Repórter das Coisas

Última leitura

Quando eu digo que o liberalismo está acuado no Brasil, as pessoas não acreditam. Pois então. Ontem, assistindo ao programa “Manhattan Connection”, recebi uma triste notícia. “Primeira Leitura”, minha revista preferida, está fechando as portas. Por falta de grana, é claro, pois qualidade não lhe falta. A entrevista de Contardo Calligaris, concedida ao diretor de redação Reinaldo Azevedo e publicada na edição de maio, tem alguns trechos antológicos:

“Qualquer tipo de fidelidade que passa na frente do foro íntimo é, para mim, a definição do mal.”
(...)
“Quando isso acontece, aí tudo é permitido. No fundo, a única coisa que coloca limites ao horror, para mim, é o foro íntimo. Eu digo que é o mal porque é a definição do mal do século 20, que deu no fascismo, no nazismo, no stalinismo, no Pol Pot.”
(...)
“Para mim, individualismo é uma palavra nobre. (...) O individualismo não tem nada a ver com o egoísmo, mas com uma sociedade em que o indivíduo é um valor superior à comunidade.”


Tirou as bocas da minha palavra, dr. Contardo! Em geral, não gosto muito dos seus artigos na “Folha de São Paulo” (ecos lacanianos me irritam um pouco). Mas a entrevista à “Primeira Leitura” foi ducaralho. Ganhou a minha admiração, dotô. Sei que isso não vale muita coisa...

*****

Por que a “Primeira Leitura” vai fechar as portas? Favas contardas. (Ouço as estrondosas gargalhadas da multidão.) Porque é uma revista de oposição e, nela, o governo não anuncia. Ao contrário do que diz a esquerda (governista ou paragovernista, jamais oposicionista), a economia liberal no Brasil vive sob a mira do revólver estatal-socializante: na forma de impostos, de boicotes, de chantagens ou de revólver propriamente dito (cadáveres não falam).

*****

Quem anunciava na “Primeira Leitura”? Quase ninguém. Alguns governos de oposição; uma ONG aqui e outra ali; um banco aqui e outro ali. No Brasil de Lula, fora do Estado, não existe salvação.
Enquanto isso, revistas de esquerda – tais como “Caros Amigos” e “Carta Capital” – chafurdam no chapa-branquismo, entupidas de anúncios e favores estatais.
Te cuida, “Veja”. Ou pára de falar mal do Lula, ou vai ter que publicar eternas capinhas sobre fórmulas de emagrecimento e receitas contra o colesterol.

*****

Enquanto isso, Lula belinatiza o Brasil: besteiras a granel, metáforas boteco-futebolísticas, abarrotamento de caixa e bolsa-esmola para a plebe.
É o inferno? Não. É o purgatório. Quanto mais Lula & cia. atacam o liberalismo, mais açodam os indivíduos. E o que não me mata – você sabe – me fortalece.

*****

Mas nem só de notícias ruins vive este Repórter das Coisas. Amanhã tem a primeira Terça Tilt do novo Valentino. A escolha dos DJs foi a melhor dubrasil: Janaína Garcia e Fernando Araújo. Só falta o mestre Rubão! Estarei na primeira fila. Weezer, Strokes, Pixies (acertei os nomes?) e, depois, pra dormir, João Sebastião. Neosaldinemo-nos!

Publicado em 26 de junho de 2006 às 10:38 por briguet

Tags:

