Repórter das Coisas

Não feche meu bar

Não feche meu bar, promotora. Eu aqui, humílimo cronista, humílimo boêmio, humílimo citadino (pois cidadão seria dizer demais), peço à senhora que não feche as portas do bar que eu tanto amo. Caso o faça, promotora, a coisa vai engrossar. Porque eu não costumo abandonar as coisas que amo.
Todas as quintas-feiras, por volta das dez da noite, eu me dirijo ao referido bar, para encontrar meus amigos. É um ritual a que chamamos “Quinta Sem-Lei”. Ali, no balcão, fazemos algo essencial à nossa sobrevivência: tomamos cerveja, falamos besteira, olhamos as garotas, cantamos alguns hinos com letra alterada. Não me venha dizer que isso é crime, porque não é. Na época da ditadura, mudar a letra de hinos era passível de prisão; mas, como a senhora sabe, isso é coisa do passado.
Gosto da senhora, promotora. Ah, saudade do tempo em que a senhora perseguia os verdadeiros bandidos – aqueles que avançam sobre o dinheiro público... Infelizmente, por motivos que fogem à sua esfera de ação, eles continuam soltos. Eles continuam sendo ameaça ao meio ambiente! Mas nós, boêmios sem vintém, é que agora somos perseguidos.
Vejo que há um problema na cidade. Há pessoas querendo dormir antes da meia-noite, e outras querendo se divertir depois da meia-noite. Qual seria a melhor solução? Um acordo. As pessoas que querem dormir, dormem um pouco mais tarde (ou colocam tampão no ouvido). As pessoas que querem se divertir, vão para casa um pouco mais cedo (ou fazem menos barulho). Se existe uma Lei do Silêncio que só beneficia um grupo, essa é uma lei radical e estúpida. E leis radicais e estúpidas merecem ser esquecidas e engavetadas.
Há um projeto de lei para fechar os bares às 11 da noite. Ah, meu Deus. É exatamente o horário em que meu bar começa a ficar bom, promotora. Dizem que fechar os bares vai evitar a violência e o consumo de drogas. Bobagem. Vai é causar desemprego e desespero.
Mesmo com a lei seca, a violência e as drogas continuarão existindo (nunca se bebeu tanto nos EUA quanto na vigência da Lei Seca). Os traficantes vão continuar traficando; os assassinos, matando; os ladrões, roubando. Não tome o exemplo de pequenas cidades como modelo de comportamento para os delinqüentes de Londrina. Então, é assim? O Estado – pago com nossos impostos – não consegue diminuir a violência, e a gente é que se ferra?
Já dizia o poeta: “Cuidado com a fúria de um homem paciente”. Não sou bandido, não sou traficante, não sou radical. Mas, se o Estado – esse que tanto me envergonha – vier fechando meu bar, eu vou ficar bem bravo. E o que a senhora vai fazer, promotora? Me prender? Com tanta gente solta?

(Crônica publicada no JL)

Publicado em 31 de maio de 2006 às 15:09 por briguet

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Comentários

    • Este blog foi agraciado com o selo de qualidade “Amigo da Gramática”. Minhas sinceras congratulações ao seu autor.
    • por O fiscal da Gramática (orgulhoso)
    • 31.Mai.2006 às 16:36 - Permalink - Reportar
    O fiscal da Gramática (orgulhoso)
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PAULO BRIGUET, SEU CRIADO

Dizem por aí que o autor deste blog é chato, feio e bobo – a exemplo do capitalismo e do judaico-cristianismo que ele defende com unhas, dentes e, acima de tudo, argumentos assaz irrespondíveis (para desconcerto dos oponentes).

Ex-trotskista, ex-ateu, ex-sindicalista, ex-cantor, ex-ex, arrepende-se de (quase) tudo. É amado e odiado na exata proporção de sua obscuridade.

A liberdade de pensamento e expressão aqui encontra guarida. A babaquice, porém, é rejeitada, apagada e excluída, quando não editada. Que os babacas sejam livres em outras freguesias. (Tosquices, ao contrário, são permitidas e até incentivadas.)

Quê? Jornalista? Desconheço, senhor. Alguém aí falou no assunto?

Que o Criador, bendito seja o Seu Nome, abençoe a todos os leitores deste blog. Lembre-se: Paulo Briguet reza por você.

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