1. Soneto da punheta
Eu, posto em sossego,
fiz como quem sonha:
pensei num chamego,
bati uma bronha.
Eu, inda excitado,
e sentindo dor,
vi, do meu agrado,
um vídeo pornô.
Mas, no prejuízo,
assaz contrafeito,
de mais eu preciso.
Além da punheta,
quero pôr o guizo
na brava buceta.
2. Soneto do amor infeliz
O amor
é tão fino:
um tumor
do destino.
O amor
é tão duro:
o terror
do futuro.
O amor,
em silêncio,
é o que for.
E seu preço
é a dor:
não mereço.
3. Soneto do liberalismo
Não o que quiserdes,
pois nem tudo é da lei.
Mas, face às intempéries,
vade, enriquecei!
Se pensais em dar um passo
bem em frente ao abismo,
andai logo, ó cabaço,
isto é liberalismo!
Livres sonhos, livres atos,
livres até os delírios,
sem ninguém ser internado.
E assim livres, nossos filhos,
da mão tosca do Estado,
um dia estarão nos trilhos.
4. Soneto da diferença de idade
Quando enfim você nasceu,
eu já tinha quinze anos.
Para grande orgulho meu,
eis que estava arrasando:
era ator e comunista,
Al Pacino e Che Guevara.
Só faltava em minha lista
alguém para dizer: – Pára!
Quando enfim você nasceu,
eu era só debilóide,
preocupado em ser ateu.
Que vergonha, vê se pode:
quando à luz você se deu,
eu já tinha lido Freud.
5. Soneto dos viajantes
Este caminho vai dar em Roma.
Esta estrada vai dar no caos.
E este verso então se soma
a outros tantos versos maus.
Adormecemos na encruzilhada
e acordamos na via estreita.
Tantos caminhos levam a nada
se a perdição já estava feita.
Todos caminhos levam ao Pai,
mas também levam aos demônios
pelos abismos onde se cai.
Passam os dias, passam os anos,
mas os caminhos passam jamais
nos pés quebrados dos próprios donos.
Publicado em 28 de abril de 2006 às 21:00 por briguet