomba de seu intento suicida-homicida, mas é uma voz solitária em meio ao sofrimento e ao fanatismo.
Em resumo: esteticamente, “Paradise now” é um filme mediano. Eticamente, é questionável. Nestes tempos em que o Hamas está no poder e o Irã lança ameaças sobre o povo judeu, o filme torna-se uma peça de bizarrice, que se nega a defender o terrorismo ao mesmo tempo em que o romantiza. O que a Terra Santa precisa (e mais: o que o povo palestino precisa) não é o “Paradise now” dos terroristas, nem o “inferno agora” do belicismo, mas aquelas duas palavras do movimento organizado por judeus e palestinos que buscam uma verdadeira solução: Paz Agora.”
(Jornal de Londrina, 28 de abril de 2006)
Mapa do exílio
July 13, 2006 Uma boa QSL para todos.
Já estive em muitas cidades – em pessoa, em pensamento, em sonho, em cinema, em livro, em conversa. Mas sei que só uma existe uma cidade: aquela que me cerca.
Minha verdadeira profissão é ser o construtor desta cidade sem nome – a cidade quando penso. Se penso na Rua Humaitá, agora, a Rua Humaitá existe; ou pelo menos existe o trecho da Rua Humaitá no qual estou pensando; ou pelo menos existe o trecho da Rua Humaitá, numa noite de dezembro de 1992, sob o facho da luz amarela do poste, diante da república que depois seria demolida (mas permanece ali, para mim, com a arrogância dos corpos indestrutíveis).
Em São Paulo, quando alguém vai para o Centro, diz: “Vou para a Cidade”. O Centro é a Cidade dentro da cidade. Nunca entendi isso na infância. Agora, 30 anos depois, entendo.
Às vezes me pego descendo a rampa da garagem de um prédio na Alameda Barão de Limeira, Centro de São Paulo. Desço a rampa da garagem em direção ao subterrâneo. Só uma forma se destaca na escuridão que ganha corpo na medida em que caminho: é a maçã descascada que alguém abandonou no chão da garagem. A maçã sem casca, impassível na garagem subterrânea, vigia os arredores como se tivesse luz própria. De seu corpo branco – lembre-se que não há casca – brota uma haste escura ligeiramente caída para a esquerda.
É a minha cidade, é o meu exílio. Onde um cão late a noite inteira. Talvez seja o fantasma da mulher que caiu no poço do elevador; ou o garoto argentino atropelado no Minhocão; ou o porteiro careca e bravo, Seo Bill, que certo dia brigou com todos os garotos do prédio. Ninguém sabe com certeza quem é – só o cachorro – mas o cachorro não fala – está morto há muitos anos – há quase 10 anos. É um fantasma que late para os fantasmas. Só eu posso ouvi-lo – em minha cidade.
Certo dia – acho que eu estava com 7 anos – me perdi na loja de departamentos; fiquei chorando diante da prateleira dos Falcons. Felizmente a mãe apareceu logo. Caso não aparecesse, eu poderia me tornar um mendigo, como aquele que dormiu na jardineira do prédio, aqui em Bauru, enrolado em farrapos. Talvez seja eu mesmo caso tivesse sido abandonado para sempre na loja de departamento, diante da prateleira dos Falcons.
Aqui em Bauru – é estranho dizer isso. Hoje pensei em ter acordado nas imediações do Bar Brasil. “Já são 10 horas, estou atrasado pra Quinta Sem-Lei!” Acordei – eram 10 horas, mas da manhã, e era quinta-feira, mas muito longe do Bar Brasil.
Nos finais de tarde, faço a minha caminhada pelas imediações. Vou ao campus da Universidade – deserto nesta época de férias. Quase nenhuma alma viva: na segunda-feira, vi apenas uma freira branca e um gato preto. Cumprimentei a religiosa com um aceno protocolar – ela respondeu com simpatia e sem palavra. Segui meu caminho. Não havia nenhum som na natureza. Nas imediações do campus, duas ou três lojas vazias brilhavam como fogos fátuos. O Sol se escondia como um agente penitenciário. Em algum lugar do meu exílio, um ônibus pegava fogo.
Na Igreja do Rosário, eu pedi perdão pelos meus pecados. Era uma tarde de terça, mas parecia noite dentro no interior da igreja barroca; também parecia noite no corredor da clínica. E o médico me olhou, antes de receber o dinheiro: “Bico calado”. Saí da igreja e contemplei o cemitério vizinho, tão silencioso. Mortos tão antigos como as pedras do casario. Sim, Ouro Preto tem a sua população: no entanto, é difícil imaginar alguém morando em casas tão velhas. No hotelzinho em Paris, levanto e abro a janela para ver as plantas do caramanchão. Um pequeno rato me dá bom-dia em francês, lá fora.
Depois vou embora, ao lado do Bonfim, em direção a um bar do Bixiga. Consegue ouvir? É o meu cachorro. Consegue ouvir? É o pessoal cantando no Bar Brasil: “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!” Consegue ouvir? É o garoto argentino atropelado. É o mendigo que dormiu na jardineira. É o Seo Bill brigando com a turma. É a mulher que caiu no poço do elevador. É o menino que se perdeu da mãe diante da prateleira dos Falcons.
Só sei que vou para a Cidade.
Dia de Ação de Graças
July 12, 2006
Dou graças pelo inventor da Neosaldina, panacéia que me permite escrever agora sem dor de cabeça. A propósito: qual é o nome desse gênio esquecido por Estocolmo? Quede o Nobel de Medicina do rapaz?
Por Santos Dumont, que há 100 anos decolava com o 14 Bis, dou graças – pois só o avião pode trazer você para perto de mim.
Dou graças pela existência dos botecos de periferia – meu primo Alvinho me levou a um deles ontem, aqui em Bauru. Conheci o Bar do Boca, chefiado pelo Maurão, autêntico refúgio de caminhoneiros, no melhor sentido da palavra. Vi um cara comendo sete ovos cozidos – ele próprio enumerou – entre uma Skol e outra. Sexta-feira o bar fecha as portas por alguns dias; Maurão e seus clientes vão pescar em Corumbá, no Rio Paraguai. Pelo Bar do Boca, dou graças.
Dou graças pelo Telecurso 2000 e pelos discursos de Winston Churchill, que me ajudam nas noites de insônia. Hoje mesmo, no Telecurso, eu aprendi alguma coisa sobre a mecânica dos parafusos. Daqui a pouco vou conseguir um diploma.
Dou graças por não saber tocar mais violão direito, mas acho que vou precisar tocar mesmo assim no noivado da minha irmã. E vou ter que discursar também. Ah, não tem problema, por ela vale a pena – e dou graças.
