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Archive for May of 2006

Quarteto da rima

May 31, 2006

Uma palavra sem rima
é como um número primo:
fica perdida no mundo
qual cachorro sem faro.

Fica perdida no mundo
e ninguém lhe põe reparo.
Uma palavra, no fundo,
dizer algo é tão raro.

Uma palavra sem rima
é apelido de solidão.
É um morcego de dia,
é um cupido no porão.

Fica pra sempre perdida,
verbo que não se irmanou,
entre a morte e a vida,
entre o que digo e sou.

Não feche meu bar

May 31, 2006
Não feche meu bar, promotora. Eu aqui, humílimo cronista, humílimo boêmio, humílimo citadino (pois cidadão seria dizer demais), peço à senhora que não feche as portas do bar que eu tanto amo. Caso o faça, promotora, a coisa vai engrossar. Porque eu não costumo abandonar as coisas que amo.
Todas as quintas-feiras, por volta das dez da noite, eu me dirijo ao referido bar, para encontrar meus amigos. É um ritual a que chamamos “Quinta Sem-Lei”. Ali, no balcão, fazemos algo essencial à nossa sobrevivência: tomamos cerveja, falamos besteira, olhamos as garotas, cantamos alguns hinos com letra alterada. Não me venha dizer que isso é crime, porque não é. Na época da ditadura, mudar a letra de hinos era passível de prisão; mas, como a senhora sabe, isso é coisa do passado.
Gosto da senhora, promotora. Ah, saudade do tempo em que a senhora perseguia os verdadeiros bandidos – aqueles que avançam sobre o dinheiro público... Infelizmente, por motivos que fogem à sua esfera de ação, eles continuam soltos. Eles continuam sendo ameaça ao meio ambiente! Mas nós, boêmios sem vintém, é que agora somos perseguidos.
Vejo que há um problema na cidade. Há pessoas querendo dormir antes da meia-noite, e outras querendo se divertir depois da meia-noite. Qual seria a melhor solução? Um acordo. As pessoas que querem dormir, dormem um pouco mais tarde (ou colocam tampão no ouvido). As pessoas que querem se divertir, vão para casa um pouco mais cedo (ou fazem menos barulho). Se existe uma Lei do Silêncio que só beneficia um grupo, essa é uma lei radical e estúpida. E leis radicais e estúpidas merecem ser esquecidas e engavetadas.
Há um projeto de lei para fechar os bares às 11 da noite. Ah, meu Deus. É exatamente o horário em que meu bar começa a ficar bom, promotora. Dizem que fechar os bares vai evitar a violência e o consumo de drogas. Bobagem. Vai é causar desemprego e desespero.
Mesmo com a lei seca, a violência e as drogas continuarão existindo (nunca se bebeu tanto nos EUA quanto na vigência da Lei Seca). Os traficantes vão continuar traficando; os assassinos, matando; os ladrões, roubando. Não tome o exemplo de pequenas cidades como modelo de comportamento para os delinqüentes de Londrina. Então, é assim? O Estado – pago com nossos impostos – não consegue diminuir a violência, e a gente é que se ferra?
Já dizia o poeta: “Cuidado com a fúria de um homem paciente”. Não sou bandido, não sou traficante, não sou radical. Mas, se o Estado – esse que tanto me envergonha – vier fechando meu bar, eu vou ficar bem bravo. E o que a senhora vai fazer, promotora? Me prender? Com tanta gente solta?

(Crônica publicada no JL)

Anarquismo e liberalismo

May 29, 2006
O anarquismo é interessante como ponto de partida, não como ponto de chegada. A eliminação completa do Estado não passa de uma impossibilidade lógica, mas, desde que seja mantida no foco, e não distorcida (como fizeram os comunistas), pode se tornar uma excelente prolifaxia contra o poder político. É mais ou menos como disse Oscar Wilde: “O homem deve acreditar no impossível, jamais no improvável”.
Falando sério: anarquismo é coisa de adolescente. Um anarquista com mais de 30 anos parece cantor de heavy metal enrugado. O liberalismo, pelo contrário, envelhece bem. Combina com Bach e Haendel.
Isso porque o liberalismo é muito mais amplo e consistente que o anarquismo. Um liberal prevê e respeita o império da lei, e sabe que alguma forma de Estado sempre vai existir. Um liberal sabe que o homem é homem e animal, e procura canalizar as pulsões animais em prol do desenvolvimento humano. É difícil? É. Dá para ir tentando? A gente tenta sem dar, mesmo.
Em períodos conturbados da história, a anarquia é sinônimo de sofrimento humano. Por exemplo: se o governo de São Paulo deixa de existir, o PCC toma o poder. Se Churchill não fortalecesse o governo e o exército britânico, Hitler dominaria a Europa, e talvez o mundo.
Mas, fé em Deus. Ao fim de todo imbróglio –quando Lulas, Castros, Morales e Chávez não forem mais que um rodapé na história –, a única razão de existência do Estado será garantir a liberdade dos indivíduos. O ideal de governo será aquele cuja existência nem sequer é lembrada (como um bom juiz de futebol). E lembraremos destes estúpidos governantes de hoje como nos lembramos de Araken O Showman ou Alf o E.Teimoso.
E mais não digo.

