Às seis horas, acontece alguma coisa que eu não sei o que é, cujo sentido procuro há muitos anos, e nunca cheguei a vislumbrar. É o segredo das seis horas, um segredo imperioso e atordoante, como a fúria de 600 escorpiões cercados de fúria, miséria e náusea. E esperma, sobretudo esperma.
Sim, há uma hora em que os ponteiros se encontram, não para concordar entre si, mas para apontar cada qual para seu lado, um dizendo que sim e outro dizendo que não; um dizendo que céu e outro dizendo que terra; um dizendo que dia e outro dizendo que noite.
Seis horas. E, se dois amigos me encontram, um diz Boa tarde! e outro diz Boa noite!, mas sabem muito bem que a tarde acabou e que a noite não demora, mas não é.
Às seis horas, o mundo está em declive como a Rua Pio XII, onde por sinal existe um ótimo bar chamado Clube das Seis – que outro nome?
Às seis horas, uma pontual multidão bate o ponto e sai do trabalho; quem não pode sair, olha o relógio e constata que inapelavelmente são seis horas e não há nada a fazer.
As seis horas chegam impiedosamente, maliciosamente, inevitavelmente. É hora de nascer alguém – e de morrer. É hora de lembrar – e de esquecer. É a hora em que se pode usar tudo – menos a indiferença. Seis horas: a hora que pensa.
Às seis horas eu grito de sede e tédio – uma vizinha reclama ao síndico, mas também ela, silenciosamente, urra de tédio e sede.
Às seis horas eu queria ter um carro para me perder no trânsito. Só para não dizer que nunca soube o que era a hora do rush.
Às seis horas, oh às seis horas, tem a famosa hemorragia do Sol. Nascente e poente: por que não nascente e morrente? Às seis horas, sem embargo, uma garota de programa está na Avenida Leste-Oeste (mas isso não vale: ela estava também às três); um drama fica pior do que o eclipse. Às seis horas, há um pequeno apocalipse.
Seis horas: o Sol se despede da Lua – rei ou príncipe consorte? Seis horas: agora e na hora da nossa morte.
Publicado em 19 de junho de 2006 às 21:28 por briguet
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