Dou graças por Flannery O’Connor, excelente contista, católica do Sul dos EUA, vejam só que beleza o título do livro: “É difícil encontrar um homem bom”. É isso mesmo, na mosca! Dou graças.
Dou graças pela invenção da roda. Sim, a roda, o que seria de nós sem ela? Ontem, caminhando aqui pelas ruas de Bauru, vi o Sol vermelhão e redondo, prestes a se esconder, e percebi – biduzaço – a conexão entre a roda e o Sol. Este, origem de toda vida material, foi a primeira deidade, e, redondão daquele jeito, ainda inspirou a maior invenção de todos os tempos. Supimpa. Dou graças à minha própria falta de enxada!
E dou graças – por que não? – ao Tipos, estranha página que me permite monologar para o vazio.
Dou graças pela água e pelo suco. Pelo Match Point que vou ver hoje outra vez. Pela piada que é ter Paulo Ricardo como candidato a federal pelo PFL (não é mentira; tá no jornal). Dou graças pelo Tanga, pelo Rocha, e pela presença dos dois na Quinta Sem-Lei a que não poderei ir (mas estarei em pensamento; e semana que vem eu vou!).
Dou graças por nada – de graça.
Por Santos Dumont, que há 100 anos decolava com o 14 Bis, dou graças – pois só o avião pode trazer você para perto de mim.
Dou graças pela existência dos botecos de periferia – meu primo Alvinho me levou a um deles ontem, aqui em Bauru. Conheci o Bar do Boca, chefiado pelo Maurão, autêntico refúgio de caminhoneiros, no melhor sentido da palavra. Vi um cara comendo sete ovos cozidos – ele próprio enumerou – entre uma Skol e outra. Sexta-feira o bar fecha as portas por alguns dias; Maurão e seus clientes vão pescar em Corumbá, no Rio Paraguai. Pelo Bar do Boca, dou graças.
Dou graças pelo Telecurso 2000 e pelos discursos de Winston Churchill, que me ajudam nas noites de insônia. Hoje mesmo, no Telecurso, eu aprendi alguma coisa sobre a mecânica dos parafusos. Daqui a pouco vou conseguir um diploma.
Dou graças por não saber tocar mais violão direito, mas acho que vou precisar tocar mesmo assim no noivado da minha irmã. E vou ter que discursar também. Ah, não tem problema, por ela vale a pena – e dou graças.
Dou graças por Flannery O’Connor, excelente contista, católica do Sul dos EUA, vejam só que beleza o título do livro: “É difícil encontrar um homem bom”. É isso mesmo, na mosca! Dou graças.
Dou graças pela invenção da roda. Sim, a roda, o que seria de nós sem ela? Ontem, caminhando aqui pelas ruas de Bauru, vi o Sol vermelhão e redondo, prestes a se esconder, e percebi – biduzaço – a conexão entre a roda e o Sol. Este, origem de toda vida material, foi a primeira deidade, e, redondão daquele jeito, ainda inspirou a maior invenção de todos os tempos. Supimpa. Dou graças à minha própria falta de enxada!
E dou graças – por que não? – ao Tipos, estranha página que me permite monologar para o vazio.
Dou graças pela água e pelo suco. Pelo Match Point que vou ver hoje outra vez. Pela piada que é ter Paulo Ricardo como candidato a federal pelo PFL (não é mentira; tá no jornal). Dou graças pelo Tanga, pelo Rocha, e pela presença dos dois na Quinta Sem-Lei a que não poderei ir (mas estarei em pensamento; e semana que vem eu vou!).
Dou graças por nada – de graça.
Sem sombra de enxada
July 11, 2006
Um post que eu só poderia escrever durante as férias. Dedicado a:
- Syd Barrett (1946-2006), músico talentoso e patrono da FDE.
- Mestre Tanga (muitos anos de vida; que a longevidade lhe seja tão grande quanto a cabeça), detentor do copyright da marca.
*****
Há tantas coisas importantes para fazer no mundo. Mas encher uma carroceria de tora ninguém quer, né? Tampouco trabalhar na gráfica da Imprensa Oficial, levando aquelas bobinas de papel tamanho gigante. Pra carregar no muque geladeira velha, poste de cimento, piano de cauda – ah, não aparece um voluntário.
Empilhar elemento vazado no canteiro é uma atividade de grande valor – mas cadê os voluntários? Pra falar besteira no blog tem uns 15 neguinhos por dia, mas pra limpar o chão do Albatroz um dia depois do forró eu nunca vi candidato. Nem pra recolher as bitucas no Bar Brasil, depois da QSL. Lavar o banheiro do dito cujo, alguém aí se habilita?
O reino mineral oferece uma grande variedade de opções para quem necessita de trabalho. Transportar rochedo até o topo do morro, ao estilo de Sísifo, é uma delas; iniciar as escavações para uma “Viagem ao Centro da Terra” é outra; existem minas de carvão, amianto e cobre para todos os gostos. Picaretas, como se sabe, não faltam na praça; esses instrumentos podem ser usados na lida com pedras das mais variadas texturas (nenhuma delas, felizmente, mole). Quede os malandros para picaretear nesse sentido?
Da mesma forma, o reino animal proporciona excelentes razões para escapar da vadiagem. Amansar cavalo chucro, colocar guizo em gato-do-mato, pastorear ganso neurótico, adestrar rottweiller com trauma de infância – pô, como falar em desemprego se há tantas vagas disponíveis?
Virar emo, um monte de gente quer. Assinar como Senhorito Ricardinho (só pra imprexionar as meninas – ou, mais amiúde, meninos – imprexionáveis), mal se oferece já tem uns 15 neguinhos com a mão na caneta. Comprar carrão zero, azarar maria-chuteira em boate e fechar suíte presidencial em hotel cinco estrelas, até eu que sou mais bobo.
Ganhar uns trocados só pra posar de segunda atração da “Sexy”? Tiveram que distribuir senha para a multidão de garotas interessadas; é a febre do “nu artístico”. Mas pra aquele tanque cheio de roupa encardida, camiseta suja de mostarda, meia de Kichute e cueca samba canção quadriculada, eu não vi uma filha de Deus se habilitando.
Faturar cinco paus só pra fazer uma palestrinha de liderança empresarial, responsabilidade social ou como-vencer-na-vida-levando-tudo-na-flauta meio mundo quer. Só que ninguém quer pegar no trecho com a peãozada e pintar uma guia da Avenida Winston Churchill (da Tiradentes até a Rodovia, e o solzão brabo ali, ó).
Neguinho dizer que o bolsa-esmola é um importante “programa de segurança alimentar” e que permite aos pobres “um mínimo de participação na renda nacional”, eu já ouvi um monte. Agora, pra organizar no braço uma fila de postinho de saúde em época de rotavírus, ah, aí é difícil fazer uma lista, hein?
