Desço a avenida
como quem desce
a própria vida.
Desço,
menos com os pés,
mais com a cabeça.
Como quem à morte
desça.
No fim da avenida,
há o lar e o bar.
Não sei pra onde vou
e o que vou encontrar.
Nem sei se a avenida
um dia há de acabar.
Não se a caixa d´água
está em outro lugar
em que eu, de tão tapado,
me venha a afogar.
Eu sou como a avenida:
feito de pedra e sonho.
Às vezes mais sonho
que pedra,
mais pedra que sonho
às vezes.
Eu sou a perna dos meses.
E a noite, à noite ou não,
eu também sou:
um cão sem pernas,
homem só tronco.
No meio das trevas
me encontro.
Assim eu vivo a vida:
sem saber viver.
Assim amo a avenida:
sem saber amar.
E sei, lá bem no fundo,
que um dia vou morrer
– desgraça, atropelado –
olhando para a bunda
que passa
do outro lado.
Publicado em 23 de junho de 2006 às 18:57 por briguet