Olhe isto

May 27, 2006


Olhe isto.
Por nenhum motivo; apenas para olhar.
Para saber de alguma coisa. Mesmo obscura.
Olhe isto
como se tivesse dormido com o problema
e acordado com a solução.
Como quem acha um diamante na lama,
um cheiro de sândalo no machado,
uma sarça queimada. Uma figueira seca.
Olhe isto,
como se isto fosse uma tarde de domingo,
uma ressaca mal-curada, uma buceta inatingível,
um dano
na natureza do seu próprio cérebro,
um líquido amniótico que restou
na sua garganta.
Olhe isto,
como se estas fossem
as palavras no seu túmulo,
como se estes fossem
os últimos dias de Pompéia,
antes da cinza, antes do gás,
antes da lava.
Olhe isto,
como se estas fossem
as únicas frases capazes
de livrá-lo da loucura.

Um oferecimento Neosaldina Corporation

May 26, 2006


A dor de cabeça é isso que é feito para a gente saber que está vivo. Se dói, estou vivo. Se dói, existo. Se dói, é sexta-feira. Agüentei mais uma semana.

Deputada Elza

May 24, 2006
Gosto pessoalmente da deputada Elza Correia, uma mulher que revelou coragem e tenacidade em vários momentos de sua vida pública. Por isso mesmo, eu peço a ela que não se candidate à reeleição. Essa história do nepotismo – que a deputada, ressalte-se, não pratica, até onde sei – pegou muitíssimo mal.
Para quem não sabe, Elza e outros deputados retiraram apoio ao projeto que extinguia o nepotismo no Paraná. O argumento era o seguinte: o governo tinha um projeto mais “abrangente e justo”. Pois é. Agora, o governo veio com a conversa de que o tal projeto “abrangente e justo” era inconstitucional. Em outras palavras: os parentes vão continuar em seus cargos.
Para Elza, retirar o voto contra o nepotismo foi equivalente a enterrar o próprio mandato. Inocentes ou não (não acredito que existam muitos inocentes na política), Elza e outros deputados acabaram perpetuando o vem-que-tem dos Requiões e Iatauros da vida.
Não se candidate, Elza. Você não apenas não será reeleita, como os poucos votos que tiver acabarão servindo para eleger algum picareta de sua legenda, bem pior que você.
Deixar a Assembléia agora seria uma atitude digna; eu voltaria a sentir aquele respeito que sempre senti por você.

*****

Lula seria reeleito no primeiro turno, diz a CNT. Pelas pesquisas, Requião deve ganhar. Alguém aí sabe o número do Nelson Rodrigues? E o do Carlos Lacerda? Algum contato com o Paulo Francis?

*****

“Quem pode, pode. Quem não pode, se sacode.” (Frase magistral de dona Aracy, minha progenitora)

*****

Prince foi eleito o vegetariano mais sexy do mundo por uma associação naturalista. E isso com enormes campos de cereais para carpir no interior dos EUA.

*****

E mais não digo porque não posso.

Os 100 anos do homem só

May 23, 2006


Hoje é um dia especial para as meninas, e para os meninos também. Se o Dia da Mulher não fosse uma data besta, por ociosa, deveria ser comemorado em 23 de maio. Há 100 anos, exatamente 100 anos, morria o grande, inigualável dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. Deixou-nos a maior (e provavelmente a única boa) peça feminista de todos os tempos: “Casa de bonecas”. Tudo que veio depois foi queima de sutiã, em comparação com a tragédia de Ibsen. Se vocês meninas, não leram, corram para as bibliotecas. Os vagabundos, idem. Também há “Solness, o construtor” (que vi com Paulo Autran, em São Paulo, há... 18 anos), “Os espectros” e “Um inimigo do povo”. Desta, uma obra-prima da revolta individual contra o Estado e o status, fica para sempre a frase do Dr. Stockmann: “O homem mais forte é o mais só”. A frase que me livrou definitivamente do esquerdismo. O barbudo era foda.