Vira-e-mexe junta uma penca de manés falando em “injustiça social”, “concentração de riqueza”, “conspiração das elites”; mas experimenta falar pra eles servirem a bóia dos presos lá no 5o Distrito. “Ah, hoje eu fiquei de terminar o relatório de marketing cultural...” “Hoje, eu não posso, fiquei em depê de introdução à metodologia...” “Tenho reunião da ONG...” “Justo hoje que tem palestra do Frei Betto?” Não sobra um, meu irmão.
Mais intocada que as vergonhas da Madre Teresa, mais abandonada que os comitês de candidato derrotados no 1o turno, mais injustiçada que a Seleção de 82 – e no entanto acessibilíssima, disponibilíssima, ao alcance do toque da mão: a enxada. Que falta ela faz!
- Syd Barrett (1946-2006), músico talentoso e patrono da FDE.
- Mestre Tanga (muitos anos de vida; que a longevidade lhe seja tão grande quanto a cabeça), detentor do copyright da marca.
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Há tantas coisas importantes para fazer no mundo. Mas encher uma carroceria de tora ninguém quer, né? Tampouco trabalhar na gráfica da Imprensa Oficial, levando aquelas bobinas de papel tamanho gigante. Pra carregar no muque geladeira velha, poste de cimento, piano de cauda – ah, não aparece um voluntário.
Empilhar elemento vazado no canteiro é uma atividade de grande valor – mas cadê os voluntários? Pra falar besteira no blog tem uns 15 neguinhos por dia, mas pra limpar o chão do Albatroz um dia depois do forró eu nunca vi candidato. Nem pra recolher as bitucas no Bar Brasil, depois da QSL. Lavar o banheiro do dito cujo, alguém aí se habilita?
O reino mineral oferece uma grande variedade de opções para quem necessita de trabalho. Transportar rochedo até o topo do morro, ao estilo de Sísifo, é uma delas; iniciar as escavações para uma “Viagem ao Centro da Terra” é outra; existem minas de carvão, amianto e cobre para todos os gostos. Picaretas, como se sabe, não faltam na praça; esses instrumentos podem ser usados na lida com pedras das mais variadas texturas (nenhuma delas, felizmente, mole). Quede os malandros para picaretear nesse sentido?
Da mesma forma, o reino animal proporciona excelentes razões para escapar da vadiagem. Amansar cavalo chucro, colocar guizo em gato-do-mato, pastorear ganso neurótico, adestrar rottweiller com trauma de infância – pô, como falar em desemprego se há tantas vagas disponíveis?
Virar emo, um monte de gente quer. Assinar como Senhorito Ricardinho (só pra imprexionar as meninas – ou, mais amiúde, meninos – imprexionáveis), mal se oferece já tem uns 15 neguinhos com a mão na caneta. Comprar carrão zero, azarar maria-chuteira em boate e fechar suíte presidencial em hotel cinco estrelas, até eu que sou mais bobo.
Ganhar uns trocados só pra posar de segunda atração da “Sexy”? Tiveram que distribuir senha para a multidão de garotas interessadas; é a febre do “nu artístico”. Mas pra aquele tanque cheio de roupa encardida, camiseta suja de mostarda, meia de Kichute e cueca samba canção quadriculada, eu não vi uma filha de Deus se habilitando.
Faturar cinco paus só pra fazer uma palestrinha de liderança empresarial, responsabilidade social ou como-vencer-na-vida-levando-tudo-na-flauta meio mundo quer. Só que ninguém quer pegar no trecho com a peãozada e pintar uma guia da Avenida Winston Churchill (da Tiradentes até a Rodovia, e o solzão brabo ali, ó).
Neguinho dizer que o bolsa-esmola é um importante “programa de segurança alimentar” e que permite aos pobres “um mínimo de participação na renda nacional”, eu já ouvi um monte. Agora, pra organizar no braço uma fila de postinho de saúde em época de rotavírus, ah, aí é difícil fazer uma lista, hein?
Vira-e-mexe junta uma penca de manés falando em “injustiça social”, “concentração de riqueza”, “conspiração das elites”; mas experimenta falar pra eles servirem a bóia dos presos lá no 5o Distrito. “Ah, hoje eu fiquei de terminar o relatório de marketing cultural...” “Hoje, eu não posso, fiquei em depê de introdução à metodologia...” “Tenho reunião da ONG...” “Justo hoje que tem palestra do Frei Betto?” Não sobra um, meu irmão.
Mais intocada que as vergonhas da Madre Teresa, mais abandonada que os comitês de candidato derrotados no 1o turno, mais injustiçada que a Seleção de 82 – e no entanto acessibilíssima, disponibilíssima, ao alcance do toque da mão: a enxada. Que falta ela faz!
1970
July 10, 2006
Nasci em 1970, número redondo. Graças a Deus: fraco de contas, nunca tive muita dificuldade para calcular minha própria idade. Resolvi dar as caras poucos dias depois da conquista do tricampeonato por Pelé, Tostão & cia.
Era tempo de Médici no poder; milagre econômico; tortura e terrorismo; Nixon, Brejnev, fim dos Beatles. O sonho acabou; eu comecei.
Vim ao mundo de cesariana, no Hospital São Camilo, bairro da Pompéia, São Paulo. Sempre tive tudo – carinho, amizade, educação, casa, comida, roupa lavada, brinquedos, cadernos e livros. Mas também tive medo – muito medo.
No dia em que nasci, meu pai foi sorteado no consórcio. Fui para casa num Fusca 0 km, cor de vinho.
Meu Deus, 1970 me parece tão remoto. Sem dúvida, é um ano do século passado. Descubro, alarmado, que 1970 é o último dos anos 60; portanto, apesar de ter 36 anos, eu já vivi cinco décadas. As armadilhas do calendário.
O fato de ter nascido em 1970 me faz duvidar que alguma pessoa possa ter nascido em 1985 – por exemplo, a cantora britânica que foi capa da Ilustrada de hoje. É muito difícil para mim acreditar na existência de pessoas nascidas pós-1980, principalmente se elas já conseguirem andar, falar, pegar táxi, trabalhar, fazer sexo, etc. Na verdade, vocês que se dizem nascidos na década de 80 devem ter falsificado documento. Isso é crime, sabiam?
Em 1970, Kerenski, o primeiro-ministro deposto pelos bolcheviques, ainda vivia no exílio (morreu só no ano seguinte). Em 1970, Caetano Veloso já era chato. Em 1970, Syd Barrett já tinha saído do Pink Floyd. Em 1970, fazia 220 anos que o João Sebastião tinha ido para a cidade dos pés-juntos (mas, felizmente, nunca mais ficou quieto). Em 1970, 2001 parecia um ano longínquo, uma Odisséia no Espaço. Em 1970, se um cara como eu saísse dizendo que era liberal, só levaria bordoada (mas não é isso que acontece até hoje?). Em 1970, eu morava na Alameda Barão de Limeira, a 400 metros da Folha de S. Paulo, a 600 metros do Edifício Andraus (que pegaria fogo), no apartamento número 11, em cima de uma lavanderia. Me lembro de uma ratazana morta pelo zelador – aquele olhar do fundo da morte.
