Repórter das Coisas

Avenida Higienópolis

Desço a avenida
como quem desce
a própria vida.
Desço,
menos com os pés,
mais com a cabeça.
Como quem à morte
desça.

No fim da avenida,
há o lar e o bar.
Não sei pra onde vou
e o que vou encontrar.
Nem sei se a avenida
um dia há de acabar.
Não se a caixa d´água
está em outro lugar
em que eu, de tão tapado,
me venha a afogar.

Eu sou como a avenida:
feito de pedra e sonho.
Às vezes mais sonho
que pedra,
mais pedra que sonho
às vezes.
Eu sou a perna dos meses.

E a noite, à noite ou não,
eu também sou:
um cão sem pernas,
homem só tronco.
No meio das trevas
me encontro.

Assim eu vivo a vida:
sem saber viver.
Assim amo a avenida:
sem saber amar.
E sei, lá bem no fundo,
que um dia vou morrer
– desgraça, atropelado –
olhando para a bunda
que passa
do outro lado.

Publicado em 23 de junho de 2006 às 18:57 por briguet

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PAULO BRIGUET, SEU CRIADO

Dizem por aí que o autor deste blog é chato, feio e bobo – a exemplo do capitalismo e do judaico-cristianismo que ele defende com unhas, dentes e, acima de tudo, argumentos assaz irrespondíveis (para desconcerto dos oponentes).

Ex-trotskista, ex-ateu, ex-sindicalista, ex-cantor, ex-ex, arrepende-se de (quase) tudo. É amado e odiado na exata proporção de sua obscuridade.

A liberdade de pensamento e expressão aqui encontra guarida. A babaquice, porém, é rejeitada, apagada e excluída, quando não editada. Que os babacas sejam livres em outras freguesias. (Tosquices, ao contrário, são permitidas e até incentivadas.)

Quê? Jornalista? Desconheço, senhor. Alguém aí falou no assunto?

Que o Criador, bendito seja o Seu Nome, abençoe a todos os leitores deste blog. Lembre-se: Paulo Briguet reza por você.

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