Dísticos esdrúxulos

May 22, 2006
Perpetrados pelo vagabundo Paulo Briguet, que nesta noite de segunda-feira deveria estar fazendo outras coisas bem mais importantes
.


Ao buquê de plástico,
meu riso sarcástico.

*****

O menino acrobata:
Chaplin sem gravata.

*****

Na bandeja do RU,
um restinho de sagu.

*****

O sorriso da ex-miss
a quem nunca eu quis.

*****

Na manhã cinzenta,
uma bala de menta.

*****

Uma ressalva anexa:
será estranho ser hexa.

Betelgeuse

May 21, 2006


O Sol é uma estrela pequena
que deu vida aos animais.
O galo canta, o cão ladra, o peixe nada.
E na imensidão do charco
o crocodilo espia em duas contas.

Só o homem sabe
que vai morrer, vai afundar no charco
do seu próprio corpo.
Só o homem sabe
o quanto é grande a estrela Betelgeuse.
Só o homem vigia no escuro, pensando,
escravo do seu belo livre-arbítrio,
e sabe da morte.

O Sol é uma estrela precária
que iludiu os animais.
O cão se agita, o galo cala, o peixe foge.
E nos vórtices do nada
a estrela Betelgeuse
é o nosso guia para a noite.

O caso Collor e o caso Lula

May 20, 2006
Para falar a verdade, Collor tinha razão.

O ideal de governo que ele apresentou, o tal do “social-liberalismo”, e a visão que ele defendia sobre o desenvolvimento do país estavam rigorosamente certos.

O diabo foi que ele botou aventureiros como Zélia Cardoso de Mello na gestão da economia, e acabou fazendo exatamente o contrário do que pregava: o confisco das poupanças, um absurdo estatista que, para piorar, não deu em nada.

O outro gargalo de Collor – e que lhe rendeu, merecidamente, o impeachment – foi acercar-se de um gângster como PC Farias, secundado por outros ladrõezinhos da República de Alagoas.

Em 1992, os caras-pintadas tinham razão. O problema – e a vergonha – é que os caras-pintadas não reaparecem agora, quando, ao gangsterismo e ao aventureirismo, soma-se uma visão carnalmente estatizante e fanática do poder, consubstanciada em Lula e no PT. (Em parte, explica-se a apatia dos estudantes: a UNE faturou o seu mensalinho, na forma de verbas oficiais.)

PC Farias é um amador perto de Marcos Valério, Paulo Okamotto e José Dirceu. Shame on them (está certo, Mendes da Costa?).

Tudo o que o PC fez, o PT faria. E continua fazendo.

As mulheres lindas

May 19, 2006
Modigliani, o pintor.

Em todas as partes do mundo há mulheres lindas, até mesmo em Bela Vista do Paraíso, onde conheci uma garota de cabelos curtos e nome russo, e outra, de corpo longilíneo, alta como a rainha das passarelas, e para completar um delicioso sotaque santista.
Lindas, sem dúvida, a oriental ex-aluna do mestre Tanga; a cantora de voz rouca ao telefone, e intermináveis madeixas; a espevitadinha; a musa da imprensa esportiva paranaense; a artista plástica dona de uma loja, que pintou a Ofélia de Hamlet; a mignon secretária cujo formato parece esculpido pelo próprio Modigliani – se é que Modigliani esculpiu alguma coisa na vida.
Moças grandes e pequenas. A lutadora de tae-kwondo. A professora de dança de salão. As duas estudantes que simplesmente desfilaram pela calçada em frente ao Bar do Nonóca (ah, meu Deus, esse admirável acento em Nonóca).
Todas elas, que migram céleres para minha fantasia. Todas elas, que marcham resolutamente para minhas trevas. Todas, sem nenhuma exceção, filtradas e douradas e envilecidas pela loucura da minha mão imaginária.
As mulheres que aparecem diariamente na coluna da minha amiga Ana Marta – as garotas e as mães delas. A dona dos peitões que aparece na propaganda de TV: Só mais uma coisinha: passa o vidro de alcaparras. As atrizes pornôs do final da noite, já conhecida por manhã.
É como se elas, mulheres lindas, fossem marionetes do meu sonho; como se fossem frutas amadurecidas despencando no meu siso; como se alterassem, fêmeas gravitacionais, a efervescência do meu sangue.
Fêmeas. Rosas em pêlo. Criptas em V. Estrelas de progesterona. Nucas de eletricidade. Pernas de serpentes. Umbigos de apocalipse. Olhos de lábios, lábios de olhos.
Em todas as partes do mundo, há mulheres lindas. Mas então eu penso em você, e sintetizo, e me pergunto: E daí?