Em 1970, o grego que era nosso vizinho deu um golpe na praça e fugiu de madrugada, levando toda a família, menos a cachorrinha Laika, que ficou chorando na frente do apartamento vazio. Em 1970, Pol Pot era um simples estudante universitário em Paris. Um cara que tinha a idade do Vidal em 1970 hoje tem... 60 anos de idade!
Em 1970, você ainda não havia nascido, mulher. Mas eu sabia que alguma coisa muito importante estava para acontecer.
E mais não digo porque já são três dúzias...
Som na caixa, Mané: Qualquer João Sebastião tá valendo!
Era tempo de Médici no poder; milagre econômico; tortura e terrorismo; Nixon, Brejnev, fim dos Beatles. O sonho acabou; eu comecei.
Vim ao mundo de cesariana, no Hospital São Camilo, bairro da Pompéia, São Paulo. Sempre tive tudo – carinho, amizade, educação, casa, comida, roupa lavada, brinquedos, cadernos e livros. Mas também tive medo – muito medo.
No dia em que nasci, meu pai foi sorteado no consórcio. Fui para casa num Fusca 0 km, cor de vinho.
Meu Deus, 1970 me parece tão remoto. Sem dúvida, é um ano do século passado. Descubro, alarmado, que 1970 é o último dos anos 60; portanto, apesar de ter 36 anos, eu já vivi cinco décadas. As armadilhas do calendário.
O fato de ter nascido em 1970 me faz duvidar que alguma pessoa possa ter nascido em 1985 – por exemplo, a cantora britânica que foi capa da Ilustrada de hoje. É muito difícil para mim acreditar na existência de pessoas nascidas pós-1980, principalmente se elas já conseguirem andar, falar, pegar táxi, trabalhar, fazer sexo, etc. Na verdade, vocês que se dizem nascidos na década de 80 devem ter falsificado documento. Isso é crime, sabiam?
Em 1970, Kerenski, o primeiro-ministro deposto pelos bolcheviques, ainda vivia no exílio (morreu só no ano seguinte). Em 1970, Caetano Veloso já era chato. Em 1970, Syd Barrett já tinha saído do Pink Floyd. Em 1970, fazia 220 anos que o João Sebastião tinha ido para a cidade dos pés-juntos (mas, felizmente, nunca mais ficou quieto). Em 1970, 2001 parecia um ano longínquo, uma Odisséia no Espaço. Em 1970, se um cara como eu saísse dizendo que era liberal, só levaria bordoada (mas não é isso que acontece até hoje?). Em 1970, eu morava na Alameda Barão de Limeira, a 400 metros da Folha de S. Paulo, a 600 metros do Edifício Andraus (que pegaria fogo), no apartamento número 11, em cima de uma lavanderia. Me lembro de uma ratazana morta pelo zelador – aquele olhar do fundo da morte.
Em 1970, o grego que era nosso vizinho deu um golpe na praça e fugiu de madrugada, levando toda a família, menos a cachorrinha Laika, que ficou chorando na frente do apartamento vazio. Em 1970, Pol Pot era um simples estudante universitário em Paris. Um cara que tinha a idade do Vidal em 1970 hoje tem... 60 anos de idade!
Em 1970, você ainda não havia nascido, mulher. Mas eu sabia que alguma coisa muito importante estava para acontecer.
E mais não digo porque já são três dúzias...
Som na caixa, Mané: Qualquer João Sebastião tá valendo!
Voxê tá trixte, emo? Não fique trixte!
July 06, 2006
O Chefe tenha pena de nós, meus amigos. A onda emo já é uma pandemia. À semelhança das pombas e dos malabaristas de semáforo, os emos se tornaram onipresentes, com sua compulsão por transformar toda e qualquer consoante em letra x (eles só não usam x quando o x deve ser usado).
Aqui no Tipos, apareceu até neguinho perguntando idade, estado da federação e sei-lá-o-que-mais para garotinhos emo. Carregar abóbora no Ceasa ninguém quer, né?
*****
Mais alarmante é perceber que os emos granjeiam adeptos até mesmo entre as gerações, hum, mais maduras.
Não foi sem algum espanto que concluí: Sergio Mallandro, ele mesmo, é um emo por excelência.
Nunca perceberam a sensibilidade do rapaz? Nunca notaram a grande sutileza retórica do apresentador, digna de um Padre Vieira? Nunca se comoveram com suas palavras repletas de sabedoria?
– Voxê tá triste? Não fique trixte! Vem fajer glu-glu! Dá um abraxo no xeu papai, dá um beijinho na xua mamãe? Glu-glu!
Mallandro é um grão-emo, um xuper-emo, um verdadeiro profeta dos garotinhos de franja caída.
*****
Ainda no âmbito televisivo, há o Kiko. Emo bagarai! Tem todas as características necessárias para pertencer ao movimento: é chato, é feio, é mimado, é chorão; tem uma inteligência pouco privilegiada; e, de quebra, ostenta aquelas bochechas ridículas (oriundas de um problema muscular, segundo o site do Chaves no Brasil).
*****
Como já foi assinalado pelo Visconde Vidal – homem cuja sabedoria é inversamente proporcional ao peso –, Roberto Carlos é um emo avant-la-lettre. Basta pegar um LP antigos do Rei para comprovar. Ou ninguém havia percebido a pronúncia de um de seus maiores sucessos?
Quando eu extou aqui
Eu vivo exe momento lindo
Não por acaso, o nome da música é “Emo-xões”. Hã, hã? Hein, hein? Entenderam, entenderam?
*****
Mas, antes mesmo do Rei, Jorge Ben (depois numerologado para Benjor) cantava:
Por causa de voxê
Bate em meu peito
Baixinho quaje calado
Coração apaixonado por voxê
Menina, menina
Que não xabe quem eu xou
Menina, menina
Que não conhexe o meu amor
Para quantas garotas eu já não toquei exa mújica, antes que qualquer eminho aê tivesse pensado em vir ao mundo? (E não venha fazendo essa cara de que não tem nada a ver com isso, Ranulfíssimo Pedro, porque você também tocava...)
Meu paxado me condena.
*****
Lamento dizer, meus caros fãs de super-heróis, mas uma recente adesão ao movimento veio por parte dos mutantes.
Os X-Men – e o próprio nome do grupo não nega – endossaram o manifesto emotivo.
A apostasia foi encabeçada por Charles Xavier (o careca nunca me enganou), que doravante assinará Xarles Xavier.
