Em pleno horário comercial.
É que às vezes me dá uma angústia tão grande, quando vou pelo centro da cidade, e passo ao lado da estátua viva, ainda em pleno horário comercial, que pareço sentir a sordidez de tudo – de um cão ferido e faminto, de um agiota com câncer, de um anão no carrinho de bebê, de mim principalmente.
E se passo por uma loja e na frente há duas mulheres conversando, uma delas diz: Acho que tá na hora de procurar um médico. A outra, ao lado, apenas concorda com a cabeça. É quando me lembro que, de manhã, não dei bola para o alarme do rádio-relógio, pois me lembrei que na noite anterior havia atrasado o relógio em 20 minutos. Se sabia que iria lembrar, por que atrasei o horário? Meu Deus, é tão inútil.
Uma angústia tão grande, e as tarefas, e os prazos, e as cotas. Meu Deus, se somos livres, por que somos escravos? Por que não podemos quebrar tudo e ir para Astorga, Milão, Veneza, São Petersburgo? Esta nossa liberdade é a liberdade de um paciente em estado de coma. Tão pequenos todos nós, e tudo tão grande. O mundo, o oceano, esse interminável sertão das coisas.
Uma angústia, e esse filho esfarrapado que maltrata a velha mãe no semáforo; e esse cartaz incentivando o empréstimo de aposentados do INSS; e esse relógio-ponto que todos odeiam; e esse eterno medo de perder o emprego e ficar na Rua da Amargura, quando a Rua da Amargura é aqui mesmo.
É, Maria, uma angústia. Minha avó, onde quer que você esteja, uma angústia, talvez não no peito: mais exatamente na garganta, nas retinas, na luz teimosa de uma tarde. Um sueco ou inglês riria dessa angústia tropical, mas e daí? Não é uma tristeza, pois tristeza é sempre de algo. Não é saudade, pois saudade é sempre de alguém. Talvez uma vontade de acordar na China, e ter os órgãos arrancados num campo de concentração. Talvez uma saudade de morrer, de não estar algures, nem ser sicrano.
E se eu arrancasse os olhos, como Édipo; e se eu fosse atirado aos cães, como Tiradentes; e se eu fosse amarrado ao rochedo para que o abutre comesse meu fígado, como Prometeu; e se eu permanecesse insepulto, como Polinices; e se eu bebesse cicuta, como Sócrates; e se eu confessasse crimes inexistentes, como Bukharin; e se eu perdesse os filhos, os bens, a saúde e a paz, como Jó – ainda assim haveria a angústia por baixo de tudo, como a areia sob o peso do oceano.
É que às vezes me dá uma angústia tão grande desse acordar quando poderia dormir; desse voltar quando poderia partir; desse ficar quando poderia fugir – apenas com a roupa do corpo e um livro de Tolstói.
É que às vezes me dá uma angústia de esperar a quinta-feira, e na quinta-feira me dá uma angústia em descobrir que a quinta-feira não foi nada daquilo, e na sexta-feira me resta invocar os fantasmas tortos da segunda vindoura. É que às vezes me endomingo em pleno sábado, me corto em duas quartas, sou secundado por um dia que escapa ao calendário: o oitavo dia da semana, bebê inascituro. E nenhuma Neosaldina, nenhum antidepressivo, nenhuma Skol pode derrotar essa angústia.
E me dá uma angústia tão grande de não saber quem ligou para o celular; de não ter dado esmola para a criança índia; de não ter comprado uma garrafa do vendedor de mel; de todos os dias subir a Avenida Higienópolis quando poderia descer até as mais escuras profundezas do lago, espelho de lama.
É que às vezes me dá uma angústia tão grande por não conseguir amar os vigaristas; por não conseguir amar a menina sentada ao lado do canalha; por ainda falar sobre política; por me interessar pela desgraça alheia; por beber além da conta e faltar na ginástica.
A mulher vai ao médico; o anão é carregado para casa; o agiota se embebeda; o cão vasculha o lixo.
Angústia ao olhar para a estátua viva, no meio do calçadão, de braços abertos, sem moedas, sem saída. De braços abertos como um homem morto, esperando por Deus. Vou até a estátua, deposito uma moeda de um real aos seus pés, e ela se move. Entrega-me um bilhete. E no bilhete está escrito:
Às vezes me dá uma angústia tão grande.
Uma angústia tão grande, e eu tão pequeno. Com as mãos sobre a mesa, e sobre a mesa um papel, e sobre o papel uma caneta a despejar medos e fúrias, onde uma frase sensata desapareceu para todo o sempre.
Às vezes me dá uma angústia tão grande. Então eu sento e escrevo.