Clínica Odontológica

May 18, 2006
Porque política é muito chato

Nunca estive antes neste lugar, mas é como se eu o conhecesse há muitos anos. Existe algo nestas salas de aula, nestes laboratórios, nestas velhas cadeiras de dentista, neste jardim cinzento – algo que me cerca e me comove. Algo que me conhece – e que eu desconfio conhecer de tempos remotos.

Estou aqui à sombra de um limoeiro improvável, diante do pronto-socorro odontológico, sentado sobre um banco de mármore cuja superfície é salpicada de manchas de cocô ornitológico. Sobre o mesmo banco, pintaram um tabuleiro de xadrez ou dama, já carcomido – deve fazer algumas décadas que se jogou nele a última partida. Ao canto, um galão de plástico, mais adequado para guardar gasolina, foi seccionado à faca e agora serve como recipiente para a água de um gato que nunca aparece.

Entre todas as profissões do mundo, a última que eu escolheria é a de dentista. Nada contra; simplesmente não tem nada a ver comigo. Eu seria o dentista mais incompetente e infeliz do mundo. Então, por que sinto pertencer a este lugar – uma faculdade de dentistas? Alguém me explique. Ninguém explica.

Isto é o inferno

May 17, 2006
E o Prêmio Multishow pelo conjunto da obra vai para... Skank!

Prêmio Multishow de Música Brasileira

Melhor cantor: Dinho Ouro Preto
Melhor cantora: Ana Carolina
Melhor grupo: Jota Quest
Melhor instrumentista: Rodrigo Amarante
Melho clipe: Memórias – Pitty
Melhor show: Ivete Sangalo
Melhor música: Ai Ai Ai - Vanessa da Mata
Melhor CD: Ana Carolina & Seu Jorge
Melhor DVD: O Rappa
Revelação: Marjorie Estiano

Tudo isso apresentado por... Fernanda Torres. Marcelo D2 (arghgleaaragrrbgh...) compareceu vestido com uniforme da Varig.
Meu comentário é o nome da canção premiada: Ai, ai, ai. E mais não digo porque é muita assombração pra pouco blog.

No princípio era o verbo. Depois, virou substantivo

May 16, 2006
Negó seguin*: verbo é verbo, substantivo é substantivo. Neguinho que fica usando verbo como se fosse substantivo, 9 entre 10 casos, é picareta.

Que história é essa de “o fazer teatral”? O “caminhar político”? O “saber feminino?”? O “mirar fotográfico”? O “cantar folclórico”? O “elaborar artístico”? O “construir da cidadania”? O “despertar da consciência”? O “sentir boiolístico”? O “borboletear bichístico”?

Mestre Tanga, a solução é mandar esse pessoal para um “carpir” de datas lá no Conjunto Semíramis Braga; ou um “lavar” de roupas lá no Asilo Sãao Vicente de Paulo; ou um “pintar” de guias na Avenida Winston Churchill.

*****

“Consciência é aquilo que perdemos quando os outros não estão olhando.” (H. L. Mencken)

*****

* Negó seguin: Expressão do Pasquim, todos os direitos reservados, mas jamais pagos.


*****

E mais não digo porque não tenho o “saber”.

Negociação diplomática com a Bolívia

May 15, 2006

Já que os bolivianos se sentem injustiçados com a anexação do Acre ao território brasileiro, vamos fazer a seguinte reparação histórica, em nome da unidade latino-americana: devolvemos o Acre (com o senador Tião Vianna junto; pode levar também a Ideli Salvati) e pegamos de volta as refinarias da Petrobrás. Se preciso for, damos alguns pangarés como brinde.