Xi! Fexou o tempo! É brincadeira, Cláudio Yuge!
*****
Por fim, há um emo que surgiu nos últimos tempos, causando grande desconforto. Trata-se do emo... rróida!

*****
E mais não digo porque depois tem mais. Isso é porque estou sóbrio; imagine na Quinta Sem-Lei, lá pela meia-noite e cacetada.
*****
Som na caixa, Mané: Por causa de voxê, com Jorge Ben, é claro. (Pra você ficar com a música na cabeça, Janaína Ávila!)
Senhora da Boa-Morte
July 06, 2006
Se acordei – e acordei –, a primeira conclusão lógica é a de que não morri durante o sono. No entanto, isso é tudo que eu peço ao Controlador das Coisas, quando chegar a Hora: levar-me durante a madrugada, na fase REM. Não importa onde eu esteja dormindo; pode ser na cama, no sofá, na sala, no balcão do Bar Brasil, na mesa de alguma festa ruidosa, no chão da sala dos anfitriões Balarotti. Não quero encarar a morte a seco, “olhos nos olhos, quero ver o que você faz/ ao sentir que sem você eu passo bem demais...” Chico Buarque nessa Hora, não.
Quero morte sem dor, sem espasmos, sem estertores, sem a malfadada melhora-antes-da-morte, sem dar trabalho às enfermeiras. É pedir demais? É, mas eu peço.
Outro dia fui ao Valentino ver o filme do Grota – onde apareço por 3,6 segundos, mas só se você olhar bem –, e um cara teve um ataque epilético, ou coisa parecida, na fila de entrada do bar. É um negócio impressionante: foi a segunda vez que presenciei um ataque desse tipo. Por sorte, havia um médico ali; quando a ambulância chegou, o cara já estava consciente (o paciente, o paciente).
Alguém achou que, no filme do Grota, os dois protagonistas estão mortos. Talvez todos estejam – inclusive o meu personagem de 3,6 segundos. Talvez a história da minha morte – que, espero, ainda levará muito tempo para ser vivida, quanto mais contada – venha a ter a duração de 3,6 segundos, tempo suficiente para o clássico filminho autobiográfico. Curta metragem: curtíssima.
E alguém virá, com uma voz de estranha, personagem fora do enredo do meu sonho, dizendo em voz muito suave:
– Vamos... Está na hora.
Será ela: Nossa Senhora da Boa-Morte, por quem tanto rezo.
*****
E hoje, é claro, Quinta Sem-Lei. No meu caso, sem ter que trabalhar amanhã! Daqui a pouco farei meu telefonema para os mestres Tanga e Rocha.
*****
Som na caixa, Mané: Desculpem a obviedade, mas o Réquiem do Mozart. Tudo bem, pode ser o do Brahms... Ou da Skol... (Fraquíssima...)
Quero morte sem dor, sem espasmos, sem estertores, sem a malfadada melhora-antes-da-morte, sem dar trabalho às enfermeiras. É pedir demais? É, mas eu peço.
Outro dia fui ao Valentino ver o filme do Grota – onde apareço por 3,6 segundos, mas só se você olhar bem –, e um cara teve um ataque epilético, ou coisa parecida, na fila de entrada do bar. É um negócio impressionante: foi a segunda vez que presenciei um ataque desse tipo. Por sorte, havia um médico ali; quando a ambulância chegou, o cara já estava consciente (o paciente, o paciente).
Alguém achou que, no filme do Grota, os dois protagonistas estão mortos. Talvez todos estejam – inclusive o meu personagem de 3,6 segundos. Talvez a história da minha morte – que, espero, ainda levará muito tempo para ser vivida, quanto mais contada – venha a ter a duração de 3,6 segundos, tempo suficiente para o clássico filminho autobiográfico. Curta metragem: curtíssima.
E alguém virá, com uma voz de estranha, personagem fora do enredo do meu sonho, dizendo em voz muito suave:
– Vamos... Está na hora.
Será ela: Nossa Senhora da Boa-Morte, por quem tanto rezo.
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E hoje, é claro, Quinta Sem-Lei. No meu caso, sem ter que trabalhar amanhã! Daqui a pouco farei meu telefonema para os mestres Tanga e Rocha.
*****
Som na caixa, Mané: Desculpem a obviedade, mas o Réquiem do Mozart. Tudo bem, pode ser o do Brahms... Ou da Skol... (Fraquíssima...)
Prometida carta para Janaína Ávila
July 04, 2006
Ó amiga, melhor entre as melhores:
Descendo a Higienópolis, a velha angústia. Lembrei-me de Camões:
O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar(...)
Farei 36 anos daqui a menos de uma semana. Tenho três dúzias de aniversários e três pílulas que tomo todos os dias: uma azul, uma clara, uma escura. Não sou muito versado no assunto, mas, em Matrix, a pílula azul era a do esquecimento, não era? Pois eu tomo essa pílula todos os dias, no café da manhã, e continuo me lembrando de tudo.
*****
Converso com o taxista, garoto de 21 anos; ele me diz que a mulher está grávida de seis meses. “Não foi programado, mas tudo bem.” Eu digo a ele que é impossível fazer planos para tudo. Quem pensa não casa, nem tem filhos, nem muda de país. (Nesse momento, lembro que você casou, minha amiga, e mudou de país.)
O rapaz concorda. É o momento de eu parar de falar besteira - uma espécie de senha divina. Mas, não.
Falta de enxada como só eu consigo ser (trabalhar limpando capacete no Mototáxi Batalha ninguém quer, né? Empreguinho na Visatec nem passa perto, né?), comento ainda que a vida é “o ensaio que já vale como peça” (pseudaço, roubei isso de Milan Kundera; uso sempre; e você continua com o meu livro, Marcelo Rocha, seeeeeiiiim-vergonha!).
Não contente, solto outro chavão:
– Se tudo corresse conforme o planejado, a vida não teria graça.
Bravo, bravíssimo! Palmas para Briguet, O Leviano. Adoro chavões. Chavão, como já diziam Itamar Assumpção e Guará, abre porta grande. E essa graça que a vida tem é exatamente a graça bíblica, aquela que significa “mais vida”. Nosso ponto de contato com o Pai Jacó (aquele que lutou com o Anjo, não o do jornal O Berro).
É assim que eu sempre penso em você, minha amiga Janaína: ao pensar em você, eu sei que preciso de mais vida.
*****
Pus a mão no telefone para te ligar, minha amiga, mas achei melhor escrever estas palavras aqui mesmo. Viciei-me em fazer declarações de amor públicas (como já notou aquela-que-você-e-a-torcida-do-Corinthians-sabem-quem-é, que por sinal esta aí na península itálica). As minhas mal-digitadas sempre são mais fortes. 'pesar disso, amanhã voltarei a ler minhas crônicas na rádio (o PT saiu do pedaço), mas escritas elas continuam bem melhores. Embora longe do aceitável...
