“Vocês são uns poetas, uns bêbados.”
(Um apresentador de TV, referindo-se à minha pessoa, em 1999.)
Bebo porque preciso ir
ao país onde o tempo não existe,
bebo pra ficar bem alegre,
bebo pra ficar mais triste.
Bebo porque o peso da memória,
o peso dos pecados do mundo
me fazem buscar em todo copo
a imagem oculta do fundo.
Beber é perseguir um pequeno horizonte,
onde o onde é quando e o quando é onde;
beber é celebrar a própria ignorância,
e entre o coração e o fígado
firmar estranha aliança.
Bebo porque o frio da bebida
apaga o incêndio da minha garganta,
bebo porque sou um animal,
uma besta, um rato, uma anta.
Bebo para sentir a morte um pouco,
o gosto básico e puro da morte;
e a cada ressaca, sempre louco,
tomar o remédio mais forte.
Bebo porque é líquido, é claro,
mas um dia vou renunciar a isso.
De todas as razões para beber,
a melhor é conhecer
o gosto de estar sóbrio.
E assim já fiz meu compromisso,
para evitar um fim tão ignóbil.