Desculpem o pessimismo

May 14, 2006
Mestre Tanga, estou bastante preocupado com a hipótese de um segundo mandato de Lula. Haverá uma perseguição geral aos liberais, rompimento desenfreado de contratos, apoio virulento ao MST e, principalmente, uma ofensiva para rachar a sociedade de acordo com os ditames da luta de classes. Trotsky falava em transformar todo operário em Goethe, Aristóteles ou Marx. Eu não conheço melhor definição de inferno. A cagada já está feita – lá no mictório do Bar Brasil.


******

Querem saber o que será o segundo mandato de Lula? Dêem uma olhada nas rebeliões e assassinatos em São Paulo, o único Estado brasileiro que peitou, ainda que mal e porcamente, os bandidos (vide os índices de criminalidade em queda), e terão uma imagem fidedigna.

*****

Ah, e detalhe: aposto todos os meus bens (e males) que a Heloísa Helena volta a apoiar Lula – histericamente, diga-se – um mês depois da segunda posse.

*****

Os prometidos três tipos de eleitores do Lula: os que são enganados; os que se enganam; e os que se beneficiam.

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Hoje em dia, não há nada pior do que ser um espírito moderado. Me dói tanto dizer essas coisas.

Cagada

May 12, 2006

Ontem, Quinta Sem-Lei, naturalmente. Eis que dirijo-me ao WC do Bar Brasil para fazer o inequívoco uso do mictório. Olho para o meu lado direito, e o que vejo?

Um monte de bosta.

Desculpem, garotas, mas é isso mesmo. Alguém teve a ousadia, a pachorra, a desfaçatez de cagar no mictório do Bar Brasil.

Fico imaginando como é que o cara conseguiu obrar naquele banheiro superlotado. Um capiau deve ter ficado na porta da toilete, evitando a entrada de terceiros, enquanto o artista abaixava as calças e mandava brasa. Bosta, quero dizer.

Cult que só eu, lembrei-me de um trecho de “Trópico de Câncer”, de Henry Miller, em que um indiano, pouco afeito a melhoramentos sanitários, defeca no bidê de um prostíbulo parisiense.

Eu morro e não vejo tudo.

E mais não digo porque não precisa.

As “ásias” do abutre

May 10, 2006
– Marisa, eu tô muito preocupado com essa história da gripe aviária. Você sabe como eu gosto de um franguinho...
– Mas, Lula, a gripe é na Ásia!
– E é justamente a parte do franguinho que eu gosto mais, Marisa. A ásia!