*****
E já que estamos no terreno da falta de enxada (hein, hein?) outros versos, agora de Drummond:
As guerras, as fomes, as discussões entre os edifícios
Provam apenas que a vida prossegue
E nem todos se libertaram ainda.
Esses debates aqui no blog sobre Lula, Alckmin, Belinati, Parreira, Zagallo, Cristovam Buarque, Heloísa Helena e outras figuras funéreas – nada disso tem importância. Nada vai mudar minha vida em um centímetro – e aposto que não mude a vida de ninguém. Política é um negócio absolutamente inútil. Futebol é passatempo, simulação de guerra. O importante é saber como estão meus amigos, como está você, como está Andrea, como está o Theo (filho do Zé e da Carla, que nasceu agora), como está a mulher que eu amo.
*****
Minha irmã está noiva de um japonês, sabia? Um cara muito legal. Vão se casar em janeiro, numa cerimônia budista. Chique no úrtimo. Meus pais se mudaram para aquela cidade com nome de sanduíche... Hambúrguer... Não... Hot Dog... Não... X-Salada... Não... X-Bagunça... Não. Bauru – isso! Meus pais se mudaram para Bauru. Eu vou para lá na Sexta Neosaldina.
*****
Faço essa piadinha infame de lanches porque acabo de interromper a redação desta carta: chegou meu filé mignon light do Gato Ke Ry. (Sempre achei ótimo esse nome, principalmente a grafia. Gato Ke Ry! Do verbo ryr!)
Certa vez, comentei com o Galão (sumido, exceto em alguns comentários cannéticos) que uma libertação pessoal importante para mim tinha sido receber o entregador de lanches de cueca. Nenhuma conotação sexual, é claro (não vou virar viado logo com o entregador de lanches...). Mas hoje não fiz isso, por dois motivos: está meio frio e a porta externa anda com um problema – tive que descer a escada (a síndica me taca uma multa se eu sair de cueca no prédio).
*****
É, Janaína Ávila. Brutais diferenças de classe nos separam (o cara pode deixar o marxismo, mas o marxismo não deixa o cara). Sobre mim, o fantasma do subdesenvolvimento (que sou eu mesmo, um caipira suíço, segundo o James. Meu codinome, já adotado, é Jung Jeca Tatu). Você aí morando na cidade onde foi inventada a pizza margherita e eu aqui falando de filé mignon light do Gato Ke Ry! Classe é classe. Crasse é crasse. (E crase é crase, complementaria mestre Tanga. Péssima, admito.)
*****
Noto que ainda nós, brasileiros do Brasil, temos que conviver por alguns dias (talvez semanas) com os escombros publicitários da Copa do Mundo. A cerveja que eu acabo de abrir tem frisos verde-amarelos. Que só servem para deprimir, mas fazer o quê?Agradeça ao Andrea pela solidariedade prestada no pífio jogo com a França e aproveite para cumprimentá-lo pela classificação da Azzurra à final. (Confesso que nem vi o jogo. Já tive a minha cota de COPA!)
*****
Espero que você ainda ouça meu João Sebastião, de vez em quando, principalmente de manhã.
*****
Viu só? Enrolei tanto para te escrever e no final não era nada naquilo. Mas a saudade é bem grande. Sinto sua falta sempre. Você é o meu dream team de uma mulher só. Com a diferença que você funciona, mesmo na Europa – e o do Parreira, não.
Beijos.
Som na caixa, Mané: Cantata BWV 57, de João Sebastião (BWV 57... isso parece nome de carro... Mas não é, acredite... Ô se não é...)
Descendo a Higienópolis, a velha angústia. Lembrei-me de Camões:
O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar(...)
Farei 36 anos daqui a menos de uma semana. Tenho três dúzias de aniversários e três pílulas que tomo todos os dias: uma azul, uma clara, uma escura. Não sou muito versado no assunto, mas, em Matrix, a pílula azul era a do esquecimento, não era? Pois eu tomo essa pílula todos os dias, no café da manhã, e continuo me lembrando de tudo.
*****
Converso com o taxista, garoto de 21 anos; ele me diz que a mulher está grávida de seis meses. “Não foi programado, mas tudo bem.” Eu digo a ele que é impossível fazer planos para tudo. Quem pensa não casa, nem tem filhos, nem muda de país. (Nesse momento, lembro que você casou, minha amiga, e mudou de país.)
O rapaz concorda. É o momento de eu parar de falar besteira - uma espécie de senha divina. Mas, não.
Falta de enxada como só eu consigo ser (trabalhar limpando capacete no Mototáxi Batalha ninguém quer, né? Empreguinho na Visatec nem passa perto, né?), comento ainda que a vida é “o ensaio que já vale como peça” (pseudaço, roubei isso de Milan Kundera; uso sempre; e você continua com o meu livro, Marcelo Rocha, seeeeeiiiim-vergonha!).
Não contente, solto outro chavão:
– Se tudo corresse conforme o planejado, a vida não teria graça.
Bravo, bravíssimo! Palmas para Briguet, O Leviano. Adoro chavões. Chavão, como já diziam Itamar Assumpção e Guará, abre porta grande. E essa graça que a vida tem é exatamente a graça bíblica, aquela que significa “mais vida”. Nosso ponto de contato com o Pai Jacó (aquele que lutou com o Anjo, não o do jornal O Berro).
É assim que eu sempre penso em você, minha amiga Janaína: ao pensar em você, eu sei que preciso de mais vida.
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Pus a mão no telefone para te ligar, minha amiga, mas achei melhor escrever estas palavras aqui mesmo. Viciei-me em fazer declarações de amor públicas (como já notou aquela-que-você-e-a-torcida-do-Corinthians-sabem-quem-é, que por sinal esta aí na península itálica). As minhas mal-digitadas sempre são mais fortes. 'pesar disso, amanhã voltarei a ler minhas crônicas na rádio (o PT saiu do pedaço), mas escritas elas continuam bem melhores. Embora longe do aceitável...
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E já que estamos no terreno da falta de enxada (hein, hein?) outros versos, agora de Drummond:
As guerras, as fomes, as discussões entre os edifícios
Provam apenas que a vida prossegue
E nem todos se libertaram ainda.
Esses debates aqui no blog sobre Lula, Alckmin, Belinati, Parreira, Zagallo, Cristovam Buarque, Heloísa Helena e outras figuras funéreas – nada disso tem importância. Nada vai mudar minha vida em um centímetro – e aposto que não mude a vida de ninguém. Política é um negócio absolutamente inútil. Futebol é passatempo, simulação de guerra. O importante é saber como estão meus amigos, como está você, como está Andrea, como está o Theo (filho do Zé e da Carla, que nasceu agora), como está a mulher que eu amo.
