Bem ao começo do rolo,
eu queria ser pedreiro:
tijolo sobre tijolo
construir o mundo inteiro.
Agradava-me a lida
de tijolo e argamassa.
Ganharia, pois, a vida,
e a satisfação de graça.
Mas então fui alertado
que pedreiro era ruim:
ganhar pouco, estar cansado
não era ofício pra mim.
Foi alguém muito gentil
que me deu outra opção:
ser engenheiro civil,
chefe da construção.
Mas logo a engenharia
me pareceu antipática,
pois sempre tive alergia
à lógica matemática.
Passei a considerar
o nobre ofício de médico.
Era um passo mais salutar
que um sapato ortopédico!
Meu amor pela medicina
cedo se consumiu
na farmácia da esquina
com dor de Benzetacil.
Igual a todo menino
que caminha sob o Sol,
já sonhei com um destino:
jogador de futebol.
Meu pai apagou o sonho
com amor e sensatez:
provou que eu era medonho
em qualquer 4-3-3.
Queria ser atacante,
mas tudo daria em nada.
Não consegui ir avante
nem na simples embaixada.
Na tonta adolescência,
cismei em virar ator.
E está bem certo quem pensa
que meu ato era um horror.
Convencido pelas vaias,
pelas críticas ferinas,
retirei-me de soslaio
e fecharam-se as cortinas.
No ato, a filosofia
me chamou para seu leito.
Contudo, a paixão vadia
não se consumou direito.
Os livros para quem pensa
ficaram à própria sorte,
visto que a inteligência
nunca foi mesmo meu forte.
Sem nenhum sucesso à vista,
no final desta jornada,
transformei-me em cronista
por não saber fazer nada.
Publicado em 02 de maio de 2006 às 13:16 por briguet