A piada é boa, e dá exatamente a medida da ignorância de Lula. Mas o prefidente não é burro, e nunca foi; não é um ingênuo cercado por abutres, e nunca foi; também não é ignorante das coisas que reforçam e mantêm o poder político. Lula é o abutre-mor. É o protagonista da grande farsa. E sempre foi.
Em 2002, não votei em Lula. Anulei o voto. Besteira. Deveria ter votado em Serra, não porque acredite nele (políticos em geral não costumam ser grande coisa), mas porque era menos pior. E nada será pior do que um segundo mandato de Lula, por isso voto nesse cara aí, o Alckmin, que também não me diz grande coisa, mas é o que temos.
Lula II será um Evo Morales ao cubo, um Hugo Chávez com dimensões continentais, um rasgador de contratos e um evacuador de sandices. Realizar-se-á a profecia de Paulo Francis: “Lula vai nos transformar num grande Zaire, numa grande merda”.
Lula com carta branca será o cão.
Outro dia eu disse que o liberalismo é mais importante que a democracia. Não, leitores petelhos (sei que eles existem), eu não estou defendendo golpe de estado. Apenas quis dizer que, para mim, a liberdade é mais importante que o voto. Lula quer exterminar as liberdades com o álibi do voto. Esse apoio ao cara da Bolívia é sintomático; é o que Lula faria nas propriedades brasileiras, se pudesse. E fará, caso reeleito.
Confesso que deixei de votar em Lula pelos motivos errados. Achei que a marca de seu governo seria a incompetência. Houve incompetência, é claro, mas, como sabemos, a espinha dorsal do governo foi a roubalheira.
Outro dia recebi o e-mail de uma amiga com uma carta destinada à cantora Daniela Mercury. O autor da carta confessava-se fã da cantora para depois esculachá-la por ter criticado o prefidente. Comigo acontece exatamente o contrário: detesto a Daniela Mercury como cantora, mas louvo-a pela coragem em falar mal do Lula.
Respondi ao e-mail dessa amiga dizendo que o Lula era o chefe de quadrilha, que eu iria votar no Alckmin, mas que a amizade era a mesma, etc. Pra quê! Só faltou ela me chamar de nazista.
Um dos argumentos dos que votam em Lula é dizer que a corrupção é endêmica, “existe desde o Descobrimento do Brasil”. Se esse argumento fosse válido, absolveria não só a corrupção do Lula, como também a dos governos anteriores.
Outro “argumento” são as privatizações realizadas pelo FHC. Ora, foram poucas! Como eu já disse anteriormente, se a Petrobrás tivesse sido privatizada, não estaríamos à beira de uma crise energética por causa de um presidente sósia do Zacarias! Falam da privatização da telefonia. Ora, vocês queriam o quê? Hoje qualquer pessoa pode ter telefone fixo em 24 horas – na época do estatismo, a espera chegava a meses. Celular, até o pipoqueiro da esquina tem (e os presos também). Já o Lula só fez uma privatização: a do dinheiro público.
Houve um escândalo no governo FHC? Houve. Foi a reeleição. Além da compra de deputados (que, a meu ver, seria motivo para impichar o FHC), houve esse terrível legado ao país: ter que agüentar segundos mandatos de gente como Lula, Requião, Lerner, Garotinho e outros elementos igualmente perniciosos. A compra de deputados em 1996-97, porém, era café pequeno perto do valerioduto. Este é um processo sistemático de remuneração fraudulenta: a grana de estatais drenada celeremente para o bolso de vigaristas.
Além da mão na cumbuca, um dos esteios do governo Lula é a destruição da classe média. Hoje uma professora me ligou e definiu: “No Brasil, hoje, há três classes: ricos, pobres e miseráveis”. Lula se mantém à frente das pesquisas amparado por uma grande parte dos ricos e pelos miseráveis. Para os muito ricos, mantém os privilégios e mamatas, quando não os caraminguás. Para os miseráveis, oferece um cala-boca na forma de bolsa-família.
E mais não digo porque cansei.

Numa próxima edição: Os três tipos de eleitores do Lula.
Agradecimentos ao mestre Tanga por ter contado a piada do franguinho. Espero-o na QSL!

Seo Briguet, Mondrian da lataria

May 10, 2006


Meu avô era juiz.
Juiz de futebol.
Meu avô era pintor.
Pintor de carros.
Leia mais na crônica.

Às vezes me dá uma angústia tão grande

May 09, 2006
Em pleno horário comercial.