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Minha irmã está noiva de um japonês, sabia? Um cara muito legal. Vão se casar em janeiro, numa cerimônia budista. Chique no úrtimo. Meus pais se mudaram para aquela cidade com nome de sanduíche... Hambúrguer... Não... Hot Dog... Não... X-Salada... Não... X-Bagunça... Não. Bauru – isso! Meus pais se mudaram para Bauru. Eu vou para lá na Sexta Neosaldina.
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Faço essa piadinha infame de lanches porque acabo de interromper a redação desta carta: chegou meu filé mignon light do Gato Ke Ry. (Sempre achei ótimo esse nome, principalmente a grafia. Gato Ke Ry! Do verbo ryr!)
Certa vez, comentei com o Galão (sumido, exceto em alguns comentários cannéticos) que uma libertação pessoal importante para mim tinha sido receber o entregador de lanches de cueca. Nenhuma conotação sexual, é claro (não vou virar viado logo com o entregador de lanches...). Mas hoje não fiz isso, por dois motivos: está meio frio e a porta externa anda com um problema – tive que descer a escada (a síndica me taca uma multa se eu sair de cueca no prédio).
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É, Janaína Ávila. Brutais diferenças de classe nos separam (o cara pode deixar o marxismo, mas o marxismo não deixa o cara). Sobre mim, o fantasma do subdesenvolvimento (que sou eu mesmo, um caipira suíço, segundo o James. Meu codinome, já adotado, é Jung Jeca Tatu). Você aí morando na cidade onde foi inventada a pizza margherita e eu aqui falando de filé mignon light do Gato Ke Ry! Classe é classe. Crasse é crasse. (E crase é crase, complementaria mestre Tanga. Péssima, admito.)
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Noto que ainda nós, brasileiros do Brasil, temos que conviver por alguns dias (talvez semanas) com os escombros publicitários da Copa do Mundo. A cerveja que eu acabo de abrir tem frisos verde-amarelos. Que só servem para deprimir, mas fazer o quê?Agradeça ao Andrea pela solidariedade prestada no pífio jogo com a França e aproveite para cumprimentá-lo pela classificação da Azzurra à final. (Confesso que nem vi o jogo. Já tive a minha cota de COPA!)
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Espero que você ainda ouça meu João Sebastião, de vez em quando, principalmente de manhã.
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Viu só? Enrolei tanto para te escrever e no final não era nada naquilo. Mas a saudade é bem grande. Sinto sua falta sempre. Você é o meu dream team de uma mulher só. Com a diferença que você funciona, mesmo na Europa – e o do Parreira, não.
Beijos.
Som na caixa, Mané: Cantata BWV 57, de João Sebastião (BWV 57... isso parece nome de carro... Mas não é, acredite... Ô se não é...)
Notas de um leviano
July 04, 2006Dia desses, o caríssimo James Cimino, codinome Margo, sobrenome de cineasta, disse que eu era “leviano” por ter escrito que “Lula belinatiza o Brasil”.
A argumentação de James, rapaz esperto, é interessante. Ele diz que um morador de Londrina, como eu, não pode conhecer o verdadeiro Brasil. Segundo James, eu e outros opositores do mensalão e do mensalinho (bolsa-esmola) vivemos na Suíça.
Depois, o mesmo James vem dizer que nos cinco anos passados em Londrina só conheceu caipiras. Que por aqui não viu “gente”. Aí pó pará, James. Ou bem sou suíço, ou bem eu sou caipira. Por mais que me esforce, não consigo imaginar um Jung Jeca Tatu. Na hora de xingar, vá em frente, fique à vontade. Mas escolha o xingamento. Um abraço, a amizade continua a mesma e toda aquela viadagem.
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Gostei de Jung Jeca Tatu. A partir de agora, só participo de abaixo-assinados com esse nome.
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O problema é que Lula e Belinati, para se perpetuarem no país, sempre usaram a mesma argumentação contra seus opositores: “Vocês não conhecem o verdadeiro Brasil”.
Eu posso dizer, mui modestamente, que conheço sim. Não é para me gambar, não, como diria Lula (perceberam a alusão à França, hein, hein?), mas fui repórter de cidade, repórter de rádio, assessor sindical, sindicalista, militante (trotskista, mas fui). Me fodi às pampas; perdi dinheiro, emprego, chances de melhorar de vida. Perdi sobretudo tempo. Conheço ratazanas à luz do dia, cafezinhos ultra-adocicados em favela, reunião de bairro, assentamento de sem-terra, exumação de cadáver, cartilha de assistência social, reunião do PT, sanduíche de mortadela, Câmara de Vereadores, rebelião em cadeia, panfletagem no Calçadão, greve, congresso da CUT, Janene, pancadaria da polícia, operário de prefeitura, traficante, hospital público, postinho de saúde, boteco sujo, time de futebol de periferia. Conheço – e posso garantir que é tudo uma bela merda. A única forma de mudar essa história é diminuir o tamanho do Estado, acabar com o paternalismo do governo, combater o voto de cabresto do Lulinati, permitir que a iniciativa privada se desenvolva, reduzir a cascata de impostos... enfim, aplicar a receita liberal. É uma receita ideal? Não é. Mas, como diria Churchill, todas as outras são piores.
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Leviano é uma palavra bem forte. Segundo o Aurélio, designa aquele “que julga ou procede irrefletidamente; precipitado, inconsiderado, imprudente; sem seriedade; inconstante”.
Nossa, acho que vou adotar esse adjetivo como epíteto. Não houve Carlos, o Chacal? Pedro, o Grande? Pepino, o Breve? Pois aí vai: Briguet, o Leviano! Combina bem, não acham?
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Vejo, pela primeira vez, “Memória do Subdsenvolvimento”, do cineasta cubano Tomás Gutiérrez Alea. O filme se passa na Cuba dos primeiros anos pós-revolução. O ditador Fidel Castro ainda de barba preta.
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Concordo com o mestre Paulo Francis: “Memórias do Subdesenvolvimento” é o filme que nenhum cineasta brasileiro conseguiu fazer. Conta a história de Sergio, um escritor que resolve ficar sozinho em Cuba enquanto a família e os amigos migram para Miami. Fica para ver no que vai dar aquilo tudo. Deu merda, como sabemos, mas ele fica.
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Gostei particularmente da cena em que Sergio, observando seus conterrâneos, diz que um dos sintomas do subdesenvolvimento é a incapacidade de relacionar as coisas. Cabefamente – porque o personagem é um cara bem cabefa –, ele cita Ortega y Gasset: “Tudo é alteração”.