Comentários

    • “Enquanto isso, Lula belinatiza o Brasil”.
      definição perfeita.
      estamos fritos. e com gordura velha.
    • por zero
    • 26.Jun.2006 às 11:27 - Permalink - Reportar
    zero
  1. flipper
    • Isso da propaganda não é só do governo Lula. Todos faziam isso, desdeo Belinati, Jaime Lerner, até o Geraldo Alckmin (com o seu acupulturista) e FHC. E a Caros Amigos e a Carta Capital sobreviveram aos anos FHC. A Primeira Leitura se não me engano era do ex-presidente do BNDES, agora que foge o nome (Luiz alguma coisa Mendonça) e as vendas nas bancas eram pífias. O Pasquim 21, que tb era bom, morreu da mesma morte.
    • por Leijoto
    • 26.Jun.2006 às 12:13 - Permalink - Reportar
    Leijoto
    • Leijoto:
      Luiz Carlos Mendonça de Barros. A revista era dele. Concordo que a dependência de propaganda estatal não é uma exclusividade do governo Lula, mas o fato de que Caros Amigos e Carta Capital sobreviveram a FHC demonstra que a coisa agora está bem pior. Os críticos do FHC sobreviviam (graças ao dinheiro de governo de oposição); os críticos do Lula afundam.

      *****

      Moraes:
      Coraçõezinhos? Como assim? Precisarei citar Maiakóvski, “em mim a anatomia ficou louca / sou todo coração”? E ódio? Como assim? Não tenho ódio nem dos anti-semitas (e olha que eu sou cabeça feita por Israel...).
    • por briguet
    • 26.Jun.2006 às 12:51 - Permalink - Reportar
    briguet
  2. flipper
    • Briguet, meu chapa, vc tá levando esse negócio de liberalismo muito a sério! deixa isso pra lá! é caca! como todo o resto!
    • por Rubão Conselheiro
    • 26.Jun.2006 às 16:30 - Permalink - Reportar
    Rubão Conselheiro
  3. flipper
    • Acho que a Carta Capital sobreviveu porque tinha Mino Carta, Bob Fernandes, bons repórteres e colunistas mais pops. Depois, pq se entregou ao governo Lula mesmo.

      A Caros Amigos não depende só de verbas do governo, e parece ter um custo de produção mais baratoi (muitos artigos, colaborações etc)

      O Pasquim 21 tinha a esquerda intelectual e debochada e mesmo assim morreu no governo Lula.

      Agora a coisa não está bem pior. A mídia bate no Lula adoidado. Tanto ou mais do que no governo FHC. Ruim mesmo acontece em alguns estados e municipíos onde a mídia é totalmente escrava do governo, como aconteceu em Londrina na época do auge do Belinati.

      A Primeira Leitura morreu porque não tinha Ibope, e deveria ser muito cara sua produção. Assim como aquela revista República, que foi lançada junto com a Bravo. Aliás, nem sei como a Bravo ainda sobrevive.
    • por Leijoto
    • 26.Jun.2006 às 17:09 - Permalink - Reportar
    Leijoto
    • Primeira Leitura era uma bosta de revista, assim como todas as outras!
      Perdeu a teta e foi pro espaço!
      Revista boa no Brasil só se for a coletânea do Wood & Stock do Angeli.
    • por rubaomf
    • 26.Jun.2006 às 17:21 - Permalink - Reportar
    rubaomf
  4. ben grimm
Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado

captcha

Digite os caracteres da figura acima. Temos que fazer isso para evitar spam.

PAULO BRIGUET, SEU CRIADO

Dizem por aí que o autor deste blog é chato, feio e bobo – a exemplo do capitalismo e do judaico-cristianismo que ele defende com unhas, dentes e, acima de tudo, argumentos assaz irrespondíveis (para desconcerto dos oponentes).

Ex-trotskista, ex-ateu, ex-sindicalista, ex-cantor, ex-ex, arrepende-se de (quase) tudo. É amado e odiado na exata proporção de sua obscuridade.

A liberdade de pensamento e expressão aqui encontra guarida. A babaquice, porém, é rejeitada, apagada e excluída, quando não editada. Que os babacas sejam livres em outras freguesias. (Tosquices, ao contrário, são permitidas e até incentivadas.)

Quê? Jornalista? Desconheço, senhor. Alguém aí falou no assunto?

Que o Criador, bendito seja o Seu Nome, abençoe a todos os leitores deste blog. Lembre-se: Paulo Briguet reza por você.

Ainda não é cadastrado? Cadastre-se agora!