É que às vezes me dá uma angústia tão grande, quando vou pelo centro da cidade, e passo ao lado da estátua viva, ainda em pleno horário comercial, que pareço sentir a sordidez de tudo – de um cão ferido e faminto, de um agiota com câncer, de um anão no carrinho de bebê, de mim principalmente.
E se passo por uma loja e na frente há duas mulheres conversando, uma delas diz: Acho que tá na hora de procurar um médico. A outra, ao lado, apenas concorda com a cabeça. É quando me lembro que, de manhã, não dei bola para o alarme do rádio-relógio, pois me lembrei que na noite anterior havia atrasado o relógio em 20 minutos. Se sabia que iria lembrar, por que atrasei o horário? Meu Deus, é tão inútil.
Uma angústia tão grande, e as tarefas, e os prazos, e as cotas. Meu Deus, se somos livres, por que somos escravos? Por que não podemos quebrar tudo e ir para Astorga, Milão, Veneza, São Petersburgo? Esta nossa liberdade é a liberdade de um paciente em estado de coma. Tão pequenos todos nós, e tudo tão grande. O mundo, o oceano, esse interminável sertão das coisas.
Uma angústia, e esse filho esfarrapado que maltrata a velha mãe no semáforo; e esse cartaz incentivando o empréstimo de aposentados do INSS; e esse relógio-ponto que todos odeiam; e esse eterno medo de perder o emprego e ficar na Rua da Amargura, quando a Rua da Amargura é aqui mesmo.
É, Maria, uma angústia. Minha avó, onde quer que você esteja, uma angústia, talvez não no peito: mais exatamente na garganta, nas retinas, na luz teimosa de uma tarde. Um sueco ou inglês riria dessa angústia tropical, mas e daí? Não é uma tristeza, pois tristeza é sempre de algo. Não é saudade, pois saudade é sempre de alguém. Talvez uma vontade de acordar na China, e ter os órgãos arrancados num campo de concentração. Talvez uma saudade de morrer, de não estar algures, nem ser sicrano.
E se eu arrancasse os olhos, como Édipo; e se eu fosse atirado aos cães, como Tiradentes; e se eu fosse amarrado ao rochedo para que o abutre comesse meu fígado, como Prometeu; e se eu permanecesse insepulto, como Polinices; e se eu bebesse cicuta, como Sócrates; e se eu confessasse crimes inexistentes, como Bukharin; e se eu perdesse os filhos, os bens, a saúde e a paz, como Jó – ainda assim haveria a angústia por baixo de tudo, como a areia sob o peso do oceano.
É que às vezes me dá uma angústia tão grande desse acordar quando poderia dormir; desse voltar quando poderia partir; desse ficar quando poderia fugir – apenas com a roupa do corpo e um livro de Tolstói.
É que às vezes me dá uma angústia de esperar a quinta-feira, e na quinta-feira me dá uma angústia em descobrir que a quinta-feira não foi nada daquilo, e na sexta-feira me resta invocar os fantasmas tortos da segunda vindoura. É que às vezes me endomingo em pleno sábado, me corto em duas quartas, sou secundado por um dia que escapa ao calendário: o oitavo dia da semana, bebê inascituro. E nenhuma Neosaldina, nenhum antidepressivo, nenhuma Skol pode derrotar essa angústia.
E me dá uma angústia tão grande de não saber quem ligou para o celular; de não ter dado esmola para a criança índia; de não ter comprado uma garrafa do vendedor de mel; de todos os dias subir a Avenida Higienópolis quando poderia descer até as mais escuras profundezas do lago, espelho de lama.
É que às vezes me dá uma angústia tão grande por não conseguir amar os vigaristas; por não conseguir amar a menina sentada ao lado do canalha; por ainda falar sobre política; por me interessar pela desgraça alheia; por beber além da conta e faltar na ginástica.
A mulher vai ao médico; o anão é carregado para casa; o agiota se embebeda; o cão vasculha o lixo.
Angústia ao olhar para a estátua viva, no meio do calçadão, de braços abertos, sem moedas, sem saída. De braços abertos como um homem morto, esperando por Deus. Vou até a estátua, deposito uma moeda de um real aos seus pés, e ela se move. Entrega-me um bilhete. E no bilhete está escrito: Às vezes me dá uma angústia tão grande.
Uma angústia tão grande, e eu tão pequeno. Com as mãos sobre a mesa, e sobre a mesa um papel, e sobre o papel uma caneta a despejar medos e fúrias, onde uma frase sensata desapareceu para todo o sempre.
Às vezes me dá uma angústia tão grande. Então eu sento e escrevo.

O casamento de Janaína

May 04, 2006
Janaína vai casar. Janaína está casando. Janaína já casou. Vou repetir essas frases; será meu mantra pessoal.
O mundo se desintegra, perceberam? O que era perto, fica longe; o que era longe, fica perto. Janaína, minha melhor amiga, partiu para o outro lado do mundo. Eu fiquei aqui em Londrina, o outro lado do mundo para quem não está em Londrina (com a possível exceção dos habitantes de Cambé, Ibiporã e Bela Vista do Paraíso).
E como eu queria estar perto de Janaína. De Janaína e do caríssimo Andrea, feliz italiano que ela tem por noivo. Por noivo? Por marido. Porque Janaína vai casar, Janaína está casando, Janaína já casou.
Janaína, minha menina, quisera eu pertencer ao elenco de Jornada nas Estrelas, para entrar, agora mesmo, na máquina de teletransporte, e desembarcar na sua aldeia ao Norte da Itália, entre as montanhas, qual um Capitão Kirk pé-vermelho.
Dizem que em algum canto do Bar Brasil, aqui em Londrina, tem uma passagem secreta para outra dimensão. Hoje, na Quinta Sem-Lei, depois que fizermos a celebração paralela de seu casamento (Karla Matida, como sempre, está providenciando tudo...), vou procurar desesperadamente esse portal, na esperança de que me leve às montanhas italianas.
Janaína, a melhor conselheira; Janaína, a melhor colega de trabalho; Janaína, o melhor ombro; Janaína, a melhor confidente da madrugada; Janaína, a melhor companheira de boteco; Janaína, a quem eu disse um dia: “Esta sacola de plástico tem todo o peso do mundo”; Janaína, a mais querida das amigas sobre a face da Terra (não fica com ciúme, não, Silvia Rocha, é que Janaína vai casar, Janaína está casando, Janaína já casou).
O mundo se desagrega. O louco do Irã quer bombardear Israel. Os imigrantes protestam nos EUA. Evo Morales nacionaliza as refinarias. Lula aplaude o colega e lidera as pesquisas (“Crise? Que crise?”). O ser humano mata, esfola, pisoteia, ouve Skank e assiste ao programa Irritando Fernanda Young. Meu prédio está cheio de alarmes, cercas elétricas, travas e trancas – e mesmo assim os ladrões conseguem entrar. O Palmeiras perdeu; o Hugo Chávez trama com Fidel Castro; os mensaleiros são absolvidos. O mundo se decompõe, como se Schoenberg destruísse uma suíte de João Sebastião Bach.
Contra esta enxurrada, contra esta tsunami, contra este furacão de tolices, desmandos e impropriedades – Janaína vai casar, Janaína está casando, Janaína já casou. Janaína e Andrea casam: inventam uma flor de coesão no mundo em fragmentos. E, já que falamos em João Sebastião, e já que estamos em diferentes metades da laranja do planeta, eu gostaria de dizer uma só palavra ouvindo uma Suíte Italiana. Parabéns.