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No subdesenvolvimento, tudo se decompõe, nada persiste. Um trabalho de amparo social vira bolsa-esmola. Fulgencio Batista vira Fidel Castro. A pobreza gerada pelo êxodo rural do café abre campo fértil para a ação de demagogos como Belinati (e seus epígonos; quase todos os políticos norte-paranaenses, incluindo o atual prefeito de Londrina, são epígonos de Belinati; cresceram em torno dele, inspirados por ele, por causa dele; temo que Lula faça isso com o Brasil; já fez).
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Entendo, portanto, a confusão de ser chamado simultaneamente de caipira e suíço. Não é culpa do James, não, que é um rapaz espirituoso, gosta de polêmica; é sintoma do subdesenvolvimento no qual estamos todos mergulhados... 40 anos depois do filme de Alea!
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A única coisa chata no filme de Alea – e não é culpa dele, que morreu em 1996 – é um extra com comentários do Walter Salles, Eduardo Coutinho e Nelson Pereira dos Santos. Quando Salles começou a falar de “matéria fílmica”, sinceramente, eu fui tomar um chá de boldo. Que mané matéria fílmica, rapaz! Vai carpir uma data! Vá procurar um emprego na Visatec! Vá filmar “Diários da Motocicleta” com o pessoal do Mototáxi Batalha! Vá gastar o dinheiro da família com Bala Chita!
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Há muitos anos, um economista (acho que o Edmar Bacha – essa frase ficou meio concretista: acho que o Edmar Bacha) criou a teoria da Belíndia. Dizia que no Brasil conviviam dois países antagônicos: a Bélgica e a Índia. Fazia (faz) sentido. Mas, para acabar com a Belíndia, é preciso eliminar um outro país xifópago: a Ingana. Um país com a severidade tributária da Inglaterra e os serviços públicos de Gana. Ingana é uma criação, se não me engano, de outro economista, Eduardo Giannetti, um cara que eu escolheria para ministro da Fazenda sem pestanejar. Além de bom liberal, excelente escritor. Sem eliminar Ingana, jamais nos livraremos da Belíndia. O resto – para usar o título de um livro de Giannetti – é “Auto-engano”.
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Recebo um e-mail que é a síntese da ingenuidade brasileira (outro sintoma do subdesenvolvimento). No espírito da eterna teoria da conspiração, diz a mensagem que a Copa de 98 foi “comprada”. Só me explica uma coisinha: como é que se pode comprar alguém que receberia infinitamente mais se viesse a vitória?
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De férias, eu escrevo demais. Janaína Ávila pode perguntar: por que não escreve pra mim? Porque para você é mais difícil, minha amiga.
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E mais não digo porque esse post tá longo bagarai. Prometo não falar mais de política por uns seis meses.
Tudo bem: pelo menos tem o ZORRA TOTAL!
July 01, 2006
Amaríssima decepção. Pior que a de 1990, porque na ocasião o time era uma droga. Nunca vi uma equipe mais apática em campo, exceto na final de 1998, mas daquela vez havia a desculpa do piripaque do Ronaldo.
Em 1982, eu tinha 12 anos, e chorei muito quando o Brasil foi desclassificado. Em 86, contra a mesma França, fiquei triste. Mas foram partidas em que o Brasil jogou bem, deu o sangue, lutou até o fim.
Triste é um time em que o maior destaque é um zagueiro, o Lúcio. Esse Ronaldinho Gaúcho mostrou-se um ótimo garoto-propaganda de celular, refrigerante, desodorante. Pífio. Kaká? Sem comentários. É o pipoqueiro mais infame que já vi num gramado. Parreira é um merda absoluto por não ter colocado Robinho em campo ao menos no intervalo. A vitória de Parreira em 1994 não teve graça nenhuma; ele é igualmente medíocre, na vitória ou na derrota.
A COPA! virou piada de mau gosto. O negócio agora é torcer para alguém que tem sangue nas veias: Filipão. Esse honra a camisa que veste.
*****
E o que me deixa deprimido é ver, minutos depois da vergonha que o Brasil passou em campo, aqueles energúmenos do Olodum ainda querendo fazer batucada e festa lá em Salvador. Eles são um caso para entrar na literatura médica: pessoas destituídas de sistema nervoso central. É gente assim que vai reeleger o Lula. Devem ter recebido o bolsa-esmola, esses inúteis.
*****
A certa hora, quando já estava 1 x 0 pra França, o Galvão Bueno disse:
– E logo mais, à noite, acompanhe o humor de Zorra Total!
Eu fiquei imaginando se algum ser humano, por mais descerebrado que seja, pensou naquele momento:
– Poxa vida, hoje tem Zorra Total! Acabaram os meus problemas. Não posso perder esse programa. É super-engraçado!
*****
O pior de tudo, mas o pior de tudo mesmo, foi ter que concordar com o malíssima do Faustão:
– Ô loco, já pensou se a gente se classifica e depois perde pra Portugal? Imagina a gozação do português da padaria...
Em 1982, eu tinha 12 anos, e chorei muito quando o Brasil foi desclassificado. Em 86, contra a mesma França, fiquei triste. Mas foram partidas em que o Brasil jogou bem, deu o sangue, lutou até o fim.
Triste é um time em que o maior destaque é um zagueiro, o Lúcio. Esse Ronaldinho Gaúcho mostrou-se um ótimo garoto-propaganda de celular, refrigerante, desodorante. Pífio. Kaká? Sem comentários. É o pipoqueiro mais infame que já vi num gramado. Parreira é um merda absoluto por não ter colocado Robinho em campo ao menos no intervalo. A vitória de Parreira em 1994 não teve graça nenhuma; ele é igualmente medíocre, na vitória ou na derrota.
A COPA! virou piada de mau gosto. O negócio agora é torcer para alguém que tem sangue nas veias: Filipão. Esse honra a camisa que veste.
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E o que me deixa deprimido é ver, minutos depois da vergonha que o Brasil passou em campo, aqueles energúmenos do Olodum ainda querendo fazer batucada e festa lá em Salvador. Eles são um caso para entrar na literatura médica: pessoas destituídas de sistema nervoso central. É gente assim que vai reeleger o Lula. Devem ter recebido o bolsa-esmola, esses inúteis.
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A certa hora, quando já estava 1 x 0 pra França, o Galvão Bueno disse:
– E logo mais, à noite, acompanhe o humor de Zorra Total!
Eu fiquei imaginando se algum ser humano, por mais descerebrado que seja, pensou naquele momento:
– Poxa vida, hoje tem Zorra Total! Acabaram os meus problemas. Não posso perder esse programa. É super-engraçado!
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O pior de tudo, mas o pior de tudo mesmo, foi ter que concordar com o malíssima do Faustão:
– Ô loco, já pensou se a gente se classifica e depois perde pra Portugal? Imagina a gozação do português da padaria...