Fama

May 03, 2006

– Alô, é o Paulo Briguet?
– Seu criado.
– Oi, Briguet, aqui é a Dalva do RH. Me garantiram que você sempre tem Neosaldina à mão. Tô com uma dor de cabeça danada, você teria uma pra mim?
– Seu criado.

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Andam espalhando por aí que eu sou um cronista “sensível”. Como é que vou explicar isso lá no Clube Irmão Caminhoneiro Shell?

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E a garota ria, ria, ria. Ria de quê? De estar sentada ao lado de um dos maiores crápulas da cidade?

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E mais não digo porque não sei.

O que você vai ser quando crescer? (Poema loser)

May 02, 2006

Bem ao começo do rolo,
eu queria ser pedreiro:
tijolo sobre tijolo
construir o mundo inteiro.

Agradava-me a lida
de tijolo e argamassa.
Ganharia, pois, a vida,
e a satisfação de graça.

Mas então fui alertado
que pedreiro era ruim:
ganhar pouco, estar cansado
não era ofício pra mim.

Foi alguém muito gentil
que me deu outra opção:
ser engenheiro civil,
chefe da construção.

Mas logo a engenharia
me pareceu antipática,
pois sempre tive alergia
à lógica matemática.

Passei a considerar
o nobre ofício de médico.
Era um passo mais salutar
que um sapato ortopédico!

Meu amor pela medicina
cedo se consumiu
na farmácia da esquina
com dor de Benzetacil.

Igual a todo menino
que caminha sob o Sol,
já sonhei com um destino:
jogador de futebol.

Meu pai apagou o sonho
com amor e sensatez:
provou que eu era medonho
em qualquer 4-3-3.

Queria ser atacante,
mas tudo daria em nada.
Não consegui ir avante
nem na simples embaixada.

Na tonta adolescência,
cismei em virar ator.
E está bem certo quem pensa
que meu ato era um horror.

Convencido pelas vaias,
pelas críticas ferinas,
retirei-me de soslaio
e fecharam-se as cortinas.

No ato, a filosofia
me chamou para seu leito.
Contudo, a paixão vadia
não se consumou direito.

Os livros para quem pensa
ficaram à própria sorte,
visto que a inteligência
nunca foi mesmo meu forte.

Sem nenhum sucesso à vista,
no final desta jornada,
transformei-me em cronista
por não saber fazer nada.

Estatizar, estatizar, estatizar

May 02, 2006

América Latina, ironia em estado puro. Teóricos do “imperialismo”, críticos da “farsa neoliberal”, defensores de governos “democrático-populares”, agora podem, com a grotesca nacionalização das refinarias da Petrobrás, provar um pouco do próprio veneno. (Pensando bem, a única maneira de escapar do preju teria sido privatizar a Petrobrás, alguns anos atrás, mas isso é pecado, né?)

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Garotinho não vai ganhar presente de Natal. Criança que não come...